

Contribuições para o debate econômico sobre o estado do Rio de Janeiro
Por Alcimar das Chagas Ribeiro
O estado do Rio de Janeiro com suas contradições econômicas precisa estar no centro do debate orientado para o norteamento das possíveis alternativas de mudanças estratégicas, visando a sua recondução ao status que lhe é devido.
Inicialmente, um recorte da análise conjuntural pode ser útil na formulação de um diagnóstico mais expressivo da real dinâmica econômica interna e da sua capacidade de fixação de riqueza. Os dados recentes definem um sistema econômico muito dependente das atividades petrolíferas de natureza finita e sem o necessário comprometimento geracional. Evidencia-se o predomínio do fundamento extrativista.
O estado tem o quarto maior PIB per capita, entre as unidades da federação, com um valor de R$73.052,55 superando a média nacional em 35,5% em 2023, segundo dados do IBGE. A atividade petrolífera exerce papel preponderante na formação da mesma riqueza. Segundo dados da ANP de 2025, o estado atingiu a média de produção mensal de petróleo e equivalente de 4.174.189,39 barris/dia, representando 85,34% da produção nacional.
Importante observar que o estado esteve no centro do processo da produção de petróleo off-shore, através da bacia de Campos, desde o final dos anos 1990, cuja trajetória ascendente chegou em 2010 com uma produção equivalente a 85% da produção nacional. A partir desse ponto teve início o processo de declínio gradativo da produção, atualmente representando menos de 20% do total nacional.
Entretanto a sorte não abandou o Rio de Janeiro que com a descoberta da Bacia de Santos em 2007, cuja abrangência se espraia do Rio de Janeiro a Santa Catariana, novamente colocou o estado na rota das grandes produções petrolíferas do país.
A evidência é corroborada pelas indenizações de Royalties que somaram R$16.029.174.888,21 em benefício do estado, equivalentes a 75,85% do total das remunerações realizadas no país em 2025, enquanto que as participações especiais fruto da produtividade da bacia injetaram mais R$7.519.799.369,46 no orçamento estadual no mesmo ano.
Diante do quadro de robusta formação de riqueza no estado, os resultados oriundos da aplicação desses mesmos recursos são extremamente tímidos. Em 2025, a produção industrial geral no estado cresceu 5,1% com base no ano anterior. O crescimento foi puxado pela produção da indústria extrativa que cresceu 8,9%, seguido pela indústria de transformação com crescimento de 0,9% no mesmo período. Neste grupo, os setores com as maiores taxas de contribuição foram: fabricação de máquinas e equipamentos com crescimento de 23,6%; fabricação de outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores com crescimento de 16,8%; manutenção, reparação e instalação de maquinas e equipamentos com crescimento de 13,1% e fabricação de produtos alimentícios com crescimento de 6,4% no ano. Já os setores tradicionais de confecção de artigos do vestuário e acessórios e fabricação de bebidas regrediram 9,2% e 5,3%, consecutivamente, no mesmo período.
O setor comercial apresentou um nível de volume de vendas em queda de 1,3% em 2025 com base em 2024, enquanto o setor de serviços apresentou um índice de volume positivo com crescimento acumulado de 1,7% no ano, puxado pelo grupo de atividades de transporte, serviços auxiliares ao transporte e correio com crescimento de 10,4% e serviços prestados as famílias com crescimento de 2,4% no ano.
Complementarmente, os vínculos ativos registraram 4,7 milhões de empregos formais no estado em 2024, com importante concentração nas atividades de serviços no nível de 47,25%, seguido da administração pública no nível de 18,48% e do comércio com participação de 17,55% do total. Não podemos deixar de observar que parte expressiva do setor de serviços opera com baixo padrão tecnológico e baixo rendimento salarial. Por outro lado, a segunda maior expressão em termos de emprego formal é a administração pública com uma participação relativa maior que a atividade comercial.
As contradições avançam quando observamos que a indústria de transformação absorveu somente 8,8% do emprego formal no estado e a agropecuária 0,6% do total.
O contexto traçado nos permite afirmar, sem margem de erro, que o problema do Rio de Janeiro está longe de ser a falta de receita para dar conta de seus gastos. A aceitação dessa hipótese pressupõe fechar os olhos para a ineficiente gestão fiscal, cujo custeio não guarda coerência com as receitas, além da falta de comprometimento em relação a formulação de um efetivo planejamento estratégico voltado para as necessárias transformações estruturais.
O necessário planejamento de longo prazo assume responsabilidade com a integração territorial, identificando e orientando a combinação dos recursos tangíveis e intangíveis a partir do conhecimento cientifico. Estamos falando de uma política de estado e não de governo, onde as instituições devem ter um papel preponderante no processo de governança.
O fortalecimento institucional e o reconhecimento do importante papel do empreendedorismo estão no centro do problema. A expectativa de receita aumentada é função da introdução de uma estrutura consistente de negócios novos e/ou antigo, amparados no conhecimento cientifico com capacidade de eliminar os reais gargalos relacionados a escala, gestão, tecnologia, mercado, etc.
É urgente a necessidade de equilíbrio no jogo de poder da sociedade fluminense para que possa ocorrer a ascensão das organizações não governamentais. O equilíbrio de forças tende a criar condições favoráveis para as unidades produtivas que realmente geram e fixam riqueza. A descentralização de poder incentiva e protege inciativas empreendedoras capazes de alavancar o desenvolvimento econômico no território. Este estágio representa a condição de êxito de uma sociedade que substitui o retrógado perfil extrativista pelo perfil de uma sociedade inclusiva. Nesta, as distorções econômicas e sociais são minoradas em benefício de uma sociedade mais justa, menos desigual.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
