

Megaoperação no Rio e Palácio do Planalto
Por William Passos
No Ponto Final da quarta-feira (29), repercutimos (confira aqui) outra pesquisa do instituto Paraná, que traçou quatro projeções de 1º e de 2° turno. Com 2.020 eleitores entrevistados e margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, a Paraná confirmou, em parte, a boa fase de Lula (PT), que venceu as quatro projeções de 1º turno acima da margem de erro.
No entanto, a Paraná acendeu o sinal amarelo nas simulações de 2° turno. Isso porque, dos quatro cenários projetados, Lula não passou do empate técnico em três. Numericamente, o atual presidente bateria Bolsonaro por 3,1 pontos (44,9% a 41,6%), Michelle por 3,1 pontos (44,7% a 41,6%) e Tarcísio por 4,0 pontos (44,9% a 40,9%). Com isso, a reeleição de Lula só estaria garantida caso o oponente fosse Flávio Bolsonaro, contra quem o atual incumbente abriria 9,7 pontos (46,7% a 37,0%). Flávio, como sabemos, provavelmente virá senador pelo Rio de Janeiro.
Outro resultado da Paraná de outubro de 2025 que gostaríamos de chamar a atenção é a preferência de voto do eleitorado na ausência do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nesse momento, Bolsonaro está inelegível até 2060. No entanto, dentro do intervalo de 2,2 pontos da margem de erro, a Paraná mostra que, na ausência de Jair, o eleitorado se divide entre Tarcísio, Michelle e nenhuma das opções apresentadas, que contam ainda com os nomes de Ratinho Júnior, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Flávio Bolsonaro, como dito, deve concorrer ao Senado pelo Rio de Janeiro.
Tarcísio, Caiado e Zema, por sua vez, em encontro no Palácio Guanabara com Cláudio Castro, na quinta-feira (30), anunciaram (confira aqui) a formação do que chamaram de “consórcio da paz” para combater o crime organizado de forma coletiva. A reunião dos governadores do campo da direita, que antagoniza com Lula, contou ainda com Jorginho Melo (Santa Catarina), Eduardo Riedel (Mato Grosso do Sul) e Celina Leão (vice-governadora do Distrito Federal).
Na prática, o encontro foi uma resposta à megaoperação de terça-feira (28) contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão. Deflagrada pela Polícia Militar e pela Polícia Civil, a incursão deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais. Na última pesquisa estadual que divulgamos (confira aqui e aqui), a Real Time Big Data de outubro de 2025, Cláudio Castro encontra-se bem posicionado na disputa pela segunda cadeira de senador (22% de intenção), somente atrás de Flávio Bolsonaro (29% de intenção).
Já na disputa ao Palácio do Planalto, há poucos dias da megaoperação, a AtlasIntel de outubro de 2025, com margem de erro de 1 ponto percentual, havia projetado (confira aqui) reeleição de Lula em 1º turno em três cenários. Contra Tarcísio, o petista abriria 51,3% a 30,4%. Contra Michelle, 51,0% a 26,2%. E sem Tarcísio e Michelle, Lula sacramentaria sua reeleição contra Caiado: 51,0% a 15,3%. Os bons números da economia, o tarifaço de Trump e a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil estariam por trás da provável reeleição de Lula projetada pela AtlasIntel com base numa sofisticada metodologia que usa coleta de informação pela internet e cálculo baseado em ferramentas de ciência de dados.
Por sua vez, essa mesma metodologia está sendo utilizada neste exato momento pela Quaest no levantamento da opinião pública sobre as recentes operações policiais nos complexos do Rio de Janeiro. Os resultados dessa pesquisa estão previstos para os próximos dias e poderão favorecer o campo da direita. Que, de acordo com o cientista político Felipe Nunes, CEO do instituto, caso venha unida, fortalecerá uma possível reeleição de Lula em 1º turno. Mas caso venha fragmentada, poderá garantir uma acirrada disputa de segundo turno num país ainda bastante polarizado.
No levantamento da Quaest de outubro de 2025, a cerca de um ano da urna de outubro de 2026, Lula se reelegeria (confira aqui) contra nove adversários, com Ciro Gomes se colocando como o oponente mais competitivo. No 2º turno, a diferença entre Lula e Ciro foi apurada em apenas 9 pontos percentuais com margem de dois. Recordamos que os nomes de Jair, Tarcísio, Michelle, Ratinho, Zema, Caiado e Eduardo Bolsonaro também foram testados.
A diferença entre Lula e Tarcísio, subiu de 8 pontos, na pesquisa de setembro (confira aqui), para 12 pontos, na pesquisa de outubro. Entre os integrantes da família Bolsonaro, a Quaest projetou Michelle como a mais competitiva, com diferença de apenas 8 pontos no 2º turno. Parte dessa diferença, que era de 15 pontos na pesquisa de setembro, pode ser atribuída ao recall de Jair Bolsonaro, que, mesmo inelegível até 2060, segue com o nome testado pelos institutos. Na Quaest de setembro, a diferença entre Lula e Jair era de 13 pontos no 2º turno. Na Quaest de outubro, caiu para 10 pontos.
A Quaest de outubro de 2025 também apontou a violência como a maior preocupação dos brasileiros (30%). A corrução, por sua vez, aparece apenas na quarta colocação, atrás de problema sociais (18%) e economia (16%). Em contraste, AtlasIntel registrou a corrupção (60% da população) como o maior problema do Brasil, seguido pela criminalidade e tráfico de drogas (57,3%). Nesse sentido, na Quaest dos próximos dias, podemos projetar sobre a opinião pública, ainda sob a comoção das operações policiais nos complexos do Rio de Janeiro, um impacto suficientemente capaz de colocar a questão da segurança pública de volta ao centro do debate nacional, o que tende a favorecer o campo da direita, pelo menos, por duas razões.
A primeira razão é a falta de proposta e a dificuldade de construção de uma agenda sobre a segurança pública no campo da esquerda, o que colocava Marcelo Freixo, até a eleição para governador do Rio de Janeiro de 2022, como uma isolada exceção. Freixo se projetou na política fluminense com uma sofisticada discussão acadêmica sobre a violência e, em 2008, já como deputado estadual, presidiu a CPI das Milícias na Alerj. Com a derrota para Cláudio Castro em 2022 ainda no 1º turno (27,38% a 58,67% dos votos válidos), Freixo foi acomodado na presidência da Embratur, deixando a esquerda brasileira órfã de conteúdo e de referência na discussão sobre a maior preocupação da população fluminense.
Nesse contexto emerge a segunda razão, isto é, o bolsonarismo, que passou a monopolizar o debate pelo viés do “bandido bom é bandido morto” e do enfrentamento do crime organizado única e exclusivamente pela via da militarização e da “guerra aos criminosos”. No entanto, trata-se de um debate apoiado em uma forte retórica moral e esvaziado de conteúdo científico, que se diferencia, por exemplo, daquele que originou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a partir de 2008, mesmo ano da CPI das Milícias na Alerj.
No plano eleitoral, por outro lado, cabe observar a reação do governo federal e do presidente Lula, que, neste momento, lidera ou empata tecnicamente dentro da margem de erro dos principais institutos de pesquisa que projetam a corrida presidencial de outubro de 2026. A depender do resultado, diferentemente do céu de brigadeiro retratado pela AtlasIntel de outubro de 2025, há poucos dias da megaoperação na cidade do Rio de Janeiro, a câmera da Quaest de novembro deste ano já poderá fotografar as primeiras nuvens no céu de Brasília, cuja formação tem origem na antiga capital nacional e poderá ser motivo de preocupação no Palácio do Planalto. A conferir.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
