

Pesquisas pós 7 de setembro
Da Datafolha de sexta à Ipec (antigo Ibope) de segunda, passando pela BTG/FSB do mesmo dia, as últimas três pesquisas presidenciais revelam perspectivas distintas à urna de 2 de outubro, daqui a exatos 18 dias. A Datafolha e a BTG/FSB indicaram que o presidente Jair Bolsonaro (PL) capitalizou seu sequestro do 7 de setembro e encurtou sua diferença para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do 1º turno, rumo a um disputado 2º turno. Já a Ipec indicou que quem cresceu foi Lula, que hoje teria 51% dos votos válidos. A possibilidade matemática de definir a eleição em turno único deve acelerar a campanha petista pelo “voto útil” sobre os eleitores do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e da senadora Simone Tebet (MDB).
Histórico do 2º turno
Instituída no Brasil pela Constituição de 1988 e passando a valer a partir da eleição presidencial de 1989, a eleição em dois turnos existe para que o voto útil seja feito no 2º, dando a opção ao eleitor de votar no 1º no candidato com que mais se identifique. Entre os presidentes, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se elegeu ainda no 1º turno, em 1994 e 1998. E, segundo analistas, só o fez porque a eleição ainda era em cédulas de papel, muito mais fácil para anular o voto do que na urna eletrônica. O que diminuía o quantitativo necessário para se atingir o mínimo de 50% mais 1 dos votos válidos.
Lulanaro ou Bolsolula?
Se Lula precisou de dois turnos para se eleger e se reeleger presidente, em 2002 e 2006, a lógica não indica que teria mais facilidade em 2022. Sobretudo no enfrentamento de um presidente que tem “feito o diabo”, como Dilma Rousseff (PT) disse que faria em 2014, para tentar se reeleger. De extrema-direita, Bolsonaro é oposto no espectro ideológico à esquerda sindical de Lula. Mas, populares, os dois são muito similares no populismo de suas lideranças. E têm a mesma capacidade semiótica de falar a língua do frentista do posto, de maneira direta. Dispensam a tecla SAP necessária à tradução popular de oradores superiores, como FHC e Ciro.
Teatro do absurdo
Visíveis ao observador pragmático, essas similaridades passam longe dos apoiadores de Lula e Bolsonaro, que não têm eleitores, têm torcidas. De um lado, quem não aprendeu absolutamente nada com o apeamento do PT do poder e segue no maniqueísmo do “nós contra eles” que instalou no Brasil. Do outro, as tias de WhatsApp antes enrustidas, mas saídas do armário com a chegada do capitão ao poder como o empresário Cassio Joel Cenalli. Que viralizou nas redes sociais do país com um vídeo ameaçando não doar mais marmitas de comida à faxineira Ilza Ramos Rodrigues. Porque esta, após indagada, declarou voto em Lula.
Assassinatos políticos
Esse ódio político já custou a vida de dois apoiadores do PT, mortos por bolsonaristas neste ano eleitoral. Tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, no Paraná, Marcelo Arruda foi morto a tiros em 9 de julho, na sua festa de aniversário, pelo policial bolsonarista Jorge Garanho, que invadiu o evento sem ser convidado. Na área rural do município de Confresa, no Mato Grosso, o trabalhador rural Benedito Cardoso dos Santos, eleitor de Lula, foi morto com 15 facadas e um golpe de machado no pescoço pelo colega Rafael Silva de Oliveira, eleitor de Bolsonaro, após uma discussão sobre política. Emblematicamente, foi na noite do 7 de setembro.
Os números do 1º turno
Da impossibilidade da razão, na humilhação de uma mulher humilde e em dois assassinatos políticos, à objetividade racional dos números, Lula lidera as consultas estimuladas do 1º turno sobre Bolsonaro. Por 45% a 34% (diferença de 11 pontos) na Datafolha, por 41% a 35% (6 pontos) na BTG/FSB e por 46% a 31% (15 pontos) na Ipec. As três pesquisas foram feitas após o 7 de setembro, com intenções de votos próximas, mas considerável diferença na distância entre o 1º e o 2º colocados. É, entretanto, na comparação com as pesquisas anteriores de cada instituto, configurando tendências, que se revelam as diferenças mais importantes.

Quem subiu ou caiu?
Entre as Datafolha de 1º e 9 de setembro, Lula ficou estável nos 45%, enquanto Bolsonaro cresceu dentro da margem de erro, de 32% a 34%. Entre as BTG/FSB de 5 e 12 de setembro, Lula caiu dentro da margem de erro, de 42% a 41%; oposto a Bolsonaro, que cresceu de 34% a 35%. Entre as Ipec de 5 e 12 de setembro, Lula cresceu dentro da margem de erro, de 44% a 46%, enquanto Bolsonaro se mostrou estável nos 31%. Cruzando as três pesquisas, feitas com metodologias diferentes, impossível saber quem está de fato subindo, caindo ou estável. Hoje, as novas pesquisas Genial/Quaest e PoderData poderão deixar isso mais claro.

Quem é o menos odiado?
Bolsonaro acertou ao modular seu discurso, por ora apenas subliminar no golpismo, para centrar fogo no PT e em Lula. Estes subestimaram o antipetismo. E aumentar essa rejeição é a única chance real do capitão para tentar vencer o 2º turno. Em que Lula o bateria por 53% a 39% na Datafolha, por 51% a 38% na BTG/FSB e por 53% a 36% na Ipec. O motivo? Bolsonaro tem 51% de rejeição na Datafolha, contra 39% de Lula; 56% contra 47% na BTG/FSB; e 50% contra 35% na Ipec. Sobre todas as outras eleições presidenciais no Brasil desde 1989, a de 2022 tem a singularidade de ser uma batalha entre rejeições. Na qual vencerá o menos odiado.

