Após ficar numericamente atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas presidenciais AtlasIntel (confira aqui) e Paraná (confira aqui) do final de fevereiro, Lula recuperou liderança numérica na pesquisa Real Time Big Data divulgada hoje (3). Mas em dois empates técnicos no 2º turno: 42% x 41% de Flávio e 43% x 39% do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD).
Dados da nova pesquisa — Feita de 28 de fevereiro a 2 de março com 2.000 eleitores de todo o país, a Big Data foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-09353/2026, com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos. Onde ficam o 1 ponto que Lula teve sobre Flávio e, no limite da margem, os 4 pontos que teve sobre Ratinho ao 2º turno.
Lula lidera fora da margem de erro ao 1º turno — Ao 1º turno, Lula liderou fora da margem de erro os três cenários da Big Data, variando entre 6 a 7 pontos de vantagem sobre Flávio. No cenário 1, por 39% a 32% (7 à frente) e Ratinho com 9%, melhor desempenho entre os demais. No cenário 2, o petista teve 40% a 34% do senador (6 pontos). No cenário 3, Lula teve 40% a 33% (7 pontos).
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula 3 é desaprovado por 51% — Lula continua tendo como obstáculo a maioria dos brasileiros que, em todas as pesquisas, hoje desaprovam o seu governo. Na Big Data, o Lula 3 foi desaprovado por 51% dos eleitores e aprovado por 44%, com 5% que não souberam responder.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula e Flávio lideram rejeição — Como em 2022, se a eleições de 2026 forem em dois turnos, tudo até aqui indica que será outra batalha entre enormes rejeições. Se a rejeição determina o vencedor do 2º turno, Lula e Flávio hoje lideram o índice negativo: 47% dos brasileiros que dizem conhecer cada um, não votariam em nenhum dos dois.
(Infográfico: Joseli Matias)
Flávio tem mais espaço para crescer — Na mesma medição, 9% dos eleitores dizem não conhecer Flávio, número que cai a apenas 2% com Lula. O que é uma vantagem do senador numa campanha presidencial: um pouco mais de espaço para tentar crescer.
Lula pode depender da abstenção — No entanto, os 22% que dizem conhecer e votarão em Flávio, mais os iguais 22% que dizem que podem votar, formam 44%. Os que dizem conhecer e votarão em Lula são 35%. Somados aos 16% que dizem que podem votar, são 51%. O que bastaria para garantir a vitória no 2º turno. Mas, como depende da abstenção, nunca é conta exata.
(Infográfico: Joseli Matias)
William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE
Análise do especialista — “A Real Time Big Data estimulou três cenários de 1º turno e sete cenários de 2º turno. Lula lidera nos três cenários de 1º turno, mas empata tecnicamente no 2º turno com Ratinho, por 43% a 39%; e, principalmente, com Flávio, por 42% a 41%”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.
Flávio e Ratinho têm mais espaço que Lula — “Cabe destacar os 51% de desaprovação ao governo de Lula e sua menor taxa de desconhecimento do eleitorado, apenas 2%, na comparação com Flávio, desconhecido por 9%, e, principalmente, Ratinho, desconhecido por 21%. O que dá aos dois maior potencial de expansão da intenção de voto no futuro”, completou William.
Museu Histórico de Campos sem luz, por furto de cabos elétricos, há 2 meses e 5 dias (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)
“A situação do Museu vai ser resolvida. Até quarta (4) começa a instalação dos cabos de energia furtados. Se o tempo ajudar, sem chuva, acredito que até domingo (8) deve ficar tudo pronto”. Foi o que disse ao blog o prefeito Wladimir Garotinho (PP) sobre a situação do Museu Histórico de Campos. Que está sem energia elétrica há dois meses (confira aqui) e cinco dias, desde o roubo dos cabos, problema que assola o Centro de Campos, no dia de Natal.
Uma equipe da secretaria municipal de Iluminação Pública visitou, no início da manhã de hoje, o prédio do Solar do Visconde de Araruama, construído no século 18, no quadrilátero da Praça do Santíssimo Salvador e onde funcionou a Câmara Municipal de Campos até 1968. No séc. 21, a vistoria constatou na manhã de hoje que o roubo dos cabos pode ter causado mais danos do que o calculado inicialmente e o prazo projetado pelo prefeito pode ser alongado.
— Como gestora, sinto tristeza, mas não resignação, sinto indignação, mas não desânimo. O que construímos ao longo desses anos não se apaga com a falta de energia, porque o acervo permanece, a equipe permanece e o compromisso permanece. Seguimos trabalhando, mesmo em condições adversas, seguimos defendendo o Museu — disse a historiadora Graziela Escocard, diretora do Museu.
Altineu Côrtes, Douglas Ruas, Tassiana Oliveira, Wladimir Garotinho, Gilberto Kassab e Eduardo Paes (Montagem: Joseli Matias)
Se foi cotado e acabou preterido para compor como vice as chapas a governador do RJ do prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) e do deputado estadual Douglas Ruas (PL), o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (hoje, PP), continua cobiçado pelos dois polos que devem disputar o Palácio Guanabara nas urnas de outubro, daqui a pouco mais de 7 meses.
Essa disputa pelo apoio de Wladmir teve dois novos capítulos ontem (1º) e hoje (2). No domingo, ele e a esposa, Tassiana (PL), foram convidados pelo presidente estadual do PL, deputado federal Altineu Côrtes, para um almoço dna casa este, na cidade do Rio. Do qual também participou Douglas Ruas.
Altineu e Douglas querem que Wladimir se filie ao PL, não só para concorrer a deputado federal, após deixar o cargo de prefeito em 31 de março, como para coordenar no Norte Fluminense a candidatura a governador do deputado licenciado para ocupar a secretaria das Cidades do governo Cláudio Castro (PL).
Ainda no Rio, Wladimir recebeu a ligação de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e secretário de Governo e Relações Institucionais do governo Tarcísio de Freitas (REP) em São Paulo. Kassab fez a ponte área SP/RJ e, junto de Eduardo Paes, tomaram hoje o café da manhã com o político de Campos, também na cidade do Rio.
Kassab e Paes fizeram a Wladimir, nesta segunda, um convite muito semelhante ao de Altineu e Douglas no domingo. Os dois primeiros querem que o ainda prefeito de Campos, após deixar o cargo, se filie ao PSD para concorrer a deputado federal. E também coordenar a campanha de Paes no Norte Fluminense a governador.
Conservador, que apoiou e fez carreata para a candidatura de Jair Bolsonaro (PL) no 2º turno presidencial de 2022, Wladimir tem uma certeza sobre quem vai apoiar ao Executivo nas urnas de outubro (confira aqui): o senador Flávio Bolsonaro (PL) a presidente. Isso, em tese, o aproximaria mais do PL de Douglas e Altineu. Mas pesam também, a favor do PSD como futura legenda do atual prefeito de Campos, o poder de sedução política de Kassab e o favoritismo de Paes em todas pesquisas, até aqui, a governador.
Uma tremenda ressaca de carnaval! É o que tem sido a performance de Lula (PT) nas pesquisas a presidente do Brasil após o Carnaval no Rio aberto pela escola Acadêmicos de Niterói, no dia 15, com desfile em homenagem ao petista e ala com críticas abertas à família e aos cristãos. O resultado? Pela primeira vez, desde a campanha de 2022, Lula está numericamente atrás nas pesquisas sérias ao 2º turno presidencial de outubro de 2026, que o senador Flávio Bolsonaro (PL) passou a liderar neste final de fevereiro.
Na ala “neoconservadores em conserva”, do desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula que abriu o Carnaval do Rio, a crítica aberta à família, instituição mais respeitada no Brasil em todas as pesquisas (Foto: Reprodução)
Flávio passa Lula no 2º turno da AtlasIntel e Paraná — Na quarta (25), a AtlasIntel foi a primeira pesquisa pós-carnaval a revelar (confira aqui) Lula numericamente atrás de Flávio na projeção de 2º turno: 46,3% do filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) contra 46,2% do petista. Na sexta (27), isso foi confirmado também (confira aqui) pela pesquisa do instituto Paraná. Que trouxe na projeção entre os dois num eventual 2º turno: Flávio 44,4% x 43,8% de Lula.
Empates técnicos e quase numéricos — A AtlasIntel consultou digitalmente 4.986 brasileiros entre os dias 19 e 24, sob o registro BR-07600/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e com margem de erro de 1 ponto para mais ou menos. A Paraná ouviu presencialmente 2.080 eleitores entre os dias 22 e 25, sob o registro BR-07974/2026 no TSE e margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos. A vantagem no de 0,1 ponto de Flávio sobre Lula no 2º turno da AtlasIntel, e de 0,6 ponto na Paraná, são dois empates técnicos e quase numéricos.
Tendências de queda de Lula e crescimento de Flávio — Foi a tendência da evolução das simulações de 2º turno entre janeiro e fevereiro, com o carnaval da Marquês de Sapucaí no meio, que acendeu a luz amarela no Palácio do Planalto. Na AtlasIntel, Lula bateria Flávio no 2º turno de outubro por 49,2% a 44,9% em janeiro. Esta vantagem de 4,3 pontos evaporou em fevereiro: Lula perdeu 3 pontos, enquanto Flávio ganhou 1,4 ponto nos últimos 30 dias.
Já na série de pesquisas do instituto Paraná, Lula liderava a simulação de 2º turno contra Flávio por 44,8% a 42,2% em janeiro. Esta vantagem de 2,6 pontos do petista, que já configurava um empate técnico há um mês, também evaporou em fevereiro: o atual presidente perdeu 1 ponto, enquanto o senador ganhou 2,2 pontos no último mês.
Ratinho também em empate técnico com Lula no 2º turno — Se, na AtlasIntel, o único empate técnico de Lula no 2º turno foi com Flávio, a pesquisa do instituto Paraná trouxe outro com o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD): 43,6% do petista a 39,7%, diferença de 3,9 pontos. Na AtlasIntel, com margem de erro menor, a vantagem de Lula sobre Ratinho em um eventual 2º turno foi maior: 45,5% a 39%, diferença de 6,5 pontos.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula3 cresce reprovação para 51,5% — Diferente da Paraná, a AtlasIntel pesquisou a aprovação de governo. Na qual a crítica carnavalesca aberta à família e aos cristãos em homenagem a Lula pareceu também se refletir. Entre janeiro e fevereiro, os que desaprovam o Lula 3 oscilaram 0,8 ponto para cima: de 50,7% à maioria dos atuais 51,5% dos brasileiros. Enquanto os que aprovam o atual Governo Federal caíram 2,1 pontos: dos 48,7% de janeiro aos 46,6% de fevereiro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula e Flávio lideram também na rejeição — Se foi numericamente ultrapassado por Flávio na simulação do 2º turno da AtlasIntel e da Paraná, Lula teve situação parecida na rejeição. Que só foi medida pela primeira pesquisa, é considerada fundamental à definição do 2º turno e o petista lidera com 48,2% dos brasileiros que não votariam nele de jeito nenhum. É outro empate técnico com os 46,4% de rejeição de Flávio, 2º colocado no índice negativo da AtlasIntel.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula não merece ser reeleito para 52,2% — Embora não tenha medido rejeição, a pesquisa Paraná fez uma pergunta que revela o quanto hoje ela é alta à reeleição de Lula. Em fevereiro, ele não merece para 52,2% dos brasileiros, 1,2 ponto a mais que os 51,0% de janeiro. E merece ser reeleito para 43,9% dos eleitores em fevereiro, queda de 1,4 ponto em relação aos 45,3% que achavam o mesmo em janeiro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Mais medo de Lula ou Flávio? — Além de medir a rejeição liderada por Lula e Flávio, a AtlasIntel fez uma pergunta afim sobre ambos: “Qual dos resultados possíveis te causa mais medo e preocupação?”. Foram 47,5% os brasileiros que responderam: “A reeleição do presidente Lula”. Mesmo fora da margem de erro da pesquisa, ficou numericamente próximo aos 44,9% (2,6 pontos abaixo) dos eleitores que responderam: “A eleição de Flávio Bolsonaro”.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula lidera ao 1º turno fora da margem de erro na AtlasIntel — Quanto ao 1º turno, mesmo perdendo intenção de voto entre janeiro e fevereiro, Lula ainda liderou fora da margem de erro todos os cinco cenários da AtlasIntel, entre 5,6 a 14 pontos de vantagem. Mas, na pesquisa Paraná, ele registrou empate técnico com Flávio desde a largada, nos dois cenários de 1º turno testados pela pesquisa.
(Infográfico: Joseli Matias)
Na Paraná, Lula e Flávio em empate técnico já no 1º turno — O cenário 1 da pesquisa Paraná ao 1º turno deu Lula na frente com 39,6% de intenção, seguido do senador com 35,3%, 4,3 pontos de diferença quase no limite da margem de erro. E o cenário 2 deu Lula com 40,5%, seguido de Flávio com 36,6%, 3,9 pontos de diferença. Foram dois empates técnicos do presidente com o senador já no 1º turno, que a AtlasIntel só registrou no 2º turno.
Igor Franco, especialista em finanças, professor de Economia Política e Análise Ecônomica do Direito no Uniflu e radialista
Alexandre de Tróia
Por Igor Franco
Durante o governo Jair Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal vestiu a toga como quem veste uma armadura. Apresentou-se ao país como fiador da democracia, guardião último da Constituição, barreira moral contra a marcha dos bárbaros.
A narrativa, repetida à exaustão por parte da imprensa e da elite política, tinha utilidade: quando um desastre democrático parecia se avizinhar, foi conveniente e oportuno recorrer a um pelotão sem armas, mas com força para barrar aspirações abertamente golpistas. O ímpeto que parecia faltar a Bolsonaro para agir conforme as insinuações de seus discursos sobrava a Alexandre de Moraes, um improvável antagonista, impávido frente às ameaças do ex-presidente e de seus apoiadores.
Durante o confronto com Bolsonaro, ele foi o rosto mais visível de um Supremo que se apresentava como trincheira. O ministro que não tremia, o relator que avançava, o magistrado que respondia com caneta e polícia ao que entendia como ameaça. Para seus admiradores, era Alexandre, o Grande: o conquistador institucional, o desbravador de um território pantanoso onde a democracia brasileira, sempre frágil, via-se cercada de aventureiros e incendiários.
Parte relevante do país, de novo, gostou do personagem. Alexandre personificou o Supremo e, na ausência de contrapontos, o próprio Supremo viu-se em Alexandre. Os diferentes ministros, outrora diversos e discordantes, passaram a agir em bloco por ação ou omissão, respaldando e referendando o líder da resistência.
A partir de então, Alexandre, consagrado como o Grande, apresentou-se como o algoz da tentativa de rebelião republicana, sendo responsável por processar e condenar os envolvidos na trama golpista. Mas, ao longo do tempo e, também a partir dali se habituou a operar politicamente, a se enxergar como poder tutelar, e a tratar seus poderes de exceção como medalhas conquistadas em guerra, semeando a normalização do excepcional. O que era remédio vira dieta. O que era intervenção cirúrgica torna-se estilo de vida.
E, nesse cenário, o perigo supera o de Bolsonaro por um motivo simples: Bolsonaro podia ser contido por instituições que ainda se acreditavam instituições. Bolsonaro, com todos os seus arroubos, tinha algo que o tornava controlável: ele era um político. Dependia de votos, de Congresso, de coalizão, de opinião pública, de calendário eleitoral. Podia ser isolado, derrotado, ridicularizado, investigado, punido.
Mas quem contém a instituição quando ela decide agir como partido, como polícia, como governo e como tribunal, tudo ao mesmo tempo? Porque a democracia não morre apenas quando um homem forte tenta dobrar as instituições. Ela também morre quando as instituições, em nome de protegê-la, passam a operar sem constrangimento, sem freios e, sobretudo, sem a humildade básica de quem sabe que poder sem limite é o nome técnico do autoritarismo.
A figura do paladino exige pureza. E pureza é algo que o poder raramente preserva quando não é obrigado a prestar contas. Aos poucos, a imagem do Alexandre que guardava as muralhas começou a sofrer rachaduras: questionamentos sobre procedimentos heterodoxos, críticas ao acúmulo de funções e papéis em certos casos, a permanência de instrumentos excepcionais como se fossem parte do mobiliário permanente da República.
A energia do embate produziu a estética do heroísmo. E o heroísmo, como se sabe, é um vício tentador: dá a sensação de que fins elevados justificam meios extraordinários e de que o “extraordinário”, quando funciona, passa a ser rotina. Se um ministro se acostuma a concentrar o poder de investigar, acusar, interpretar e julgar sob a mesma luz — e, mais importante, passa a tratar qualquer crítica como afronta moral —, o que se perde não é apenas “o devido processo” em abstrato.
Perde-se o senso de limite, pois o autoritarismo mais eficiente é aquele que se disfarça de procedimento.
Some-se a isso o efeito corrosivo das suspeitas e dos escândalos que rondam diversos membros de toda corte: resorts, caronas em jatinhos, seminários empresariais no estrangeiro, contratos multimilionários com esposas, filhos e filhas. Democracias não se sustentam apenas em códigos; sustentam-se em credibilidade. E credibilidade não combina com a impressão de que ministros transitam com desenvoltura excessiva entre interesses privados, grupos poderosos e zonas de sombra que não deveriam existir para quem julga a nação.
Quando o noticiário passa a sugerir proximidades incômodas, quando se ventilam relações que pediriam explicações cabais e transparência imediata, e quando a reação não é o constrangimento institucional, mas a altivez de quem não deve satisfação, o recado ao público é devastador: “Nós somos a instância final, portanto não precisamos nos explicar”. O cidadão, que já desconfia de quase tudo, aprende a desconfiar do que, aparentemente, restava como último refúgio.
O “Alexandre” que o Brasil celebrou nos anos do bolsonarismo foi essa fantasia: a do guerreiro. Ou dos guerreiros necessários para um tempo de ameaça. Mas supostas virtudes têm-se revelado vícios; a coragem, arrogância; a exceção, o método. E é aí que o herói muda de natureza e a redenção revela-se maldição.
Alexandre, o Grande torna-se o Alexandre de Tróia: a dádiva que entra como presente, em nome da salvação, mas carrega dentro de si o motivo da derrocada. O desmanche institucional não ocorre de forma aberta, mas por malícia; não por conquista, mas por infiltração.
Enquanto o Brasil aplaudia o suposto presente, sem maior crítica, acabou por descobrir que o perigo não estava do lado de fora. Que não seja tarde demais.
Arthur Soffiati, crítico de cinema, historiador, professor, ambientalista e escritor
Um mestre dos primórdios do cinema
Por Arthur Soffiati
Passado o experimentalismo curioso que a técnica da fotografia em movimento despertou, entre 1895 e 1905, o cinema começou a ser usado para narrar histórias. Sem abandonar os truques, os diretores começam a reunir roteiros, artistas, trilha sonora e fotografia narrativa. Utilizado até então para fins documentais, o cinema começa a ganhar sentido narrativo. Uma espécie de teatro filmado. Despontam os nomes de Alice Guy-Blaché, Georges Méliès e Ferdinand Zecca. Este, com Lucien Nonguet, filma, em 1903, “A vida e a paixão de Jesus Cristo”, já com praticamente todos os recursos do cinema atual menos o som.
Dentre esses pioneiros, destaca-se a figura refinada de Louis Feuillade, autor de cerca de 800 filmes. Além da narrativa, Feiullade deu um toque de arte a alguns de seus filmes. Dele, assisti apenas quatro filmes para concluir que estava diante de um mestre. Nos filmes curtos, ele privilegia questões morais sem baixar a guarda quanto à arte. Em “Custódia” (1909), focaliza a separação de um casal e a guarda do filho. O final é feliz, com a reconciliação de marido e mulher. Em “Defeito” (1911), o filme se estende por 40 minutos narrando a trajetória de uma garçonete em Paris, ao lado de muitas, que atendiam a homens. Existe a conotação de prostituição. Um médico frequentador do restaurante convida uma das garçonetes a trabalhar com ele numa clínica do interior.
Os dois filmes são marcados pelo posicionamento da câmara. Colocada no centro, ela aumenta a tridimensionalidade do espaço. O ambiente externo aparece de forma magnifica. A garçonete se transforma na alma da clínica depois da morte de seu tutor, até ser denunciada por um dos frequentadores do restaurante. Inveja e intriga entram em cena. O autor usa uma parede como divisória para a própria câmara a fim de mostrar dois ambientes. Expulsa da clínica, a mulher tenta o suicídio, mas se controla e pensa em trabalhar no Oriente como enfermeira.
O terceiro é a grande obra de arte de Feiullade. Trata-se de “Coração e dinheiro” (1912) codirigido com Léonce Perret. Mais uma vez, uma narrativa moral. Uma moça ama um rapaz pobre. A mãe quer que ela se case com um homem rico que frequenta o hotel dela. Em rápidos cortes, a moça se casa com o milionário, fica viúva e volta a procurar o antigo amor. Este a repudia e ela se mata. Era um desfecho forte para a época. A fotografia é de um esverdeado quase sépia que mostra as paisagens naturais da França.
Lembro-me de ter visto essa beleza de fotografia em “Um dia no campo” (1936), de Jean Renoir. Mas não apenas nas tomadas externas o filme se mostra um dos mais belos do cinema mudo. O mérito é, em grande parte, do coautor Perret. O melodrama tem muitas locações externas. A luz fala muito. A moça com o namorado é mostrada em ambiente externo luminoso. A luz fala da alegria de ambos. Com o homem mais velho e rico, logo seu marido, as cenas são em grande parte internas. A redução da luz fala da tristeza. A pobreza se associa à claridade e a riqueza à escuridão.
E o filme utiliza o recurso da tela dividida. Um lado mostra o presente e outro o passado ou as recordações. A moça pensa no namorado. Ela está na tela à esquerda e ele na tela à direita de quem vê o filme. Em outra cena de tela dividida, as posições se invertem. Raramente se usou a técnica da tela dividida nos primórdios do cinema.
Mas a contribuição de Feuillade não cessa aí. Ele escreveu e dirigiu seriados, como “A vida como ela é” (1911-1912), o famoso “Os vampiros” (1915) e “Judex” (1916), entre outros. “Os vampiros”, é o mais conhecido. Foram 10 capítulos com duração de 417 minutos.
Quando você assiste a uma série na TV atualmente, deve se lembrar que tudo começou em 1915 com esse seriado policial que influenciará os filmes policiais da atualidade. Creio que, pela primeira vez no cinema, mostra-se um investigador saltando de um viaduto sobre um trem em movimento.
Após o Carnaval no Rio aberto pela escola Acadêmicos de Niterói, com desfile em homenagem a Lula e uma ala com críticas abertas à família e aos cristãos, a AtlasIntel foi a primeira pesquisa de instituto sério, desde 2022, que (confira aqui) trouxe uma projeção de 2º turno com Lula (PT) numericamente atrás. Hoje, isso foi confirmado também pela pesquisa do instituto Paraná. Que fez a projeção de 2º turno: Flávio Bolsonaro (PL) 44,4% x 43,8% de Lula.
Na ala “neoconservadores em conserva” do desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio, a homenagem a Lula com crítica à família (Foto: Reprodução)
Em duas pesquisas, vantagem de Flávio sobre Lula no 2º turno — Na AtlasIntel divulgada na quarta (25), a vantagem de Flávio sobre Lula no 2º turno foi de apenas 0,1 ponto: 46,3% do senador x 46,2 do atual presidente. Na Paraná, a vantagem de Flávio sobre Lula foi maior, mas ainda na casa decimal do 0,6 ponto. Ambas configuram empate técnico na margem de erro das duas pesquisas: 1 ponto para mais ou menos na AtlasIntel e 2,2 pontos para mais ou menos na Paraná.
Empate técnico de Lula no 2º turno também com Ratinho Jr. — Se na AtlasIntel, o único empate técnico de Lula no 2º turno foi com Flávio, a Paraná trouxe outro com o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD): 43,6% do petista a 39,7%, diferença de 3,9 pontos. Na AtlasIntel, com margem de erro menor, a vantagem de Lula sobre Ratinho em um eventual 2º turno foi maior: 45,5% a 39%, diferença de 6,5 pontos.
(Infográfico: Joseli Matias)
Empate técnico de Lula com Flávio já no 1º turno — Quanto ao 1º turno, se Lula venceu fora da margem de erro todos os cinco cenários da AtlasIntel, na Paraná ele registrou empate técnico com Flávio já na largada, nas duas simulações testadas de 1º turno. Cujo cenário 1 deu o Lula com 39,6%, seguido do senador com 35,3%, 4,3 pontos de diferença quase no imite da margem de erro. E o cenário 2 deu Lula com 40,5%, seguido de Flávio com 36,6%, 3,9 pontos de diferença.
(Infográfico: Joseli Matias)
William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE
Análise do especialista — “A pesquisa Paraná de fevereiro trouxe dois cenários de 1º turno e três cenários de 2º turno. Nos dois cenários de 1º turno, Lula aparece numericamente à frente, mas empata tecnicamente com Flávio em ambos. Já nos cenários de 2º turno, Flávio aparece numericamente à frente de Lula, enquanto Lula aparece numericamente a frente de Ratinho Jr., mas em dois empates técnicos”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.
Pela primeira vez, desde a campanha eleitoral de 2022, uma pesquisa presidencial de instituto idôneo apontou um cenário de 2º turno com Lula (PT) numericamente atrás. Ainda que por apenas 0,1 ponto, em empate técnico e quase numérico, a AtlasIntel divulgada hoje (25) projetou o 2º turno de 2026 com 46,3% ao senador Flávio Bolsonaro (PL) e 46,2% ao atual presidente.
Pesquisa após crítica à família e aos cristãos no Carnaval — Registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-07600/2026, com margem de erro de 1 ponto para mais ou menos, a AtlasIntel ouviu 4.986 brasileiros entre os dias 19 e 24. É a 1ª pesquisa a presidente depois do desfile da Acadêmicos de Niterói, que abriu o Carnaval do Rio no último dia 15, com a homenagem a Lula e sua ala “neoconservadores em conserva” em crítica aberta à família e aos cristãos.
Na ala “neoconservadores em conserva” do desfle da Acadêmicos de Niterói na em homenagem a Lula, a crítica aberta à família (Foto: Reprodução)
Vantagem de Lula a Flávio no 2º turno evapora após Carnaval — Ainda que a pesquisa não tenha feito nenhuma pergunta específica sobre o desfile polêmico da escola que acabou rebaixada, seus efeitos parecem claros nos números. Na série AtlasIntel, Lula bateria Flávio no 2º turno de outubro por 49,2% a 44,9% em janeiro. Estes 4,3 pontos de vantagem se evaporaram em fevereiro, após o Carnaval do Rio: Lula perdeu 3 pontos no último mês, enquanto Flávio ganhou 1,4 ponto.
Maioria desprova o Lula 3, que cai em aprovação — A crítica carnavalesca aberta à família e aos cristãos em homenagem a Lula pareceu também se refletir na sua aprovação de governo. Entre as pesquisas AtlasIntel de janeiro e fevereiro, os que desaprovam o Lula 3 oscilaram 0,8 ponto para cima: de 50,7% à maioria dos atuais 51,5% dos brasileiros. Enquanto os que aprovam o atual Governo Federal caíram 2,1 pontos: dos 48,7% de janeiro aos 46,6% de fevereiro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula lidera no 1º turno, mas cai e Flávio cresce — Embora Lula ainda lidere fora da margem de erro, entre 5,6 a 14 pontos, todos os cinco cenários de 1º turno com seu nome, um deles sem Flávio, a diferença para este também caiu na série AtlasIntel. No cenário 1, entre janeiro e fevereiro, Lula passou de 48,8% das intenções de voto no 1º turno aos atuais 45%, queda de 3,8 pontos. Enquanto Flávio cresceu 2,9 pontos: dos 35% de janeiro aos 37,9% de fevereiro.
(Infográfico: Joseli Matias)
No cenário 2 de 1º turno, entre janeiro e fevereiro, Lula caiu 3,7 pontos: de 48,8% de intenção aos atuais 45,1%. Enquanto Flávio cresceu 4,5 pontos: dos 35% de janeiro aos 39,5% de fevereiro. Os cenários 3, 4 e 5 de 1º turno da AtlasIntel de fevereiro não foram testados em janeiro, sendo impossível saber a evolução dos seus números.
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula lidera rejeição, em empate técnico com Flávio — Se foi numericamente ultrapassado por Flávio na simulação do 2º turno, em empate técnico por margem decimal, Lula teve situação parecida na rejeição. Que é fundamental ao 2º turno e na qual o petista lidera com 48,2% dos brasileiros que não votariam nele de jeito nenhum. É outro empate técnico, na margem de erro, com os 46,4% de rejeição de Flávio, 2º colocado no índice negativo.
(Infográfico: Joseli Matias)
O que preocupa e amedronta mais: Lula ou Flávio? — À pergunta específica da AtlasIntel, “Qual dos resultados possíveis te causa mais medo e preocupação?”, 47,5% dos brasileiros responderam: “A reeleição do presidente Lula”. Fora da margem de erro da pesquisa, ficou numericamente próximo dos 44,9% (2,6 pontos abaixo) que responderam: “A eleição de Flávio Bolsonaro”.
(Infográfico: Joseli Matias)
William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE
Análise do especialista — “A AtlasIntel testou quatro cenários de 1º turno com Lula e Flávio e um de 1º turno com Lula e Tarcísio. Em todos os cenários testados, Lula lidera as intenções de voto. Por outro lado, nos cenários de 2º turno, na comparação com a AtlasIntel de janeiro, a intenção de voto de Lula recuou a ponto de ser ultrapassado numericamente por Flávio. Os dois, neste momento, apresentam cenário de empate técnico”, resumiu William Passos, geógrafo em especialização doutoral em estatística no IBGE.
“Acrescenta-se que a desaprovação a Lula supera os 50% e que Lula também lidera a rejeição sobre Flávio, por 2 pontos de diferença: 48% a 46% em números redondos. Por sua vez, a reeleição de Lula causa mais medo ou preocupação na população do que a eleição de Flávio por 3 pontos percentuais de diferença: 48% a 45% em números redondos”, completou William.
Aos leitores do blog, do site Folha1 e do jornal Folha da Manhã, como ao ouvintes e telespectadores da Folha FM 98,3, o titular deste espaço anuncia uma pausa pós-momesca nas atividades profissionais. Por volta de 23 de março, se Deus quiser, nos reencontramos. Inté!
Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema
“Bugonia” — O Oscar e o terraplanismo
Por Felipe Fernandes
O cinema do cineasta grego Yorgos Lanthimos tem uma identidade marcante. Ele cria situações desconfortáveis que parecem seguir regras próprias. O absurdo vai além da estética, serve para revelar o quão estranhas podem ser as normas sociais quando levadas ao extremo. Seus filmes funcionam como alegorias, muitas vezes atreladas a instituições sociais, como a família, ou a outros temas, como relacionamentos, poder, controle social e patriarcado. Ele exagera regras sociais para mostrar o quanto elas podem ser opressivas, arbitrárias e, muitas vezes, sem sentido, em uma provocação do cotidiano, em situações que transitam entre a realidade e o bizarro.
Em seu novo filme, Bugonia, o diretor tem como alvo as teorias da conspiração, a paranoia contemporânea e a desconfiança nas instituições, tudo isso relacionado à desinformação, à desigualdade social e a uma radicalização de crenças que fortalece a polarização e a construção de narrativas cada vez mais absurdas e desconectadas da realidade. O longa é um remake de uma comédia sci-fi sul-coreana de 2003, que atualiza muitos de seus temas e prova como toda essa loucura que hoje encontramos no mundo real ( principalmente na internet) é resultado de uma sociedade cada vez mais fragmentada.
O filme parte de dois personagens marginalizados que, liderados por um conspiracionista, resolvem sequestrar a CEO de uma grande empresa, pois acreditam que ela seja uma alienígena, membra de uma raça que quer dominar a Terra. Esse tipo de delírio não chega a ser novidade, principalmente em uma sociedade tão aficionada por alienígenas quanto a estadunidense.
Um dos principais acertos do longa está na abordagem de Lanthimos, que não trata a dupla de sequestradores como caricaturas nem os encara com desdém. São dois homens excluídos, produtos de uma sociedade que os ignora, com traumas e vidas difíceis. Nesse sentido, a proposta do diretor de trabalhar essa história próxima de um realismo reconhecível e opressivo funciona para tornar mais aceitável todo o discurso dos dois e também para humanizar personagens disfuncionais, estranhos em sua essência.
Toda aquela ideia parece dar algum sentido a tudo o que eles vivem. Como se, ao serem excluídos, conseguissem enxergar além da superfície e essa descoberta se tornasse uma válvula de escape para toda a frustração. Lanthimos não trata a conspiração como piada, mas como estrutura psicológica e política. A escolha de uma CEO não é ao acaso, já que ela representa o extremo oposto da sociedade em que vivem, como representante de uma classe social totalmente alheia e não pertencente à realidade daquelas pessoas. Ela já é percebida como algo não humano.
Outra escolha interessante é que o filme funciona como uma fake news. Nesse sentido, o espectador ocupa uma posição muito próxima à dos personagens, sem nenhum tipo de prova, por mais absurdo que tudo pareça. Conforme a narrativa progride, tudo se torna mais confuso, a dúvida cresce e, dentro dessa situação, o filme nunca escolhe um lado moral, não há catarse, lição de moral ou redenção. Ele brinca com as percepções dentro da própria história e, como em um universo ficcional que funciona como reflexo da nossa realidade, a conspiração pode ganhar outros contornos.
O filme traz o humor ácido do diretor, que provoca desconforto e reflexão. A cena do sequestro tem um certo tom jocoso, que contrasta com as ações dos personagens. Tudo acontece de forma desajeitada, bastante amadora, em uma ação violenta. É engraçado porque é amador, mas esse mesmo amadorismo torna a situação crível. O filme reforça o humor em momentos que não deveriam ser engraçados, escancarando o ridículo daqueles personagens e da situação.
Bugonia é uma crítica social desconfortável e bastante atual. Dialoga com a paranoia contemporânea e a desinformação, em um tempo em que o absurdo perdeu a vergonha e se exibe em nossas vidas e em nossas telas. Nesse jogo de crenças, em que todos parecem impor o que acreditam à força, o filme não busca respostas: apenas faz humor, provoca reflexão e prova o quão ridículo pode ser o ser humano.
Mariana Lima bailarina em Atafona (Foto: Lívia Nunes)
Líva Nunes, jornalista
Eternamente
Por Lívia Nunes
Quem sabe um dia
Era tão cedo quando acordei. Nem sei se cheguei a dormir. Tão logo abri os olhos, busquei o chão com os pés. Corri para ser só, minha. Ainda assim, não me tive e nunca me dei. Essas emoções ainda gritam no silêncio. Não decifrei meu querer, nem meu sonho. Nunca os encarei nos olhos. Tudo que eu quis e não consegui foi “ser”. Para então, quem sabe, me “dar”.
Olhe para trás
Inclina o pescoço, contorcendo-o como roupa molhada nas mãos da lavadeira. Os olhos voltados ao chão e o ar possuindo-a pela boca. Escorre os dedos entre os cachos do cabelo e, discretamente, olha para trás. O passado é sedutor, mas a ele cabe apenas uma troca de olhares levemente embriagados. A cada passo à frente: memórias, pessoas e eternidades se desfazem, deixando rastro, como cauda de cometa. Ontem, ao lado do seu homem, ergueu-se na cama para ver melhor a luz dourada que entrava pela janela e pensou: esse momento é eterno.
Eternamente presente
Quais imagens ficam com tantos sóis que nascem, tantos sóis que morrem nos dias que vão em frente? Quantos mares podem ser eternos se a cada novo olhar serão outras as retinas? Outra será a mulher; outro será o mar. Quantas eternidades podem se guardar num ser infinito de tempo findo?
Entre os quatro institutos que mais acertaram (confira aqui) o resultado final das eleições presidenciais do Brasil em 2022, o Quaest divulgou na quarta (11) sua pesquisa (confira aqui) de fevereiro de 2026. E, a pouco mais de 7 meses à urna de 4 de outubro, acendeu o sinal amarelo à reeleição de Lula (PT). Que, patinando em todas as métricas desde dezembro (confira aqui, aqui, aqui e aqui, aqui e aqui) viu em várias delas o crescimento real do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Jogando parado nos últimos dois meses, Lula liderou todos os sete cenários de 1º turno da Quaest de fevereiro, feita entre os dias 5 e 9, com 2.004 eleitores e margem de erro de 2 pontos para mais ou menos. E, nela, registrou um único empate técnico já no 1º turno: 37% a 33% contra Flávio.
Lula também liderou todos os sete cenários de 2º turno da Quaest. Neles, sua menor diferença, de 5 pontos, a 1 ponto do empate técnico no limite da margem de erro, também foi contra Flávio: 43% do petista a 38%. Porém, essa diferença era de 10 pontos em dezembro: Lula 46% x 36% Flávio. Em dois meses, caiu pela metade.
(Infográfico: Joseli Matias)
Quando todas as pesquisas apontavam que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), era o nome de oposição mais competitivo contra Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ungiu, da cadeia, Flávio (confira aqui) seu candidato. Era 5 de dezembro. Na Quaest daquele mês, a escolha foi considerada um erro para 54% dos brasileiros.
(Infográfico: Joseli Matias)
Comparada com a Quaest de fevereiro, os eleitores que consideram como erro a escolha de Bolsonaro pelo filho 01 como seu candidato a presidente caíram para 42%. É uma queda de 12 pontos em Flávio como erro de Jair. Um movimento de dois dígitos em apenas dois meses, em qualquer pesquisa eleitoral do mundo, nunca é trivial.
Nenhum outro movimento na série histórica das pesquisas Quaest, entre dezembro e fevereiro, ilustra melhor o crescimento de Flávio. E sua consolidação como candidato competitivo. Sobretudo porque, entre os demais nomes de oposição testados nos cenários de 1º turno, nenhum bateu dois dígitos de intenção de voto.
Entre os nomes da 3ª via da direita e centro-direita, o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), foi quem melhor pontuou. Testado em duas das sete simulações de 1º turno da Quaest, ele teve 8% de intenção em uma (contra 35% de Lula e 29% de Flávio) e 7% em outra (contra 37% de Lula e 31% de Flávio).
Em outras palavras, mesmo líder do bloco retardatário, Ratinho larga muito distante, mais de 20 pontos atrás, dos dois líderes adiantados da corrida presidencial. Numa extenuante maratona de largada queimada pela polarização política do país.
Os problemas de Lula não se resumem à substantiva capacidade de transferência de intenção de voto (e de rejeição) de Jair, mesmo preso, a Flávio. Como foi a de Lula, mesmo preso, a Fernando Haddad (PT), quando atropelou Ciro Gomes (hoje, PSDB) no 1º turno para fazer e perder o 2º turno presidencial contra Bolsonaro em 2018.
Na transição de 2025 a 2026, mesmo sempre líder, Lula patinou os últimos dois meses em importantes métricas. Entre dezembro e fevereiro, a desaprovação ao seu governo se manteve estática nos mesmos 49% dos brasileiros. Por outro lado, sua aprovação caiu 3 pontos no período: de 48% em dezembro a 45% em fevereiro.
(Infográfico: Joseli Matias)
À pergunta da série Quaest, “Lula merece continuar mais 4 anos como presidente?”, se deu a resposta mais dura à perspectiva de reeleição. Dos 56% dos brasileiros de dezembro aos 57% de fevereiro que disseram que não merece, se cristaliza uma maioria contrária ao Lula 4. São 18 pontos a mais que os 39% que, hoje, dizem que o presidente merece continuar.
(Infográfico: Joseli Matias)
Outra pergunta da série Quaest revela o equilíbrio da polarização política do Brasil até no temor. “O que te dá mais medo hoje: Lula continuar ou a família Bolsonaro voltar?” De dezembro a janeiro, os que tinham mais medo do retorno dos Bolsonaros foram de 46% a 44%. E os que têm mais medo de Lula continuar passaram de 40% a 41%. É um empate técnico até no pavor que um grupo no poder causa aos eleitores do outro.
(Infográfico: Joseli Matias)
Hoje, essa situação se reflete também na rejeição. Líderes nas intenções de voto em todas as 14 simulações de 1º e 2º turno, Lula e Flávio também lideram entre os brasileiros que dizem conhecê-los e não votariam. Nessa métrica, Flávio lidera numericamente a rejeição, com 55%, só 1 ponto a mais que os 54% de Lula.
(Infográfico: Joseli Matias)
Antes da polarização política, no Brasil e no mundo, a partir da metade dos anos 2010 e do algoritmo do ódio das redes sociais que faz a fortuna das Big Techs, o limite prudencial para se vencer uma eleição em dois turnos era de até 35% de rejeição. Pois é ela, a rejeição, que fixa o teto de crescimento dos dois candidatos que passam ao 2º turno.
Em qualquer eleição em dois turnos, rejeição de 50% ou mais seria a impossibilidade matemática do candidato vencer o turno final. A não ser, como a Quaest hoje revela ser com Lula e Flávio, que ambos tenham empate técnico em duas rejeições acima dos 50%. Assim, a única chance que um teria de se eleger no 2º turno seria contra o outro.
Da eleição dos governadores dos estados à do presidente da República, Lula pode ter outro problema adicional. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) é competitivo em todas as pesquisas (confira aqui) contra a reeleição do governador petista da Bahia, Jerônimo Rodrigues. Como, também nas pesquisas, Ciro Gomes é igualmente competitivo (confira aqui) contra a reeleição do governador petista do Ceará, Elmano Reis.
A Bahia é o maior colégio eleitoral do Nordeste, enquanto o Ceará é o 3º. Se o PT perder o Executivo nesses dois estados, por mais que o voto entre governador e presidente não seja necessariamente casado, Lula correria o sério risco de perder, em 2026, a grande vantagem que teve na região Nordeste na eleição presidencial de 2022.
Tirado da disputa presidencial na pesquisa Quaest de fevereiro, a partir da definição do nome de Flávio como candidato de Bolsonaro, Tarcísio é franco-favorito (confira aqui) nos levantamentos de todos os institutos à reeleição como governador de São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil.
O 2º maior colégio eleitoral do país é Minas Gerais. Que elege o presidente do Brasil há 71 anos, como foi com Lula no 2º truno de 2022, a despeito da reeleição de Romeu Zema (Novo) ainda no 1º turno daquele ano. Hoje, quem lidera as pesquisas a governador mineiro (confira aqui) para outubro de 2026 também é um conservador: o senador Cleitinho (REP).