Crônica do sábado — Bayern e Flamengo com cerveja de Munique

 

 

 

Bayern e Flamengo com cerveja de Munique

 

— E aí? No meio do caminho tem o Bayern, tem o Bayern no meio do caminho? — indagou o tricolor Christian, de bate-pronto, garganta ainda molhada do gole de Spaten.

— Vamos saber no domingo. Mas no caminho de vocês, na segunda, tem a Inter de Milão, vice-campeã da Champions — retrucou o rubro-negro Aníbal, tão logo se sentou à mesa do boteco, antes de pedir um copo ao garçom.

— Certeza de brasileiro nas quartas de final da Copa do Mundo de Clubes só no jogo que abre as oitavas, à uma da tarde de sábado. O que você acha? Dá Botafogo ou Palmeiras?

— Em tese, será equilibrado. O Palmeiras tem mais time e opções de banco. Mas o Botafogo faz um Mundial mais consistente. Apesar de ter se acovardado no 2º tempo contra o Atlético de Madrid. Acabou com a invencibilidade dos clubes brasileiros no torneio. E jogou o PSG no caminho do Flamengo nas quartas, caso consiga passar pelo Bayern.

— E você acha que dá?

— Racionalmente, quem não disser que o Bayern é favorito, está mentindo. Se pudesse expressar em números, diria que o Bayern tem 60% de chance de passar, contra 40% do Flamengo. Verdade que vencemos bem o Chelsea, que também era o favorito. Mas se o clube inglês é um grande do futebol da Europa, o alemão é um gigante.

— E se passar do Bayern, pode pegar o PSG nas quartas, o Real Madrid na semi e o Manchester City de Guardiola na final.

— E pode nem acabar aí. Como vi num vídeo do Instagram, se passar por todos esses gigantes europeus, a Fifa vai inventar mais um jogo antes de entregar a taça ao Flamengo: contra os clones do Brasil de 1970. E, depois, contra os clones do Chicago Bulls de Michael Jordan, para decidir qual esporte é melhor: basquete ou futebol.

— Muito bom! — disse Christian, em meio a gargalhadas e engasgado de Spaten.

— Falando sério, se fosse um torneio de pontos corridos, não daria para o Flamengo. Mas é um jogo de mata-mata. Que será decidido por quem tiver mais posse de bola. Creio que essa será a disputa: quem vai conseguir propor seu jogo.

— E, no caso do Flamengo, sem cometer erros.

— Certamente, sem os erros de defesa que geraram os gols que levamos do Chelsea e do Los Angeles FC. E sem meter quatro bolas na trave, como neste último jogo. Mas transformando chances criadas em gols. Que é o dilema do Flamengo dentro do próprio futebol brasileiro.

— Imagina, então, contra o Bayern.

— O Bayern não é invencível. Embora tenha conquistado a Bundesliga em 2025, perdeu nela de virada, por 2 a 3, em plena Allianz Arena, para o Bochum. Que foi o lanterna e rebaixado no campeonato alemão.

— Como foi eliminado pela Inter nas quartas de final da Champions deste ano, no empate de 2 a 2 em Milão, após o time italiano ter vencido o de ida por 2 a 1 em Munique. E Bayern vem de uma derrota inesperada por 0 a 1 para o Benfica na Copa do Mundo de Clubes.

— Essa derrota é ilusória. Só aconteceu por soberba do Bayern, que entrou com o time cheio de reservas no 1º tempo. Como a do Flamengo contra o Los Angeles. Um perdeu, o outro empatou. O Bayern e o Flamengo que entrarão em campo no domingo serão bem diferentes dos seus últimos jogos na fase de grupos. Os dois irão com força total.

— Mas, como diria Noel, com que roupa acha que vão?

— Filipe Luís disse que não vai abrir mão do DNA rubro-negro e será o mais vertical possível. Lógico que, por circunstância de jogo e pela qualidade de jogadores como Olise e Coman pelas pontas, mais Musiala, Sané e Harry Kane flutuando pelo meio do ataque, sem contar Kimmish, cérebro do meio de campo deles, o Flamengo pode ser empurrado para trás. Como falei antes, será uma disputa por posse de bola. Deve vencer quem a impuser. E errar menos.

— Não acha que o espírito retranqueiro de Diego Simeone, técnico de Filipe Luís em sua melhor fase como jogador no Atlético de Madrid, pode baixar no treinador brasileiro?

— Simeone, pai e filho, foram despachados da Copa do Mundo de volta a Madri. O melhor exemplo do que o Flamengo não pode e não deve fazer foi dado pela Juventus de Turim, na goleada de 5 a 2 que tomou do Manchester City na quinta.

— Como assim?

— A Juventus  impressionou nos seus dois primeiros jogos na Copa do Mundo. E goleou por 5 a 1 o árabe Al Ain, e por 4 a 1 o marroquino Wydad Casablanca. Depois disso, o técnico croata Igor Tudor ficou com medinho do time de Guardiola e cedeu passivamente a posse de bola. Prova disso, só colocou em campo o camisa 10 e mais habilidoso jogador da Juve, o turco Kenan Yildiz, de apenas 20 anos, no 2º tempo, quando o time italiano já perdia por 1 a 3.

— Assim mesmo, o menino turco deu um passe de cinema para o sérvio Vlahović fazer o segundo gol da Juve.

— Mas a vaca de Turim já tinha ido para o brejo. Com a posse de bola que lhe foi cedida pela covardia do adversário, o Manchester teve até gol, o 5º da sapatada, do brasileiro Savinho.

— Com o goleiro Neuer e o atacante Thomas Müller, dois remanescentes dos 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, em 2014, ainda jogando no Bayern, não teme a reedição de uma goleada sobre o Flamengo?

— Sim, o Bayern pode até golear o Flamengo. Mas o medo de que o Flamengo vença, entre os antiflamenguistas assumidos e enrustidos, é muito, mas muito maior do que o dos rubro-negros diante do gigante de Munique.

— Isso sou obrigado a admitir. Se o Bayern precisasse faturar uma grana extra era só vender sua camisa no domingo para botafoguenses, tricolores, palmeirenses e até os vascaínos.

— O Bayern pode ser o cadafalso ao Flamengo. Como sua escada para subir um degrau mais alto no futebol do mundo. Ganhe ou perca, é como Sean Connery diz a Kevin Costner, numa cena do filme “Os Intocáveis”, clássico de Brian De Palma: “Deus não gosta de covardes!” — ressalvou Aníbal, antes de tomar de um só gole o copo da cerveja de Munique.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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