Trump, Maduro, Doutrina Monroe, grande porrete e imperialismo

 

Nicolás Maduro, com olhos e ouvidos cobertos e mãos algemadas, após ser capturado pelas forças militares dos EUA com a esposa dentro de complexo militar da Venezuela em Caracas

“Tudo remonta à Doutrina Monroe. Ela é muito importante, mas nós a superamos por muito. Muito mesmo. Agora eles a chamam de ‘Documento Donroe’ (mistura de Donald Trump e James Monroe). É a doutrina que havíamos esquecido”. Foi o que o lembrou ontem (3) o presidente dos EUA, Donald Trump, em sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida. Onde falou da sua ação militar na Venezuela e (confira aqui) da captura do presidente do país, Nicolás Maduro.

 

James Monroe

Doutrina Monroe

James Monroe foi presidente dos EUA entre 1817 e 1825. Contra a possibilidade de intervenção da Europa nas Américas, assumindo-as como área de influência dos EUA, ele anunciou sua doutrina em 1823, resumida no lema “América para os americanos”.

Na América Latina, sobretudo a partir das intervenções dos EUA desde o final o século 19, o lema de Monroe sempre foi corrigido: “para os norte-americanos”. Ou estadunidenses, a quem sabe que sabe México e Canadá também compõem a América do Norte. E sabe que Américo Vespúcio era um italiano numa missão portuguesa — latino duas vezes, portanto.

 

Grande porrete

Além da Doutrina Monroe, Trump reeditou outra política estadunidense do passado em relação às Américas: a do Big Stich (“grande porrete”), de Theodore Roosevelt, presidente dos EUA entre 1901 e 1909. Que, para reforçar a Doutrina Monroe e a prevalência dos EUA sobre o continente, nasceu curiosamente de um provérbio africano: “Fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete” (“Speak softly and carry a big stick”).

 

Charge de Theodore Roosevelt e seu “grande porrete” no mesmo Mar do Caribe, nas costas da Venezuela, onde hoje está a esquadra de guerra dos EUA de Trump

 

Pelo visto na madrugada do 3ª dia de 2026, Trump foi além de Teddy Roosevelt. Numa ação militar perfeita, sem nenhuma baixa ou perda de equipamento, a Força Delta, tropa de elite do Exército dos EUA, entrou e saiu como quis do complexo militar Forte Tiuna, em Caracas. De onde levaram prisioneiros Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Foi só o grande porrete, sem nenhuma fala suave.

 

Destino de Maduro, hipocrisia de Trump

O casal foi primeiro transportado de helicóptero ao navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima, que compõe a frota de guerra dos EUA estacionada no Caribe, nas costas da Venezuela. E, depois, de avião a Nova York, onde foi levado ao Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn. Segundo a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, Maduro será julgado numa corte de Nova York por narcoterrorismo.

Curiosamente, em novembro de 2025, Trump deu indulto total e incondicional ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández. Que havia sido condenado a 45 anos de prisão, em março de 2024, pela mesma Justiça de Nova York e por facilitar o envio de centenas de toneladas de cocaína aos Estados Unidos.

 

É o petróleo, estúpido!

A causa real da captura e prisão de Maduro foi admitida pelo próprio Trump, antes mesmo de o ex-presidente da Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo, chegar algemado aos EUA:

— Também conseguimos apreender o petróleo venezuelano para trazer para o solo americano porque eles retiraram isso, eles fizeram, eles roubaram bilhões de dólares no nosso petróleo (…) nós que construímos a indústria petrolífera na Venezuela com o nosso talento, o nosso trabalho, deixamos que um exílio socialista roubasse durante esses governos anteriores e roubassem usando a força.

Presidente da Venezuela Carlos Andrés Pérez nacionalizou o petróleo do país desde 1976

O petróleo na Venezuela não foi nacionalizado por Maduro. Nem por seu antecessor, Hugo Chávez, que governou de 1999 até morrer em 2013. Quem nacionalizou o petróleo na Venezuela foi o então presidente de centro-esquerda Carlos Andrés Pérez, em 1976. No vizinho Brasil, o mesmo ocorreu desde 1953, quando Getúlio Vargas criou a Petrobras.

Após usar seu grande porrete, Trump reafirmou e rebatizou a Doutrina Monroe. Mas não deu uma palavra sobre a restauração da democracia na Venezuela. Que foi golpeada desde que Maduro se manteve ilegalmente no poder após perder no voto popular a eleição presidencial em julho de 2024, com o injustificável apoio de parte da esquerda latino-americana. Por sua vez, o presidente dos EUA deu mais detalhes dos seus interesses econômicos:

— Nossas gigantescas companhias petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, vão entrar (na Venezuela), gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país.

 

EUA vão administrar a Venezuela?

Trump também falou abertamente que os EUA passarão a administrar a Venezuela:

— Nós estamos lá e ficaremos até que uma transição adequada aconteça. Nós vamos basicamente executar, administrar o país até que uma transição apropriada aconteça.

Delcy Rodríguez, vice de Maduro e presidente interina da Venezuela

O presidente dos EUA só não explicou como fará isso. Se, de fato, capturaram sem grande trabalho Maduro e a esposa, os EUA não invadiram nem ocupam a Venezuela. Cuja vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente. E disse ontem na posse: “A Venezuela só tem um presidente: Nicolás Maduro (…) Nunca seremos colônia de outro país”.

 

China pede liberdade de Maduro, mas quer Taiwan

A China, que recebia 80% da exportação de petróleo da Venezuela com Maduro, se manifestou hoje sobre o caso: “A China pede aos EUA que garantam a segurança pessoal do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, que os libertem imediatamente e que cessem as ações para derrubar o governo da Venezuela”.

Em guerra comercial com os EUA, a China também tem interesse óbvio no petróleo da Venezuela. Por outro lado, a ação de Trump contra Maduro pode ser recebida como um sinal verde para o presidente Xi Jinping também usar seu grande porrete sobre Taiwan, país insular independente cuja posse Pequim reivindica. Como para a Rússia de Vladimir Putin sobre a Ucrânia e outras ex-repúblicas da extinta União Soviética, ou o Israel de Benjamin Netanyahu sobre a Palestina e outros vizinhos árabes.

 

Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu e Xi Jinping

 

Francis Fukuyama

Imperialismo reinaugurado como ordem mundial

Após a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991, o mundo multilateral criado a partir dali não parece ter vingado até 2026. Se chegou a ser classificado de “fim da História”, em seu nascimento, pelo filósofo e economista nipo-estadunidense Francis Fukuyama, esse período dos últimos 35 anos parece ter sido só um hiato breve da História.

Com base no poder militar e econômico, o imperialismo parece ser a ordem mundial reinaugurada neste início do segundo quarto do século 21. Dos EUA nas Américas, da China na Ásia, da Rússia no Leste Europeu e de Israel no Oriente Médio. Todos sem constrangimento em usar falicamente seus grandes porretes sobre o que considerarem suas áreas de influência.

Jean-Paul Sartre

Noves fora o direito internacional e o juízo moral, quem se opuser com palavras suaves, mas sem nenhum grande porrete, pode ser remetido, em termos de consequência prática, ao filósofo Jean-Paul Sartre. Que, quando testemunhou as tropas nazistas da Alemanha de Adolf Hitler ocupando sua França em junho de 1940, questionou: “O que tínhamos a opor-lhes?”

 

 

Adolf Hitler após conquistar Paris

 

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Após capturar Maduro, Trump diz que EUA administrarão a Venezuela

 

Donald Trump e Nicolás Maduro

 

O mundo acordou no 3º dia de 2026 com a notícia do ataque dos EUA, durante a madrugada, contra a Venezuela. Onde capturaram na capital, Caracas, o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. No início da tarde, o presidente do EUA, Donald Trump, revelou em coletiva na sua residência, em Mar-a-Lago, na Flórida:

— Nós estamos lá (na Venezuela) e ficaremos até que uma transição adequada aconteça. Nós vamos basicamente executar, administrar o país até que uma transição apropriada aconteça.

Cercado de assessores administrativos e militares, Trump revelou também o motivo econômico para a operação militar no país da América do Sul que detém as maiores reservas de petróleo do mundo:

— Também conseguimos apreender o petróleo venezuelano para trazer para o solo americano porque eles retiraram isso, eles fizeram, eles roubaram bilhões de dólares no nosso petróleo (…) nós que construímos a indústria petrolífera na Venezuela com o nosso talento, o nosso trabalho, deixamos que um exílio socialista roubasse durante esses governos anteriores e roubassem usando a força.

O petróleo na Venezuela não foi nacionalizado por Maduro. Nem por seu antecessor, Hugo Chávez, que governou de 1999 até morrer em 2013. Quem nacionalizou o petróleo na Venezuela foi o então presidente de centro-esquerda Carlos Andrés Pérez, em 1976. No vizinho Brasil, o mesmo ocorreu desde 1953, quando Getúlio Vargas criou a Petrobras.

Trump não disse quanto tempo os EUA administrarão a Venezuela. Nem deu uma palavra sobre a restauração da democracia no país, solapada desde que Maduro se manteve ilegalmente no poder após perder no voto popular a eleição presidencial em julho de 2024. Mas o presidente dos EUA deu mais detalhes dos seus interesses econômicos:

— Nossas gigantescas companhias petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, vão entrar (na Venezuela), gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país.

Capturado em seu complexo presidencial, aparentemente, enquanto dormia, Maduro foi levado para o navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima. Onde está sendo transportando vendado, algemado e com audição bloqueada por fones para os EUA. Lá, segundo a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, deve ser julgado em uma corte de Nova York por narcoterrorismo.

Em editorial publicado logo após a ação militar contra Maduro, o New York Times sentenciou: “Ataque de Trump à Venezuela é ilegal e imprudente”. No mesmo texto, o principal jornal dos EUA, no entanto, não poupou críticas ao agora ex-presidente do país sul-americano:

— Poucas pessoas sentirão qualquer simpatia pelo Sr. Maduro. Ele é antidemocrático e repressivo, e desestabilizou o Hemisfério Ocidental nos últimos anos. A ONU divulgou recentemente um relatório detalhando mais de uma década de assassinatos, tortura, violência sexual e detenções arbitrárias por seus capangas contra opositores políticos. Ele (Maduro) fraudou a eleição presidencial da Venezuela em 2024. Ele alimentou a instabilidade econômica e política em toda a região, instigando um êxodo de quase 8 milhões de migrantes.

 

Repercussão no Brasil

Ex-aliado político de Maduro, de quem se afastou após a fraude nas eleições presidenciais da Venezuela em 2024, o presidente Lula (PT) se manifestou sobre a ação dos EUA. Que, mesmo sem citar o nome do ex-colega, condenou e cobrou uma posição da ONU:

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.

Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.

A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões.

A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz.

A comunidade internacional, por meio da ONU, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”, disse Lula em nota publicada no rede social X, antigo Twitter.

Já os presidenciáveis de oposição no Brasil, para a eleição de outubro de 2026, apoiaram a ação militar dos EUA na Venezuela:

— A Venezuela tornou-se um dos exemplos mais extremos de como um regime autoritário pode destruir uma nação (…) Maduro utilizava o território venezuelano como rota estratégica para a distribuição de drogas para diversos países — acusou o senador Flávio Bolsonaro (PL).

— Que este 3 de janeiro entre para a história como o dia da libertação do povo venezuelano, oprimido há mais de 20 anos pela narcoditadura chavista. Que a democracia, a liberdade e a prosperidade se instalem no país — pregou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União)

— Quero parabenizar o presidente Trump pela brilhante decisão de libertar o povo da Venezuela, um povo que estava sendo oprimido há décadas por tiranos antidemocráticos. Viva a liberdade! Viva a democracia! Viva a Venezuela! — escreveu o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD)

— Que a queda de Maduro sirva para que o povo venezuelano finalmente reencontre paz, estabilidade e o caminho do desenvolvimento — desejou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).

O único nome da oposição, entre os cotados a candidato presidente do Brasil em 2026, que criticou tanto Maduro quanto a ação dos EUA foi o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD):

— O regime ditatorial de Maduro é inadmissível. Viola direitos humanos, sufoca liberdades e impõe sofrimento ao povo venezuelano. No entanto, a violência exercida por uma nação estrangeira contra outra soberana, à margem dos princípios básicos do direito internacional, em especial o de não intervenção, é igualmente inaceitável.

 

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Polêmicas e eleições 2026 no Folha no Ar desta terça

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Presidente da Companhia de Desenvolvimento da Companhia de Campos (Codemca), presidente municipal e coordenador regional do Podemos e pré-candidato a deputado estadual, Thiago Virgílio é o convidado do Folha no Ar desta terça (30), ao vivo, a partir das 7h da manhã, no Folha no Ar.

Ele falará das polêmicas recentes em que se envolveu nas redes sociais com o deputado estadual Vitor Junior (PDT), campista radicado em Niterói e pré-candidato a deputado federal, além das recentes na Câmara Municipal, entre o vereador Marquinho Bacellar (União) e a bancada governista.

Thiago também analisará o governo Wladimir 2, da perspectiva de quem ainda o integra, e os nomes de Campos e região (confira aquiaqui e aqui) como pré-candidatos a deputado federal e estadual.

Por fim, ele também tentará projetar as eleições a governador (confira aqui) e senador do RJ, como a presidente da República (confira aqui e aqui), na urna de 4 de novembro de 2026, daqui a pouco mais de 9 meses.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

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O reconhecimento e a lição ao Flamengo diante do PSG

 

Goleiro russo Safonov deu o inédito Intercontinental ao PSG ao defender quatro das cinco cobranças do Flamengo na disputa de pênaltis, após o empate de 1 a 1 no tempo normal e prorrogação da final de quarta, no Qatar

 

PSG confirma favoritismo

Na quarta (17), dia da final do Intercontinental entre Flamengo e Paris Saint-Germain, a coluna assumiu (confira aqui): “a seleção mundial do clube francês é favorita diante da seleção sul-americana da Gávea”. O PSG provou isso ao levar o título inédito na disputa de pênaltis. Mas o empate de 1 a 1 no tempo normal e prorrogação é a evidência do nível que o time de Filipe Luís atingiu.

 

Empate após golear Inter e Real

O PSG chegou à final do Intercontinental após golear a Inter de Milão por 5 a 0 na final da Champions da Europa, em 31 de maio. E goleou o espanhol Real Madrid por 4 a 0 na semifinal da Copa do Mundo de Clubes, em 9 de julho. Mas, na quarta, a despeito do gol do atacante georgiano Kvaratskhelia, em falha do goleiro Rossi, este não fez nenhuma defesa difícil.

 

“Sabe defender em qualquer forma”

Contra o tetracampeão da Libertadores, o PSG não teve o grande número de chances que criou para golear outros gigantes da Europa. O que revela a maior virtude do time de Filipe Luís na quarta: a defesa. Como reconheceu Luiz Enrique, técnico espanhol do clube francês, sobre seu adversário carioca: “Sabe defender em qualquer forma, pressionando alto ou linha baixa”.

 

Defesa desde o ataque

A grande atuação da linha defensiva do lateral-direito Varella, dos Léos Pereira e Ortiz na zaga e do lateral-esquerdo Alex Sandro refletiu o compromisso coletivo com o combate desde o ataque. Com Carrascal na esquerda, Bruno Henrique e Arrascaeta ao centro e, sobretudo, Plata na direita. Onde marcou o português Nuno Mendes, melhor lateral-esquerdo do mundo.

 

Pragmatismo das faltas

Entre defesa e ataque, Pulgar e Jorginho também se desdobraram no 1º tempo. No qual o PSG foi melhor e fez os dois volantes rubro-negros apelarem ao rodízio de faltas. O que não fariam sem a orientação de Filipe Luís, em pragmatismo tático para tentar dar o título ao Flamengo. Contra um time mais jovem, superior tecnicamente e que teve 60% de posse de bola.

 

Converteu pênalti e fez falta

Amarelados pelo excesso de faltas, Pulgar e Jorginho dariam lugar a De La Cruz e Saúl, que também tiveram excelentes atuações no 2º tempo. No qual o Flamengo foi melhor e empatou o jogo, ainda com Jorginho. Que converteu o pênalti sofrido por Arrascaeta, em uma cobrança perfeita que tanta falta faria depois.

 

Chances de fechar o jogo

Nos minutos finais do tempo normal, Plata e o centroavante Pedro, que também entrou no 2º tempo, tiveram chances de definir o jogo a favor do Flamengo. Como o zagueiro brasileiro Marquinhos, a favor do PSG, dentro da área rubro-negra. Na prorrogação, até pelo número inferior de jogos disputados na temporada, o time francês foi melhor.

 

Vitinha, Safonov e a cola

O volante português Vitinha, maestro do PSG, foi eleito o melhor jogador da final. Mas seu herói improvável foi o goleiro russo Safonov, que catou as cobranças de Saúl, Pedro, Léo Pereira e Luiz Araújo na disputa de pênaltis. Com a ajuda do auxiliar espanhol Borja Álvarez, preparador de goleiros do PSG, que passou ao seu a cola dos batedores do Flamengo.

 

O reconhecimento e a lição

A qualidade do futebol rubro-negro foi reconhecida pelos jornalistas esportivos do mundo, que aplaudiram Filipe Luís longamente antes da sua coletiva. O PSG tem um orçamento cinco vezes maior que o Flamengo. Mas essa diferença se encurtou num jogo igual. Que deixou como lição a diferença decisiva: time que perde quatro pênaltis na final não ganha nem torneio de várzea.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Celular de TH prendeu Bacellar, cujo celular prendeu Macário

Desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto foi preso pelo conteúdo do celular do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, que foi preso pelo conteúdo do celular do ex-deputado estadual TH Joias

 

 

Celulares e prisões no RJ

Foi o celular do ex-deputado estadual TH Joias, preso em 3 de setembro, por associação com a facção Comando Vermelho, que levou à prisão (confira aqui) do ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), em 3 de dezembro. Como o celular de Bacellar levaria à prisão, no dia 16, do (confira aqui) desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF 2) Macário Ramos Júdice Neto.

 

As operações até aqui

TH foi preso e teve o celular apreendido na operação Zargun da Polícia Federal (PF). Bacellar foi preso e teve o celular apreendido na operação Unha e Carne. Relator do caso de TH no TRF 2, Macário foi preso e teve três celulares apreendidos na operação Unha e Carne 2. Que também apreendeu (confira aqui) três celulares de Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete de Bacellar.

 

À esquerda, chefe de gabinete de Bacellar exonerado do cargo na Alerj, Rui Bulhões sai da Superintendência da PF no Rio após ter três celulares apreendidos pela PF em sua residência (Foto: Henrique Coelho/G1 Rio)

 

No celular de TH

Quando a PF chegou à residência de TH em setembro, encontrou o ambiente esvaziado às pressas e sem o então deputado. Ele acabaria preso horas depois, num condomínio de luxo, na zona sudoeste da cidade do Rio. E, no seu celular, estavam as mensagens trocadas com Bacellar. Nas quais este teria avisado a TH da operação e o orientado a eliminar provas.

 

Prisão de Bacellar

De posse desses dados e com mandado de prisão de Bacellar expedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o superintendente da PF no RJ, delegado Fábio Galvão, chamou o então presidente da Alerj para um café. Desavisado, o político de Campos não zerou o celular. E levou em seu carro oficial R$ 91 mil em dinheiro.

 

Prisão de Macário

Bacellar não entregou a senha do celular após ser preso na Superintendência da PF no Rio, mas seu conteúdo foi acessado pela perícia. A partir das mensagens nele trocadas em alto grau de intimidade com Macário, este foi preso como suspeito de ter vazado ao então presidente da Alerj a informação da prisão de TH, na véspera da operação Zargun.

 

Destinos de TH, Macário e Bacellar

TH está no Presídio Federal de Brasília, enquanto Macário está na Cadeia Pública Constantino Cokotós, em Niterói. Bacellar teve sua soltura votada pela Alerj (confira aqui) no dia 8, por 48 votos a 21, e concedida no dia 9 (confira aqui) por Moraes. Mas com afastamento da presidência da Alerj, uso de tornozeleria eletrônica e entrega do passaporte, entre outras medidas cautelares.

 

Novas operações e prisões?

Em resumo, o celular de TH levou à prisão de Bacellar, cujo celular levou à prisão de Macário. O que ainda estiver nestes celulares, como nos três do desembargador e nos três de Bulhões, todos apreendidos pela PF, pode render novas operações e prisões. Todas geradas (confira aqui) a partir da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, a ADPF das Favelas do STF.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Hoje, o mundo entre o Flamengo e o Paris Saint-Germain

 

Flamengo de Filipe Luís, Arrascaeta e Bruno Henrique disputa hoje o mundo, no Qatar, contra o PSG de Luiz Enrique, Dembélé e Vitinha (Arte: Joseli Matias)

 

 

Em dezembro de 25?

A partir das 14h (de Brasília) de hoje, mais de 55 milhões de brasileiros estarão menos distantes da maior glória da história centenária do Flamengo: ser campeão mundial de futebol. O que só a geração de Zico, Leandro, Júnior e cia. conseguiu há 44 anos, “em dezembro de 81”. E que a geração de Arrascaeta e Bruno Henrique terá mais uma chance de tentar igualar.

 

O PSG do melhor do mundo

O Flamengo tem mais tradição que seu adversário europeu Paris Saint-Germain (PSG). Mas este tem mais dinheiro, desde que foi comprado em 2011 por um fundo estatal do Qatar. Onde será disputada a final, no estádio Ahmad Bin Ali, na cidade de Al Rayyan. E, além do novo melhor do mundo da Fifa, o atacante francês Dembélé, o PSG tem outros grandes jogadores.

 

Vitinha é o cérebro

Os portugueses Vitinha e Nuno Mendes são craques. O primeiro é o volante e cérebro do time, enquanto o segundo é, hoje, o melhor lateral-esquerdo do mundo. Outro português, João Mendes é um meia criativo, enquanto o ponta-esquerda georgiano Kvaratskhelia, ao estilo Bruno Henrique, pode ser mais difícil de ser marcado do que ter seu nome pronunciado.

 

Dembélé e Pedro

Como quase todo grande clube europeu, o PSG também tem seu brasileiro, o zagueiro Marquinhos, capitão da equipe. Dembélé se recupera de virose e pode, como o centroavante rubro-negro Pedro, que volta de contusão, só entrar no decorrer do jogo. Sobretudo se um ou outro time precisarem desesperadamente de gols.

 

Arrasca e BH

Aos 31 anos e melhor jogador de 2025 no futebol brasileiro, o uruguaio Arrascaeta vive a grande fase da sua carreira no Flamengo. E tem revertido uma característica que incomodava em temporadas passadas: sumir nos momentos decisivos. Aos 34, BH não vive seu melhor momento. Mas nunca se intimida e costuma surgir para decidir os jogos mais difíceis.

 

Mais posse, menos erros

Flamengo e PSG, como seu técnico espanhol Luiz Enrique frisou ontem, têm como marca a posse de bola. Quem a retiver mais tende a se impor. E, sobretudo, quem errar menos. Após a eliminação por 4 a 2 para o Bayern de Munique na Copa do Mundo de Clubes, o time de Filipe Luís não pode entregar três gols em saída de bola. Nem desperdiçar as chances que criar.

 

Mundo, mundo, vasto mundo

Embora o L’Équipe, principal jornal esportivo da França, tenha posto ontem PSG e Flamengo em pé igualdade, quem os têm no chão, e os olhos nos orçamentos, sabe que a seleção mundial do clube francês é favorita diante da seleção sul-americana da Gávea. Mas é futebol. E serão 55 milhões no coro: “E agora o seu povo pede o mundo de novo”. Venha ele ou não.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Hevertton Luna — Agora queremos o Mundo!

 

 

Hevertton Luna, jornalista

Agora queremos o Mundo!

Por Hevertton Luna

 

De volta ao início dos anos 2000, naquele tempo das vacas magras, me lembro do meu tio-avô Cilinho. Foi ele quem fez meu pai e meu tio torcerem para o Flamengo. E, de quebra, eu também. Era Cilinho quem contava as glórias da geração de 80, os gols de Zico, os troféus levantados, a alegria simples de ser rubro-negro.

Lembro da casa da minha bisa. Ele sentado na varanda, falando com convicção: “Quando tinha uma falta na entrada da área, era gol de Zico”. Falava da geração de ouro rubro-negra enquanto eu ouvia, quieto, sonhando, em silêncio, com algo parecido algum dia.

Agora é a nossa vez.

Para a minha geração, ainda falta o Mundo. E, tal qual um jogo de War, estamos construindo o caminho, território por território. Já conquistamos as Américas, a África, a Ásia e a Oceania. Falta a última jogada, contra o Paris Saint-Germain, para selar este ano mágico.

E, mais uma vez, vou acreditar no que não posso ver, sentir o que não posso tocar, certo de que algo de bom vai acontecer.

Tio, obrigado por ser a raiz de todo o rubro-negrismo que há em mim. Obrigado por narrar momentos históricos que me fizeram sonhar e, hoje, sentir a alegria de ter o Flamengo na alma, em cada dia da minha vida.

Seremos campeões. E sei que, de onde estiver, você sempre estará comigo.

 

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Após prisão por celular, três celulares de Bulhões apreendidos

 

À esquerda, chefe de gabinete de Bacellar exonerado ontem do cargo na Alerj, Rui Bulhões sai da Superintendência da PF no Rio após ter três celulares apreendidos pela PF em sua residência (Foto: Henrique Coelho/G1 Rio)

 

 

Macário a Bacellar: “Te amo”

A intimidade das conversas entre Bacellar e Macário, revelado ontem (confira aqui) pela PF, deixou o parlamentar campista, licenciado (confira aqui) após liberado da prisão (confira aqui e aqui) pela Alerj, e o magistrado preso em situação delicada.  Em outubro, Macário enviou a Bacellar: “Te amo”. O então presidente da Alerj respondeu: “Deus te abençoe irmão. Sou teu fã”. O magistrado reforçou: “Recíproco”.

 

Histórico do desembargador

Em 2005, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu processo criminal (confira aqui) contra Macário para apurar fraudes em sentenças e envolvimento com a máfia dos caça-níqueis do Espírito Santo. Ele foi afastado das funções à época. Cerca de 10 anos depois, o plenário do TRF 2 o aposentou compulsoriamente. Mas a decisão foi revogada pelo… Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

 

Mais celulares apreendidos

Conhecido em Campos pelo trabalho anterior como personal trainer, antes de ascender com o grupo de Bacellar, Rui Bulhões também foi alvo da operação Unha a Carne 2. Chefe de gabinete do ex-presidente da Alerj, ele foi exonerado do cargo ontem. Alvo de busca e apreensão da PF, teve em sua residência três celulares apreendidos.

 

Aflição entre 2025 e 2026

É princípio de qualquer Estado Democrático de Direito: “Todos são inocentes até que se prove em contrário”. Mas quem estiver em conversas pouco republicanas em todos esses celulares apreendidos pode passar as festas de final de ano com a aflição de, no lugar do Papai Noel, ter agentes da PF batendo à porta da sua casa. Sem que nada, até aqui, indique um 2026 melhor.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Desembargador federal preso na Unha e Carne de Bacellar

 

Celular apreendido do presidente afastado da Alerj Rodrigo Bacellar, preso no dia 3 pelo STF e solto no dia 9, levou a PF à prisão ontem (16) do desembargador do TRF 2 Macário Ramos Júdice Neto (Montagem: Joseli Matias)

 

 

Desembargador federal preso

Ontem (16), na operação Unha e Carne 2, o desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF 2) Macário Ramos Júdice Neto foi preso (confira aqui) pela Polícia Federal (PF). Porque teria vazado ao ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União) informações sobre a prisão do ex-deputado TH Joias. Este, preso em 3 de setembro por associação com o Comando Vermelho.

 

O fio da meada

Por ter repassado informações sigilosas a TH Joias e o orientado na eliminação de provas, Bacellar foi preso e afastado da presidência da Alerj (confira aqui) em 3 de dezembro, na operação Unha e Carne 1. Com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes à frente do caso, ontem a Unha e Carne 2 prendeu o desembargador que teria sido a fonte da informação.

 

Ligação revelada desde o dia 6

No último dia 6, o blog Opiniões revelou (confira aqui) a relação do desembargador do TRF 2 Macário Júdice Neto com o caso que gerou a prisão de Bacellar: “Moraes sinalizou que a investigação terá desdobramentos. Ele pediu o compartilhamento de informações da Operação Oricalco. Que, pelo menos publicamente, ainda não aconteceu. O processo está no TRF 2 e corre sob sigilo”.

 

O que pode vir pela frente? (I)

“‘Ao desembargador relator Júdice Neto (solicito) o compartilhamento de todos os elementos de convicção angariados em todos os procedimentos e processos relacionados à operação Oricalco’, pediu Moraes. Além de Bacellar, outros cinco deputados da Alerj seriam alvo da PF”, adiantou o blog no dia 6. Agora, com Macário preso e Moraes na cola, a coisa tende a andar.

 

Celular de Bacellar fez 1ª vítima

Pois ontem (16), exatos 10 dias depois, Moraes determinou a prisão de Macário. O desembargador federal parece ter sido a primeira vítima do celular de Bacellar, apreendido pela Polícia Federal (PF) na sua prisão. Como o blog Opiniões também advertiu no dia 6:

 

O que pode vir pela frente? (II)

“Preso após ser convidado pelo superintendente da PF no RJ, delegado Fábio Galvão, para uma reunião no dia 3, Bacellar teve também apreendidos R$ 91 mil em espécie que levava em seu carro blindado. Como o seu celular pessoal. Cujo conteúdo é temido por muitos na cúpula política fluminense. E tem o poder de ser o definidor eleitoral (e policial) do RJ”. Dito e feito.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Fla x PSG, Vasco x Corinthians e Copa de 2026 no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Torcedores, respectivamente, do Fluminense, do Vasco, do Botafogo e do Flamengo, a advogada Andresa Hauaji, o engenheiro de produção João Marcelo Coutinho, a professora de História Roberta Barcellos e a jornalista Silvana Venâncio formam o time de convidados do Folha no Ar desta quarta (17), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Eles tentarão projetar as finais da Copa do Brasil entre Vasco e Corinthians, cujo jogo 1 começa a partir das 21h30 da própria quarta, na casa do time paulista. Com o jogo 2 no Maracanã, às 18h30 de domingo (21), para fechar o calendário do futebol brasileiro em 2025.

Silvana, Roberta, João e Andresa também tentarão projetar a final da Copa Intercontinental de Clubes da Fifa entre Flamengo e Paris Saint-Germain (PSG). Na qual os campeões da Libertadores da América e da Champions da Europa decidirão o Mundial em jogo único, a partir das 14h (de Brasília) também desta quarta, no estádio Ahmad Bin Ali, na cidade de Al Rayyan, no Qatar.

Por fim, os quatro analisarão as chances do Brasil do treinador italiano Carlo Ancelotti na Copa do Mundo de seleções, entre junho e julho de 2026. Que integra o Grupo C contra Marrocos, revelação da Copa de 2022, Haiti e Escócia. Assim com as chances de outras seleções consideradas favoritas ao título, como a França de Mbappé, a Espanha de Yamal, a Argentina de Messi e o Portugal de Cristiano Ronaldo.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

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Eleições do Chile ao Brasil e RJ no Folha no Ar desta terça

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Jornalista e articulista do Correio Braziliense, Luiz Carlos Azedo é o convidado do Folha no Ar desta terça (16), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Ele analisará a definição da eleição presidencial do Chile ontem (14), vencida (confira aqui e aqui) pelo conservador José Antonio Kast e suas possíveis consequências (confira aqui) à América do Sul.

De Brasília, Azedo também tentará projetar as eleições a presidente no Brasil (confira aqui e aqui) de governador e senador (confira aqui) do RJ em 4 de outubro de 2026, daqui a pouco mais de 9 meses.

Por fim, o jornalista avaliará o cenário político fluminense após a prisão (confira aqui, aqui, aqui e aqui), soltura (confira aqui e aqui) e afastamento do campista Rodrigo Bacellar (União) da presidência da Alerj (confira aqui) pelo Supremo Tribunal Federal (STF), assim como (confira aqui e aqui) questões éticas sobre a Corte.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

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Edmundo Siqueira — De Ruy Barbosa ao Supremo de Gilmar e Toffoli

 

Jornal O Malho, de 11 de maio de 1907, sobre a atuação de Ruy Barbosa representado o Brasil na Conferência de Paz de Haia (Reprodução)

 

 

Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1

No Brasil de hoje, o Supremo não pode errar — nem por último

Por Edmundo Siqueira

 

O Brasil teve grandes oradores. Entre os maiores, está Ruy Barbosa (com “y”, como ele foi registrado e assinava), que recebeu a alcunha de “Águia de Haia” do Barão do Rio Branco pela sua atuação marcante como delegado na II Conferência da Paz, em Haia (Holanda, 1907), onde defendeu o princípio da igualdade dos Estados.

Enquanto senador da República (1890-1921), Ruy, em resposta ao seu colega gaúcho Pinheiro Machado, disse algo que ficaria marcado na história brasileira:

“Em todas as organizações, políticas ou judiciais, há sempre uma autoridade extrema para errar em último lugar. O Supremo Tribunal Federal, não sendo infalível, pode errar. Mas a alguém deve ficar o direito de errar por último, a alguém deve ficar o direito de decidir por último, de dizer alguma coisa que deva ser considerada como erro ou como verdade”.

 

De Ruy a Gilmar

No último dia 4 de dezembro, em resposta a duas ADPFs (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) movidas pelo partido Solidariedade e pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), o ministro Gilmar Mendes suspendeu diversos trechos da Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950) relativos ao afastamento de ministros da corte, restringindo à Procuradoria-Geral da República (PGR) a prerrogativa de entrar com um pedido de impeachment contra os magistrados.

Não cabendo a Gilmar a prerrogativa de errar por último, a decisão liminar seria analisada pelo pleno do STF em sessão virtual agendada para começar nesta sexta-feira (12), porém na quarta-feira (10), o ministro decano do Supremo decidiu suspender parcialmente a liminar atendendo pedido feito pelo Senado Federal.

Gilmar também retirou de pauta o julgamento que seria analisado em Plenário virtual, retirando na nova decisão apenas dois pontos da decisão original, que atribuíram exclusivamente à Procuradoria-Geral da República a competência para apresentar denúncia por crime de responsabilidade contra ministros do STF, mantendo os demais vigentes em caráter liminar.

 

De Ruy a Toffoli

Outro ministro do Supremo, Dias Toffoli, viajou à capital do Peru, para assistir, no Estádio Monumental “U”, o jogo final da Libertadores, disputada entre Flamengo e Palmeiras. Toffoli viu seu time, o alviverde, perder para o rubro-negro por 1 a 0. A viagem do ministro foi feita em um jatinho particular de propriedade do empresário Luiz Osvaldo Pastore.

Na companhia do ministro estava o advogado Augusto Arruda Botelho, que é defensor de Luiz Antônio Bull, um dos alvos da investigação sobre o Banco Master que se encontra no Supremo. Após a carona, revelada pelo jornal O Globo, Toffoli deu decisões sensíveis relacionadas ao caso, em uma delas, decretou sigilo total no processo.

O Barão de Montesquieu, disse em sua obra clássica, “Do Espírito das Leis” (1748), que o poder é uma tentação perigosa. Montesquieu acreditava que para conter abusos seria preciso que “o poder freie o poder”.

Toda essa complexa dança — jurídica, social e política — só consegue manter o espetáculo democrático funcionando quando se respeita um sistema igualmente complexo de freios e contrapesos. Onde cada dançarino (poder) tem movimentos próprios e independentes, mas se move de forma coordenada para evitar colisões (abuso de poder), garantindo que a música da lei ressoe em um ritmo harmonioso para toda a sociedade.

 

No Brasil de hoje, o Supremo não pode errar; sequer por último

A Constituição de 1988 outorgou ao STF competências amplas, inclusive a de controlar, interpretar e, quando necessário, invalidar leis aprovadas pelo Parlamento. Entretanto, ao fazer isso, pressupôs que a Corte exerceria tal poder com parcimônia — e não como quem se vê autorizado a corrigir a realidade conforme o gosto do momento.

O que é mais sensível, é que no Brasil de hoje não se pode permitir que o Supremo erre, e muito menos que erre por último intencionalmente e em autopreservação flagrante — porque, quando o guardião da Constituição abandona a autocontenção, não há a quem recorrer. O povo, que é a fonte primária do poder, vê-se reduzido ao papel de plateia silenciosa de uma coreografia institucional que já não lhe pertence.

Em tempos de polarização, personalismos e crises institucionais recorrentes, inclusive com ameaças de golpes de Estado e de abolição do Estado Democrático de Direito, a autocontenção judicial deixa de ser virtude acadêmica e passa a ser cláusula de sobrevivência democrática.

Devemos, enquanto nação, à atuação firme do Supremo boa parte da resistência democrática dos últimos anos no Brasil. Não se faz alheio a isso quem é responsável. Todavia, se continuar errando por último em nome desta defesa, e agindo na escancarada autopreservação e relações, no mínimo, suspeitas, invalidará o remédio.

E aí, quem remedeia os remédios?

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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