Ricardo André: “Cultura no governo Rosinha só a da gastança”

Seria possível para um grupo de teatro da Campos de hoje assumir a direção do município, como ocorreu nos anos 1980, mantendo-se no comando pelos 30 anos seguintes? Não para o jornalista e blogueiro Ricardo André Vasconcelos, que participou das montagens de peças como “Precisa acontecer alguma coisa”, em 83, e “Brava gente brasileira”, em 85, que tinha dividido nas funções de autor, diretor e ator o prefeito de Campos eleito em 88, hoje deputado federal e pré-candidato a governador do PR, Anthony Matheus. Da arte à vida que a imita, “mas não repete a história nem como farsa”, Ricardo subiu ao palco central também nos dois primeiros governos do grupo, identificando a campanha perdida a governador, em 1994, como o divisor de águas entre os rumos coletivos e o projeto pessoal de poder que entende ter sido o roteiro seguido a partir dali. Desde então, não apenas a cultura, mas todas as demais políticas dos governos de Campos passaram a ver o “respeitável público” como se fosse formado não por cidadãos, mas apenas por eleitores. Dentro deste contexto, a administração Rosinha, ao centralizar toda a cultura na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), longe de exceção, seria a regra, na qual os recursos públicos não têm sido poupados para se levar gente às ruas e criar um clima de “campanha eleitoral permanente”. A partir do acompanhamento das publicações no Diário Oficial (DO) do município, Ricardo denuncia: “Cultura nesse governo só a da gastança”.

(Foto de Arthur Damasceno/ Folha da Manhã)
(Foto de Arthur Damasceno/ Folha da Manhã)

Folha Dois – Você vestiu a carapuça quando a presidente da FCJOL disse em entrevista (aqui) ao site Campos 24 Horas: “Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite (sic) opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona”. Sem se omitir em emitir juízo, como funciona?

Ricardo André Vasconcelos – Eu sou leitor de Diário Oficial não é de hoje. Não acompanho só o atual governo. Sempre vi o DO como uma fonte notícias, de pauta e é assim que continuo lendo-o todos os dias. Em 2008, durante o carnaval, foi publicado o extrato de contrato da empresa de coleta de lixo por 10 anos ao custo de R$ 562 milhões. Era o governo Mocaiber. Divulguei no blog e, mesmo sendo um ano eleitoral, nenhum candidato teve interesse em colocar o dedo na ferida. Portanto, sempre que é publicado um extrato de contrato, seja de aluguel de trio elétrico, contratação de artistas, montagem de palco ou editais para obras, entre outros atos, eu recorto da versão em PDF na Internet e posto no blog como forma de ajudar o governo a cumprir o preceito constitucional da publicidade dos atos administrativos. Por causa disso achei uma deselegância a presidente da Fundação Cultural criticar quem divulga o Diário Oficial e vesti, sim, a carapuça. No sábado anterior à entrevista ao Campos 24 horas ela já havia feito a mesma abordagem no programa Entrevista Coletiva, na Diário FM. Quando eu disse que sei como funciona,  é que na lei 8.666/93, do governo Itamar Franco, há brechas para dispensa de licitação para casos de artistas e outros tipos de contratação cuja especificidade não tem como ser auferida num certame licitatório. Nessa brecha legal você tem como contratar só quem te interessa. Só contrata quem é seu amigo, do seu partido, do seu grupo político ou quem, de uma forma ou de outra, possa dar alguma retribuição por essa escolha. Outro exemplo é a publicação genérica de “eventos culturais, comemorativos e esportivos”. Como não discrimina quais são e nem onde foram realizados fica sempre a dúvida e a dúvida é irmã-gêmea da suspeita.

Folha – Além de você, outro a acusar o golpe foi o também blogueiro Cláudio Andrade, que cobrou (aqui) da entrevistada o esclarecimento que entendeu não ter sido feito sobre o registro de preço nas publicações do FCJOL no DO. O fato de você e Cláudio estarem sendo expondo em seus blogs as publicações da FCJOL em Diário Oficial incomoda? Por quê?

Ricardo André – É uma questão técnica da qual não sou especialista. Sou é curioso e chato. Sei somar dois mais dois contextualizando as informações num formato de comunicação. A administração pode fazer um pregão para registro de preço para que os fornecedores daqueles produtos ou serviços saibam que, por exemplo, a fundação tal pode, dentro de certo período de tempo, pagar tal preço por aqueles serviços ou produtos. Mas o que postei no blog foi bem diferente. O que desagradou ao pessoal da FCJOL foi que eu postei os valores pagos à Working Empreendimentos pelo aluguel e montagem de palco no valor de R$ 347 mil, ao que parece, para a Festa de São Salvador. Digo parece porque, mesmo após publicação no blog com replique em vários outros blogs e na versão impressa da Folha, ninguém da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima ou da Secom/PMCG disse uma palavra sobre o assunto. Dias depois o DO trouxe um extrato de contrato, no valor de R$ 501 mil para aluguel de palco da mesmíssima Working. Ora, será que pagaram e depois assinaram o contrato? As publicações são obrigatórias no DO, e o que eu e Cláudio Andrade fazemos, é dar eco e tentar contextualizar essas informações públicas. Por exemplo, há anos, desde o começo do pagamento dos royalties do petróleo eu sempre divulguei os valores mensais. Ainda como repórter da TV Norte Fluminense, nos anos 80, ou na editoria de economia e editoria geral da Folha, de 1998 a 2002, sempre foi preocupação minha acompanhar e divulgar todo dia 20 de cada mês os valores repassados aos municípios da região. O cidadão/contribuinte precisa ter essa informação até para dimensionar e direcionar suas demandas ao poder público. E a questão não fica restrita à área da cultura porque a gastança é em outras as áreas e de forma suspeita, apesar de legal. Parece paradoxo, mas não é. A lei permite que os contratos tenham seus valores reajustados e que sejam prorrogados, mas o que se faz na PMCG é que as prorrogações são regra e não exceção. Veja o caso das três agências cuidam da propaganda do governo Rosinha desde 2009. São as mesmas e, na semana passada tiveram seus contratos aditados pelo quarto ano ao custo total de R$ 15 milhões por ano. A mesma situação é das cinco maiores fornecedoras de mão-de-obra para a Prefeitura de Campos. Os contratos também foram renovados há poucos dias por cerca de R$ 65 milhões. Outro exemplo foi a GAP, aquele empresa que alugava, também desde o início do governo, ambulâncias para a PMCG e só teve o contrato rescindido depois que a Revista Época denunciou que o dono da empresa era um “fantasma”. E olha que o deputado Garotinho também já tinha alugado um carro da mesma GAP e foi volante um Fusion branco da GAP que o presidente local do Partido da República, e filho do casal Garotinho, se envolveu num acidente de trânsito. Isso é apenas uma pequena mostra da confusão, de fundir mesmo, que fazem do público com o privado e encobrindo tudo com pouca transparência, mas que já permite levantar algumas informações e protegidos por uma massacrante e milionária propaganda no rádio e TV. De novo a receita infalível (?) do populismo de resultados capitaneado pelo deputado Garotinho.

Folha – Em seu acompanhamento do DO, observou um aumento nas despesas da FCJOL após a reforma administrativa de Rosinha, que extinguiu a secretaria de Cultura e as Fundações Trianon e Zumbi dos Palmares, colocando toda a política pública da cultura de Campos sob tutela administrativa de Patricia Cordeiro? Percebe alguma motivação implícita nessa mudança?

Ricardo André – A pergunta é ótima para “despatricizar” essa questão. A Patricia é uma pessoa amável, inteligente e sempre muito agradável, pelo menos comigo. O que eu questiono, o que me provoca gastura é a gastança desenfreada, que não é da Patricia. A gastadeira é Rosinha. Por mais boa vontade que tenha, Patricia não passa de mera executora do jeito Rosinha de governar. Esse governo vive em campanha eleitoral permanente, e campanha eleitoral precisa de gente amontoada na rua. E é com show, trio elétrico e palcos alugados a peso de ouro que se junta gente para aplaudir. O populismo precisa disso como o ar que respiramos. Por isso é política da família Garotinho gastar o que for preciso para ter gente na rua ouvindo música, mesmo que seja de qualidade ruim, como na maioria das vezes é; porque assim, pensam eles, estão atendendo a uma demanda do público. Enquanto educar, no sentido mais amplo do vocábulo, seria oferecer ao público opções de melhor qualidade e uma diversificação cultural que alimente a alma e inspire reflexão. Acho que essa gente que está no governo sabe muito bem disso e promove uma espécie de conspiração para alienar, porque assim, sem pensar, emburrecendo, o curral eleitoral aumenta cada vez mais. A secretaria de Cultura, que tinha à frente o teatrólogo e professor Orávio de Campos, foi extinta numa reforma em que a prefeita extinguiu também a Fundação Zumbi dos Palmares, que fazia uma política afirmativa boa em relação à inclusão dos negros, com cursos pré-vestibulares, por exemplo. A justificativa para a reforma foi o enxugamento da máquina, mas ao mesmo tempo Rosinha criou as secretarias da Pesca e a do Idoso, duas sinecuras para aliados políticos, além de cerca de uma centena de cargos de confiança para os cabos eleitorais. Na verdade acho que a única cultura que Rosinha conhece bem é a da gastança, e com o dinheiro dos outros, porque sei que ela é excelente administradora do próprio lar.

Folha – E à cultura em si, qual sua opinião sobre esse movimento de centralização administrativa, delegando plenos poderes à FCJOL, criticado publicamente pelos professores Artur Gomes (aqui), Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui) e Cristina Lima (aqui), além dos diretores de teatro José Sisneiro (aqui) e Antonio Roberto Kapi (aqui)?

Ricardo André – Eu penso que a centralização é justamente para atender à decisão da prefeita em fazer da área cultural um comício permanente. É claro que pode-se destacar um ou outro ponto positivo, como a abertura do Museu, a realização da Bienal do Livro ou um apoio à fórceps para a ONG Osquestrando a Vida, mas praticamente toda a energia e verbas dos organismos oficiais de cultura, agora todos sob o guarda-chuva da Fundação Oswaldo Lima, vão para os eventos que atraem multidões, contratação de artistas caros, bandas, trios elétricos , camarins, buffets  e grandes estruturas de palco como se viu na Festa de São Salvador. Veja só: o Cepop , que é uma obra de R$ 100 milhões, que se justifica para economizar dinheiro com aluguel de estruturas desmontáveis, vive às moscas a maior parte do ano porque o governo Rosinha quer manter, por exemplo a festa de São Salvador na praça. Ora, a Festa do Padroeiro pode ser na praça mas os shows como da Banda Cheiro de Amor e Michel Teló poderiam ter sido no Cepop. Ou alguém acredita que o tradicional público da festa católica foi à praça ver Michel Teló? Eu ouvi a prefeita Rosinha dizer, na mesma entrevista da Patricia na rádio, que não da para levar o palco do Cepop para a Praça. Ora, então leve os shows da praça para o Cepop. Então, a centralização elimina o pior inimigo do populismo que é o debate. Numa direção mais capilarizada nos organismos culturais sob a tutela da administração municipal, muitos dos erros cometidos hoje seriam evitados. Mas penso este governo quer é isso mesmo: juntar multidão para alienar num imenso e permanente comício. Então, para quê diversificação de opiniões? Basta meia dúzia de executores para fazer a vontade da prefeita pródiga,  gastadeira e alcançar o projeto desse grupo de permanência no poder.

Folha – Quem acompanha os bastidores da política, sabe que Patricia, via Linda Mara, é pessoa da conta de Rosinha, o que, por surreal que pareça, não é a tônica dos muitos cargos da Prefeitura de Campos. Cultura à parte, enxerga algum objetivo político e/ou financeiro nesta parte que cabe à prefeita no latifúndio bilionário do seu próprio governo?

Ricardo André – É intuitivo, mas acho que a prefeita pensa assim: “poxa, o Garotinho manda aqui, ali, o vereador tal indicou o secretário sicrano, os partidos ‘x’ e ‘y’ me empurravam beltrano e fulano e eu mesma que tive 160 mil votos não tenho o meu pessoal, a minha turma?” Repito: é intuitivo mas sei que o próprio Garotinho defendeu mudança na presidência da Fundação, mas a prefeita bateu pé e ainda submeteu à sua pupila os presidentes das fundações extintas, ou seja, Trianon, com João Vicente Alvarenga, e Zumbi dos Palmares, com Jorge Luiz dos Santos, além do próprio Orávio, que era o secretário de Cultura. Hoje os três são subordinados à presidência da FCJOL. E todos os três indiscutivelmente mas experientes que Patricia. Na época eu postei no blog, e agora repito, que a “Cultura foi a grande vítima da reforma de Rosinha”.

Folha – Por falar em Linda Mara, você disse em seu blog que ela assumiu o lugar de Mauro Silva, que por sua vez voltou à Secom, para fazer na Câmara o que nenhum vereador governista tem feito: defender Patricia Cordeiro à frente da FCJOL. Por que ela estaria disposta a fazer o que ninguém mais quis? E por que essa defesa, em suas palavras (aqui), seria “irracional e apaixonada”?

Ricardo André – É verdade que, com uma base aliada tão grande, com 21 vereadores, os interesses são muitos e às vezes concorrentes. Os vereadores não entram com profundidade em nenhuma discussão. Ficam na superfície dos assuntos, numa defesa pessoal e apaixonada da prefeita e do marido dela como se fossem amestrados para isso. Não argumentam com raciocínio lógico sobre as questões levantadas pela oposição. Há exceções, claro, mas entre 21 vereadores praticamente apenas dois, Paulo Hirano e Abdu Neme, têm um discurso mais ou menos articulado como a gente pode ver, por exemplo, quando está em discussão algum requerimento de informação formulado por algum dos quatro vereadores da oposição. Aliás, acho que a oposição perde a oportunidade de usar isso a seu favor, ou seja, são apenas quatro, mas todos falam muito bem da tribuna, são bem informados e deveriam partir para o embate contra a bancada governista que, apesar de majoritária carece de bons oradores e se limitam no rame-rame da mera repetição de repetir a cantilena do chefe . Nesse sentido, acho que Linda Mara, minha afilhada do primeiro casamento e a quem prezo, tem pouco a oferecer, porque apesar da experiência de rádio tem pouco traquejo na interatividade que a atividade parlamentar exige. Vai ser mais uma a ser perder na maioria na vala comum dos aliados que se limitam a votar de acordo com os interesses da prefeita e não da cidade.

Folha – Ainda em relação à entrevista de Patricia ao site, em nenhum momento foi perguntado a ela sobre as denúncias de favorecimento da banda A Massa, cujo percursionista é seu marido, nas contratações com dinheiro público pela Fundação que preside. Como jornalista e alguém que já integrou o governo, entende que essa satisfação pública, até para se negar e desmentir, seria devida?

Ricardo André – Acho essa história de A Massa, Lucas Cebola e outras bandas que estariam sendo contratadas seguindo o mesmo itinerário de interesses, o menor dos males e o menor dos gastos que a gente verifica todos os dias, até mesmo para a área cultural. Para  quem acompanha o Diário Oficial é fácil perceber que as despesas com as bandas locais em alguns casos são até constrangedoras de tão baixos os cachês em detrimento dos artistas de fora. Então, o favorecimento parece existir num contexto total e não apenas em relação ao marido da presidente da Fundação. Por exemplo, artistas que são reconhecidamente amigos da prefeita, como a cantora Joana, com cachê de R$ 50 mil; Elymar Santos, de R$ 38.900 ; e o agora companheiro de partido, Neguinho da Beija Flor, que recebeu R$ 53.108, estão sempre sendo contratados para cantar na cidade. As bandas locais ganham muito pouco, quase nada perto de cachês como os de Maria Bethânia, a R$ 233.750,00, ou Michel Teló, que custou R$ 158.950,00. Todos esses valores são oficiais e foram postados em meu blog com recortes dos atos oficiais do Diário Oficial. No verão do Farol de São Thomé, por exemplo, foram cerca de R$ 2 milhões só em cachês, fora os trios elétricos, palcos, transporte, hospedagem, luz, som, bufett, segurança, etc. Quanto ao fato de a PMCG ou FCJOL não se  pronunciarem sobre as críticas que recebem, isso é uma determinação de governo ignorar tudo e tentar desqualificar o crítico. Um governo que tem em torno de 70 % de aprovação pode fazer isso. Mas que cidade não daria uma aprovação tão alta com uma campanha de televisão tão massiva como estamos vendo agora. Em cada intervalo da programação das retransmissoras locais da Globo e Record entra propaganda da Prefeitura de Campos e que mostram uma cidade sem problemas, com remédios nos postos de saúde e onde até o Ferreira Machado é hospital de primeiro mundo, Um governo que estupra a realidade desse jeito precisa dar satisfação a alguém?

Folha – Soffiati citou o pensador francês Abraham Moles para considerar a cultura pública de Campos, desde o primeiro governo Anthony Matheus, como “autoritária” e “populista”. Ele foi além, afirmando que o grupo político que assumiu o poder em 1989, passou a ver a cultura como uma maneira de se fazer política partidária e ganhar dinheiro ilícito. Como alguém que participou do primeiro escalão da Prefeitura entre 1990 a 96, tem algo a dizer sobre o que viveu e viu?

Ricardo André – O grupo político que assumiu em 1989 almejava mudar o mundo e acho que conseguimos alguns êxitos no início. Para mim, pessoalmente, o divisor de águas foi 1994, na primeira candidatura de Garotinho ao governo do Estado, quando ficou claro que o sonho não era de um grupo e sim a obsessão do líder do grupo. E para literalmente financiar este sonho valia tudo e penso que na raiz de tudo, de todos os males, desvios de conduta e todos os malfeitos de 94 para cá são para alimentar essa obsessão. E aí entram os oportunistas que ganham fortunas para integrar essa engrenagem. Mas nem sempre foi assim. Sou de um tempo em que não tínhamos carro oficial, quando hoje são dezenas alugados e alguns até blindados; quando viajávamos com dinheiro do nosso bolso, quando eu mesmo fui a Cuba em 1991, na comitiva de Garotinho pagando a própria passagem. O que eu vi em seis anos de governo foi uma mini-revolução numa cidade que tinha duas creches, poucas escolas, não tinha pronto socorro. É certo em 1989 tinha uma nova Constituição em vigor que deu mais dinheiro aos municípios e os royalties começam a, timidamente ainda, a pingar nos cofres da Prefeitura. Mas havia uma vontade enorme de romper aquele ciclo comandado há décadas por Zezé Barbosa, Rockfeller e Alair Ferreira, que era o que mais repudiávamos. Com Garotinho, à frente daqueles homens e mulheres, todos na faixa dos 30 anos, demos o melhor de nossas vidas por um projeto que, pelo menos eu, pensava ser para a cidade. É dessa época o início da construção do novo Trianon, da primeira grande reforma do Teatro de Bolso, do início do projeto “Pra Ver a Banda Passar”, que por vários anos garantiu a subsistência das bandas tradicionais de Campos. Não houve um ano neste período em que a Prefeitura não promovesse festivais de teatro universitário, infantil e das escolas municipais, sem falar nos festivais de música e poesia. Só restou o de poesia. Investir dinheiro público em comunicação já estava no modus operandi de Garotinho, mas tínhamos uma preocupação de usar boa parte da verba para campanhas educativas e para apoiar peças de teatro com anúncios na televisão. Em termos de comparação tudo é muito distante. Para se ter uma ideia, o orçamento da Secom no último ano da minha gestão, em 1996, era de R$ 600 mil, enquanto em 2013, é de R$ 16 milhões. Cristina Lima, com quem trabalhei em parceria todo esse tempo, eu na Secom e ela na FCJOL, disse aqui mesmo na Folha que o que ela gastou no verão de 1996 foi em torno de R$ 190 mil reais. Mesmo com a inflação no período, que não foi grande coisa, é uma distância amazônica, como diria Nelson Rodrigues. No último verão, o governo Rosinha gastou R$ 190 mil só com o cachê de dupla sertaneja Jorge e Matheus. Ressalto que esse fenômeno da espetaculização com dinheiro público não é só em Campos. É um mal que se alastra pela região e praticamente todo o país.

Folha – Em outra análise historiográfica, Deneval afirmou que aquilo que identificou como “garotização” foi “péssimo” à cultura de Campos. No que viu dentro e depois fora do governo, qual a sua avaliação?

Ricardo André – O garotismo não foi péssimo apenas para a cultura de Campos. A história vai mostrar que a transformação do município numa capitania hereditária ainda vai nos custar décadas de atraso. Esse falta de compromisso com a res publica e a utilização privada dos bens que são de todos como se fosse a regra, vai deixar marcas profundas, muito maiores daquelas que tentamos apagar e deixadas pelos coronéis do passado. Superaram em tudo. Hoje temos uma sociedade civil cooptada e não pelos belos olhos dos governantes. É doação de um terreno da municipalidade para uma entidade de classe aqui, uma verba para ajudar outra entidade a realizar um evento ali e não há mais ambiente para crítica. E isso é terrível porque o governante e sua entourage se habituam à bajulação e recebem crítica como ofensa. Jânio Quadros dizia, embora não sei se praticasse, que preferia o “elogio que constroi ao elogio que corrompe”.

Folha – É irônico um grupo que assumiu o poder em Campos, egresso do teatro, hoje sofrer tantas críticas justamente em sua política cultural?

Ricardo André – Em Campos não existe uma política cultural. Existe só a política eleitoral. Tudo é feito de olho no eleitor. O foco é o voto e como fazer para conquistá-lo. Parece que Campos  não tem cidadão, só eleitor. Aqui e ali tem uma iniciativa ou outra, mas o forte, como já disse, são os eventos grandes e caros com utilização de grandes estruturas alugadas e para juntar gente. O governo Rosinha não desce do palco nunca. Cadê o programa de incentivo à leitura? Com o dinheiro de um show de Jorge e Matheus e outro de Maria Bethânia você compraria um caminhão para fazer uma biblioteca itinerante. Dois shows de Michel Teló garantiriam a sobrevivência, por mais de um ano, das centenárias bandas que estão à míngua. E a política de publicação de livros de autores campistas?  Formação de plateias para teatro? Nada! Cinema itinerante? Nada! Então não temos política cultural. Cultura no governo Rosinha, só a da gastança.

Folha – Você participou da gênese desse grupo político desde os seus tempos de palco, no início dos anos 1980. Como foi a experiência de ensaiar, atuar e viver o burburinho da encenação de peças como “Precisa acontecer alguma coisa”, em 83, escrito e dirigido por Anthony e Fernando Leite, ou “Brava gente brasileira”, em 85, escrita por Fernando e dirigida pelo hoje deputado federal e pré-candidato a governador do PR, ambas no Teatro de Bolso?

Ricardo André – Foi um período extremamente rico para todos nós que o vivemos. Éramos todos muito jovens, idealistas, cheios de energia para mudar o Brasil que ainda vivia o final de uma ditadura militar e os textos eram políticos, panfletários e com foco nas questões sociais locais. “Precisa Acontecer Alguma Coisa” completa 30 anos agora, em outubro ou novembro, e o texto retratava os núcleos da sociedade em esquetes: a família, o partido político, o casamento e a igreja. Amarrando tudo isso tinha um editor de jornal, personagem de Anthony, chamado Martinho, numa homenagem a Martinho Santafé, jornalista que atualmente mora em Macaé. Enquanto aguardava um telefonema do hospital sobre o parto de seu primeiro filho e a expectativa de acontecer alguma coisa que valesse a manchete do jornal, Martinho comentava as cenas até que seu filho nasceu e esta virou a manchete do jornal que era distribuído à platéia. Neste jornal tem um artigo meu que diz assim: “o texto soou assim como um clarim, não de verdades absolutas, pois utópico seria, porém, como um clarear dentro de nós, de conscientização de que alguma coisa precisa ser feita. Primeiro dentro de nós, depois, dentro das instituições das quais fazemos parte, para assim, transformarmos a sociedade”.

Folha – Alguma coisa se perdeu nesses mais de 30 anos de imitação entre a vida e a arte? O que, quando, como, onde e por quê?

Ricardo André – Relendo agora o texto acima, vejo que evolui muito pouco nestes 30 anos. Penso como pensava em 1983. Quem mudou não fui eu. Quando mudaram eu não estava por perto. Quando? Quando se deixaram mudar ao invés de mudar os outros e o porquê não me arrisco a palpitar. Da minha parte, me contento em dar minha contribuição como jornalista, profissão da qual não mais sobrevivo, mas exerço-a como voluntário num blog ao qual dedico boa parte das minhas horas de folga.

Folha – Em seu entender, como aqueles Anthony e Rosinha dos anos 80 enxergariam e reagiriam, no palco e fora dele, à política feita pelos dois, hoje, no município? Falta a quem a eles se opõem a efervescência e a coragem daquele Bolinha ainda pré-Garotinho? Seria possível para um grupo de teatro da Campos de hoje chegar aonde vocês chegaram? Por quê?

Ricardo André – Por muito menos meteram o pé na porta assumiram, vergo que hoje conjugamos  “ocuparam”, o Teatro de Bolso no último dos três governos Zezé Barbosa. Como acho que  a história não se repete nem como farsa, acho que vai levar muito tempo para Campos produzir outro Bolinha ou outro Garotinho, tanto para o bem quanto para o mal, não respectivamente e sem maniqueísmo. Se a oposição, que como disse a deputada Clarissa Garotinho, “não faz nem cosquinha”, tivesse metade da disposição do Bolinha, ou metade da disciplina do Garotinho, o embate político local não seria tão desigual. Uma parte da oposição finge ser oposição e outra é menos corajosa do que se esperava.

Folha – Artur Gomes, que chegou a participar do primeiro governo municipal de Anthony, embora tenha afirmado que o então prefeito começou a romper com as diretrizes do “Muda Campos” já a partir de 1991, não deixou de se lembrar saudoso daquele primeiro verão do Farol, em 89, quando afirmou que Campos tinha mais cultura, com muito menos dinheiro, sendo endossado por Cristina Lima, então presidente da FCJOL. Concorda com ambos? Também sente saudades? Do quê?

Ricardo André – Pode ser o romantismo dos derrotados, mas sinto falta das dificuldades que nos obrigava a ser mais criativos. Das noites no Bar Doce Bar depois dos ensaios ou dos espetáculos. Das sessões de cinema que fazíamos num circo à Beira-Mar nos primeiros verões no Farol de São Thomé…

Folha – Em seu blog, o jornalista Alexandre Bastos usou (aqui) uma foto do show de Michel Teló na festa de São Salvador, com 40 mil pessoas, para constatar que foi mais que o dobro da somatório de público do ato em defesa dos royalties, dos protestos dos Cabruncos Livres, da passeata dos médicos e do abraço ao Asilo do Carmo. No frigir dos ovos entre cultura, saúde, solidariedade e, sobretudo, política, é essa aritmética que de fato interessa a quem governa Campos? Há como mudar?

Ricardo André – Essa história de calcular multidões é, geralmente, furada. Duvido que caibam na Praça São Salvador 40 mil pessoas. Na segunda passeata dos Cabruncos tinha um público compacto, praticamente da Praça das Quatro Jornadas até à Catedral. Então, quem me garante que no evento dos Cabruncos tinha 5 mil pessoas e no Michel Teló 40 mil? Com os Cabruncos eu estava lá; no show de Teló, não, é claro! O que faz as pessoas se juntarem é a mobilização de cada um e de seus grupos sociais e, eventualmente em momentos de consciência coletiva, como nas passeatas de junho deste ano e nas concentrações pelas diretas já em 1983/1984. Para o governo, qualquer governo, multidão boa só se for a favor. Contra é oposição raivosa. Como mudar?  Fico com o nosso grande Ariano Suassuana sobre as três grandes virtudes cristãs, “claudico na fé, deixo a desejar na caridade e tento me salvar na esperança”.

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Debate sobre a cultura de Campos cresce do debate

Como qualquer debate sem dono, aquele aberto sobre a cultura de Campos, há algum tempo, tem se alimentado e crescido a partir do próprio debate. Seja a partir da Folha impressa e/ou virtual, deste blog, da democracia irrefreável das redes sociais, ou das simples e velhas rodas de conversa, várias são as sugestões e os caminhos ainda não percorridos, que têm sido apontados por quem, felizmente, ainda se mostra capaz de discutir arte e cultura além das circunvoluções do próprio umbigo. Neste sentido, o blog republica abaixo, na forma mais relevante de post, as sugestões do professor, escritor, crítico de cinema, ambientalista e imortal da Academia Campista de Letras (ACL) Arthur Soffiati, feitas aqui, em comentário a este “Opiniões”, que se agregarão à pauta futura (e necessária) do debate…

Arthur Soffiati

Até aqui, tenho gostado muito das entrevistas criticando a política cultural autoritária e populista do atual governo municipal. Creio não ter errado em perceber que as críticas à prefeitura por censurar Nelson Rodrigues são apenas erupções de um processo de vulcanismo mais profundo que desagrada aos artistas e intelectuais de Campos. A entrevista da Presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima foi realmente sofrível. Na tentativa de justificar as atitudes do governo municipal, ela acabou por afundar mais ainda o grupo Garotinho.
Mas tenho uma nova questão: e se, na próxima eleição municipal, elegermos um prefeito disposto a abrir o espaço merecido para a cultura, o que proporíamos? E se, usando uma expressão muito vulgarizada, passássemos de estilingue a vidraça, qual seria a nossa posição? Se um dos entrevistados fosse convidado a organizar o setor cultural, quais seriam as suas propostas?
Arthur Soffiati

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Todas as vertentes da cultura são atendidas em Campos? “É mentira!”

Como alguém que dedicou à militância nas artes os 43 últimos anos, dos 58 que tem de vida, com a bagagem dois FestCampos vencidos como poeta e mais de 100 peças montadas, inclusive no Rio de Janeiro, como diretor teatral, pode estar hoje desempregado e há um ano sem encenar nada numa cidade de orçamento bilionário e governada por um grupo político egresso do teatro? Na imitação tragicômica entre a arte e a vida, talvez nenhum caso pessoal encarne melhor o atual cenário da cultura de Campos do que o de Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi. Presente a todas as manifestações organizadas pelos artistas locais em protesto contra a denúncia de censura a “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon (relembre o caso aqui e aqui), ele foi também o primeiro a encenar uma peça no teatro hoje referência de Campos, quando este ainda estava só no esqueleto, em 1995, com “Gota d’água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes (480 a.C/ 406 a.C.). Ecoando quem inventou o teatro, a democracia e uma tal civilização ocidental, Kapi respondeu à presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL),  a quem foram concedidos plenos poderes sobre a cultura pública de Campos. Se ela afirmou em entrevista que “todas as vertentes da cultura do município têm sido atendidas”, o diretor de teatro e poeta goitacá foi lacônico: “É mentira!”

(Foto de Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)
(Foto de Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)

Folha Dois – Você participou de todas as manifestações dos artistas de Campos, desde a denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha. Até agora, qual é o saldo?

Antonio Roberto Kapi – Apesar de muito blá-blá-blá e do individualismo da natureza ególatra do artista campista, como bem disse Soffiati (aqui), acho que o saldo é positivo, principalmente pelo debate suscitado através do face e das entrevistas dadas por artistas e intelectuais à Folha da Manhã. Por inúmeras vezes tentei unir os diversos segmentos da classe  artística para lutar em prol do bem comum, mas sempre me deparei com barreiras e suspeitas de que eu estava liderando movimentos em benefício próprio. Espero que desta feita o movimento sem lideranças vingue e seja vitorioso em suas reivindicações.

Folha – O professor e escritor Arthur Soffiati afirmou em entrevista que a discussão sobre a cultura de Campos importa mais do que aquilo que a gerou. Concorda? Por quê?

Kapi – Claro que sim. Essa política cultural (?) que vigora no município há muito,  é uma política equivocada, calcada no princípio romano da política do “pão e circo”, que leva diversão para o povo, não cultura e não contribui em nada para a formação e o crescimento do ser humano que aqui vive. Não que a população não tenha direito à diversão, mas cultura é bem diferente de lazer e a indústria cultural de massa tem meios eficazes de se perpetuar, não depende de verbas públicas, a não ser quando serve a outros propósitos. Acho que a censura a “Bonitinha, mas ordinária”, do genial Nelson Rodrigues, foi providencial ao mostrar a cara da pobreza cultural e da incompetência dos gestores desta política. Foi o detonador de um processo de indignação da classe artística.

Folha – Sobretudo após a entrevista de Soffiati, que embora não tenha sido o único, foi quem mais abertamente criticou também os artistas locais, alguns destes acusaram o golpe, chegando a questionar o próprio debate. Como alguém que milita no meio há mais de 40 anos, há como se pretender fazer cultura sem debatê-la?

Kapi – Há que se considerar o fato de que toda a classe é composta de diversos indivíduos, inclusive a artística, com os mais diversos níveis de formação e talento. Cada um reflete no seu processo de criação o que absorve do mundo. Esse embate depende basicamente de sua capacidade intelectual e deságua no exercício dialético do debate. Muitas vezes sem nem mesmo entendê-lo.

Folha – Essa reação negativa de alguns artistas teria sido apenas vaidade ferida por quem se viu criticado numa discussão da qual talvez se julgasse dono, ou poderia ser algo mais, como as dificuldades que a continuidade do debate podem ter gerado em projetos pessoais junto à FCJOL?

Kapi – A classe artística local é bem diversa. O único elo comum é a vaidade. Não creio em artista modesto. E essa vaidade muitas vezes faz com que o artista não meça esforços para dar vazão ao seu exibicionismo. Só que não tem como ser “Arlequim, servidor de dois amos”. Ou você serve à causa ou aos seus interesses pessoais.

Folha – A partir da denúncia de censura de Nelson, o poeta Artur Gomes propôs (aqui) encenar em protesto “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, nos jardins do Trianon. Depois, Soffiati propôs a formulação coletiva de uma notícia-crime ao Ministério Público para se investigar o suposto superfaturamento dos shows. E, sobre uma proposta e outra, nenhum artista sequer se pronunciou. Falta coragem?

Kapi – Acho que a remontagem do “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, ironias à parte, bem pertinente, até porque protestar pela arte fazendo  arte tem tudo a ver. Estamos juntos, Artur, pode contar comigo. Quanto à proposta de Soffiati, acho que “…não é que falte coragem, tá sobrando medo…”. Ninguém tá afim de dar a cara a tapa. Mesmo porque, falemos a verdade: se o Ministério Público de Campos quisesse de fato, já teria feito alguma coisa.

Folha – Também professor e escritor, Adriano Moura ressalvou (aqui) que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”. Soffiati foi além ao afirmar: “Ele (o artista de Campos) está no poder não para atender ao público, mas para realizar suas ambições pessoais e para ter uma fonte de renda”. Via de regra, é isso mesmo?

Kapi – Como diz meu amigo Murilo Dieguez: “É cada um por si e Deus contra”. Mas se houvesse uma política cultural justa o artista se daria ao respeito. Pois respeito não se vende, não se impõe, se dá. Mas tentando sobreviver de sua arte, só se entregando ao que chamamos no teatro de caça níqueis.

Folha – Não só Adriano, Soffiati e Artur (aqui), mas também os professores Deneval de Azevedo Filho (aqui) e Cristina Lima (aqui), além do diretor de teatro José Sisneiro (aqui), foram unânimes em confirmar a existência da cultura do pires na mão, entre os artistas locais, em relação ao poder público. Acha que ela interessa mais a quem se acomoda em ser pedinte ou a quem escolhe se atende ou não? Há como mudar? Interessa mudar?

Kapi – Antes do advento do garotismo sempre se produziu cultura em Campos, em todos os segmentos. Cheguei a ganhar dinheiro fazendo teatro. À época, o único espetáculo que dirigi produzido pelo poder público municipal foi “Arena contra Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1988, quando da inauguração do Parque Alberto Sampaio, no governo de Zezé Barbosa, quando a cultura do município era vinculada a um departamento e comandada pela professora Diva Abreu Barbosa. Depois começou a ser implementada uma política cultural (?) calcada em eventos, pura e simplesmente. Houve um tempo em que tínhamos oportunidade de assistir aos consertos do “Projeto Aquarius”, em que a folclorista Ana Augusta Rodrigues capitaneava a cultura popular e nos induzia a respeitá-la e valorizá-la. Hoje temos o Milton Cunha a ditar regras, sabe-se lá a que preço, sobre nossas manifestações culturais mais genuínas. Vivemos num tempo que em muito nos faz lembrar o filme “Mephisto”, de István Szabó. Se há como mudar? Claro que há. Depende de vontade política. Afinal, o Fundo Municipal de Cultura foi criado pra quê? Com dotação orçamentária e editais que contemplem os diversos segmentos, é a forma mais democrática e justa de se implementar uma política cultural no município. Essa história de se criar demandas é pura balela, embromação. Tentando contribuir para a efetiva implantação do fundo, consultei um tributarista, que me esclareceu sobre a inconstitucionalidade de se atrelar a dotação ao IPTU e ao ISS. Mas com relação aos royalties não há impedimento legal, o que falta é vontade política. Mas a municipalidade vetou, por achar elevado, o percentual de 0,1% proposto por Vilmar Rangel ao elaborar a minuta do projeto de lei de criação do Fundo. O que daria algo em torno de R$ 500 mil ao ano. Só o cachê da Bethânia foi em torno da metade deste valor. E eles acham este valor elevado? Faz-me rir!

Folha – Você trabalhou no primeiro governo de Anthony Matheus, além das administrações Sérgio Mendes, Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber. Que diferenças observou não só entre cada uma delas, como também naquilo que viu de fora nas gestões Rosinha, integrando o processo que Deneval chamou de “garotização” e julgou “péssimo” à cultura de Campos? Soffiati está certo ao considerar essa política cultural ao longo de 24 anos como “populista” e “autoritária”? Por quê?

Kapi – Em 1989, tudo era novidade. Minha geração chegara ao poder e entendíamos que a máxima teatral, “O espetáculo não pode parar”, deveria ser o lema de nossa ação. Trabalhávamos muito, até que fizemos com que ele (Anthony) fosse considerado um grande administrador. Mas depois dos dois primeiros anos, a máscara começou a cair. Já no governo de Sérgio podemos implementar uma política de cultura e de turismo verticalizada. Chegamos a trazer uma faculdade de turismo para Campos. Do segundo governo de Garotinho, me neguei a participar. Quando Arnaldo assumiu passamos a viver  uma fase de efervescência cultural, tanto no que tange à política cultural quanto à política de eventos em si,  no que pese a forma de fomento implementada. Já no governo Mocaiber,  tivemos a excelente atuação de Luciana Portinho à frente da cultura, que muito incentivou o artista local. Todas tiveram seus equívocos, erros e acertos. Mas nada supera o retrocesso, o populismo e a exclusão da política cultural (?) atual, que embora eu tenha em seu estafe pessoas do quilate de Orávio, de  João Vicente, de Leninha, concentra todo poder e a caneta nas mãos de quem nem sabe quem é Nelson Rodrigues.

Folha – Leu a entrevista feita com a presidente da FCJOL no site Campos 24 Horas (aqui), sobre as críticas que a política pública da cultura do município vem sofrendo? Entre outras coisas, ela afirmou que todas as vertentes da cultura de Campos têm sido atendidas. Concorda?

Kapi – É mentira! Somente uns poucos privilegiados têm acesso às benesses do poder. Com exceção das bandas de axé, de pagode e similares e algumas instituições que botaram a boca no trombone, todos estão à míngua, tentando fazer das tripas coração para exercer o seu mister.

Folha – A presidente da FCJOL também defendeu na entrevista a centralização de toda política pública da cultura de Campos em suas mãos, feita a partir da última reforma administrativa de Rosinha, num movimento criticado publicamente por Artur, Adriano, Deneval, Soffiati, Cristina e Sisneiro. Você, o que achou?

Kapi – Essa reforma administrativa foi um verdadeiro retrocesso. Não tem explicação lógica que a justifique. Quem é Patricia, no que tange à cultura? Qual a sua experiência enquanto gestora? Quem é ela face a Orávio e João Vicente? Com essa defesa, ela demonstra claramente porque está ocupando o cargo que ocupa. “Só se conhece verdadeiramente um homem quando ele detém o poder e legisla as leis”, como asseverou Sófocles, em “Antígona”.

Folha – Ausente na entrevista foi a pergunta sobre as denúncias de favorecimento nas contratações pela FCJOL da banda A Massa, cujo percursionista é marido da presidente da mesma FCJOL. Mas o fato é que também nenhum artista tocou no assunto, nem na reunião com a presidente, em 17 de julho, nem na Conferência Municipal de Cultura, três dias depois, ambas com a sua presença. O assunto é tabu?

Kapi – Não acompanho de perto as contratações da Fundação. Tudo que sei é através do face e considero esse um nepotismo deslavado. Consta que a denúncia contra Patrícia Cordeiro e seu marido, por improbidade administrativa, já está  feita no Ministério Público. Cabe, portanto, à prefeita e/ou ao Ministério Público abrir uma investigação para apurar os fatos e cumprir a devidas sanções. Se é tabu, temos que reivindicar que este seja quebrado.

Folha – Por falar na Conferência de Cultura, você perdeu a eleição de delegado para representar Campos na Conferência do Estado, em meio a vários indícios de irregularidade e manipulação no pleito, apontados (aqui) pela estilista Lívia Amorim. Por que essas denúncias não foram até hoje formalizadas à secretaria estadual e ao ministério da Cultura? É assunto posto? Sua eleição mudaria alguma coisa?

Kapi – Na realidade, eu estou eleito sim. Segundo Orávio, alguns participantes não oficializaram suas inscrições, o que levou a diminuir o número de representantes de três para dois, já que este deveria ser proporcional ao número de representantes da sociedade civil na conferência. Como ele correu atrás das pessoas para que estas se inscrevessem após o término da Conferência, a proporcionalidade passou de dois para três representantes. Afinal, eu já fui representante eleito da sociedade civil pela região Norte Fluminense no Conselho Estadual de Cultura. Devo ter alguma importância neste contexto.

Folha – Você é um dos principais defensores da implementação do Fundo Municipal de Cultura, aprovado desde o fim do governo Mocaiber e empurrado com a barriga nos cinco anos seguintes de governo Rosinha. Por que ele seria tão importante e como fazer para que finalmente se torne realidade?

Kapi – Como já disse, essa história de nós artistas criarmos demandas é pura balela. Acho lastimável que um governo cuja origem está nos palcos trate a cultura com tanto menosprezo.  Esperava mais de Orávio, um intelectual e agente cultural com um histórico invejável. Acho que ele comete alguns acertos quando o deixam trabalhar, mas com a experiência e o currículo que tem, vê-lo jogando o jogo dos contentes é deplorável. Se a política municipal de cultura estiver alicerçada no Fundo e gerenciada pelo Conselho, acredito que teremos uma política cultural de fato. Acho que só conseguiremos isso deixando as vaidades e os interesses pessoais de lado e nos unindo para pressionar o Legislativo a abraçar a nossa causa. Com certeza, quem abraçá-la estará bem na fita com a classe artística.

Folha – Deneval e Soffiati lembraram a necessidade de interação entre os agentes culturais e as universidades do município, muitas vezes isolados em seus saberes. Entre 1994 e 2005, você dirigiu o departamento de cultura da Faculdade de Odontologia de Campos (FOC) e há pouco concluiu uma bolsa na Uenf. Qual a importância desse diálogo e como ele poderia evoluir no município?

Kapi – Sou do tempo em que a educação formal se baseava em preceitos humanistas, o que muito contribuiu para a formação do cidadão que hoje sou. Quando Lusitano me convidou para atuar na FOC como diretor teatral, vislumbrei a possibilidade de implantar uma coordenação cultural que pudesse incutir nos alunos uma consciência humanística que os levassem a uma consciência critica de seu papel social enquanto profissionais. Deu super-certo. Implantamos oficinas de teatro, canto coral, artes plásticas, buscando uma interação escola/comunidade  que começou com a montagem de “Os órfãos de Jânio”, de Millôr Fernandes e culminou com a montagem de “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles, que envolveu 100 pessoas em cena, entre alunos da FOC, da FDC e integrantes da comunidade do Matadouro. Já na Uenf, a visão tecnicista da educação dificultou um pouco a implementação de uma leitura humanista da formação acadêmica. Somente através da arte o ser humano é capaz de depurar sua sensibilidade. Não que todo mundo deva ser artista, mas a depuração da sensibilidade possibilita uma leitura mais humana do mundo.

Folha – Em seus tempos na FOC, você foi o primeiro a montar uma peça no Trianon, em 1995, ainda com o teatro só no esqueleto, sem teto. Como foi aquela encenação de “Gota d’Água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes? Cristina Lima disse sentir falta dos artistas de Campos no Trianon. E você?

Kapi – À época, embora integrasse o governo Sérgio Mendes, resolvi montar “Gota d’água” no Trianon no osso, como forma de protestar contra a morosidade da obra, além de provar que os artistas de Campos tinham condições e talento para ocupar aquele espaço. Na minha concepção o palco do Trianon estava para nós, artistas, assim como a casa própria para os operários. Após cada apresentação, fazíamos questão de ressaltar a importância da  obra para a arte campista. No Festival de Teatro Universitário daquele ano, ganhamos todos os prêmios e Angela Bastos, então colunista social da Folha, passou a se referir a mim como “o mestre Kapi” no jornal. Mas não foi somente “Gota d’água” que montei no Trianon. “Terror e miséria no III Reich”, de Bertolt Brecht;  “Sons do Planeta Blue”, de Beth Rocha; “O pássaro azul”, de Maeterlinck; “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu; e “O Bruxo do Cosme Velho”, de Luciana Tavares, fazem parte do meu currículo naquela casa de espetáculos. Infelizmente o Trianon se transformou no grande detonador da produção cultural da cidade, com uma programação que em geral apresenta humoristas globais de qualidade duvidosa, do Zorra Total, um dos piores programas de humor da TV aberta brasileira. Quando não, é cedido para reuniões do estafe municipal, em pajelanças generalizadas, ou congressos e afins. O seu espaço deveria ser destinado exclusivamente para as arte.

Folha –  Ironicamente, a última peça que você dirigiu, há um ano, no Sesc, foi justamente “Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico”. Na condição de quem mergulhou na vida e na obra do maior dramaturgo brasileiro, para reunir ambos no palco, como viu a denúncia da sua censura em Campos e a repercussão do caso em mídia nacional (aqui e aqui)?

Kapi – A sede de poder faz com que às vezes vassalos queiram ser mais realistas que o próprio rei. Não acredito que a iniciativa tenha partido diretamente de Rosinha. Muito menos de Orávio ou de João Vicente. Assim como não acredito nas desculpas esfarrapadas apresentadas para justificar o injustificável. Existe todo um estafe no Trianon capacitado para orientar os grupos e companhias que lá pretendem se apresentar. Se isso não ocorreu, alguém falhou e com certeza não foi o pessoal do grupo “Oito de Paus” (que denunciou a censura). Eu mesmo passei por uma situação no mínimo delicada, quando pretendi montar “Vestido de Noiva”, de Nelson. Quando souberam que eu estava ensaiando a peça, a então Fundação Teatro Municipal Trianon me solicitou o projeto, porque entendiam que o centenário de Nelson não poderia passar em branco. Apresentei o projeto e valores que seriam divididos com o Sesc. Fiquei aguardando até 15 dias antes da estréia prevista, com o contrato com o Sesc já assinado. Como não se dignaram a me dar uma satisfação, me vi obrigado a criar um texto, “Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico”, para não descumprir  o contrato com o Sesc e, além de não receber, ter que pagar a multa devida por quebra de contrato. É uma falta de respeito total, ao teatro, aos artistas, à memória de Nelson. Acho que o Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões) deveria se pronunciar emitindo uma nota de repúdio a esta situação.

Folha – Sobre sua direção de “Meu querido diário”, peça de Adriano interpretada por Yve Carvalho, no Teatro de Bolso, em 2009, a matéria da Folha Dois à época já alertava ao “ostracismo a que pretenderam relegá-lo os podres poderes da planície”. Como alguém com mais de 100 peças encenadas, inclusive no Rio de Janeiro, pode estar hoje desempregado e já há um ano sem montar nada numa cidade governada por um grupo político egresso do teatro? Seu caso resume o da cultura de Campos? E fere?

Kapi – Já estou acostumado com as adversidades. Nasci após três tentativas de aborto, de uma mãe tuberculosa. Há 16 anos adoeci, entrei em coma e sobrevivi sem seqüelas. Em 2009, após ficar desempregado, por apoiar a candidatura de Arnaldo à prefeitura, entrei num processo depressivo que resultou numa tuberculose, que levei três anos pra curar. Herdei de minha mãe a perseverança e sou bom de briga, no sentido figurado. Mas no momento, estou ensaiando “Zoo Story” , “A história do zoológico”, de Edward Albee, com Yve Carvalho e Luis Fernando Sardinha, sem apoio nenhum do poder público. Estamos tentando sensibilizar a iniciativa privada para podermos viabilizar o projeto. Afinal, vaso ruim não quebra, vira craquelê.

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Ricardo André esclarece os esclarecimentos da presidente da FCJOL

CARAPUÇA VESTIDA

Por Ricardo André Vasconcelos, em 26-08-13 – 18h04

Ainda sobre a entrevista da presidente da Fundação Cultural, o Blog veste a carapuça e, antes de comentar, destaca uma resposta de Patrícia Cordeiro:

“Tem coisas que quando eu leio vejo que a pessoa está totalmente desinformada. Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona”.

Este blogueiro tem por hábito antigo ler o Diário Oficial e, com o advento da Internet e suas facilidades, acha importante multiplicar as informações ali contidas como forma de dar aos leitores elementos para formação de juízo de valores. E assim o faz: Acho fundamental que o morador de  Morro do Coco, por exemplo, que tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde, saiba quanto custa o aluguel do palco para a realização da festa de sua comunidade. Assim como qualquer munícipe precisa ser informado sobre quanto custo o calçamento da sua rua, a reforma da escola da comunidade e por aí vai. Assim, quem sabe um dia, o cidadão possa escolher entre gastar R$ 53.108,00 num show de Neguinho da Beija Flor (aqui), R$ 158 mil num show de Michel Teló (aqui), ou R$ 501 mil para aluguel de palco (aqui) ou ter remédio no Posto de Saúde, gaze e esparadrapo nos Postos de Urgência e quem sabe até professores bem formados e bem pagos na rede pública.

E nenhuma das citações acima são referentes a “registro de preço” e sim despesas efetivamente realizadas, no caso dos shows, e referente ao aluguel dos palcos trata-se de extrato do contrato 098/2013 para ser executado em 60 dias por R$ 501.215,00 pela empresa WORKING EMPREEDIMENTOS E SERVIÇOS LTDA, a mesma que aluga banheiros químicos para as festas, reforma escolas e até fornece abrigos de passageiros.

Portanto, este Blog pode até equivocar-se, mas não neste caso e não “omite” opinião. Pode até emitir, mas fundamentalmente divulga informação que é pública, mas inacessível à maioria. E, quanto à possibilidade de equívoco quando se interpreta como um único evento, que tal dar transparência e discriminar todos os eventos atendidos pelo aluguel de equipamentos de todos os contratos? A transparência não é só vacina contra interpretações mal feitas mas também evita eventuais desvios de funcionalidade dos recursos públicos.

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Presidente da FCJOL continua sem esclarecer contratações da banda do marido

Conheço o Fabiano Venancio desde os anos 80, quando ele já era repórter da Folha e eu, ainda um garoto. Posteriormente, nosso contato se estreitou, comigo já atuando na redação do jornal e ele, durante alguns anos, na gerência da rádio Continental. Nessa convivência, desenvolvi apreço pelo homem e respeito pelo jornalista. Não por outros motivos, tomo a liberdade de externar meu estranhamento ao fato da entrevista feita por ele e publicada aqui, em seu site Campos 24 Horas, com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patricia Cordeiro, em meio às 10 perguntas feitas e respondidas, não ter reservado nenhum espaço à indagação sobre as denúncias das contratações, bancadas com dinheiro público municipal, da banda A Massa, cujo percursionista Lucas “Cebola” é marido de Patricia.

Já que a pergunta permanece tabu na política cultural de Campos, sem ser feita e sobretudo respondida, inevitável o espaço escancarado a outra indagação lógica: como o entrevistador frisou que a entrevistada estava tão munida de documentos para fundamentar suas versões, será que ela esqueceu de levar aqueles relativos às contratações da banda do marido, que já foram inclusive alvo de denúncia no Ministério Público Estadual?

Também blogueiro, o advogado e competente fuçador das publicações do Diário Oficial Cláudio Andrade também fez outros questionamentos acerca da entrevista, que podem ser conferidos aqui. Especificamente sobre a banda A Massa e o mistério insolúvel das suas contratações pela Prefeitura de Campos, o professor, poeta e ator Artur Gomes deixou aqui suas observações sempre irreverentes, na democracia irrefreável das redes sociais.

Em respeito ao contraditório (mesmo quando se escolhe o que se pretende contradizer) e na defesa da reforma administrativa da prefeita Rosinha (PR), que concentrou toda a administração da cultura pública do município sob a presidência da FCJOL, movimento abertamente criticado em entrevista não apenas pelo Artur (aqui), como também pelos professores Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui) e Cristina Lima (aqui), além de mais recentemente pelo diretor de teatro José Sisneiro (aqui), o blog pede a licença devida para republicar abaixo a íntegra da entrevista dada por Patricia ao Fabiano…

Presidente dispara: “Todas as vertentes da cultura estão sendo contempladas”

Por Fabiano Venâncio, em 25-08-2013

Ela chegou para a entrevista munida de vários documentos e, em algumas perguntas, manuseava um ou outro, mostrando que tinha convicção do que falava. A presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro, critica algumas pessoas envolvidas em mídia que não sabem, sequer, ler e interpretar o que está publicado no Diário Oficial do Município, principalmente, quando se trata de licitação na modalidade registro de preço, o que, por vezes, causou comentários em rede social, mas “só por quem lê e não entende o que está escrito e interpreta do seu jeito”, afirma Cordeiro. Quanto a fusão dos órgãos municipais de cultura, ela classifica como boa e no meio da conversa explica porquê. No momento se dedica, entre outros, as Semanas Vinícius de Moraes e Nelson Rodrigues, respectivamente, em setembro e novembro.

Patricia Cordeiro (foto: Campos 24 Horas)
Patricia Cordeiro (foto: Campos 24 Horas)

Campos 24 Horas – Vamos começar pelos shows na cidade, a maioria considerado caro. O que você pode falar sobre isso?

Patrícia Cordeiro – Olha, quase sempre a Fundação faz bons negócios e pelo que constatamos através da mídia, os valores pagos aos artistas aqui, são bem menores do que os pagos na região. Para isso, a gente busca a logística do artista, como por exemplo, o momento que ele está em turnê na região Sudeste e, especialmente, nas cidades próximas. Isso e outros detalhes acabam barateando os custos.

C24H – E por falar em shows, lembro do Cepop, que continua sendo visto pelas pessoas como elefante branco…

Patrícia – É preciso lembrar inicialmente, que vários eventos de grande porte já são realizados no Cepop, como Bienal do Livro, Carnaval, Desfile de 7 de Setembro e outros, não precisando mais usar a estrutura qwue usávamos, Mas o Cepop tem estrutura complexa no seu funcionamento e não se pode chegar, ligar uma tomada e tudo funcionar como a gente quer.Ele demanda de som projetado para o espaço, alimentação de energia suficiente e por aí vai. E cada evento que a gente faz ali, consolida o espaço e sua funcionalidade. Não são todos eventos culturais que são concebidos para um espaço como o do Cepop, assim como acontece também no sambódromo, no Centro de Convenções de Manaus e outros.

C24H – Além desses eventos que você citou, o que mais, então, pode dá para fazer no Cepop?

Patrícia – É o que eu estou te explicando, é um local de grande porte, para eventos também de grande porte. Não fica bem para uma pequena produção, proporcionalmente falando.Vou adiantar um evento que está sendo estudado para ser desenvolvido no local: gravação de um DVD. E tem, ainda, a formatura de alunos de uma faculdade da cidade, onde iremos alugar o espaço, agora no final do ano. Também os eventos institucionais, estão migrando para o Cepop, como a Agricultura Familiar e alguns na área de esporte.

C24H – Você tem sido muito criticada ultimamente, podemos dizer até que é a bola da vez. Como recebe essas críticas?

Patrícia – Tem coisas que quando eu leio vejo que a pessoa está totalmente desinformada. Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona.

C24H – Neste contexto está a discutida história de um palco?

Patrícia – Sim. Mas a prefeitura de Campos tem palco próprio, mas não tem um que atenda toda a demanda. Dai a necessidade de licitação de registro de preço para palco e acessórios de palco, que são muitos. Entende?

C24H – Vamos falar da fusão dos órgãos municipais, que fortalece por demais a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima…

Patrícia – Hoje, com a fusão, a gente trabalha mais em consonância com as outras secretarias do que antes, inclusive, nos aproximou mais da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte. E por isso há um alcance maior das ações, porque todos pensam juntos, decidem juntos e o resultado é levado a todos. E os setores da cultura são completos, cada um tem excelência na sua área, o nível de diálogo é bom e elevado, ou sejam todos trabalhando em cima dos projetos da Prefeita Rosinha, que é audacioso.

C24H – Polêmicas à parte, como você vê a cultura em Campos?

Patrícia – Todas as vertentes têm sido alcançadas pelos projetos desenvolvidos e, para começar, posso citar o Festival de Bandas de Garagem, que neste último teve registro de mais de 70 bandas inscritas com os vencedores se apresentando no projeto Aumenta que Isso é Rock in Roll; as Casas de Cultura com cursos de artes e ofícios; o Festival Literário, as Oficinas Literárias; o Curso Livre de Teatro; o Projeto Farol de Todas as Estações já com preparação para o da primavera em parceria com as secretarias de Desenvolvimento Econômico e de Trabalho e Renda, com festival de petiscos e com choro e jazz; os Cafés Literários Antônio Roberto Fernandes, uma pessoa que eu sempre admirei e respeito muito; as aulas de balé e capoeira; os festivais que fazem parte do calendário de festas da cidade e muito mais.

C24H – É verdade que você se reuniu com os artistas, mas que a reunião foi solicitada por eles?

Patrícia – É verdade. E foi muito proveitosa, vários equívocos foram esclarecidos e eles levaram solicitações que nos foram muito bem vindas, como a otimização da agenda do Teatro de Bolso, que vai agora passar por reforma e adequação para acessibilidade, modernização dos equipamentos e por aí vai.

C24H – Teve discussão sobre o sonhado Fundo Municipal de Cultura?

Patrícia – Há tempos que o governo municipal estuda essa questão. Agora temos a consolidação do Fundo que, por determinação da`Prefeita Rosinha, terá recurso destinado, oriundo do orçamento da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Isso vai proporcionar abertura de editais. Um verdadeiro avanço no município.

C24H – Antes de começar a entrevista, você já disse que queria muito falar sobre três consolidações. Quais são?

Patrícia – Claro, não posso deixar de falar na consolidação da nossa Orquestra de Música e no nosso Corpo de Baile, além do nosso Museu Histórico de Campos, importante que tudo isso é de nós campistas, envolvidos com talentos da nossa terra. Inclusive a orquestra vai para Portugal, para uma série de concertos e, quanto a dança, dia 26 Campos vai abrigar um Congresso, que este ano é internacional. Quanto ao museu, totalmente reformado e restaurado, além de guardar os ciclos sociais, culturais e econômicos do município, tem também espaço para exposições temporárias. O mesmo museu que em pouco mais de um ano concorreu a prêmio nacional, o Rodrigo Melo Franco, sendo escolhido no estado do Rio, na categoria governamental, ficando em terceiro lugar. Ele hoje é realidade, já tendo sido visitado por mais de 30 mil pessoas.

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José Sisneiro: “O dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto”

Curto na maioria das respostas, José Sisneiro foi também “grosso” numa delas, em definição própria, ao analisar a reforma administrativa da prefeita Rosinha que concentrou plenos poderes da cultura pública do município na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL): “Abaixo a concentração de poder!”. Com 64 anos e militando no teatro desde os 18, o diretor, dramaturgo, ator e iluminador de teatro, natural de Sergipe, mas campista por adoção, tem acompanhado a discussão sobre os rumos e desrumos da cultura de Campos, mais a partir das suas reverberações também no Rio, onde é diretor-tesoureiro do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated).

(Foto de Ricardo Avelino/ Folha da Manhã)

Folha Dois – Vivendo nos últimos anos entre o Rio e Campos, como tem acompanhado a discussão sobre a cultura da planície, a partir da denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha (relembre o caso aqui e aqui, que ganhou mídia nacional aqui e aqui)? Ela repercutiu no meio teatral carioca?

José Sisneiro – Há alguns anos atrás, falei para algumas pessoas que o avanço de outras religiões no Brasil iria acirrar a disputa pelo poder, usando o domínio das massas. Esse domínio já chegou a Campos, com dinheiro e um pouco de fundamentalismo religioso, influindo de forma definitiva no processo eleitoral. Esse modelo é perfeito para o nosso rico município. Quanto à repercussão do caso, eu sei o que chegou através de renomados artistas do Rio de Janeiro, capital.

Folha – Em entrevista à Folha, o professor Arthur Soffiati afirmou (aqui) que o debate importa menos do que os motivos que o geraram. Concorda?

Sisneiro – Na verdade, vejo que a “censura” abriu as glotes dos que se manifestaram. Mas não sei mensurar neste momento, por não estar participando do foco do debate.

Folha – A última peça que você encenou na planície foi “Conselho de classe”, de Adriano Moura, em 2010. Por que está há três anos fora dos palcos de Campos? Há outro motivo além da sua militância na diretoria do Sated-RJ?

Sisneiro – Há muitos anos, participo da existência de grupos como o “Boa Noite, Amor”. A militância no Sated-RJ me coloca politicamente num furacão maior. Por estar no Rio, participei de algumas vitórias para o interior. No Sated-RJ sou sempre apresentado como representante do interior. Além disso, o Sated-RJ, no qual obedeço expediente através de prestações de serviços, ajuda-me na minha provisão.

Folha – Como produtor cultural você esteve na Prefeitura desde o primeiro governo Anthony Matheus, em 1989, até a última gestão Arnaldo Vianna, em 2004. Conhecendo os dois lados da moeda, qual a sua visão sobre a política pública de cultura praticada ao longo dos anos em Campos?

Sisneiro – O Sr. Anthony sempre foi estrela. O Dr. Arnaldo Vianna sempre foi tiete. Sempre achei que a política do evento só seria salutar se fosse um motivador do desenvolvimento artístico local. Os grandes eventos são produtores de atividades econômica em todo mundo. Todos reconhecem essa importância. Mas temos que priorizar o desenvolvimento do ser humano local, em todas as áreas. Durante o tempo mencionado, a diferença existiu na generosidade e no prazer real do segundo.

Folha – Soffiati e Adriano (aqui) afirmaram que as políticas públicas de cultura, atreladas a um projeto político de poder, são as mesmas em Campos desde 1989. O primeiro citou o pensador francês Abraham Moles para classificar essa política cultural como “populista” e “autoritária”. Por sua vez, o professor Deneval de Azevedo Filho afirmou (aqui): “A ‘garotização’ da cultura foi péssima para Campos”. Como alguém que chegou a participar diretamente desse processo, qual a sua opinião?

Sisneiro – Acho que o populismo é um “ismo” como outro qualquer. não gosto de ser orientado pelos “ismos”, mas, já que eles existem, o domínio através da formatação da ignorância aliada das fantasias religiosas, ou não, geram idiotização. Batemos palmas, ou não, mas sem ao menos saber o por quê.

Folha – Já a professora Cristina Lima, com quem você trabalhou nas duas gestões dela à frente da FCJOL, disse (aqui) ter visto com preocupação a recente reforma administrativa da prefeita Rosinha que extinguiu a secretaria de Cultura e as fundações Trianon e Zumbi dos Palmares, concentrando toda administração da cultura pública de Campos na Fundação restante. Partilha dessa preocupação?

Sisneiro – Serei  curto e grosso: Sim, me preocupo; e muito! Abaixo a concentração de poder! Já vivemos a imposição de idéias, durante a ditadura militar no Brasil, e foi um tempo que não deixou nenhuma saudade em ninguém, sobretudo entre os artistas. A secretaria de Cultura foi a grande perda.

Folha – Os artistas também foram alvo de crítica. Se Adriano ressalvou que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”, Soffiati foi além: “Ele (o artista) está no poder não para atender ao público, mas para realizar suas ambições pessoais e para ter uma fonte de renda”. O que pensa a respeito?

Sisneiro – Todos estão com razão. Não vejo, porém, que só os artistas de Campos sofram desses problemas. A luta pela provisão tem que ter um certo controle. Se não a violência a que nós estamos sujeitos geram bichos incontroláveis.

Folha – Adriano e Soffiati também afirmaram que a polarização política de Campos se reflete entre seus artistas, com o governo defendido por aqueles que com ele estão, tendo como críticos os que ficaram de fora, mas querem entrar. Funciona assim mesmo?

Sisneiro – Tenho percebido que, em toda movimentação política em volta do poder, há aquele sentimento pequeno e mesquinho de “agora é a nossa vez”, “ agora vamos armar o nosso esquema”. Não há verdade dirigida ao coletivo. Em Campos, onde está jorrando dinheiro, precisamos valorizar  “o ser”. Os arcos da Beira Valão não dão nenhuma espécie de alimento interior, mesmo que haja sobra de dinheiro.

Folha – Soffiati propôs a formulação coletiva de uma notícia-crime ao Ministério Público para se investigar o suposto superfaturamento dos shows. O que acha?

Sisneiro – A transparência resolveria. O trabalho artístico não tem tabela.

Folha – Cristina confirmou existir na planície a política do “pires na mão” dos artistas em relação ao poder público, mas ressalvou que seria assim em todo lugar. No Rio, por exemplo, é assim que a banda toca?

Sisneiro – Não gosto de comparar. O fato é que o artista cria com pequenos custos ou com grandes custos. Porém, no ato da criação, o que tem que prevalecer é a realização desse artista, então ele procura recursos materiais e financeiros onde imagina haver possibilidade. Campos não tem indústrias e seus comerciantes não veem nos seus artistas os seus embaixadores sociais. Por isso, o dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto. O último espetáculo que fiz para a Prefeitura foi em 2007 e não recebi até hoje.

Folha – O poeta Artur Gomes afirmou (aqui) que a categoria artística de Campos está “acomodada” e “anestesiada”. Já Adriano lembrou que poucos artistas locais buscam soluções alternativas para mostrar seu trabalho, antes de recorrer à Prefeitura. Você está prestes a reencenar “Conselho de classe” no Rio, na cara e na coragem. Como se arriscar no próprio talento pode ser regra?

Sisneiro – O dicionário me informou que a palavra profissão significa: “formados academicamente ou os que sobrevivem de”. O que na verdade ocorre, é que se a ligação formada for química, ela facilita a liberdade na opção artística, por eliminar a violência da luta pela provisão que nos traz. O “Conselho de classe”, mesmo no Rio, é um desafio campista.

Folha – Depois de reapresentar a peça de Adriano no Rio, tem planos para trazê-la de volta a Campos?

Sisneiro – O meu maior objetivo é expor o Adriano Moura em todos os lugares possíveis.

Folha – Uma coisa que parecem unânime entre os artistas da planície é a necessidade de implementação do Fundo Municipal de Cultura, aprovado desde o fim do governo Mocaiber, mas empurrado com a barriga já há cinco anos. Esse deve ser o eixo da discussão?

Sisneiro – Para nós, brasileiros, o mais importante é o investimento em educação. A boa educação tornará as artes uma grande necessidade de consumo. Isso fará diminuir o poder das farsas controladoras. Newton disse que “para que consigamos enxergar longe é preciso estarmos apoiados em ombros de gigantes”. Esses dias estava lendo um livro, em que vi e anotei uma outra citação, mas sem guardar o autor, que dizia: “Os artistas não devem se afastar de seu tempo, eles devem se jogar na luta e ver o que podem fazer de bom ali. Em vez de manter uma distância segura dos fétidos pântanos dos valores do mundo, devem mergulhar de cabeça neles e agitar as coisas”. E nem importa mesmo quem tenha dito, afinal a verdade é a verdade.

Publicado na edição impressa da Folha Dois de hoje (25/08/13).

Atualização às 16h01 de 26/08 para inserção do crédito na foto.

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