

Um FDP! doce, mas travado: o impasse de um festival genuinamente campista
Por Edmundo Siqueira
O Festival Doces Palavras (FDP!) nasceu em Campos dos Goytacazes com a pretensão de ser mais que uma feira literária: uma praça pública ocupada por livros, doces, música, debates, oficinas e vozes em uma cidade que carece de entendimento próprio, que permitiu o apagamento de vários de seus patrimônios históricos — materiais e imateriais. O FDP! deu certo.
Em edições anteriores, o FDP! conseguiu levar o público para a arena literária e provou que Campos pode se reunir em torno de algo além de campanhas eleitorais, procissões religiosas e crises pelas oscilações do preço do petróleo.
Criado em 2015, o Festival Doces Palavras (FDP!) firmou-se no calendário de eventos de Campos como uma alternativa cultural, inicialmente nos anos em que a Bienal do Livro não era realizada. A responsável pelo evento é da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), sempre com a participação da sociedade civil. Em todas suas edições até aqui, a curadoria é por conta da Associação de Imprensa Campista (AIC) e da Academia Campista de Letras (ACL). E participam diversas outras entidades literárias e culturais da cidade, sempre de forma voluntária e gratuita.
Na edição de 2019, a Prefeitura não participou. Para que o FDP! não morresse, a sociedade civil abraçou o evento e o realizou com uma programação descentralizada, ocorrendo durante um mês, em vários espaços culturais de Campos. Já em 2021, foi retomada a realização por parte do poder público, que precisou planejar atrações híbridas por conta da pandemia da Covid-19.
O FDP! atual
Neste ano, o FDP! encontra uma situação semelhante à de 2019. Embora a Prefeitura, através da FCJOL, não se negue a promover o evento, alega dificuldades orçamentárias para sua execução.
Inicialmente marcado para o período de 24 a 28 de setembro, foi adiado por decisão da municipalidade para novembro, de 5 a 9. A curadoria do evento já havia convidado os palestrantes e demais participantes para o evento, atendendo a uma programação já feita, e precisou remarcar. Muitos desistiram de participar, alegando problemas de agenda.
No último dia 22 de setembro, uma reunião na ACL com a participação da presidência da FCJOL, foi dito que havia um pedido de recursos junto à secretaria estadual de Cultura e Economia Criativa. Através da plataforma Desenvolve Cultura, ela apoia iniciativas dessa natureza em todo o estado.
Segundo informações da presidente da FCJOL, Fernanda Campos, o projeto número 74.088 estava pronto para aprovação junto ao estado. E aguardava a liberação dos recursos após análise da secretaria. A plataforma estadual é estruturada em lei de incentivo fiscal, onde empresas aportam recursos que seriam usados no pagamento de impostos. Apoiando o FDP! estaria a empresa “Dom Atacadista”, segundo informações do prefeito de Campos Wladimir Garotinho.
— Já temos o recurso incentivado, pelo Dom Atacadista, o Estado não está liberando a fruição (continuidade e liberação). Já temos a carta de patrocínio, o projeto não está parado e o estado libera caso a caso. Eu não quero ser leviano, mas parece ter gente travando recursos (do estado) para Campos.
O interior do Rio, historicamente, tem dificuldades em receber eventos culturais relevantes e incluir os criados pelas cidades no calendário estadual. Embora as leis de incentivo nacionais como a Paulo Gustavo e Aldir Blanc tenham mudado um pouco esse cenário, os labirintos burocráticos e as disputas políticas entre capital e interior no Rio de Janeiro parecem continuar atravancando o avanço de projetos.
Na última semana, a Câmara de Vereadores foi procurada para que apoiasse o evento. Em reunião com participação do vereador Dudu Azevedo (REP), que possui experiência em realização de eventos, o presidente da Câmara, Fred Rangel (PP), foi taxativo: não há como apoiar financeiramente o FDP!. Segundo Rangel, o Legislativo não teria caminho orçamentário para aplicar os recursos na realização do Festival.
Em ato contínuo, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi instada a apoiar o evento. A reitora Rosana Rodrigues e o diretor de Cultura, Giovani Gomes, mostraram imediata disposição em ajudar, mas paira no ar o receio de “atropelar” a FCJOL, órgão oficial da Prefeitura.
Enquanto isso, em resposta oficial através da Secom, o estado disse que “o projeto Festival Doces Palavras foi submetido ao Sistema Desenvolve Cultura em 29 de agosto (…) o valor solicitado é de R$ 210.000,04”. E continua, em dado alarmante para a realização do evento em tempo hábil:
— Será (o projeto) analisado pela Comissão Avaliadora de Projetos (CAP) no dia 9 de outubro, conforme prazo estabelecido pela Resolução 89/2020. No entanto, o proponente ainda não anexou ao sistema a declaração de patrocínio, documento obrigatório para a liberação do recurso. Assim, mesmo que o projeto seja aprovado pela CAP, sua fruição só poderá ocorrer após a apresentação da referida declaração.
Procurado, o prefeito de Campos disse “não ser verdade” que o documento não foi entregue. E que ele próprio havia buscado o documento com o representante do Dom Atacadista, que teria sido encaminhado ao estado há cerca de 30 dias.
Dilemas do interior do Rio
No fim, o Festival está diante de um dilema clássico: entre vontade de apoio e a prática da execução, quem segura a caneta? A cidade já viu outras iniciativas culturais morrerem na praia, e caso essa seja uma edição interrompida do FDP!, ficará ainda mais difícil transformar evento em tradição.
O FDP! já mostrou que não é invenção de meia dúzia de idealistas. É um direito de Campos, e produziu resultados não apenas artísticos e literários, como turísticos e de movimentação econômica. Em um festival genuinamente campista, o embate político entre estado e Prefeitura parece afetar sua realização.
Se a burocracia vencer a palavra, teremos mais uma história campista que termina em silêncio. E o silêncio, em Campos e em todo interior do estado, nunca foi doce.
Publicado hoje na Folha da Manhã.