“Coisa de mafiosos”: Trump ameaça Brasil com tarifaço Bolsonaro

 

Donald Trump, Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Eduardo Bolsonaro com o boné vermelho do “Make America Great Again” (Maga) e a carapuça vestida da ameaça de taxação de 50% à venda dos produtos do Brasil aos EUA (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

“Coisa de mafiosos”: Trump apoia Bolsonaro

“Coisa de mafiosos”. Assim foi classificada a carta do presidente dos EUA, Donald Trump, enviada na quarta (9) ao presidente do Brasil, Lula (PT). A associação mafiosa dos seus termos não partiu de nenhum setor da esquerda, mas foi o título do editorial (confira aqui) do jornal O Estado de S. Paulo. Que, há 150 anos, é bastião editorial do liberalismo econômico no Brasil.

 

Ou dá ou desce

Na carta, Trump diz que Lula “deve acabar imediatamente” com o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF). Corte que acusa de emitir “censura a plataformas de redes sociais dos EUA”. E ameaçou: “a partir de 1º de agosto de 2025, cobraremos uma tarifa de 50% sobre qualquer produto brasileiro”.

 

Lula já vinha se recuperando

Como revelou a pesquisa AtlasIntel do final de junho e divulgada na terça (8), um dia antes da carta de Trump, Lula começava (confira aqui) a recuperar sua popularidade, após meses (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) de queda. E nada, a pouco mais de 1 ano e 2 meses da eleição brasileira de 4 de outubro de 2026, poderia acelerar mais esse processo de recuperação do que a carta, ou a “coisa de mafioso” de Trump.

 

O impacto do IOF na reação

Parte da recuperação de Lula, cujo governo a maioria do eleitor brasileiro ainda desaprova, se deu com a reação do seu governo, com vídeos de Inteligência Artificial (IA) que viralizaram na internet contra o Congresso Nacional. Porque este derrubou, em 25 de junho, o decreto presidencial pelo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

 

Onda do IOF, tsunami do tarifaço

A reação do Lula 3 no IOF, que se torna danosa à democracia quando classifica o Congresso de “inimigo do povo”, parece ter sido o início de uma onda. Mas a carta, ou “coisa de mafioso” de Trump, em defesa de Bolsonaro e das Big Techs, tem o potencial de um tsunami.

 

Reação de Lula na visão liberal

“A reação de Lula foi correta. Lembrou que o Brasil é um país soberano, que os Poderes são independentes e os processos contra os golpistas são de inteira responsabilidade do Judiciário. E, também corretamente, informou que qualquer elevação de tarifa dos EUA será seguida de elevação de tarifa brasileira, pelo princípio da reciprocidade” resumiu o editorial do Estadão.

 

Trump enterrou conservadores no Canadá

Quando Trump assumiu nos EUA em 20 de janeiro de 2025, os conservadores do seu vizinho Canadá tinham 20 pontos de vantagem sobre os progressistas nas pesquisas às eleições do sistema parlamentarista do país. E, após Trump tarifá-lo e ameaçar anexá-lo aos EUA, a centro-esquerda canadense virou o pleito, elegendo Mark Carney primeiro-ministro em 28 de abril.

 

De centro-esquerda, Mark Carney comemora sua eleição a primeiro-ministro do Canadá, após Trump tarifar, ameçar anexar o país e erodir em três meses os 20 pontos de vantagem que os conservadores canadenses tinham nas pesquisas

 

Do Canadá ao Brasil

A situação de Lula nas pesquisas de 2025 era bem menos desfavorável que a dos progressistas do Canadá, antes de Trump. Na AtlasIntel, Lula ficaria no empate técnico no 2º turno com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP); e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Mas à frente, fora da margem de erro, dos demais potenciais adversários elegíveis.

 

“Barata-voa” na direita tupiniquim

Só as próximas pesquisas dirão se Trump terá no Brasil o peso de meteoro que teve no Canadá. Mas já provocou um “barata-voa” na direita tupiniquim. Quem usou o boné vermelho do “Make America Great Again” pode ter problema para continuar posando de patriota. Defesa da pátria, quem diria, virou discurso da esquerda no Brasil após a ameaça de Trump.

 

Se Trump não amarelar, e SP de Tarcísio?

Se o tarifaço de 50% aos produtos brasileiros não for mais um blefe Taco, abreviação de “Trump Always Chickens Out“ (“Trump Sempre Amarela”) da expressão criada e popularizada nos EUA, o maior afetado pode ser o estado de São Paulo. Que é um dos poucos no Brasil que ainda tem os EUA, não a China, como maior parceiro comercial. E é governado por Tarcísio.

 

Taco é uma expressão criada e popularizada nos EUA pelas constantes ameaças seguidas de recuos do seu presidente, para abreviar o “Trump Always Chickens Out“ (“Trump Sempre Amarela”)

 

Taxação? “Obrigado, Trump”

Além de ter como governador o nome elegível mais bem avaliado nas pesquisas a presidente contra Lula, São Paulo tem como deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL). Que, licenciado e autoexilado nos EUA desde 27 de janeiro, para fazer lobby bancado pelo pai, reagiu à ameaça de taxação de 50% aos produtos do Brasil: “Obrigado, presidente Donald J. Trump”.

 

Bombas atômicas sobre o Brasil?

No mesmo delírio subserviente, o senador Flávio Bolsonaro (PL) disse à CNN na quinta (10): “A gente vai continuar no orgulho do ‘somos brasileiros’? Na II Guerra Mundial, o que os EUA fizeram com o Japão? Lançam uma bomba atômica sobre Hiroshima. A reação do Japão? ‘Vamos resistir’. A consequência três dias depois? Uma segunda bomba atômica em Nagasaki”.

 

Bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente, em 6 e 9 de agosto de 1945, com 226 mil mortos

 

Do delírio à realidade da PGR e STF

Na reação real, a jornalista Malu Gaspar noticiou (confira aqui) ontem (11), em O Globo, que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, entregará nos próximos dias o parecer no qual deve pedir a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Gonet sinalizou a interlocutores que a carta de Trump não afetará seu trabalho. Como nada indica que afetará o STF.

 

Trump e Bolsonaro na visão liberal     

“Esse episódio demonstra o caráter absolutamente daninho do trumpismo e do bolsonarismo. Os interesses dos EUA e do Brasil são confundidos com os interesses particulares de Trump e Bolsonaro. Não é ‘América em 1º lugar’ ou ‘Brasil acima de tudo’, e sim as ambições pessoais desses irresponsáveis”, disse o Estadão, voz do pensamento liberal no jornalismo brasileiro.

 

Charge do Duke

 

Nelson Rodrigues

Os vira-latas e os idiotas de Nelson

Politicamente conservador, Nelson Rodrigues foi o maior nome da crônica esportiva brasileira. Nesta, cunhou a expressão “complexo de vira-latas”, que designa o brasileiro com tendência de inferioridade reverente a outros países. E previu na sua crônica “A revolução dos idiotas”: “Nos coube por fatalidade uma das épocas débeis mentais e das mais espantosas da história”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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