Mulher de seios quase nus, sob a chuva, na morte de Gal

 

Gal Costa no show do seu disco “O Sorriso do Gato de Alice”, de 1994 (Foto: Reprodução)

 

Entre jornadas de trabalho pesadas com as eleições no Brasil que foram e a Copa do Mundo de futebol que virá, o homem de meia idade cumpria pequeno recesso em terras de São Sebastião. Para recarregar suas baterias interioranas de atafonense, fazia o que mais gostava quando em grandes metrópoles: bater pernas em seus centros históricos, sem destino certo.

Sem programar, teve duas experiências com o universo feminino. Uma tensa, outra sensual. Ainda refletia no saldo quando foi colhido pela chuva torrencial na rua Evaristo da Veiga, outro poeta e jornalista. E buscou abrigo — como se precisasse chover para fazê-lo — em um bar.

Pediu uma Original e continuou sua reflexão solitária, interrompida por uma mulher preta, magra, vestida em trapos. Ela passou a mexer na lata de lixo que, só então o homem percebeu, estava ao seu lado. Dela retirou um resto de salgado e colocou na mesa, sem pedir licença. Tudo de feminino e humano, que era pensamento, se fez ação.

A mulher depois estendeu um copo de Guaravita vazio que pegou do lixo, junto com o salgado comido pela metade que enfiou no bolso da bermuda famélica. E pediu ao homem sentado um pouco de cerveja. Ele esvaziou o que restava da garrafa e encheu o copo plástico dela. Que bebeu de um gole só, derramando parte do líquido sobre o torso magro, com seios quase à mostra.

Após observar a mulher sumir sob a chuva numa calçada da Evaristo da Veiga, o homem pegou um táxi de volta à Copacabana. Foi quando, ao olhar no IPhone, soube da morte de Gal Gosta, hoje, aos 77 anos. No trajeto de retorno, em meio a tantas referências femininas numa TPM mental, a chuva estiou. Já no apartamento, o sino da Igreja da Ressurreição tocou as seis baladas da hora de Maria, afinado como Gal.

O homem lembrou da música que, desde criança, ouvia nas fitas-cassete dos pais. De quando passou a se entender como gente na voz de uma grande intérprete do Brasil. Mesmo a sabendo de cor, passou a ouvir “Baby”, de Caetano, na voz de Gal, repetidas vezes. E, neste tempo distante das fitas-cassete, enviou o link da gravação de 1968 pelo WhatsApp a todas as mulheres que admirava. E que, por sensibilidade, poderiam também admirar Gal.

Enquanto a noite caía sobre o Rio, revelando o brilho das luzes do Morro do Vidigal ao longe, o homem pensou nas brasileiras que definiram a eleição presidencial de 30 de outubro. E que, com a morte de Gal, poderiam estar dentro de si ecoando a mesma verdade com que uma outra mulher derramou cerveja sobre o peito retinto e quase nu: “Você precisa saber da piscina/ Da margarina, da Carolina, da gasolina/ Você precisa saber de mim”.

 

 

Este post tem 2 comentários

  1. Elza

    Que sentimentos bonitos. Centro do Rio tão empobrecido. Estive no Amarelinho e em frente ao Rival. Triste. Brasil perdeu a musa e a “minha voz”. Soube também ao regressar. Não podemos perder as esperanças. Boldrin também partiu. Força e fé!

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Cara Elza,

      Grato pela empatia. Pela miséria que voltou às ruas das cidades brasileiras. E também pelo Boldrin. Como cantou Gal: “É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte”.

      Abraço e obrigado por sua participação!

      Aluysio

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