Covid, vacinação infantil, Campos e São João da Barra

 

Com Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

“Faz parte de um pacote, um pacote que leva à morte das pessoas”. Em entrevista ao Folha no Ar do início da manhã de ontem, na Folha FM 98,3, foi como a médica pediatra Vera Marques se referiu à postura da prefeita sanjoanense Carla Machado (PP), que gerou ganhou a mídia e o repúdio nacional ao afirmar em live na quarta passada: “Se eu tivesse um filho, não o vacinaria (contra a Covid)”. A vacinação infantil iniciada no último dia 13 no Brasil, mas só ontem (25) em SJB, assim como a volta às aulas em Campos no próximo dia 7, com a promessa de cobrança aos pais do passaporte vacinal dos alunos, mais a perspectiva de punição em todo o território nacional a quem interferir na imunização das crianças, foram pontos também analisados, além de Vera, pela professora Angélica Mendes, das redes pública e privada de ensino, e pela jurista e socióloga Sana Gimenes. “Vejo até como um crime estimular a população a não vacinar as crianças. E eu penso, sim, que deveria ter alguma forma de punir não só a figura pública, mas também os pais que resolverem não vacinar os alunos”, cobrou Angélica. “Estando a vacinação disponível para aquela faixa etária, tendo sido uma opção de os pais não fazer a vacinação dos filhos, na mesma hora isso deve ser comunicado aos conselhos tutelares ou então ao próprio Ministério Público”, explicou Sana.

 

Professora Angélica Mendes, jurista Sana Gimenes e médica pediatra Vera Marques (montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha no Ar – Qual a importância da vacinação infantil contra a Covid e como reagir a quem trabalha contra?

Angélica Mendes – Vejo até como um crime estimular a população a não vacinar as crianças. E eu penso, sim, que deveria ter alguma forma de punir não só a figura pública, mas também os pais que resolverem não vacinar os alunos. Porque, com certeza, nós estamos colhendo os frutos dos erros que a gente está cometendo. O que eu não gostaria de ver é que os pequenos fossem penalizados em relação a isso. Acho que a gente precisa agir em cima de quem provoca isso, e não dos pequenos, que não têm escolha. Eu não gostaria, por exemplo, de ver uma criança que não pudesse frequentar escola. Eu acho que o pai, o político, o responsável precisa ser punido. A gente está vendo, a estatística está aí: o Brasil demorou basicamente um mês para iniciar um processo, porque foi se fazer ainda uma audiência pública em relação a isso. Não vi necessidade. Então, o meu posicionamento é de que deveria haver uma maneira de a gente reverter essa situação e, se possível, até tentar acelerar. Nós estamos vendo municípios próximos, como São João da Barra, que ainda nem começou a campanha de vacinação. Isso é um crime. Eu lido com muita criança, trabalho nas redes públicas estadual e municipal, e na particular, eu trabalho com crianças de todas as idades. Eu vejo aquelas crianças e fico pensando: elas não podem decidir, não têm como tomar essa decisão. Então, se os responsáveis não fazem alguma coisa, algo precisa ser feito em relação a essas pessoas.

Sana Gimenes – Infelizmente, esse cenário que se refere à vacinação e imunização de crianças não é uma novidade. Nós sabemos que milhares e milhares de vidas poderiam ter sido poupadas, se a gente observar a média mundial de mortalidade por Covid comparando com o que aconteceu no Brasil. Então, para mim, é muito clara a responsabilidade do Governo Federal em relação a essas mortes, às pessoas que adoeceram também desnecessariamente. Em relação às crianças, como Angélica ponderou, de fato isso é muito mais grave, porque a legislação é clara no sentido de que os direitos das crianças e dos adolescentes têm precedência sobre os demais direitos da sociedade. Então, não é dever apenas da família, mas também da comunidade e, claro, do poder público fazer com que as políticas públicas em geral, especialmente as de saúde, cheguem às crianças e aos adolescentes, inclusive com disponibilização prioritária de recursos. Isso está claro no Estatuto da Criança e do Adolescente. Não há dúvidas de que houve de que houve uma grave omissão e, consequentemente, como apontam as estatísticas, crianças perderam a vida. Crianças estão morrendo. Como eu disse, não é apenas um sentimento humanitário, pessoal, da família e das pessoas que convivem com essas crianças que estão adoecendo e vindo a falecer. É um dever legal, é um dever jurídico, que o Governo Federal, especialmente, mas não só o Governo Federal, porque, infelizmente, nós vemos esse discurso de uma tentativa de dificultar a vacinação de crianças também no âmbito regional.

Vera Marques – Eu acho que a gente tem que trabalhar com números, porque os números são um indicador objetivo da gravidade do que estamos vivendo e da gravidade de mortes infantis. Até janeiro de 2022, nós tínhamos 2.625 crianças que morreram nesses dois anos, o que significa uma criança a cada dois dias. Dessas crianças, as menores de um ano de idade que não deveriam morrer, nós tivemos 791 óbitos por Covid. Estou falando especificamente por Covid. E, da faixa etária de um a cinco anos, 397 óbitos, o que é um número extremamente elevado. Nós tivemos uma mortalidade de crianças e adolescentes por Covid no Brasil de 41 por 1 milhão, o que é bem superior a outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, nós temos 11 crianças e adolescentes para 1 milhão de habitantes, e no Reino Unido, de 4 a 5 crianças para 1 milhão de habitantes. O que eu estou dizendo é que essas crianças muitas vezes adoecem e morrem na fase aguda, que é a síndrome respiratória aguda, mas elas também podem morrer de complicação, que ocorre até de 12 a 18 semanas depois da Covid, ou por miocardite, outra complicação pela Covid. Em Israel, começou a vacinação das crianças e adolescentes, inicialmente dos adolescentes acima de 16 anos, em dezembro de 2020. Nos Estados Unidos, em agosto de 2021. Então, nós estamos atrasados, sim. Uma morte na criança a gente fala que é um evento sentinela. Quando uma criança morre, uma morte, ela representa muito mais do que 400 mortes de adultos que têm as suas doenças. Então, elas, tanto pegam essa doença, que pode evoluir para uma morte que poderia ser evitada, como elas também são fatores de transmissão para outras pessoas.

 

Folha – Como vê o retorno às aulas em 07 de fevereiro, com exigência do cartão vacinal em Campos?

Angélica – O cartão vacinal já é exigido nas escolas, principalmente para os pequenos, por outras vacinas. O que eu sempre questionei é que nunca houve, pelos órgãos públicos, uma preparação para quem está fazendo aquela matrícula ler aquele cartão de vacina e saber se está correto. Sempre foi colocado como exigência, mas nunca foi dada uma preparação para isso. Então, independentemente da Covid. Eu trabalho no Estado e no município. Para alunos maiores, a partir de 12 anos, não há essa exigência. Mas, para os pequenos, até os 6 anos, sempre foi exigido como algo obrigatório. O sarampo, por exemplo, está voltando no cenário. Agora, quanto à sanção, eu continuo defendendo a criança. Eu penso que a criança não deve ser punida. O que vai se fazer eu não sei, porque acho isso tudo muito complexo. Acho que deveria haver um estudo, colocar pessoas de todas as áreas para discutirem isso e verem o que se pode fazer. Quem vai aplicar uma sanção para esses pais? Isso tem que vir dos órgãos superiores. Eu penso que deve haver uma punição, sim.  Só não concordo que a criança seja punida. Não concordo que uma criança seja proibida de entrar na escola. Eu acho que isso pode gerar, inclusive, um trauma para ela, outros tipos de problema por ela ser responsabilizada por algo em que não teve decisão. Uma coisa é você proibir um adulto de frequentar o espaço público porque ele está sem o cartão de vacina, e eu acho que tem que proibir mesmo. Se não vacinou, você é o responsável pelos seus atos e não vai entrar. Agora, quanto às crianças, acho mais complexo. Como professora, como gestora em escola, não posso defender que uma criança seja penalizada. Sou totalmente a favor da sanção aos responsáveis. E deixo aqui um pedido aos órgãos públicos: é preciso ensinar a quem está à frente da matrícula nas escolas a ler o cartão de vacina. Não adianta simplesmente chegar e apresentar aquele cartão, se quem estiver ali não entender o que está lendo. Não falo só da Covid, mas de todas as vacinas obrigatórias no Plano Nacional de Imunização.

Sana – Eu concordo com a Angélica num ponto. Acho que, se os direitos das crianças e dos adolescentes são prioridades, a gente tem que pensar também no direito à educação, que é um direito fundamental. Impedir a criança e o adolescente de frequentarem o colégio porque ele não está vacinado por decisão dos seus pais e responsáveis, acho que seria ferir um direito fundamental das crianças e dos adolescentes. Então, não acho que deve ser um impeditivo da frequência. Mas, acho que deveria ser obrigatória, sim, a apresentação do cartão vacinal, como a própria Angélica pontuou que já é. Claro que ninguém pode ser punido por uma ineficácia do poder público. Estando a vacinação disponível para aquela faixa etária, tendo sido uma opção de os pais não fazer a vacinação dos filhos, na mesma hora isso deve ser comunicado aos conselhos tutelares ou então ao próprio Ministério Público, que é um órgão de fiscalização também, para que sejam tomadas as devidas medidas em relação aos pais. Isso está claramente previsto também no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Medidas que vão desde a imposição de multa, até mesmo, num caso mais extremo, muito mais extremo, à perda do poder familiar. É possível que haja essa destituição, considerando que a criança está numa situação de risco à sua saúde. É importante dizer que o STF ele já julgou essa questão em relação à vacinação. E decidiu que as convicções pessoais, filosóficas, morais, religiosas dos pais, não podem se sobrepor, nesse caso, a um direito à saúde, que é um direito da criança, e também à saúde pública, porque, obviamente, todas as outras pessoas ficam expostas quando alguém se recusa a fornecer a vacina para os seus filhos. Então, é possível fazer essa responsabilização nos termos do que o ECA já prevê. Claro que, considerando que a perda do poder familiar é uma situação muito mais gravosa em termos das punições que podem ser aplicadas, o ideal seria que, com a aplicação de uma advertência, multa, que esses pais e responsáveis se conscientizassem. Mas, infelizmente, em caso de isso não acontecer, seria possível, pensando numa situação hipotética, suspender o poder familiar temporariamente, para que um guardião levasse a criança ou adolescente para que a vacina fosse tomada, e depois retornasse essa criança ou adolescente ao convívio familiar. Porque o poder familiar não é um direito apenas que os pais têm, ele é um poder e dever.

Vera – Muita coisa foi falada sobre essa questão, sobre direito da criança, saúde coletiva, e a criança também como vetor de transmissibilidade. Concordo com a Angélica que o cartão de vacina deveria ser mais instrumentalizado. Todo mundo deveria saber esse cartão de vacina, que é complicado, realmente, principalmente porque é uma mistura daquelas vacinas que são uma exigência do Programa Nacional de Imunização e outras vacinas do setor privado. Então, mais do que o setor público, entrando também as escolas privadas, todos os que trabalham com matrícula deveriam ser capacitadas para ler esse cartão. Estou falando daquelas vacinas mais simples, que já estão no dia a dia do Programa Nacional de Imunização. Realmente, a criança não pode ser punida. Mas, há de se chamar esses pais às escolas, de cada bairro, conversar sobre isso. Porque eles têm muitas dúvidas, que aumentaram, principalmente, com fake news e com os nossos gestores públicos fazendo toda uma campanha contra a vacinação, que é gravíssima. (Esses gestores) deveriam, sim, ser punidos. Os pais, normalmente, eles são muitas vezes vítimas desse processo. Então, eu penso que é fundamental também a educação desses pais: chamando os profissionais de saúde, o que a gente fala da intersetorialidade, unir o setor educação com o da saúde; fazendo com que algumas pessoas do setor saúde vão para a escola com os pais, façam reunião na primeira semana, mostrem a importância disso.

 

Folha – Como viu atitude da prefeita de São João da Barra, Carla Machado, que virou notícia nacional ao afirmar publicamente: “Se eu tivesse um filho, não o vacinaria”?

Angélica – Eu não consigo ver a postura da prefeita de São João da Barra como uma postura pessoal. No meu ponto de vista, se fosse uma postura pessoal, ela não tomaria a vacina, teria a opinião dela e ficaria quietinha. A partir do momento em que ela expõe, que ela vai para uma live, que ela convoca às pessoas, ela está sendo uma pessoa política. Então, eu acredito, sim, que ela tenha aí alguns outros interesses políticos para ter feito o que fez. O que eu fico mais pasma, não só com ela, mas com muitas outras pessoas, é o seguinte: eu, por exemplo, sou uma pessoa leiga para argumentar que essa vacina foi feita muito rápido, que não tem segurança, que as outras vacinas demoraram 10 anos. Eu sou leiga para falar isso. Mas sei também que esse processo já está muito adiantado. Ninguém pegou do zero para fazer a vacina da Covid. Então, não tinha que demorar 10 anos mesmo. É fruto de muita pesquisa, de trabalhos em conjunto. O tipo de argumento dela é totalmente fútil, falho, que não vai convencer. Quem sou eu para questionar a vacina? Quem sou eu perante as pessoas que estudaram, que pesquisam anos a fio? Eu acho que a gente também não tem que colocar panos quentes. Ela deve ter noção do que está fazendo e ela deve ter noção de onde ela quer chegar com isso tudo. Isso é muito sério. Quando ela faz o que fez, ela está influenciando pessoas. No meio disso tudo, tem gente que vai acreditar simplesmente no que ela está falando. Eu só consigo pensar que ela não calculou o risco do que ela fez. Não o risco político, mas o risco em relação à saúde pública.

Sana – Eu acho que é muito difícil a gente julgar as motivações pessoais dos indivíduos. Carla já teve uma postura antibolsonarista em um momento anterior, é uma gestora experimentada. A gente tem visto, por exemplo, que esse movimento negacionista em relação à vacina se dá tanto de setores extremamente conservadores, que falam sobre o direito individual e a interferência do Estado, quanto também em setores supostamente progressistas, que vão nessa linha do veganismo ou de uma visão mais holística de cura. Inclusive, uma das ações que levaram o STF a se manifestar sobre a questão da vacinação obrigatória de crianças foi motivada por pais veganos, que não necessariamente se enquadram nessa lógica tradicional que a gente espera do eleitor de Bolsonaro. Então, a gente tem visto que esse negacionismo se coloca nessas duas esferas. Eu tendo a querer acreditar que se trata realmente de uma convicção pessoal. Porque, na live, se eu não me engano, ela fala que nenhuma vacina pode ser aprovada com menos de 10 anos de testes, e a gente sabe que o desenvolvimento da ciência no processo de imunização, hoje, é completamente diferente do que a gente tinha no passado. Ela sabe que haveria consequências em relação a essa fala. Ela já havia dito antes que não tomou a vacina por causas pessoais, o que para mim já era grave. Mas, desaconselhar a população a vacinar seus filhos, aí foi um tiro no pé que me parece imperdoável, a não ser que ela se retrate, diga que fez uma fala sem pensar.

Vera – Eu não acredito, ao contrário de Sana, só em convicção pessoal. Eu acho que sempre há interesses ideológicos por trás, interesses escusos. Tento pensar que ela pode se retratar, porque foi um tiro no pé. Eu moro praticamente em Atafona e, apesar de ser um local em que as pessoas têm usado máscara, eu tenho conversado com algumas pessoas que não estão aderindo a essa questão da vacinação contra a Covid na faixa etária pediátrica, porque não estão vendo essas crianças morrendo, justamente porque não trabalham com dados. É muito importante a sua proteção individual, mas há que mudar isso e falar em saúde coletiva, que é muito além da saúde pública. É a interdependência de todos nós. Se eu vacino, eu me protejo, mas protejo o outro também. E é preciso que a gente faça esse discurso cada vez mais. Eu trabalhei em serviço público e sempre falo que é uma pirâmide numa articulação muito grande entre a decisão política e a decisão técnica, e a única coisa que pode segurar essas decisões é a questão ética. Então, uma perfeita que fala em seu nome, ela já está errando. Uma prefeita que não ouve a sua assessoria técnica, ela já está errando. E errando de forma ética extremamente grave, porque ela está levando à morte da população. Resumindo, eu não acredito que seja convicção muito pessoal. Apesar de que alguns falam que ela passou por momentos drásticos na sua vida individual. Mas o homem público e a mulher pública têm que estar acima dessas questões e trabalhar com evidências científicas. É imperdoável para mim que o homem ou a mulher pública negue evidências científicas. E reafirmo: sempre, por trás disso, tem outros interesses. Faz parte de um pacote, um pacote que leva à morte das pessoas.

 

Página 5 da edição da Folha da Manhã de hoje

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Deixe um comentário