Edmundo Siqueira — Flávio Bolsonaro, o filme do pai e o roteiro

 

(Foto: Gabriela Biló/Folhapress)

 

Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1

Flávio Bolsonaro, o filme do pai e o eleitor que pode cansar do roteiro

Por Edmundo Siqueira

 

Não raro, as eleições presidenciais brasileiras precisam de uma caricatura. Por vezes propositais, é verdade, outras surgem por denúncias e viram memes a partir daí. Já tivemos, em passado recente, um padre com batina e tudo, pastor repetindo “Glória a Deus!”, barbudos com “Meu nome é Enéas!” e outros.

O recente áudio vazado onde o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, com Daniel Vorcaro sobre recursos para financiar um filme sobre o pai, talvez não mude sozinho uma eleição, mas tem potencial para virar um símbolo e uma caricatura.

Quase nada muda sozinho uma eleição. Nem áudio, nem escândalo de maiores proporções. Há uma espécie de calo cívico, onde o eleitor espanta-se menos, e há fatias do eleitorado que estão insensíveis a algo que desabone seu candidato. Falo disso mais à frente.

Há fatos que não precisam derrubar de imediato um candidato para produzir estrago. Basta que mudem o preço político da candidatura. Um candidato, como um ativo de mercado, tem custo, oportunidade e risco. O custo de Flávio Bolsonaro subiu. E subiu bastante. E o mais surpreendente é que sua campanha não estava preparada para precificá-lo adequadamente.

O bolsonarista raiz, que atravessou pandemia, rachadinha, minuta golpista e 8 de janeiro, vacina sem se mexer, provavelmente não moverá um centímetro por causa desse áudio. Há um eleitor que transformou escolhas políticas em identidade e numa “fé”, em que não se vota mais em um programa e sim na construção quase religiosa que aceitou.

Esse eleitor jamais votaria em Lula ou em alguém de esquerda. Para boa parte deles, universidade é algo suspeito, ciência é ideologia, cultura é mamata, imprensa é inimiga e a história do país muitas vezes é negada. É o tipo de eleitor que aceitaria qualquer justificativa de seus líderes.

Mas esse grupo não é a questão.

A questão está fora das bolhas. E os números ajudam a entender o tamanho do problema. Segundo o instituto de pesquisa Quaest, o eleitorado brasileiro está dividido em algo próximo de 33% de esquerda (19% lulistas e 14% não lulistas), 33% de direita (21% não bolsonaristas e apenas 12% bolsonaristas) e 32% de independentes. Isso mostra que a eleição não será decidida pelo “fiel” bolsonarista ou lulista, e sim por quem ainda se move.

O bolsonarista entre os 12% pode perdoar tudo, mas os 21% de direita não bolsonarista, e os 32% de independentes, poderão analisar de outra forma — é preciso lembrar que isso será, ou não, confirmado pelas próximas pesquisas. Eles podem ser antipetistas, podem rejeitar Lula, podem desejar alternância de poder, mas não necessariamente querem comprar novamente o pacote inteiro do bolsonarismo.

É aí que o áudio de Flávio importa. Não porque converta bolsonarista em lulista. Isso não acontecerá. Mas porque aumenta o custo psicológico e político para o eleitor de direita não bolsonarista e para o independente. Esse eleitor talvez aceite votar em Lula num segundo turno. Mas, no primeiro, pode procurar um caminho menos contaminado, o que fortalece nomes como Zema e Caiado.

A própria ideia de um filme sobre Jair Bolsonaro, financiado por cifras milionárias, já revela algo curioso. A política brasileira deixou de disputar apenas governos; passou a disputar a identidade de seus eleitores, e isso necessariamente passa por construção cultural de seus personagens.

Nesse sentido, o filme talvez seja mais revelador do que o áudio. O bolsonarismo sempre se alimentou de uma ideia de perseguição, em conjunto com Bolsonaro como um mártir ou um escolhido — um messias. Tudo no líder carismático precisava parecer maior que a política. Agora, ao que parece, tentava-se transformar essa imagem em produto cinematográfico de alto orçamento. Uma espécie de canonização audiovisual, com orçamento de superprodução.

O problema é que a realidade, às vezes, invade o roteiro. E quando invade, costuma ser pouco generosa com os personagens.

E o PT?

O PT, é claro, tem pouca autoridade moral para tratar o episódio como se tivesse descoberto ontem a existência de relações nebulosas entre dinheiro e o poder. A máquina petista conhece muito bem os caminhos tortos entre narrativa e financiamento, onde escândalos com o “mensalão” e o “petrolão” são provas concretas.

Mas o fato de o PT não ter autoridade para apontar o dedo não absolve automaticamente Flávio Bolsonaro. Uma coisa não lava a outra. No Brasil, infelizmente, muito político ainda acredita que a sujeira do adversário funciona como detergente (Ipê ou não) para a própria.

A direita que pretende chegar ao poder em 2026 terá de decidir se quer apenas repetir o bolsonarismo ou disputar o futuro. Parte dela comemorará o desgaste de Flávio em silêncio. Há nomes que gostariam muito de ocupar esse espaço. Tarcísio era o sonho do eleitorado mais pragmático, desincompatibilizou a tempo e preferiu, ao menos formalmente, o caminho da reeleição em São Paulo. Caiado tem corpo político, experiência e disposição para a briga. Zema agrada a um nicho liberal, empresarial, refratário ao barulho permanente.

Nenhum deles é simples. Mas podem, cada um à sua maneira, conversar melhor com esses 21% de direita não bolsonarista e com uma fatia dos independentes. E eleição presidencial, no Brasil, não se ganha apenas com devoção, é preciso entender fatores como transferência de votos, tolerância, rejeição e capacidade de parecer menos perigoso e arriscado do que o adversário.

Fogo amigo

Flávio, ao contrário, tem um problema anterior ao programa de governo. Antes de explicar o que faria pelo país, precisará explicar o que representa. É candidato ou herdeiro de um modelo já conhecido? É alternativa de poder ou extensão dinástica? Representa uma direita institucional ou apenas a tentativa de reforçar o bolsonarismo como patrimônio de família?

A pré-candidatura de Flávio, se ruir, não ruirá necessariamente por causa desse áudio. Mas o episódio reforça uma sensação que já existia: o bolsonarismo quer continuar mandando na direita, mas talvez já não consiga oferecer uma vitória limpa, ampla e respirável.

Os eleitorados lulista e bolsonarista continuarão onde sempre estiveram. A eleição será decidida, mais uma vez, pelos outros: pela esquerda não lulista, pela direita não bolsonarista e, sobretudo, pelos independentes. Gente que não quer canonizar Lula, mas também não quer beatificar Bolsonaro. Gente que pode votar por rejeição, mas não necessariamente por devoção.

Esse eleitor (o independente) pode até ter reservas a Lula. Ou pode até votar contra o PT no segundo turno, mas não fará suas escolhas a partir de uma polarização cega. E no primeiro, talvez procure alguém que não venha repetindo o mesmo roteiro.

Porque há um cansaço que as pesquisas demoram a medir. O cansaço de ter que defender o indefensável. Flávio Bolsonaro queria, ao que tudo indica, ajudar a financiar uma narrativa sobre o pai, e usou um caminho pouco republicano em conversar com um banqueiro preso no dia seguinte, no caso Master.

O estrago está feito. As próximas pesquisas dirão o que ele representa de fato. Flávio talvez tenha aprendido que, na política, quem encomenda o filme nem sempre controla o final.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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