Da ditadura bolivariana à defesa petista de empresários corruptos, só rindo

E, na democracia irrefreável das redes sociais, mais uma no cravo (aqui) e outra também (aqui) do portenho goitacá Gustavo Alejandro Oviedo. Para tratar de dois assuntos dos mais sérios, mas sem perder o humor, nem que seja para rir da cara de quem não o possui, confira:

 

Amigos, lamento que o Estado de Direito seja burguês, mas é o único estado com regras concretas.

O resto é assim:

Oviedo1

  

Alguma vez você pensou que ia ver a esquerda defendendo empreiteiras e empresários corruptos?

Admirável progressismo novo.

Oviedo

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Por amor?

Na paráfrase à famosa letra do poeta Cazuza, inspiradora dos traços do mestre Chico Caruso em sua charge de hoje em O Globo, a pergunta mais cruel, mas necessária, talvez seja: há alguém capaz de acreditar que algum nome no meio dessa história toda ainda seja protegido por amor?

 

Chico Caruso

 

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“Fora FHC” não colou, mas deu para eleger Lula, que iria acabar com a corrupção no Brasil

Jornalista Tânia Fusco
Jornalista Tânia Fusco

Pequena história do combate à corrupção no Brasil

Por Tânia Fusco

 

Duas coisas são repetidas na nossa história política — sempre da M quando a campanha política não acaba na eleição e é o “combate a corrupção” que leva o povo para rua e derruba presidentes.

Numa historinha pra lá de simplificada, vamos começar por Getúlio Vargas, que enterrou a República Velha. Embora tenha vencido a presidencial de 1950, com 48% dos votos e na maioria dos estados — em São Paulo inclusive —, não teve trégua da oposição até seu suicídio em agosto de 1954, três anos e oito meses depois de ter assumido a presidência.

Defeitos mis. Qualidades também. Mas qual foi a tecla batida e rebatida que derrubou Getúlio? Denúncias de desmandos e corrupção que, junto com a carestia, sempre horrorizam e mobilizam nós cidadãos com ou sem ideologia, filiação partidária ou crença.

O difuso macro poder, naquele momento e em outros tantos, queria outro rumo. Manobrou e derrubou. Vamos para o próximo.

De Getulio para cá, só JK e Lula escaparam da armadilha de campanhas que não acabam com a eleição, quando há divisão clara de posições e disputa acirrada. Com diferenças de estilo e valores, ambos tiveram apontados desmandos, compadrio e corrupção. Lula escapou da inflação. JK não.

Não fosse o legalista Marechal Lott, Juscelino nem tomaria posse. Estreou no governo encarando rebeliões militares, greves e carestia. Habilidoso, salvou-se na artimanha desenvolvimentista que lhe garantiu parceria forte do business — banqueiros, empreiteiros, comerciantes e grandes indústrias — a automobilística como carro chefe.

Levantou Brasília, rasgou estradas para rodar os novos carros nacionais e segurou a onda até o fim do governo, mas não fez o sucessor. Foi derrotado por Jânio Quadros, um outsider histriônico, que venceu com o recorrente mote de varrer do mapa o que, o que? A “corrupção desenfreada” do governo JK. (Ó ela ai de novo!)

Nós, os de mais de 50, temos lembrança do “Varre, varre vassourinha…”, jingle da campanha de Jânio que, claro, tinha a vassoura como símbolo.

Jânio cabia no modelão populista. Sozinho, carregava caspas nos ombros e um partideco, o PTN, sinalizava seguir cartilha da velha UDN – diligente e eterno combate à corrupção!  Mesmo carecendo de apoio político, botou fé nos votos e tentou voo solo. Acabou aterrado por umas tais “forças ocultas e terríveis”. Vazou da presidência seis meses e 27 dias depois de empossado.

Dessa vez, não deu nem tempo do povo pegar o terço e ir para rua num Fora Jânio! Mas, em páginas, corações e mentes de brasileiros vigilantes, já havia certo ensaio contra o bicho papão da ameaça comunista — condecorou Che Guevara, o ícone guerrilheiro! —, a carestia/inflação e a corrupção.

Além de proibir biquine e briga de galo, Jânio, sem nunca ter explicado sua renúncia, foi quem começou a contagem regressiva para uma “tenebrosa” ditadura, que durou 20 anos e — lembram? — teve como principal motivação o que? O que? O combate à corrupção!

Entre o Jânio desvairado e o golpe militar de 1964, houve o Jango, o vice, trabalhista e nacionalista, que, sob permanente crise, segurou-se dois anos e 23 dias no governo.

Dessa vez deu tempo do povo a-me-a-ça-do, terço em punho, ir pra rua defender a pátria do populismo e do comunismo, dos desmandos, do aparelhamento do estado, e da corrupção.  Fora Jango!

Eita! De novo a saúva maldita e resistente da corrupção, que derruba governos, mas não cai em desuso, seja como prática, seja como mote para defenestrar presidentes/grupos de poder.

Dizem que a História só se repete como farsa e Collor repetiu Jânio. Não empunhou vassoura, mas prometeu caça aos marajás municipais, estaduais e federais. Corrupção nunca mais!

Confiscou dinheiro, desdenhou a oposição — “forças ocultas”? — e descuidou dos cofres. Povo na rua. Da noite pro dia, não era mais o verde-amarelo namoradinho do Brasil, mas refém da ira popular: abaixo a corrupção, o desmando e a inflação, que galopava, ameaçando a República desde o governo anterior – do presidente Sarney. Rolou.

FH que, dizem, nasceu virado pra lua, ganhou-ganhando embalado no Real e na bendita estabilidade econômica. Não balançou nem na má lição do ministro: o que é bom a gente mostra, o que é ruim esconde.

Dois mandatos. Até que a economia vacilou, a privatização prevaricou, faltou luz .O tal do mote da corrupção bateu na porta.  “Fora FHC!” não colou, mas deu gás para a eleger muito bem o Lula, que iria acabar com a corrupção no Brasil.

corrupção1

Agora vai! A oposição barbuda e comunista (!) chegou ao poder. Imperdoável e até dolorido para uns tantos, mas esperança para outros milhares.

Lula precisou suar a camisa, mas passou pelo mensalão. Só que deu motivo. Deixou rastro.  Petrobrás bichada? Como assim?  Lá vem a velha ladainha e cai pesada no colo da tia Dilma: contra a corrupção, aparelhamento do Estado, os desmandos!

A coisa anda tão brava, que até o medo do comunismo estão ressuscitando. Diz que por esses dias o povo vai para rua de novo contra o que já derrubou o Getúlio, o Jango e o Collor, ameaçou JK e Lula, bordeou o FHC. (Repetirão o modelo do terço em punho?).

Diz aí: quem é o ovo, quem é a galinha? Renitente é a corrupção ou o modelo de, prometendo acabar com ela, ganhar o poder? As duas coisas? Mocinhos amanhã serão bandidos e vice-versa?

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

 

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Dilma e o PT parecem esquecidos que quase metade do PMDB apoiou Aécio a presidente

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Dilma e o PT têm vergonha de depender do PMDB para governar

Por Ricardo Noblat

 

Pergunta incômoda que teima em ser feita: por que não há um só ministro do PMDB no chamado “núcleo duro” do governo?

Por “núcleo duro” entenda-se o grupo de ministros com os quais a presidente Dilma Rousseff de fato governa o país.

Fazem parte do grupo: Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil; Pepe Vargas, ministro das Relações Institucionais; Jaques Wagner, ministro da Defesa; Miguel Rosseto, Secretário-Geral da presidência; José Eduardo Cardoso, ministro da Justiça, e Ricardo Berzoini, ministro das Comunicações. Todos do PT.

O PMDB é o sócio preferencial do PT no apoio a Dilma. Manda no Congresso por meio dos presidentes do Senado (Renan Calheiros) e da Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha).

No primeiro mandato de Dilma, o PMDB teve cinco ministérios. No mandato atual, seis. Mas os cinco eram mais importantes do que os seis de agora. Tinham mais poder.

PT e PMDBSempre se pode alegar que o vice-presidente da República é do PMDB – Michel Temer. Mas, e daí?

Dilma não ouve Temer para quase nada. Este ano, por exemplo, ainda não conversou com ele.

Joaquim Levy, ministro da Fazenda, reuniu-se ontem à noite com Temer, ministros e principais líderes do PMDB para pedir apoio às medidas antipopulares do ajuste fiscal.

Dilma ficou de conversar sobre isso com Temer, Renan e Eduardo. O PT quer deixar para o PMDB o encargo de publicamente se responsabilizar pela aprovação do ajuste.

Assim não dará certo.

Dilma, a turma dela e o PT têm vergonha de ser vistos na companhia do PMDB. Como se o distinto eleitorado não soubesse que é do PMDB que eles dependem. Como se eles fossem melhores do que o PMDB.

O mais forte sinal de que o PMDB arrebitou o nariz e não quer se manter a reboque do PT será dado amanhã em programa de propaganda do partido no rádio e na televisão.

Dilma e o PT parecem esquecidos que foi por poucos votos que o PMDB manteve o apoio à reeleição de Dilma. Quase metade dele apoiou a eleição de Aécio Neves (PSDB) a presidente.

Estejam certos: haverão de beijar a cruz quantas vezes sejam necessárias se quiserem contar com a ajuda do PMDB.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Seria o Mensalão a tragédia e o Petrolão a farsa?

Marx tragédia e farsa

 

 

Economista Paulo Guedes
Economista Paulo Guedes

Da tragédia à farsa

Por Paulo Guedes

 

“Hegel observou que todos os fatos e personagens de grande importância na História universal acabam por se repetir. E esqueceu-se de acrescentar: ocorrem a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, registrava Karl Marx em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” (1852). Pois bem, socialistas bolivarianos e peronistas do século XXI insistem em praticar como farsa os mesmos experimentos que causaram tragédias no século XX. O poder político é conquistado essencialmente pela promessa do Paraíso na Terra. Os pobres, deserdados pela insensibilidade dos liberais e pelo oportunismo dos conservadores, tornam-se então presas fáceis da secular seita socialista que arrancou das grandes religiões a bandeira da solidariedade.

Instalados no poder os socialistas, de sua ignorância em assuntos econômicos resulta inexorável desorganização da base produtiva. Segue-se o caos social e dispara-se finalmente a busca de bodes expiatórios. Assistimos depois aos sucessivos episódios de desonestidade intelectual, irresponsabilidade moral e truculência política como passos inevitáveis de uma desesperada tentativa de manutenção do poder.

Precisamos defender nossas instituições dessa grotesca e recorrente farsa histórica que já tragou nossos vizinhos. Estaremos nos próximos meses testando e aperfeiçoando nossas instituições. Veremos claramente quem são os inimigos de uma sociedade aberta no Brasil. Joaquim Barbosa e Sergio Moro, cujas contribuições demarcaram a independência do Poder Judiciário, advertem-nos para a atuação do próprio ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, que estaria tentando evitar a delação premiada do coordenador de um cartel de empreiteiras para fraudar licitações na Petrobras.

A presidente Dilma tem agora a oportunidade de reafirmar seu compromisso com as apurações dos malfeitos “doa a quem doer”. Pode até mesmo repreender seu ministro da Justiça. Teori Zavascki poderá demonstrar, com impecável desempenho futuro, que não evitava a delação premiada de Renato Duque quando o soltou, mas apenas cumpria o devido rito processual. Seria o Mensalão a tragédia e o Petrolão a farsa? Tempos interessantes, pois pede-se moralidade até mesmo em patrocínios de nossa amoral festa pagã. Escola carnavalesca patrocinada por ditadura não deveria ser campeã.

 

Publicado aqui, no Blog do Murilo

 

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Num cinema bem perto de você

Professor Elton Simões
Professor Elton Simões

Filme B

Por Elton Simões

 

Engana-se quem pensa que é pesadelo. Sonhos ruins duram pouco. Desaparecem com despertar sobressaltado, agitado, cheio de ansiedade. Têm vida curta e deixam poucos resíduos.

Também se engana quem já viu este filme. Não é filme antigo. Não se trata de reexibição. O que não quer dizer que a historia seja original. O filme de hoje é refilmagem sem versão original.

Bebê de RosemaryEspécie de filme b que agride olhos; perfura ouvidos; ofende inteligências. Enfim, mesmo que tenha sobrado orçamento na produção da historia, falta qualidade a narrativa. Talento é coisa difícil de ser comprada.

Já faz tempo que o roteirista se dispensou da obrigação de produzir narrativas sem sentido. E, pior ainda, repete, em ciclos, a mesma sequência narrativa. Nos primeiros momentos, esconde a realidade e vende castelos nas nuvens, contos de fada, ou historias desconectadas de qualquer sentido ou materialidade.

Baixada a poeira, a ilusão não mais se sustenta. E nosso roteirista abraça a negação. Faz de conta que o elefante não está na sala. E diz que não existe, não viu, não sabe, ou não é com ele. Finge. Finge tão completamente que chega a se convencer de sua própria mentira.

Nem sempre a repetição da mentira parece verdade. Na maior parte dos casos, parece mentira velha mesmo. Diante disso, o dedo indicador parece começar a funcionar. Fabricar culpados é tarefa simples. Basta distender o indicador. Não precisa imaginação, talento, ou arte. Embora a falta de escrúpulos ajude muito, a falta de familiaridade com o idioma compromete.

O problema, neste caso, é que a eficácia do dedo indicador é diretamente proporcional a credibilidade de seu dono. E credibilidade é coisa rara neste ajuntamento de cérebros baldios. Na impossibilidade de culpar exclusivamente ao outro, as opções diminuem.

Neste faroeste do cerrado, bandido que se presa sai (e às vezes cai) atirando. No que vê e no que não vê. Invariavelmente acerta o próprio pé. Mas sempre espalha a lama. Pinta todos com a mesma cor. Tenta convencer que sempre foi assim. Que é tudo igual. Que todos são o mesmo.

Incapaz de levantar o nível investe em rebaixar o teto.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Dos limites que pais, escolas e professores deveriam ter na educação dos filhos

Professor e filósofo Luiz Felipe Pondé
Professor e filósofo Luiz Felipe Pondé

Pais chatos

Por Luiz Felipe Pondé

 

Vivemos num mundo das modas de comportamento. Por exemplo: pais chatos. Você me pergunta o que é um pai chato? Pode ser uma mãe chata também, mas quando é pai, é pior ainda. Explico logo o porquê.

Antes, um reparo: evidente que os pais devem se ocupar da educação dos filhos. Ponto. Mas tem limite. Quer ver?

Há anos, quando meus filhos estavam em idade escolar, fomos, minha mulher e eu, a algumas reuniões. Poucas, porque sempre achamos que pais deveriam ser educados e não frequentar muito essas reuniões porque os professores, no final do dia, já estão cansados de correr atrás de nossos pestinhas. Ah! Esqueci: hoje não se pode mais falar assim. Nossos “hiperativos”.

Meus filhos estudaram numa dessas típicas escolas da zona oeste paulistana que custam R$ 3.000 por mês, ainda que professores preguem voto no PSOL e levem os meninos para acampamentos do tipo MST.

Mudança na educaçãoLembro-me de uma reunião em especial em que uma mãe, sentada atrás de mim, enchia o saco da professora de história, conhecida por ser amada pelos alunos, porque ela achava que o programa de história deveria contemplar mitos (o assunto era história antiga) nos quais as mulheres fossem guerreiras “empoderadas” (a palavra já dá vontade de vomitar…). E, também, que deveriam dar menos espaço para gregos, romanos, hebreus e mais para outros povos.

A professora, coitada, educadamente, depois de uma dia inteiro de trabalho, tentava explicar à mãe chata que, em se tratando de história antiga ocidental, não se podia negar a importância dos gregos, romanos e hebreus. Os demais povos seriam contemplados (lembre-se: estamos falando de Antiguidade!), mas esses três eram essenciais (na Antiguidade!) para a matriz ocidental.

Outro tipo chato é aquele que acha que a escola deve ensinar os alunos a mexer em computadores e afins. Normalmente, o cara é engenheiro ou algo assim, mas acha que, porque tem um carro coreano grande e branco, pode ensinar padre-nosso ao vigário. Só gente mal informada acha que criança de classe média precisa de escola pra aprender a mexer em computadores e afins.

Mais um tipo é aquele participativo em todas as atividades da escola e que leva a sério quando, educadamente, a instituição convida os pais a serem mais “presentes no dia a dia da escola”.

Esse é aquele tipo que se senta na primeira fila nas reuniões e fala o tempo todo. Quando acaba a reunião, lá pelas 22h, ele quer conversar com a professora enquanto ela pega a bolsa e se dirige para o seu carro.

Tipo muito interessado em saber como seu filho vai na escola, mas que na realidade quer falar de algo que ouviu falar numa dessas reuniões com gurus que falam sobre motivação em empresas, e acha que a professora deveria ler esse tal guru que ganha milhões ensinando bobagens sobre liderança. O mundo corporativo gasta milhões com gente fajuta.

Ou, quem sabe, pior ainda, aquele tipo que, em escolas de crianças muito pequenas, quer demonstrar sua condição de pai contemporâneo, disputando com as mães quem sabe mais sobre alimentação infantil.

Tem mais um hilário (entre tantos outros): os pentelhos que querem dizer para a coordenação que a escola deveria colocar disciplinas novas, como “biking”. Eita mundinho chato, esse.

Estou devendo a você uma explicação de por que, normalmente, os pais assim acabam sendo mais chatos do que as mães.

Uma das novas modas de comportamento é a mania de homens quererem o tempo todo provar que entendem melhor de bebês do que as mães. Essas, coitadas, acabam cedendo à moda porque, além de quererem ou precisarem trabalhar, não podem negar ao marido a ilusão de ser um “pai contemporâneo”. Outras, infelizmente, creem de verdade que o fato de os homens não poderem amamentar é uma injustiça social ou de gênero (o “gender gap”).

Óbvio que existem pais que sabem lidar com filhos pequenos. E mães que não são lá tão obcecadas pelos filhos. Pena. Mas, na maioria esmagadora dos casos, devemos deixar que as mulheres cuidem dessa área, porque elas sabem há milênios o que significa carregar uma criança nesse mundo.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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Do fascismo do politicamente correto e sua moralidade seletiva

Professor e filósofo Denis Lerrer Rosenfield
Professor e filósofo Denis Lerrer Rosenfield

Moralismo e ilegalidade

Por Denis Lerrer Rosenfield

 

O politicamente correto tornou-se uma praga a corroer valores, embora o faça em nome de supostos valores mais elevados. Procura-se atingir a liberdade de escolha, em nome da saúde ou de qualquer outro suposto valor, tomado a esmo, como se assim a sociedade fosse capaz de se organizar “melhor”. O “bem” e o “melhor” ganham, então, o seu significado dos que se dizem seus “representantes”, como se esses fossem a concretização de um valor maior.

A liberdade de autodefesa dos cidadãos é anulada em função de uma regulamentação sustentada por poucos, que nem se dão ao trabalho de justificar o desrespeito ao resultado do referendo sobre o desarmamento. Os habitantes do País ficam à mercê de criminosos e ao sabor de estatísticas incorretas, como se os “crimes” tivessem sido reduzidos graças a essa nova regulamentação. Por que não acatar um referendo ou fazer um novo, dando aos cidadãos o direito de decidir por si mesmos?

A liberdade de escolha, de fumar e de beber, está sendo progressivamente restringida, sendo a primeira delas uma espécie de cavalo de batalha que, se bem-sucedida, terá consequências ainda maiores em outros campos da liberdade individual. Atividades economicamente lícitas e reconhecidas constitucionalmente começam a ser tidas por “transgressoras”, como se fosse um ato de transgressão seguir as leis deste país. O moralismo do politicamente correto toma o lugar da lei. Se for para mudar a lei, façam-se leis com tais objetivos, ou melhor, os brasileiros deveriam ser consultados sobre o que pensam mediante consultas populares.

Em vez disso temos uma pletora de atos administrativos ou outros que interferem na liberdade de cada um. A tutela do Estado chega a tal ponto que os indivíduos, anestesiados, vêm a considerá-la como moralmente justificada. Ocorre uma renúncia à liberdade em função de um bem tido por maior, quando o maior perigo aí reside: tomar um valor qualquer como se fosse maior que o da liberdade.

politicamente correto3O politicamente correto tem, também, consequências econômicas, atingindo empresas, agricultores, empregos e renda. Pior ainda, seu moralismo invade o domínio da economia de mercado, propiciando atos ilícitos, que se aproveitam, precisamente, de regulamentações abusivas. Ou seja, há toda uma cultura da transgressão que vem associada à restrição da liberdade de escolha.

O contrabando, a pirataria e a sonegação de impostos impactam diretamente os empregos formais, atingindo inteiras cadeias produtivas e setores econômicos. A ilegalidade cobra o seu preço, embora, muitas vezes, o cidadão comum nem se dê conta cabalmente do que está fazendo. Compra um eletrônico falsificado, um cigarro que não segue padrões mínimos de qualidade e uma bebida que não obedece a critérios sanitários básicos. A arma que é proibida para o cidadão é comprada livremente por meliantes e traficantes em qualquer cidade brasileira. Se os Estados forem fronteiriços a alguns países latino-americanos, tanto mais fácil se armar, fumar, beber ou comprar qualquer bugiganga.

Para se ter uma ideia da enormidade do problema, 80% dos óculos são pirateados, 32% dos cigarros são contrabandeados (só este produto ocasionou uma evasão fiscal de R$ 4,5 bilhões em 2014), remédios são falsificados, atentando contra a saúde da população, softwares são livremente reproduzidos, filmes pirateados e assim por diante. A lista é imensa, no entanto não consta de nenhuma agenda política nem econômica. Sempre há uma “justificativa” e alguém disposto a justificar o injustificável.

O crime advindo do contrabando acarreta prejuízos enormes. A economia é profundamente afetada. Empregos são perdidos. A arrecadação de impostos cai. Em alguns casos o efeito chega a ser paradoxal, pois se aumenta a tributação formal, tendo como efeito o crescimento da economia informal, com a consequente redução de impostos. O fumo é um bom exemplo disso.

A ilegalidade cobra seu preço. Aumentam os atos ilícitos dos mais diferentes tipos. Drogas são comercializadas livremente, armas são vendidas e o cidadão comum, o que paga efetivamente impostos, fica à mercê de uma situação que o ultrapassa. Deve contentar-se com os discursos do politicamente correto, como se assim o País estivesse evoluindo e se tornando “progressista”. As palavras perdem o seu significado e se tornam objeto de mera retórica ideológica.

“Argumentos” politicamente corretos parecem não faltar: a “saúde” dos cidadãos, a sua “condição social”, a sua “segurança”, a sua “baixa educação” e outros do mesmo tipo. As pessoas parecem não se dar conta de que a saúde é uma escolha individual; a autodefesa, um direito; a condição social, algo que deve ser objeto de investimento, e não de acomodação, da mesma maneira que a educação é – e deveria ser – objeto primeiro de melhoria nacional. Em vez disso, temos uma acomodação complacente.

Soluções existem. Basta que a blindagem do politicamente correto seja enfraquecida. O governo não é um fim em si mesmo, mas só um instrumento dos cidadãos, que deveriam ser reinvestidos de sua capacidade autônoma de livre decisão. Cabe ao Estado oferecer essas condições. Dentre elas, poderíamos listar uma política de tributação que equilibre a oferta e a procura, não favorecendo o surgimento do contrabando. Setores econômicos com alta tributação podem ser asfixiados.

Acrescente-se uma política eficaz de controle de fronteiras, impedindo verdadeiramente o contrabando dos mais diferentes produtos. Se Estados limítrofes, como o Paraguai, têm problemas sociais graves que podem favorecer atividades de contrabando, um investimento brasileiro na formalização de sua economia e em políticas sociais poderia ser um excelente instrumento. O mesmo valeria para outros países. Por seu tamanho e importância, o Brasil está destinado a assumir tal posição. Sua política externa deveria seguir essa sua vocação.

 

Publicado aqui, no estadão.com

 

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Lá vai o Brasil, descendo a ladeira…

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Anão diplomático — O Brasil de Lula e Dilma

Por Ricardo Noblat

 

Que alma corajosa se oferece para aconselhar a presidente Dilma a renovar seu vocabulário, começando por descartar lugares comuns do tipo “Não ficará pedra sobre pedra” e “Doa em quem doer”?

Lugares comuns arranham os ouvidos. E com frequência se voltam contra os que gostam de usá-los. Um exemplo? “Não ficará pedra sobre pedra” da política externa brasileira depois da passagem de Dilma pelo poder.

Forcei a barra? Tentarei ser mais justo: não ficará pedra sobre pedra da política externa brasileira depois da passagem de Lula e Dilma pelo poder. Melhor assim?

Este gigante econômico e cultural, chamado de “anão diplomático” em julho do ano passado pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, sempre contou com uma das diplomacias mais respeitadas e bem-sucedidas do mundo.

Há farto conhecimento adquirido com aplicação e afinco. Relativa grandeza. E coerência política secular.

Tamanho patrimônio, infelizmente, repousa, hoje, quase esquecido nos subterrâneos do Itamaraty.

O retrato de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, ainda enfeita paredes de gabinetes acarpetados. Mas como dói observá-lo.

Na semana passada, com muitos quilos a menos, mas sem ter perdido um grama de arrogância, Dilma emergiu do carnaval disposta a ocupar por todos os meios o espaço que a mídia costuma lhe oferecer com generosidade.

E assim foi. Sem pejo, remeteu ao governo Fernando Henrique Cardoso a origem da roubalheira na Petrobras, que só se tornou sistêmica a partir de 2003.

E como se não bastasse tal agressão à verdade, resolveu brigar com um país situado do outro lado do mundo — a República da Indonésia, um arquipélago com mais de 17 mil ilhas.

No momento, a Indonésia deveria ser o último país com quem o Brasil almejasse a arranjar briga. Ali, em 17 de janeiro último, o brasileiro Marcos Archer, um traficante de drogas, foi executado a tiros.

Archer havia sido preso há 10 anos, julgado e condenado à morte. A legislação da Indonésia contra a droga é uma mais rígidas do mundo.

Dilma empenhou-se em salvar a vida de Archer. Reagiu à sua morte chamando de volta o embaixador do Brasil por lá.

Era tudo o que não deveria ter feito — afinal, há outro brasileiro na Indonésia condenado à morte por tráfico de droga.

anão diplomático

Se havia uma tênue esperança de que à diplomacia fosse possível evitar um segundo fuzilamento, ela se dissipou com outra decisão desastrosa tomada por Dilma na última sexta-feira.

Novos embaixadores de outros países estavam reunidos no Palácio do Planalto para apresentar suas credenciais a Dilma. Pela ordem, o primeiro deles seria o embaixador da Indonésia.

Uma vez cumprido o rito, o embaixador desceria a majestosa rampa do palácio, entraria no seu carro e iria embora. Não foi o que aconteceu.

No último minuto, o ministro das Relações Exteriores do Brasil chamou o embaixador para uma conversa a sós. Comunicou que Dilma não receberia mais suas credenciais.

O embaixador saiu humilhado pela lateral do palácio. A Indonésia foi humilhada na figura dele. E para quê? Para quê?

Para Dilma parecer forte e aguerrida aos olhos dos seus governados? Pareceu estabanada, como sempre. Imprudente. Adepta de jogadas vagabundas de marketing.

Saca o Estado Islâmico — aqueles loucos que degolam e incineram pessoas?

Pois é: Dilma já recomendou que se dialogasse com eles.

A Venezuela deixou de ser uma democracia há muito tempo. Para fazer parte do Mercosul, um pais tem que ser democrático.

Dilma faz de conta que ainda existe uma democracia na Venezuela, onde o governo prende e arrebenta a oposição e libera o Exército para que reprima manifestações à bala.

Na guerra entre judeus e palestinos, Dilma tomou partido dos últimos. E para que não restem dúvidas sobre isso, no ano passado chamou de volta o embaixador do Brasil em Israel.

O Congresso do Paraguai depôs em junto de 2012 o presidente da República Fernando Lugo. Aí o Brasil juntou-se à Argentina e à Venezuela para suspender o Paraguai do Mercosul.

Seis anos antes, na Bolívia, o presidente Evo Morales usou o exército para ocupar as instalações da Petrobras no país depois de ter nacionalizado a exploração de petróleo e gás.

Mais tarde, dobrou o preço do gás vendido ao Brasil. O então presidente Lula nada fez. “Queriam que eu invadisse a Bolívia?”, debochou como de hábito.

Na Era PT, definitivamente os interesses superiores do país deixaram de orientar nossa política externa. Cederam a vez à ideologia pessoal do governante da ocasião.

Pobre barão do Rio Branco. Pobres de nós.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Ex-baixista do Legião Urbana é achado morto em seu quarto

O baixista Renato Rocha, o Negrete, em seus tempos de Legião Urbana
O baixista Renato Rocha, o Negrete, em seus tempos de Legião Urbana

 

SÃO PAULO – O ex-baixista Renato Rocha foi encontrado morto, na manhã deste domingo, em um quarto de hotel no Guarujá, litoral de São Paulo. Negrete, como era conhecido, foi integrante da primeira formação da banda Legião Urbana. Ele atuou nos três primeiros discos do grupo, “Legião Urbana”, “Dois” e “Que país é este”, nos anos 1980.

O delegado de plantão, Caio Azevedo de Menezes, contou que o corpo foi descoberto por volta das 8h30m de domingo. Renato estava no Guarujá acompanhado de uma amiga, que estranhou quando ele não apareceu para tomar o café. Segundo o delegado, ela estranhou a demora, e foi com profissionais do hotel ao quatro dele, que estava obstruída. A polícia então foi chamada.

— Parece que foi morte natural. Não havia no quarto sinais de arrombamento, nem de luta. Não há indícios de violência nem marcas no corpo. Também não foram encontradas drogas ou bebidas — disse o delegado. — Agora temos de aguardar o laudo. Em geral leva de 20 a 30 dias para ficar pronto mas acredito que em dois ou três dias já se tenha alguma novidade. A amiga disse que ele era cardíaco, tomava remédios e também antidepressivos.

Segundo Menezes, Renato estava em tratamento em uma clínica em Cotia e, ao que tudo indica, tinha permissão para sair. Negrete, que tinha 53 anos, deixa um casal de filhos e uma neta.

Numa página dedicada a Negrete no Facebook, mantida pela irmã dele e com quase três mil fãs, a família postou a informação de que o baixista teve uma parada cardíaca.

“A polícia fez a vistoria e não tinha sinais de violência nem drogas, foi ataque cardíaco e seu corpo está no IML (Instituto Médico Legal do Guarujá), estamos aguardando mais informações”, diz o comunicado no Facebook.

Também nas redes sociais, Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo, despediu-se de Negrete:

“Renato Rocha se foi de nós. Recebo a notícia com profunda tristeza e, paradoxalmente, com a leveza de ter podido estar ao seu lado nos últimos tempos, compreendendo-lhe e amparando o grande amigo de meu pai

Músico virtuoso, espírito de criança, ser humano generoso e profundamente bom, foi um dos companheiros de Renato Russo desde os primórdios da Legião Urbana.

Como dizia o mestre Guimarães Rosa, as pessoas não morrem, elas ficam encantadas. Renato já pertence a história de nossa música e viverá na melhor de nossas lembranças.

Vai com os Anjos, vai em Paz”, escreveu.

Em seu Instagram, o músico Dado Villa-Lobos publicou uma foto de Renato Rocha no tempo da Legião Urbana.

“Fica a melhor lembrança, encontrou a paz. E, há tempos, muita saudade”.

TRAJETÓRIA CONTURBADA

O contrabaixista e compositor nasceu em 27 de maio de 1961 em São Cristóvão, no Rio. Nos anos 1970 foi morar em Brasília, por ocasião da transferência do pai militar. Lá, Renato Rocha conheceu André Pretórius, Renato Russo e Fê Lemos, jovens músicos que começavam a enveredar pelo rock com a banda Aborto elétrico.

Sua primeira banda foi a Gestapo. Depois, formou com o guitarrista Toninho Maia a banda Hosbond Kama. Em 1981 entrou para a banda Dents Kents. Em 1984, o amigo Marcelo Bonfá o chamou para integrar a Legião Urbana, completando a formação que já contava com Renato Russo e Dado Villa-Lobos. Na banda, compôs “Quase sem querer” (com Renato Russo e Villa-Lobos) e “Daniel na cova dos leões” (com Russo). Ficou na Legião até 1989.

Depois, Negrete integrou as bandas Cartilage, Finis Africae e Solana star. Após anos, o músico, que também era conhecido pelo apelido Billy, foi convidado a fazer uma participação no álbum da Legião Urbana “Uma outra estação”, de 1997, tocando contrabaixo na faixa “Riding song”.

Em 2012, ele foi encontrado morando nas ruas do Rio. Envolvido com drogas, aceitou fazer um tratamento de reabilitação numa clínica, com o apoio de familiares, amigos e fãs.

No concerto Renato Russo Sinfônico, realizado em Brasília, em junho de 2013, Renato Rocha fez uma participação especial tocando contrabaixo e cantando em “Que país é este”. Também participou da canção “Será”, cantando com os outros convidados.

Ainda não há informações sobre local e horário do velório e do enterro do músico.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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