Campista Álvaro Vieira Pinto em Jornada na UFF nesta terça

 

 

Na próxima terça-feira, dia 19, na UFF-Campos, das 9h às 21h, será realizada a Jornada Álvaro Pereira Pinto. Serão três mesas de palestras e debates. A primeira, marcada para começar às 9h30, terá como tema “A Campos do início do século XX — sua importância da República Velha ao Estado Novo”, com Márcia Carneiro, professora de história da UFF como palestrante. E a terceira, programada para se iniciar às 16h30, trará como tema “Campos, Rio de Janeiro, Brasil: a questão do desenvolvimento”, com os palestrantes Daniel Kosinski e Roberto Rosendo, professores de economia, respectivamente, da Uerj e UFF.

Mas o assunto que batiza e motiva a Jornada será tratado na segunda mesa, com o tema “Álvaro Vieira Pinto — aspectos de sua filosofia”, marcada para começar às 14h e que terá como palestrantes Leonardo Maia e André Vinícius Dias Senra, professores de filosofia, respectivamente, da UFRJ e IFRJ, além de também organizadores da Jornada. Mais conhecido como filósofo e por sua obra centrada no pensamento nacional-desenvolvimentista do Brasil, o polímata Vieira Pinto é campista, embora pouco conhecido dos seus conterrâneos. Para saber um pouco mais da sua vida, sua obra e da importância desta ao mundo atual, onde começa a ser resgatada, a Folha bateu um papo por e-mail com o professor Leonardo Maia.

 

Leonardo Maia, professor de filosofia da UFRJ

 

Folha da Manhã — Como tomou contato com o pensamento do polímata campista Álvaro Vieira Pinto? E o que o levou a promover a Jornada, no próximo dia 19, na UFF-Campos, sobre a obra dele, junto do André Vinícius Dias Senra?

Leonardo Maia — Meu contato com o pensamento de AVP é, relativamente, recente. Durante a pandemia, com a retomada das atividades letivas na universidade, inicialmente de forma remota, eu me decidi a estudar, sobretudo, autores/as nacionais. Inicialmente, Darcy Ribeiro e, com ele, Anísio Teixeira. Junto a esses dois, outros nomes, como Paulo Freire, Florestan Fernandes, entre outros. E, nesse conjunto de novas leituras ou releituras, surgiu o nome do AVP que, a rigor, eu mal conhecia até então. Foi uma grande surpresa, e muito positiva, seja pela variedade dos temas, a densidade da obra e a sua inesperada profundidade filosófica. Mas, em particular, a vocação para o Brasil e para as suas questões, um traço certamente geracional, mas que, em AVP, ganha dimensões especialmente filosóficas, como antropológicas, ontológicas, fenomenológicas etc. Chamou a minha atenção, ainda, o fato de que, sendo um pensador fluminense, pouco se ouvia falar dele por aqui, salvo pelo esforço da Editora Contraponto que, naquele momento, já havia relançado alguns de seus principais títulos. A reaproximação com o André Senra, que eu conhecera quando do meu doutorado na PUC-Rio, se deu logo em seguida, com a participação nossa em um evento sobre AVP, e em um grupo de whatsapp que foi formado em torno a esse encontro. A verdade é que, já há algum tempo, pelo menos dois anos, ambos temos pensado em fazer um evento aqui no Rio, em homenagem e em celebração ao AVP, e também ao ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros criado em 1955 e fechado em 1964, período em que foi o grande de formulador do pensamento nacional-desenvolvimentista no Brasil), onde ele atuou, antes da sua cassação, e consequente saída do país, após o golpe militar de 1964. A opção de começarmos essa empreitada pela cidade de Campos, mais do que necessária, pareceu-nos até óbvia: foi, com efeito, onde tudo começou, também para ele, Vieira Pinto. Havia que iniciarmos o evento aqui, deu certo e assim será. Cumpre acrescentar que houve uma acolhida muito favorável à nossa ideia por parte de colegas professores e professoras daqui da cidade. Cabe um agradecimento especial a todos eles.

 

Folha — Embora tenha gozado de prestígio na vida acadêmica brasileira e internacional do seu tempo, Vieira Pinto padeceu de esquecimento até reedição de parte da sua obra em tempo recente. Nem em Campos, onde nasceu, ele é muito conhecido. A que credita parte desse “esquecimento” e o processo de resgate do seu pensamento?

Leonardo — Acredito que aqui se misturam três ou quatro situações. Infelizmente, o nosso país é muito mais habituado a esquecer do que a lembrar, é useiro e vezeiro nisso. O AVP, como tantos outros, não foi exceção. Na verdade, desse instituto de pesquisas que foi o mais importante, na área das humanidades, da história carioca e fluminense, o ISEB, boa parte dos seus integrantes, ainda hoje se encontra profundamente esquecida, ou relegada a uma pesquisa marginal. Foi assim também, para ficar em um exemplo maior, com outro nome fundamental: Guerreiro Ramos (sociólogo e deputado federal cassado em 1964). Amigo, depois adversário cruento de AVP, Ramos foi igualmente ‘redescoberto’, em anos recentes; outros nomes do ISEB, seguem porém, eclipsados. Um segundo aspecto foi, evidentemente, a perseguição que foi imposta a AVP pela ditadura de 1964. O ISEB foi fechado, AVP foi proibido de lecionar, a sua obra teve a circulação proibida ou grandemente restrita e, no auge de suas atividades científicas, ele precisou deixar o país. Três, mesmo tendo voltado ao Brasil durante a vigência, ainda, do golpe, AVP, todavia proibido de lecionar, se encapsulou. Viveu de traduções, assinadas sob pseudônimo, ao passo que escrevia, em paralelo, no retiro de seu apartamento, uma obra monumental, em completo segredo. Enfim, o exílio que muitos experimentaram fora, ele vivenciou aqui dentro mesmo do país. Um quarto ponto, ainda pouco enfrentado pelos estudos em curso sobre AVP, é o da continuidade desse exílio, mesmo advindo o processo da redemocratização. Entre 1979 e 1987, quando falece, AVP não teve aparições públicas relevantes nem rotineiras. Tampouco se empenhou em republicar a obra pretérita, ou encontrar editora para aquela então em preparação, o que só aconteceu quase 20 anos depois de sua morte. Se a ditadura o proscreveu, a democracia não o recuperou para o exercício da vida pública. O exílio foi mais fundo, nele, do que já nos foi dado compreender. Em todo caso, essa experiência decerto o redimensionou profundamente. E, finalmente, um quinto ponto, a má vontade da academia e das universidades brasileiras com o pensamento nacional antecedente ao golpe de 1964, em particular, o de matiz trabalhista, ou nacionalista. Essa linhagem foi claramente preterida, em benefício de outras escolas, ou mesmo modismos, internos e estrangeiros. No fundo, não havia já talvez muito sentido em se estudar em chave própria o Brasil, se esse fora perdido, se o país saíra amplamente derrotado, no saldo geral do período autoritário.

 

Folha — Formado em medicina, chegando a exercer a profissão, assim como de laboratorista, Vieira Pinto também cursou matemática e física, antes de enveredar pela filosofia. O pensamento nacional-desenvolvimentista que ele elaborou reflete essa gama variada de formação e conhecimento?

Leonardo — A tentação, talvez, seja a de asssentir sem restrições à direção proposta pela pergunta. A “polimatia” de AVP é, decerto, a condição erudita necessária para a produção de uma obra complexa como a sua. Necessária, porém não, talvez, suficiente. Com efeito, o elemento “complexo” é, em AVP, esse de um conhecimento muito vasto, amplo. Por outro lado, o eixo “simples” é o de um problema único, quase exclusivo: o Brasil e seus destinos. Ou, se preferirmos, como se dizia mais comumente nos seus anos de ISEB, a “questão nacional”. A nosso ver, AVP faz convergir toda a sua gama de saberes, o seu arsenal de formação, para essa resolução tópica. Que tem, possivelmente, três fases: a primeira, mais explicitamente nacional-desenvolvimentista, e que vai de 1956, ano de sua entrada no Instituto, até o início da década de 60; nesses anos anteriores ao golpe, AVP e o seu pensamento nacional se radicalizam, e para muitos, ele se decidiria, efetivamente, por uma alternativa socialista para o país. Uma terceira fase, pós-golpe miitar, teria a ver, mais exatamente, com as condições de inserção do país em um mundo “técnico”, “tecnológico”. E aí, a questão possivelmente volte a ser mais conceitual e filosófica, do que propriamente ideológica ou política. O mundo, seja ele capitalista ou socialista, é já francamente o mundo da técnica. Colocar-se fora dele é assujeitar-se, subalternizar-se, na ordem geopolítica internacional. É evidente que há escolhas capitais a serem feitas nesse processo de hegemonia tecnológica, e a anterior “filosofia do desenvolvimento”, dos anos de ISEB, se transmuta assim, numa nova “filosofia do mundo técnico”, ou ainda, em uma “filosofia social da ciência”. Porém, acima de tudo, cumpre responder, desde a perspectiva nacional, a essa questão fundamental do nosso tempo. Assim, a seu modo, AVP talvez tenha afinal se tornado um pensador “não-alinhado”, nos moldes da Iugoslávia de Tito (país que se fragmentou nos primeiros anos da década de 1990, mas que se manteve independente tanto dos EUA quanto da hoje extinta União Soviética durante a Guerra Fria, entre 1947 e 1991), onde passou o seu primeiro ano de exílio.

 

Folha – O que destacaria na obra do polímata campista à realidade do Brasil de hoje, num ano de mais uma eleição presidencial e parlamentar até aqui bipolarizada entre duas visões aparentemente antagônicas de país e mundo?

Leonardo — O próprio exemplo de AVP é muito inspirador, nesse sentido. Ele se descobre, com efeito, um pensador, ao se redescobrir brasileiro, e se (re)encontrar com o seu país, enquanto “questão para o pensamento”. Assim se fez, sempre, a grande filosofia. Sócrates e Platão em Atenas (ou contra ela); Maquiavel em Florença, os Illuministas no período absolutista francês etc. O que seria um país que não se escrutina? Que país é esse? Sob muitos aspectos, o Brasil de AVP, do ISEB, e de sua geração, é um país perdido, um Brasil que perdemos. Ou seja, um país pensado, propositivo, inventivo e inaugural. Em busca do enfrentamento independente, autônomo e soberano, das suas questões intrínsecas. Nesse caso, o nacionalismo atual parece oco, de fancaria, uma virtude ocasional, até eleitoreira. Enfim, um oportunismo a mais. Planejamento, desenvolvimento, crescimento econômico, e todo um léxico de palavras organizativas e projetivas deram lugar, em nosso século, a projetos de circunstância, no fundo não mais que eleitorais. E, vencida a eleição, governa-se segundo uma ordem do dia, enfrentando os temas que se apresentam, conforme as manchetes dos jornais da manhã ou, já agora, segundo o que se mostra mais efervescente nas redes sociais. Como não há, via de regra, antecipações nem projeções, não se deveria chamar isso de governo. Assim, a rigor, não há quem diga ou saiba para onde está indo o país, ou onde ele estará, dentro de 10 ou 20 anos. O que AVP e seus parceiros no ISEB buscavam era o exato oposto: uma ideia de Brasil. É por essa razão, e essa razão apenas, porém incontornável, que o pensamento de Vieira Pinto retorna. Seu compromisso inamovível de propor uma ontologia ao país, um ser próprio ao Brasil, hoje já não pareceria, possivelmente, um protocolo tão distante. Se o momento nos empurra fortemente para trás, só o pensamento, agora como antes, pode de novo nos levar à frente. Desenvolvimento, sociedade, técnica, transformação, revolução. Em que essas palavras teriam perdido vigor, viço? Assim também, com esse extraordinário pensamento que se serviu delas, do início ao fim.

 

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