O juiz federal Sérgio Moro durante a aula inaugural do curso preparatório da Escola da Magistratura Federal do Paraná (foto de Paulo Lisboa)
Por Cleide Carvalho
Curitiba — O juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal, disse nesta segunda-feira, sem citar o escândalo envolvendo os desvios de recursos da Petrobras, que políticos desonestos têm vantagens sobre políticos honestos e, por isso, é sempre preciso rastrear o dinheiro movimentado ilegalmente para “se chegar ao chefe”. Numa aula sobre lavagem de dinheiro na Escola da Magistratura Federal do Paraná, Moro afirmou que, nesses casos, a investigação contra políticos deve ser tal qual se faz contra chefes de tráfico de drogas: é preciso seguir o “velho conselho norte-americano” se quiser chegar ao chefe “follow the money”, ou “siga o dinheiro”.
Nesta terça-feira, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vai enviar ao Supremo os pedidos de abertura de inquéritos contra políticos e pedirá o fim o sigilo das investigações da Operação Lava-Jato contra algumas autoridades suspeitas de integrar o esquema, o que deve ser feito pelo relator do processo, o ministro Teori Zavascki, alguns dias depois.
— Numa democracia, o político desonesto tem vantagens que um político honesto não tem ao usar dinheiro de origem ilícito para ganhar apoio popular para suas ideias – disse Moro.
Para o juiz, se as investigações não forem suficientes para punir o chefe do crime, é preciso fazer com que ele fique sentado sobre o dinheiro sujo e não consiga usar para nenhuma finalidade.
Moro lembrou que as lei que punem a lavagem de dinheiro, no mundo todo, são novas, surgiram a partir da década de 80 (Brasil, é de 1998), e apenas a sanção privativa da liberdade não é suficiente.
— É preciso privar o criminoso do “produto” de sua atividade. O crime não deve compensar – assinalou.
Moro explicou que raramente os chefes estão diretamente envolvidos nos atos criminais mais básicos, pois ele é o último beneficiário da atividade criminosa. Por isso, acrescentou, é preciso seguir o “velho conselho norte-americano” se quiser chegar ao chefe “follow the money”, ou “siga o dinheiro”.
— Fatalmente o dinheiro vai chegar em quem tem o poder de controle sobre o grupo criminoso.
O juiz lembrou que o “lavador” de dinheiro tem sido um terceirizado profissional, que “recebe informações ótimas sobre origens e destino do dinheiro”.
Assista abaixo o vídeo da aula, em todso so sentidos, do juiz Sérgio Mouro, cujo vídeo está mudo até os 4’17. O trecho onde ele explica como a Justiça tem que “seguir o dinheiro” para chegar ao “chefe, certamente o último beneficiário da atividade criminosa” — no caso do Petrolão, quem será? — pode ser visto a partir dos 7’40. Confira:
O país termina o mês de fevereiro com uma série de indicadores negativos que reforçam a ideia de que o país caminha para uma cenário de recessão e aumentam as incertezas e ceticismo sobre a economia brasileira e os efeitos do ajuste fiscal prometido pelo governo Dilma Rousseff.
Os primeiros resultados das contas públicas no ano apontam para uma paralisia da atividade econômica e mostram que o governo deverá ter dificuldades para entregar a meta de superávit primário — a economia para pagar juros da dívida pública e tentar manter sua trajetória de queda — definida para 2015, apesar da série de medidas impopulares já anunciadas. Entre essas medidas, estão aumento de impostos, reajuste dos combustíveis, alta extra na tarifa de energia e mudanças em benefícios sociais como seguro-desemprego, auxílio-doença, abono salarial e pensão por morte, sendo que estas últimas começam a valer a partir deste fim de semana.
Joaquim Levy disse na sexta-feira (27) que desoneração da folha de pagamento de empresas foi ‘brincadeira cara’ (Foto: Francisco Stuckert/Futura Press/Estadão Conteúdo)
A coleção de dados negativos inclui alta da inflação e do desemprego, fechamento de vagas no mercado de trabalho, disparada do dólar e queda da confiança dos consumidores para mínima recorde.
A piora do cenário é agravada ainda pela crise da Petrobras, cujo rebaixamento da nota de crédito da empresa alimenta temores de contaminação na avaliação de toda a dívida pública e perda do grau de investimento do Brasil pelas agências de classificação de risco.
Como se não bastasse a coleção de números ruins, o governo ainda foi surpreendido por uma greve de caminhoneiros, que também reflete na economia, por causa do desabastecimento em algumas regiões, da interrupção de algumas linhas de produção e aumento de custos de transporte.
Previsão de PIB negativo
Pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central na segunda-feira (23) mostrou que os economistas de instituições financeiras estimam retração de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano.
O pessimismo resulta do temor de que os anunciados aumento de tributos e cortes de gastos públicos do chamado ‘pacote de maldades’ da nova equipe econômica enfraqueçam ainda mais a ja vacilante economia e os resultados da arrecadação.
Confira a seguir alguns dos indicadores econômicos e medidas de ajuste divulgadas no mês:
Contas públicas
O governo central (Tesouro, Banco Central e Previdência Social) registrou superávit primário de R$ 10,4 bilhões em janeiro ante R$ 13,03 bilhões em janeiro de 2014. Foi o pior resultado para o mês desde 2009, auge da crise internacional, quando houve superávit de R$ 3,978 bilhões.
Já as contas de todo o setor público, incluindo estados, municípios e estatais, tiveram melhora em janeiro.
A meta de esforço fiscal para todo o setor público em 2015 é de R$ 66,3 bilhões, ou o equivalente a 1,2% do PIB. Desse montante, R$ 55,3 bilhões correspondem à meta para o governo e R$ 11 bilhões são uma estimativa para estados e municípios.
Arrecadação
O resultado das contas públicas neste começo de ano foi afetado diretamente pela menor arrecadação de tributos federais, que recuou pelo 4º mês seguido e teve queda de 5,44% em janeiro, já descontada a inflação, ante igual mês do amo passado.
Para recompor as receitas, o governo anunciou um conjunto de medidas, entre as quais o retorno da cobrança da Cide sobre combustíveis, do PIS/Cofins sobre produtos importados e a volta do IOF em operações de crédito de pessoas físicas.
IPCA
A inflação oficial do país, por sua vez, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 1,24% em janeiro, maior taxa mensal desde fevereiro de 2003. Em 12 meses, o indicador acumula alta de 7,14%, acima do teto da meta de 6,5% e a maior variação desde setembro de 2011.
Desemprego
Já a taxa de desemprego, que até então era um dos raros indicadores comemorado pelo governo, passou de 4,3% em dezembro para 5,3% em janeiro, o maior índice desde setembro de 2013.
Vagas de trabalho
O Brasil perdeu 81 mil vagas de emprego formal em janeiro. Segundo as informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), as demissões superaram as contratações em 81.774 empregos no mês passado. Foi o pior resultado para meses de janeiro desde 2009, aude da crise financeira internacional. Em janeiro do ano passado, tinham sido abertas 29.595 vagas formais.
Dólar
A moeda norte-americana disparou e retomou para o maior patamar em mais de 10 anos. O dólar fechou o mês de fevereiro rondando os R$ 3, cotado a R$ 2,856 na venda, acumulandoalta de mais de 7% no ano.
Balança comercial
As importações superaram as vendas externas, resultando em um déficit na balança comercial brasileira de US$ 4,95 bilhões no acumulado no ano até o dia 22. No acumulado de 2015, as exportações somaram US$ 22,71 bilhõe. As importações, por sua vez, somaram US$ 27,66 bilhões.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial, medido pela CNI, caiu para 40,2 pontos em fevereiro, para o menor valor desde janeiro de 1999, quando tem início a série histórica do levantamento.
Já os gastos com custeio dos ministérios recebeu uma dotação de R$ 59,98 bilhões, o que representa uma queda de 7,5%, ou R$ 4,87 bilhões, em relação ao valor gasto nos quatro primeiros meses do ano passado 2014 (R$ 64,86 bilhões).
As empresas que pagavam alíquota de 1% sobre a receita bruta passam para 2,5%, enquanto as que tinham alíquota de 2% passam para 4,5%.
O governo também anunciou uma redução dos benefícios para exportadores de produtos manufaturados. A alíquota do Reintegra, programa que “devolve” aos empresários uma parte do valor exportado por meio de créditos do PIS e Cofins, cairá de 3% para 1%. A medida foi anunciada justamente em um momento no qual o governo está finalizando um pacote para estimular as exportações brasileiras.
Reajuste extra de energia
As contas de luz vão aumentar, em média, 23,4% a partir da próxima segunda-feira (2), quando começa a vigorar a revisão extraordinária aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Em caso de bandeira vermelha, que vigora atualmente em todo país e sinaliza que está muito caro gerar energia, passará a ser cobrada nas contas de luz uma taxa extra de R$ 5,50 para cada 100 kWh (quilowatts-hora) de energia usados, aumento de 83,33% em relação aos R$ 3 cobrados entre janeiro e fevereiro.
Na reprodução de textos de opinião, colhidos das fontes mais diversas, vistos como fundamentais à tentativa de compreensão da delicadíssima situação do Brasil desgovernado pelo PT, este “Opiniões” se limita a transcrevê-los, sem nenhum adendo de texto que vise interferir na relação entre você, leitor, e a fonte primária. Nesta manhã, porém, após ler o artigo principal do sempre necessário Blog do Noblat, feliz foi a surpresa ao constatar que tudo que foi dito hoje pelo experiente jornalista, tratou-se de uma extensão com palavras do mesmo que já havia sido sintetizado em imagens neste blog, no último sábado, em postagem intitulada “Os filhos da puta por si próprios”. De fato, a ladroagem e a incompetência dos donos do poder no Brasil chegou a tal ponto, que é mesmo difícil para qualquer ser pensante concluir algo diferente.
Confira aqui e na reprodução abaixo e tire as suas próprias conclusões:
Lula no ato da ABI (Imagem: Marcos de Paula / Estadão)
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Lula, de esperança à forte ameaça à democracia
Por Ricardo Noblat
O que leva Dilma, aos 67 anos de idade, a ser tão rude com seus subordinados? A pedido de quem me contou, não revelarei a fonte da história que segue.
No ano passado, ao ouvir do presidente de uma entidade financeira estatal algo que a contrariou, Dilma elevou o tom da voz e disse:
– Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos? Eu tenho. Quando você tiver poderá ocupar o meu lugar.
Dilma goza da fama de mal educada. Lula, da fama de amoroso. Não é bem assim. Lula é tão grosseiro quanto ela. Tão arrogante quanto.
Eleito presidente pela primeira vez, reunido em um hotel de São Paulo com os futuros ministros José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken, entre outros, Lula os advertiu:
– Só quem teve voto aqui fui eu e José Alencar, meu vice. Não se esqueçam disso.
Em meados de junho de 2011, quando Dilma sequer completara seis meses como presidente da República, ouvi de Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, um diagnóstico que se revelou certeiro.
“Dilma tem ideias, cultura política. Mas seu temperamento é seu principal problema”, disse ele. “Outro problema: a falta de experiência. E mais um: tem horror à pequena política. Horror”.
Na época, Eduardo era aliado de Dilma. Nem por isso deixava de enxergar seus defeitos.
“Dilma montou um governo onde a maioria dos ministros é fraca”, observou. “Todos morrem de medo dela. No governo de Lula, não. Ministro era ministro. Agora, é serviçal obediente e temeroso. Lula não pode fingir que nada tem a ver com isso. Afinal, foi ele que inventou Dilma”.
Lula não perdoa Dilma por ela não ter cedido a vez a ele como candidato no ano passado. Mas não é por isso que opera para enfraquecê-la sempre que pode.
Procede assim por defeito de caráter. Com Dilma e com qualquer um que possa causar-lhe embaraço.
Se precisar, Lula deixa os amigos pelo meio do caminho. Como deixou José Dirceu, por exemplo. E Antonio Palocci.
Pobre de Dilma quando Lula se oferece para ajudá-la.
Na última quarta-feira, ele jantou com senadores do PT. Ouviu críticas a Dilma e a criticou. No dia seguinte, tomou café da manhã com senadores do PMDB. O pau cantou na cabeça de Dilma.
Tudo o que se disse nos dois encontros acabou se tornando público. Em momento de raro isolamento, Dilma precisa de muitas coisas, menos de briga.
Pois foi com o discurso belicoso de sempre, do nós contra eles, do PT e dos pobres contra as elites, que Lula participou de um ato no Rio em favor da Petrobras.
Sim, da Petrobras degradada nos últimos 12 anos pelo PT e seus aliados.
Pediu que seus colegas de partido defendessem a empresa e se defendessem da acusação de que a saquearam.
E por fim acenou com a possibilidade de chamar “o exército” de João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Sem Terra, para sair às ruas e enfrentar os desafetos do PT e do governo.
Washington Quaquá, presidente do PT do Rio de Janeiro e prefeito de Maricá, atendeu de imediato ao apelo de Lula. Escreveu em sua página no Facebook:
– Contra o fascismo, a porrada. Não podemos engolir esses fascistas burguesinhos de merda. Está na hora de responder a esses filhos da puta que roubam e querem achincalhar o partido que melhorou a vida de milhões de brasileiros. Agrediu, damos porrada.
É o exemplo que vem de cima!
Para o bem ou para o mal, este país carregará na sua história a marca indelével de um ex-retirante nordestino miserável, agora um milionário lobista de empreiteiras, que disputou cinco eleições presidenciais, ganhou duas vezes e duas vezes elegeu uma sem voto, sem carisma e sem preparo para governar.
Lula já foi uma estrela que brilhava sem medo de ser feliz.
E para começar a semana bem, com humor, nem que seja para rir dos responsáveis pela ladroagem e incompetência generalizadas dos 13 anos do desgoverno PT no Brasil, bem como dos seus cúmplices, que não só reelegeram Dilma, mas continuam a negar a realidade na tentativa surreal de defendê-lo, segue um texto carregado de ironia do blogueiro Almir M. Quites, acompanhado de imagens pra lá de sarcásticas por ele garimpadas na democracia irrefreável das redes sociais. Entre uma gargalhada e outra, sobretudo da cara feia de quem não acha nenhuma graça, confira aqui e abaixo:
A doutora Dilma encarregou o ministro Joaquim Levy de negociar com a agência Moody’s para que a nota de crédito da Petrobras não fosse rebaixada. Ele tentou durante o Carnaval, quando esteve em Nova York, e novamente na segunda-feira passada. Deu água.
Negociações como essa são comuns. Às vezes dão certo, às vezes fracassam. Valem pelo segredo em que são mantidas, seja qual for o desfecho. Se Levy fosse bem-sucedido, o sigilo evitaria que a Moody’s parecesse ter sido pressionada.
Rebaixada a Petrobras, o governo (mas não a Fazenda) revelou a gestão malsucedida.
Pode ter sido pura incompetência, ou um lance de fritura de Levy.
Perigo
Se fossem poucos os problemas do comissariado, apareceu um novo. A possibilidade de que surjam novos fatos documentados sobre as petrorroubalheiras, vindos dos Estados Unidos, onde pelo menos duas agências investigam a Petrobras.
Se isso acontecer, é certo que renascerá a tese dos “inimigos externos”. Será falsa; o governo americano zela pela saúde de seu mercado de ações, onde papéis da empresa são negociadas na Bolsa.
Funcionários da Securities and Exchange Commission já estiveram no Brasil.
Em Pindorama, essa função é da Comissão de Valores Mobiliários, com quem diretores da Petrobras fizeram pelo menos sete acordos. Como diria o comissário Luís Inácio Adams, essa é um “especificidade” do Brasil.
Sugestão
A CPI da Petrobras poderia funcionar em Curitiba.
Lá ela ficaria mais perto das duas pontas da questão: do juiz Sergio Moro e da carceragem.
Embaixador americano em Brasília Clifford Sobel endereçou em 2008 mensagem secreta ao Departamento de Estado dos EUA, “vazado” pelo site WikiLeaks, criticando a lentidão do governo brasileiro na aprovação da lei antiterrorismo. O governo alegava haver risco de enquadrar o Movimento dos Sem-Terra (MST) como grupo terrorista. Sobel não tinha dúvida: Dilma Rousseff foi quem sepultou o projeto.
Compromisso
Adotar legislação antiterror foi compromisso assumido pelo Brasil e uma centena de países, a partir do terrível 11 de setembro de 2001.
Para inglês ver
No e-mail, especialistas em antiterrorismo dizem que o trabalho do Planalto foi “cortina de fumaça” para fingir que levava o assunto a sério.
Só na prática
Sobel citou fonte do governo brasileiro para quem um ataque ao País é “tão improvável” que “o governo é incapaz de dar atenção ao assunto”.
Escalada
O ex-embaixador americano conclui: os esforços dos EUA para colocar a lei de volta na agenda do Brasil será um caminho “ladeira acima”.
Odebrecht virou desdobramento da Lava Jato
O depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que confessou ter recebido da Odebrecht ao menos R$ 59,8 milhões em propina, motivou apuração especial da força-tarefa da Lava Jato contra a empreiteira baiana. E os resultados estariam na iminência de aparecer, segundo se acredita no Congresso, com devassa e prisão dos principais executivos, incluindo seu presidente, Marcelo Odebrecht.
Azeitado
Segundo Paulo Roberto Costa, a propina rendeu a Odebrecht, em consórcio com a OAS, um contrato de R$1,5 bilhão, em Abreu e Lima.
Caixa cheio
A Odebrecht foi a empreiteira que mais faturou na era Lula-Dilma: cerca de 53% dos R$ 71 bilhões gastos nos governos petistas.
Lá vem bomba
A eventual prisão de Marcelo Odebrecht preocupa Dilma, que antes o detestava e depois se ligou a ele. É o empreiteiro mais ligado a Lula.
Charge do Chico Caruso, baseada em foto de André Coelho e publicada na capa de O Globo de ontem
Jornalista Mary Zaidan
Levy põe PT e a oposição no divã
Por Mary Zaidan
Com apenas uma frase — “essa brincadeira da desoneração custa R$ 25 bilhões por ano, não tem criado e nem sequer protegido empregos” —, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiu fazer o que a oposição nem tentou ousar. Lavrou, de forma inconteste, a incompetência de Dilma Rousseff, e enterrou todos os argumentos que ela e o PT insistem em usar para transferir a outros a responsabilidade dos estragos que fizeram.
Levy tem dito verdades. Algo raro, que não costuma ser tolerado pelo governo.
Mas, ao contrário de qualquer outro auxiliar, ele não toma pito por discordar da presidente. Nem mesmo quando a critica publicamente.
Dilma apenas finge que não é com ela e, devidamente instruída pela propaganda palaciana a manter as cores do discurso de campanha, repete a cantilena de que tudo que faz é em nome dos pobres, em favor do emprego e de “mais crescimento”.
Dane-se se a conta de luz vai ficar três vezes mais alta do que era antes da redução da tarifa que ela inventou em 2013. Se a inflação alcançou 1,33% em fevereiro, 7,36% em 12 meses, quase 1% acima do teto da meta, ou se o crescimento da população desocupada foi de 22,5% no mês passado. Que a indústria tem crescimento negativo e a economia estagnou.
Na fala de Dilma e do PT, todos os males são externos — culpa de FHC ou da mídia. Sem tergiversar, para Levy o problema vem de dentro mesmo. Cordial, chama de “derrapadas” ou de alternativas “grosseiras” o que foi feito no mandato anterior.
Vê-se no governo a bipolaridade cultivada pelo petismo. Diante dos percalços que cria para si, o PT ora se deprime, com o mea-culpa de alguns, ora se excita e chama todos para a batalha nas ruas, como fez o ex Lula ao convocar o “exército do Stédile”.
Ainda que doentia, a lógica bipolar tem funcionado para o PT. Talvez porque, acima de qualquer outra coisa, Lula sempre se beneficiou dela.
Agora não há consenso. Aguentar o neoliberal Levy e defender ajustes que privilegiam o equilíbrio das contas, cortam privilégios e benefícios, é preço alto demais para o petismo. Difícil de defender nas centrais sindicais, nas frentes de batalha. E em nome de quê? De Dilma?
O PT sabe que é preciso salvar o mandato depauperado da presidente. A pupila de Lula não pode atrapalhar a campanha de 2018.
O problema é que Levy não tem compromisso com o projeto de poder de Lula. E, ao que tudo indica, não está disposto ao jogo do vale tudo. Muito menos a brincadeiras que coloquem o país em risco.
Na outra ponta, ainda que defenda teses que os tucanos apoiam, Levy assiste ao PSDB, em surtos cegos, negar-lhe apoio.
De uma só vez Levy desnudou Dilma e pôs o PT e a oposição no divã.
Na brincadeira de boneco de ventríloquo, João Santana, ex-marqueteiro de Hugo Chávez, e Dilma Rousseff
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República
A miséria da política
Por Fernando Henrique Cardoso
Otimista por temperamento com os necessários freios que o realismo impõe raramente me deixo abater pelo desalento. Confesso que hoje, no entanto, quase desanimei: que dizer, que recado dar diante (valham-me os clássicos) de tanto horror perante os céus?
Na procura de alento, pensei em escrever sobre situações de outros países. Passei o carnaval em Cuba, país que visitava pela terceira vez: a primeira, na década de 1980, quando era senador. Fui jurado em um prêmio Casa de las Américas.
Voltei à Ilha como presidente da República. Vi menos do povo e dos costumes do que na vez anterior: o circuito oficial é bom para conhecer outras realidades, não as da sociedade. Agora visitei Cuba como cidadão comum, sem seguranças, nem salamaleques oficiais. Fui para descansar e para admirar Havana, antes que o novo momento econômico de relações com os Estado Unidos a modifique muito.
Não fui, portanto, para avaliar a situação política (sequer possível em sete dias) nem para me espantar com o já sabido, de bom e de mau, que lá existe. Não caberia, portanto, regressar e fazer críticas ao que não olhei com maior profundidade.
Os únicos contatos mais formais que tive foram com Roberto Retamar (poeta e diretor da referida Casa de las Américas), com o jornalista Ciro Bianchi e com o conhecido romancista Leonardo Padura.
Seu livro “El Hombre que amaba los perros”, sobre a perseguição a Trotski em seu exílio da União Soviética, é uma admirável novela histórica. Rigorosa nos detalhes, aguda nas críticas, pode ser lida como um livro policial, especialidade do autor, que, no caso, reconstitui as desventuras do líder revolucionário e o monstruoso assassinato feito a mando de Stálin.
Jantei com os três cubanos e suas companheiras. Por que ressalto o fato, de resto trivial? Porque, embora ocupando posições distintas no espectro político da Ilha, mantiveram uma conversa cordial sobre os temas políticos e sociais que iam surgindo.
A diversidade de posições políticas não tornava o diálogo impossível. Eles próprios não se classificavam, suponho, em termos de “nós” e “eles”, os bons e os maus.
Por outra parte, ainda que o cotidiano dos cubanos seja de restrições econômicas que limitam as possibilidades de bem-estar, em todos os populares com quem conversei, senti esperanças de que no futuro estariam melhores: o fim eventual do embargo, o fluxo de turistas, a liberdade maior de ir e vir, as remessas aumentadas de dinheiro dos cubanos da diáspora, tudo isso criou um horizonte mais desanuviado.
É certo que nem em todos os contatos mais recentes que tive com pessoas de nossa região senti o mesmo ânimo. Antes de viajar, recebi a ligação telefônica da mãe de Leopoldo Lopes, oposicionista venezuelano que cumpriu um ano de cadeia no dia 18 de fevereiro.
Ponderada e firme, a senhora me pediu que os brasileiros façamos algo para evitar a continuidade do arbítrio. Ainda mantém esperanças de que, ademais dos protestos no Congresso e na mídia, alguém do governo entenda nosso papel histórico e grite pela liberdade e pela democracia.
Esta semana foi a vez de Enrique Capriles me telefonar para pedir solidariedade diante de novos atos de arbítrio e truculência em seu país: o prefeito Antonio Ledezma, eleito ao governo do Distrito Metropolitano de Caracas pelo voto popular, havia sido preso dias antes em pleno exercício de suas funções.
Não bastasse, em seguida houve a invasão de vários diretórios de um partido oposicionista. Note-se, como me disse Capriles, que Ledezma não é um político exaltado, que faz propostas tresloucadas: ele, como muitos, deseja apenas manter viva a chama democrática e mudar pela pressão popular, não pelas armas, o nefasto governo de Nicolás Maduro. Esperamos todos que o desrespeito aos direitos humanos provoque reações de repúdio ao que acontece na Venezuela.
Até mesmo os colombianos, depois de meio século de luta armada, vão construindo veredas para a pacificação. As Farc e o governo vêm há meses, lenta, penosa mas esperançadamente abrindo frestas por onde possa passar um futuro melhor.
Amanhã, segunda-feira, 2 de março, o presidente Santos e outras personalidades, entre as quais Felipe González, estarão reunidos em Madri num encontro promovido por “El País” ( ao qual não comparecerei por motivos de força maior) para reafirmar a fé na paz colombiana.
Enquanto isso, nós que estamos longe de sofrer as restrições econômicas que maltratam o povo cubano ou os arbítrios de poder que machucam os venezuelanos, eles também submetidos à escassez de muitos produtos e serviços, nos afogamos em copo d’água.
Por que isso, diante de uma situação infinitamente menos complexa? Por que Lula, em lugar de se erguer ao patamar que a história requer, insiste em esbravejar, como fez ao final de fevereiro, dizendo que colocará nas ruas as hostes do MST (pior, ele falou nos “exércitos”…) para defender o que ninguém ataca, a democracia e — incrível — para salvar a Petrobras de uma privatização que tucano algum deseja?
Por que a presidente Dilma deu-se ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobras (espero que passageiramente) é o PT que, no afã de manter o poder, criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria?
Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?
Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular, serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas das quais nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.
Cinquenta tons de cinza — Já virou lugar comum dizer que um filme nunca está à altura do livro. Muito embora haja livros excepcionais que geraram filmes estupendos, como “Os sete pilares da sabedoria”, no qual o oficial britânico T. E. Lawrence narra com impressionante riqueza de detalhes como “tomou ondas de homens nas mãos” ao liderar a Revolta Árabe contra o Império Turco na I Guerra Mundial (1914/18). Político, mas também Nobel de Literatura, Winston Churchill preconizou sobre o extenso livro: “haverá de viver enquanto o inglês for falado em algum recanto do globo”. Adaptado às telas em 1962, pelo mestre inglês David Lean, gerou um dos grandes filmes já feitos: “Lawrence da Arábia”, protagonizado por Peter O’Toole numa das maiores interpretações da história do cinema.
Muito embora o filme, assim como o livro, fale da tortura e abuso sexual a que Lawrence foi submetido quando caiu prisioneiro dos turcos, isso passa longe de ser o ponto principal da sua história. Não li “Cinquenta tons de cinza”, bestseller de E. L. James, outra escritora britânica, que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo, mas não creio que mesmo seu crítico mais entusiasmado fosse capaz de tecer sobre a trilogia literária algum elogio à altura do que Churchill fez a “Sete pilares”. Se nesta obra, baseada em fatos reais, a tortura e o abuso sexual são um flagelo da guerra, eles se tornam objeto de desejo em “Cinquenta tons” e seu mergulho ficcional no universo BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo). E se quase não há mulheres no livro ou no filme de Lawrence, são elas o grande segredo do sucesso de vendas do livro de James, adaptado ao cinema hollywoodiano por outra britânica, a diretora Sam Taylor-Johnson.
A história gira em torno de um casal de manjados arquétipos. Christian Grey (Jamie Doman) é jovem, empresário bem sucedido, podre de rico, cool e ostenta a indefectível (e desejada) barriga tanquinho — pouco importa se por malhação, lipo ou ambas. Por sua vez, Anastassia Steele (Dakota Johnson) também é jovem, mas sonhadora, inocente, estudante de literatura e, pasme você, virgem. A descoberta deste detalhe, raro no hedonismo pós-moderno e niilista dos nossos dias, serve para atiçar ainda mais o instinto predatório do Sr. Grey, como o personagem gosta de ser chamado.
Se para qualquer pessoa virgem a primeira relação sexual já é por si só um admirável mundo novo, o que dizer se seu primeiro parceiro se assume praticante do BDSM, cujo desejo sexual está diretamente associado à dominação física e mental extremadas de si ou do outro? E como nesta área qualquer deslize não consensual pode acabar num tribunal, sobretudo se o acusado for rico e famoso, Grey insiste o tempo inteiro para Ana assinar um contrato pré-coito, o que ela protela, enquanto também negocia e de certa maneira se impõe, fazendo ele declinar de algumas opções, digamos, mais pesadas.
Se a trilogia literária conquistou leitores no mundo todo, sua adaptação cinematográfica também colecionou protestos veementes de praticantes do BDSM espalhados pelo planeta, que acusam o livro e, sobretudo, o filme, de deturpar suas práticas sexuais. Quem, independente da variante, conhece o sexo da vida real, poderá notar a ausência de suor nos corpos dos amantes em todas as cenas mais tórridas. Sob o céu quase sempre chuvoso de Seattle, tanta assepsia, como no preservativo politicamente correto sempre usado por Grey, soa artificial, pasteurizado demais, sobretudo na cidade que pariu o som sujo (mas pungente) do rock grunge.
Quando se constata, segundo foi noticiado na mídia mundial, que uma mulher no México chegou a ser presa por atentado ao pudor, enquanto se masturbava num cinema no qual o filme era exibido, dá até vontade de endossar uma dessas generalizações que polvilham as redes sociais: “só pode ser capaz de se masturbar com ‘Cinquenta tons de cinza’ quem nunca soube o que é trepar”.
Para quem conhece um pouquinho mais de sexo e sobretudo de cinema, filmes como “O último tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci; “Império dos sentidos” (1976), de Nagisa Oshima; “9 1/2 semanas de amor” (1986), de Adrian Lyne; e “Instinto selvagem” (1992), de Paul Verhoeven, são pedidas muito mais sedutoras.
O arrombamento da casa do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgado ontem no site DiáriodoPoder.com.br, pode ter sido obra de espiões para “plantar” escutas ambientais ilegais. A suspeita surgiu após a constatação de que os invasores nada levaram, nem mesmo uma pistola do dono da casa, com três pentes de bala. Apenas foi levado, estranhamente, o controle remoto do portão da garagem.
Tempo suficiente
O arrombamento foi há um mês. Janot estava com a filha na Disney. A invasão durou 8 minutos, suficientes para ocultar micro escutas.
Arapongagem
No começo, o procurador atribuiu o arrombamento a bandidos comuns, mas agora há a suspeita de ação ligada a investigados da Lava Jato.
Agentes privados
Suspeita-se que tanto as supostas ameaças quanto a invasão da casa de Janot são obra de “agentes privados” interessados na investigação.
Novo patamar
Rodrigo Janot foi desaconselhado a usar aviões de carreira, e ontem, já sob forte proteção, viajou ara Minas em um jatinho da FAB.
O verbo malufar está definitivamente desmoralizado. Foi reduzido a pó. Perto do megaesquema de corrupção montado para roubar a Petrobras, as maracutaias atribuídas ao neocompanheiro, e que deram origem ao termo, parecem hoje café pequeno. Nunca antes na história deste país, políticos inescrupulosos zombaram tanto da inteligência alheia.
Imagine o ladrão cara de pau que rouba o leite das crianças e depois convoca a própria quadrilha para uma manifestação em defesa da creche assaltada? Ou o cinismo do bandido que, uma vez descoberto, invoca, em defesa própria, a existência da corrupção no Brasil desde o descobrimento? “Ora, a elite já rouba faz mais de 500 anos”, argumenta.
Logo, a saída não pode ser a prisão dos “guerreiros do povo brasileiro”. Pôr na cadeia a turma “que rouba, mas distribuir” é coisa da “mídia golpista”. Como a “esquerda” de Dilma, Lula, Temer, Renan e Maluf tem maioria no Congresso, a ordem é investigar tudo desde a chegada das caravelas e passar o Brasil a limpo. Igual ao que o PT pregava (e nunca fez) antes de chegar ao poder. Bons tempos aqueles em que malufar ainda era crime.
Hoje, crime é ser contra a sangria da companheirada aos cofres públicos. Afinal, na literatura que faz a cabeça dos “progressistas” reza que, para alcançar a “revolução” redentora, “os fins justificam os meios”. Não à toa, boa parte dessa gente idolatra o obscurantismo jihadista do Estado Islâmico. Principalmente quando fuzila, incinera ou corta cabeças de defensores da tal liberdade de expressão, esse mi-mi-mi “pequeno burguês” que é um dos pilares da democracia.