“Ela está completamente equivocada. Melhor seria se informar sobre os fatos, ocorridos durante o seu próprio governo, antes de falar”. Foi o que disse hoje o ex-vereador Nelson Nahim (PSD), ao tomar ciência das declarações feitas ontem à noite pela prefeita Rosinha Garotinho (PR), que na tentativa de defender as críticas presentes sobre sua política cultural e de eventos, sobretudo na programação de verão do Farol, tentou revirar o passado, atribuindo ao cunhado uma má vontade quando era presidente da Câmara, em relação à CPI do Legislativo que, em 2009, investigou os atos da Fundação Zumbi dos Palmares durante o governo Alexandre Mocaiber (PSB). Segundo o Blog do Bastos revelou aqui, disparou ontem a prefeita:
— Não tenho medo da verdade. Vamos mostrar a cachorrada que tinha no passado. Isso tudo já foi investigado, mas o presidente anterior do Legislativo não colocou para frente.
Citado, mesmo sem ser nomeado, Nahim deu nomes hoje em sua resposta:
— Foi tudo apurado. Todas as pessoas foram ouvidas. Tudo foi gravado. Tudo que os vereadores pediram, foi feito. Os relatórios finais, não só da CPI da Fundação Zumbi, mas também da Campos Luz, foram concluídos e entregues ao Ministério Público. Se Rosinha quiser, basta oficiar o presidente da Câmara, Edson Batista (PTB), para ter acesso a todos os arquivos. Aliás, deveria tê-lo feito, antes de vir a público falar o que não houve. Caso tenha se esquecido do que aconteceu em seu governo, de cabeça eu lembro os membros da CPI da Zumbi, presidida pelo vereador Kelinho (PR), relatada pelo vereador Albertinho (Pros, então PP), sendo ainda composta pelos vereadores Abdu Neme (PR, então PSB), Gil Viana (PR, então PSDC) e Rogério Matoso (PPS), único integrante da oposição.
Sobre a possibilidade de ter sua política de shows investigada, nos seis meses de 2010 nos quais assumiu interinamente a Prefeitura, na primeira das duas cassações de Rosinha, que ontem também propôs uma CPI para investigar os shows das gestões passadas, Nahim também se disse tranquilo:
— Todo cidadão sabe que não troquei um só assessor no minha interinidade como prefeito. Todos foram mantidos, à exceção de Linda Mara (hoje vereadora pelo Pros), que saiu por vontade própria para acompanhar Rosinha. Se for investigar o ato de um secretário ou assessor, será o de um secretário ou assessor que estava e ainda está no governo Rosinha, incluindo a atual presidente da Fundação Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro. Mas sou a favor de que se investigue mesmo, pois se desvios foram ou continuam sendo cometidos, e um prefeito não tem como saber de todos, o responsável tem mesmo que ser punido exemplarmente.
“É sempre a mesma coisa. Quando não têm como responder pelo presente, eles tentam atacar o passado”. Alvo costumeiro dos governistas para evitar responder as críticas à atual gestão municipal, já no segundo mandato de Rosinha Garotinho (PR), seu antecessor no cargo, o ex-prefeito Alexandre Mocaiber (PSB), disse estar com a “consciência tranquila” e não ter “nada a temer”, diante da ameaça feita ontem à noite pela prefeita de Campos, segundo divulgado aqui, no Blog do Bastos: “Aproveitando que o presidente da Câmara. Dr. Edson Batista está aqui, sugiro uma CPI dos Shows para levantar todos os gastos com shows nos governos passados. Não tenho medo da verdade. Vamos mostrar a cachorrada que tinha no passado”.
Na tentativa defender a amiga e presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, cujos valores pagos e prioridades administrativas na contratação de shows no Farol têm sido alvos constantes de questionamentos na mídia local (relembre aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), além de um pedido de informação do vereador Rafael Diniz (confira aqui), Rosinha atacou Mocaiber, que a apoiou em sua reeleição à Prefeitura em 2012, diante do completo silêncio sobre a questão por parte do seu marido, o deputado federal e pré-candidato a governador, Anthony Garotinho (PR), presente ontem ao evento também prestigiado por boa parte do rolo compressor governista na Câmara Municipal, visando apoiar a pré-candidatura de Geraldo Pudim (PR) a deputado estadual. Isto, enquanto no mesmo dia e horário, seus dois filhos, Wladimir e Clarissa Garotinho (ambos do PR) promoviam outro evento em Campos, mas para prestigiar a pré-candidatura de Bruno Dauaire (PR), que briga pela chance de disputar com Pudim uma vaga na Alerj.
Gustavo discursa entre Marcão, Rafael e Rogério à esquerda, e Roberto Rocco e Robson Almeida, à direita (foto de Valmir Oliveira/Folha da Manhã)
Gustavo Matheus assumiu hoje a presidência do PV em Campos. Blogueiro entre os mais acessados na Folha Online, o que significa dizer de Campos, e com curta, mas boa passagem também na redação do jornal, como repórter de política, ele ganhou notoriedade como crítico veemente do grupo político capitaneado pelo tio, deputado federal e pré-candidato e governador pelo PR, Anthony Garotinho Matheus. Para apimentar ainda mais essa polarização político/familiar, que já havia custado a reeleição do então vereador Nelson Nahim, no pleito municipal de 2012, Gustavo assumiu recentemente, em 1º de fevereiro deste 2014, um programa na rádio Difusora, emissora teoricamente alinhada ao grupo garotista-rosáceo, mas nas mesmas manhãs de sábado em que o deputado costuma fazer suas aparições radiofônicas em Campos, na rádio Diário, que nove em cada 10 munícipes afirmam pertencer de fato ao próprio Garotinho.
Conheci Garotinho pessoalmente em sua primeira eleição a prefeito de Campos, em 1988, num contato de relativa proximidade até a campanha que levou à sua segunda vitória na majoritária do município, em 1996. Ele como político, eu, como jornalista, continuei acompanhando sua trajetória, como é obrigado a fazê-lo qualquer um que milite com mídia em Campos, inclusive tendo feito com ele duas entrevistas exclusivas neste mesmo período, sem nenhum outro contato além do profissional. Já Gustavo, conheci pessoalmente em 2012, logo após ele romper ruidosamente com o tio, numa carta aberta nas redes sociais, publicada após ele ser desligado de um empresa terceirizada que prestava serviços à Prefeitura. Noticiei a distensão aqui, no blog, bem como a associação da manifestação pública com a perda do emprego no governo da tia Rosinha. Ele não gostou, reagiu e chegamos a iniciar um debate acalorado nas redes sociais e nos comentários do blog, culminado num encontro pessoal que selou a paz com a fluidez de um chope, dando início dali à convivência profissional e à amizade pessoal que duram até hoje.
Ressalvado já ter vivido o suficiente para saber que ninguém conhece, de fato, ninguém, assino embaixo do que sentenciou o filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883/1955): “O homem é ele e suas circunstâncias”. Isto posto, daquilo que me foi dado a conhecer do tio e do sobrinho, desde hoje atuando diretamente em campos opostos da política de Campos, vejo algumas características semelhantes entre um e outro, guardada a imensa desproporção no tamanho e na importância que (ainda) os separam: o talento, a vontade, a facilidade para aprender, o voluntarismo, a pressa em chegar, os atrasos que isso pode acarretar ao resto, e a coragem — que em Gustavo, diferente do tio, não se restringe apenas ao palco político. De fato, comparando o início de Garotinho nos anos 80 do século passado, com o começo de Gustavo nesta década de 10 do novo milênio, talvez não errasse quem dissesse que o segundo, a grosso modo, é uma versão modernizada do primeiro, com a net no lugar da rádio, muito embora o deputado tenha se tornado um exímio comunicador também em seu blog — que o diga o governador Sérgio Cabral (PMDB).
Após ter comparecido e assistido à posse do novo presidente municipal do PV, na tarde de hoje, emblematicamente na sede da Associação de Imprensa Campista (AIC), como amarrou com competência o jornalista e coordenador regional da legenda Joca Muylaert, o que mais me chamou a atenção, na conversa particular de antes e no discurso de Gustavo durante, foi a assunção de que aquele não era um movimento simplesmente partidário, mas uma tentativa de união da oposição, “sem egos ou vaidades”, em busca de uma alternativa viável de poder. Para corroborar as palavras, lá estavam e também manifestaram as suas os vereadores Rafael Diniz (PPS) e Marcão (PT), o ex-edil Rogério Matoso (PPS) e o ex-candidato a prefeito José Geraldo (PRP). Para quem viveu os anos 80 na planície goitacá, com alguma consciência de tribo, e assistiu anos depois ao evento de hoje, inevitável a associação com aquilo que no passado gerou o “Muda Campos”, movimento pluripartidário de oposição à elite política que dominava o município por décadas, responsável pela chegada de Garotinho ao poder pela primeira vez na cidade.
Ao admitir que quem hoje está no poder, chegou lá e se mantém com competência, Gustavo também lembrou à oposição que “não basta fazer bem, temos que fazer melhor”. Para tanto, independente de quem encabece qualquer projeto de alternância de poder, sempre salutar num regime democrático, embora hoje improvável numa projeção racional para 2016, tão importante quanto reproduzir as inegáveis virtudes de Garotinho e seu grupo político no jogo jogado, talvez seja não perder de vista a demanda coletiva por diferenças. Ao Gustavo, que passou hoje de pedra a vidraça, e “agora também está com a bunda na janela”, como bem salientou Marcão numa conversa de bastidor, boa sorte!
Atualização às 23h31 para dar a relevância maior de post a uma ressalva que o Gustavo fez aqui, em comentário: Só rompe quem já esteve junto, e isso nunca ocorreu, pelo menos não politicamente, já que faço oposição ao Garotinho antes mesmo do racha entre ele e Nelson Nahim, seu irmão. Trabalhei, sim, na CNS, mas não por intermédio de ninguém do atual grupo, pelo contrário. Quando fui admitido na empresa, a senhora Rosinha Garotinho sequer era prefeita. É bem verdade que permaneci na empresa quase dois anos enquanto a mesma governava, mas logo depois fui demitido pelo grupo rosáceo por criticá-los nas redes sociais. Pois todos sabem que a perseguição ocorre com todos que não semeiam o ponto de vista garotista. A CNS, por estar sob a batuta do deputado Garotinho, sequer me deu motivos para a demissão. Por isso, se o “romper” do texto tiver uma conotação política, é um equívoco. Mas, se o termo foi utilizado pela situação familiar em si, desde já me desculpo, pois nesta há alguma veracidade, sim.