Como qualquer debate sem dono, aquele aberto sobre a cultura de Campos, há algum tempo, tem se alimentado e crescido a partir do próprio debate. Seja a partir da Folha impressa e/ou virtual, deste blog, da democracia irrefreável das redes sociais, ou das simples e velhas rodas de conversa, várias são as sugestões e os caminhos ainda não percorridos, que têm sido apontados por quem, felizmente, ainda se mostra capaz de discutir arte e cultura além das circunvoluções do próprio umbigo. Neste sentido, o blog republica abaixo, na forma mais relevante de post, as sugestões do professor, escritor, crítico de cinema, ambientalista e imortal da Academia Campista de Letras (ACL) Arthur Soffiati, feitas aqui, em comentário a este “Opiniões”, que se agregarão à pauta futura (e necessária) do debate…
Até aqui, tenho gostado muito das entrevistas criticando a política cultural autoritária e populista do atual governo municipal. Creio não ter errado em perceber que as críticas à prefeitura por censurar Nelson Rodrigues são apenas erupções de um processo de vulcanismo mais profundo que desagrada aos artistas e intelectuais de Campos. A entrevista da Presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima foi realmente sofrível. Na tentativa de justificar as atitudes do governo municipal, ela acabou por afundar mais ainda o grupo Garotinho.
Mas tenho uma nova questão: e se, na próxima eleição municipal, elegermos um prefeito disposto a abrir o espaço merecido para a cultura, o que proporíamos? E se, usando uma expressão muito vulgarizada, passássemos de estilingue a vidraça, qual seria a nossa posição? Se um dos entrevistados fosse convidado a organizar o setor cultural, quais seriam as suas propostas?
Arthur Soffiati
Como alguém que dedicou à militância nas artes os 43 últimos anos, dos 58 que tem de vida, com a bagagem dois FestCampos vencidos como poeta e mais de 100 peças montadas, inclusive no Rio de Janeiro, como diretor teatral, pode estar hoje desempregado e há um ano sem encenar nada numa cidade de orçamento bilionário e governada por um grupo político egresso do teatro? Na imitação tragicômica entre a arte e a vida, talvez nenhum caso pessoal encarne melhor o atual cenário da cultura de Campos do que o de Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi. Presente a todas as manifestações organizadas pelos artistas locais em protesto contra a denúncia de censura a “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon (relembre o caso aqui e aqui), ele foi também o primeiro a encenar uma peça no teatro hoje referência de Campos, quando este ainda estava só no esqueleto, em 1995, com “Gota d’água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes (480 a.C/ 406 a.C.). Ecoando quem inventou o teatro, a democracia e uma tal civilização ocidental, Kapi respondeu à presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), a quem foram concedidos plenos poderes sobre a cultura pública de Campos. Se ela afirmou em entrevista que “todas as vertentes da cultura do município têm sido atendidas”, o diretor de teatro e poeta goitacá foi lacônico: “É mentira!”
(Foto de Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)
Folha Dois – Você participou de todas as manifestações dos artistas de Campos, desde a denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha. Até agora, qual é o saldo?
Antonio Roberto Kapi – Apesar de muito blá-blá-blá e do individualismo da natureza ególatra do artista campista, como bem disse Soffiati (aqui), acho que o saldo é positivo, principalmente pelo debate suscitado através do face e das entrevistas dadas por artistas e intelectuais à Folha da Manhã. Por inúmeras vezes tentei unir os diversos segmentos da classe artística para lutar em prol do bem comum, mas sempre me deparei com barreiras e suspeitas de que eu estava liderando movimentos em benefício próprio. Espero que desta feita o movimento sem lideranças vingue e seja vitorioso em suas reivindicações.
Folha – O professor e escritor Arthur Soffiati afirmou em entrevista que a discussão sobre a cultura de Campos importa mais do que aquilo que a gerou. Concorda? Por quê?
Kapi – Claro que sim. Essa política cultural (?) que vigora no município há muito, é uma política equivocada, calcada no princípio romano da política do “pão e circo”, que leva diversão para o povo, não cultura e não contribui em nada para a formação e o crescimento do ser humano que aqui vive. Não que a população não tenha direito à diversão, mas cultura é bem diferente de lazer e a indústria cultural de massa tem meios eficazes de se perpetuar, não depende de verbas públicas, a não ser quando serve a outros propósitos. Acho que a censura a “Bonitinha, mas ordinária”, do genial Nelson Rodrigues, foi providencial ao mostrar a cara da pobreza cultural e da incompetência dos gestores desta política. Foi o detonador de um processo de indignação da classe artística.
Folha – Sobretudo após a entrevista de Soffiati, que embora não tenha sido o único, foi quem mais abertamente criticou também os artistas locais, alguns destes acusaram o golpe, chegando a questionar o próprio debate. Como alguém que milita no meio há mais de 40 anos, há como se pretender fazer cultura sem debatê-la?
Kapi – Há que se considerar o fato de que toda a classe é composta de diversos indivíduos, inclusive a artística, com os mais diversos níveis de formação e talento. Cada um reflete no seu processo de criação o que absorve do mundo. Esse embate depende basicamente de sua capacidade intelectual e deságua no exercício dialético do debate. Muitas vezes sem nem mesmo entendê-lo.
Folha – Essa reação negativa de alguns artistas teria sido apenas vaidade ferida por quem se viu criticado numa discussão da qual talvez se julgasse dono, ou poderia ser algo mais, como as dificuldades que a continuidade do debate podem ter gerado em projetos pessoais junto à FCJOL?
Kapi – A classe artística local é bem diversa. O único elo comum é a vaidade. Não creio em artista modesto. E essa vaidade muitas vezes faz com que o artista não meça esforços para dar vazão ao seu exibicionismo. Só que não tem como ser “Arlequim, servidor de dois amos”. Ou você serve à causa ou aos seus interesses pessoais.
Folha – A partir da denúncia de censura de Nelson, o poeta Artur Gomes propôs (aqui) encenar em protesto “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, nos jardins do Trianon. Depois, Soffiati propôs a formulação coletiva de uma notícia-crime ao Ministério Público para se investigar o suposto superfaturamento dos shows. E, sobre uma proposta e outra, nenhum artista sequer se pronunciou. Falta coragem?
Kapi – Acho que a remontagem do “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, ironias à parte, bem pertinente, até porque protestar pela arte fazendo arte tem tudo a ver. Estamos juntos, Artur, pode contar comigo. Quanto à proposta de Soffiati, acho que “…não é que falte coragem, tá sobrando medo…”. Ninguém tá afim de dar a cara a tapa. Mesmo porque, falemos a verdade: se o Ministério Público de Campos quisesse de fato, já teria feito alguma coisa.
Folha – Também professor e escritor, Adriano Moura ressalvou (aqui) que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”. Soffiati foi além ao afirmar: “Ele (o artista de Campos) está no poder não para atender ao público, mas para realizar suas ambições pessoais e para ter uma fonte de renda”. Via de regra, é isso mesmo?
Kapi – Como diz meu amigo Murilo Dieguez: “É cada um por si e Deus contra”. Mas se houvesse uma política cultural justa o artista se daria ao respeito. Pois respeito não se vende, não se impõe, se dá. Mas tentando sobreviver de sua arte, só se entregando ao que chamamos no teatro de caça níqueis.
Folha – Não só Adriano, Soffiati e Artur (aqui), mas também os professores Deneval de Azevedo Filho (aqui) e Cristina Lima (aqui), além do diretor de teatro José Sisneiro (aqui), foram unânimes em confirmar a existência da cultura do pires na mão, entre os artistas locais, em relação ao poder público. Acha que ela interessa mais a quem se acomoda em ser pedinte ou a quem escolhe se atende ou não? Há como mudar? Interessa mudar?
Kapi – Antes do advento do garotismo sempre se produziu cultura em Campos, em todos os segmentos. Cheguei a ganhar dinheiro fazendo teatro. À época, o único espetáculo que dirigi produzido pelo poder público municipal foi “Arena contra Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1988, quando da inauguração do Parque Alberto Sampaio, no governo de Zezé Barbosa, quando a cultura do município era vinculada a um departamento e comandada pela professora Diva Abreu Barbosa. Depois começou a ser implementada uma política cultural (?) calcada em eventos, pura e simplesmente. Houve um tempo em que tínhamos oportunidade de assistir aos consertos do “Projeto Aquarius”, em que a folclorista Ana Augusta Rodrigues capitaneava a cultura popular e nos induzia a respeitá-la e valorizá-la. Hoje temos o Milton Cunha a ditar regras, sabe-se lá a que preço, sobre nossas manifestações culturais mais genuínas. Vivemos num tempo que em muito nos faz lembrar o filme “Mephisto”, de István Szabó. Se há como mudar? Claro que há. Depende de vontade política. Afinal, o Fundo Municipal de Cultura foi criado pra quê? Com dotação orçamentária e editais que contemplem os diversos segmentos, é a forma mais democrática e justa de se implementar uma política cultural no município. Essa história de se criar demandas é pura balela, embromação. Tentando contribuir para a efetiva implantação do fundo, consultei um tributarista, que me esclareceu sobre a inconstitucionalidade de se atrelar a dotação ao IPTU e ao ISS. Mas com relação aos royalties não há impedimento legal, o que falta é vontade política. Mas a municipalidade vetou, por achar elevado, o percentual de 0,1% proposto por Vilmar Rangel ao elaborar a minuta do projeto de lei de criação do Fundo. O que daria algo em torno de R$ 500 mil ao ano. Só o cachê da Bethânia foi em torno da metade deste valor. E eles acham este valor elevado? Faz-me rir!
Folha – Você trabalhou no primeiro governo de Anthony Matheus, além das administrações Sérgio Mendes, Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber. Que diferenças observou não só entre cada uma delas, como também naquilo que viu de fora nas gestões Rosinha, integrando o processo que Deneval chamou de “garotização” e julgou “péssimo” à cultura de Campos? Soffiati está certo ao considerar essa política cultural ao longo de 24 anos como “populista” e “autoritária”? Por quê?
Kapi – Em 1989, tudo era novidade. Minha geração chegara ao poder e entendíamos que a máxima teatral, “O espetáculo não pode parar”, deveria ser o lema de nossa ação. Trabalhávamos muito, até que fizemos com que ele (Anthony) fosse considerado um grande administrador. Mas depois dos dois primeiros anos, a máscara começou a cair. Já no governo de Sérgio podemos implementar uma política de cultura e de turismo verticalizada. Chegamos a trazer uma faculdade de turismo para Campos. Do segundo governo de Garotinho, me neguei a participar. Quando Arnaldo assumiu passamos a viver uma fase de efervescência cultural, tanto no que tange à política cultural quanto à política de eventos em si, no que pese a forma de fomento implementada. Já no governo Mocaiber, tivemos a excelente atuação de Luciana Portinho à frente da cultura, que muito incentivou o artista local. Todas tiveram seus equívocos, erros e acertos. Mas nada supera o retrocesso, o populismo e a exclusão da política cultural (?) atual, que embora eu tenha em seu estafe pessoas do quilate de Orávio, de João Vicente, de Leninha, concentra todo poder e a caneta nas mãos de quem nem sabe quem é Nelson Rodrigues.
Folha – Leu a entrevista feita com a presidente da FCJOL no site Campos 24 Horas (aqui), sobre as críticas que a política pública da cultura do município vem sofrendo? Entre outras coisas, ela afirmou que todas as vertentes da cultura de Campos têm sido atendidas. Concorda?
Kapi – É mentira! Somente uns poucos privilegiados têm acesso às benesses do poder. Com exceção das bandas de axé, de pagode e similares e algumas instituições que botaram a boca no trombone, todos estão à míngua, tentando fazer das tripas coração para exercer o seu mister.
Folha – A presidente da FCJOL também defendeu na entrevista a centralização de toda política pública da cultura de Campos em suas mãos, feita a partir da última reforma administrativa de Rosinha, num movimento criticado publicamente por Artur, Adriano, Deneval, Soffiati, Cristina e Sisneiro. Você, o que achou?
Kapi – Essa reforma administrativa foi um verdadeiro retrocesso. Não tem explicação lógica que a justifique. Quem é Patricia, no que tange à cultura? Qual a sua experiência enquanto gestora? Quem é ela face a Orávio e João Vicente? Com essa defesa, ela demonstra claramente porque está ocupando o cargo que ocupa. “Só se conhece verdadeiramente um homem quando ele detém o poder e legisla as leis”, como asseverou Sófocles, em “Antígona”.
Folha – Ausente na entrevista foi a pergunta sobre as denúncias de favorecimento nas contratações pela FCJOL da banda A Massa, cujo percursionista é marido da presidente da mesma FCJOL. Mas o fato é que também nenhum artista tocou no assunto, nem na reunião com a presidente, em 17 de julho, nem na Conferência Municipal de Cultura, três dias depois, ambas com a sua presença. O assunto é tabu?
Kapi – Não acompanho de perto as contratações da Fundação. Tudo que sei é através do face e considero esse um nepotismo deslavado. Consta que a denúncia contra Patrícia Cordeiro e seu marido, por improbidade administrativa, já está feita no Ministério Público. Cabe, portanto, à prefeita e/ou ao Ministério Público abrir uma investigação para apurar os fatos e cumprir a devidas sanções. Se é tabu, temos que reivindicar que este seja quebrado.
Folha – Por falar na Conferência de Cultura, você perdeu a eleição de delegado para representar Campos na Conferência do Estado, em meio a vários indícios de irregularidade e manipulação no pleito, apontados (aqui) pela estilista Lívia Amorim. Por que essas denúncias não foram até hoje formalizadas à secretaria estadual e ao ministério da Cultura? É assunto posto? Sua eleição mudaria alguma coisa?
Kapi – Na realidade, eu estou eleito sim. Segundo Orávio, alguns participantes não oficializaram suas inscrições, o que levou a diminuir o número de representantes de três para dois, já que este deveria ser proporcional ao número de representantes da sociedade civil na conferência. Como ele correu atrás das pessoas para que estas se inscrevessem após o término da Conferência, a proporcionalidade passou de dois para três representantes. Afinal, eu já fui representante eleito da sociedade civil pela região Norte Fluminense no Conselho Estadual de Cultura. Devo ter alguma importância neste contexto.
Folha – Você é um dos principais defensores da implementação do Fundo Municipal de Cultura, aprovado desde o fim do governo Mocaiber e empurrado com a barriga nos cinco anos seguintes de governo Rosinha. Por que ele seria tão importante e como fazer para que finalmente se torne realidade?
Kapi – Como já disse, essa história de nós artistas criarmos demandas é pura balela. Acho lastimável que um governo cuja origem está nos palcos trate a cultura com tanto menosprezo. Esperava mais de Orávio, um intelectual e agente cultural com um histórico invejável. Acho que ele comete alguns acertos quando o deixam trabalhar, mas com a experiência e o currículo que tem, vê-lo jogando o jogo dos contentes é deplorável. Se a política municipal de cultura estiver alicerçada no Fundo e gerenciada pelo Conselho, acredito que teremos uma política cultural de fato. Acho que só conseguiremos isso deixando as vaidades e os interesses pessoais de lado e nos unindo para pressionar o Legislativo a abraçar a nossa causa. Com certeza, quem abraçá-la estará bem na fita com a classe artística.
Folha – Deneval e Soffiati lembraram a necessidade de interação entre os agentes culturais e as universidades do município, muitas vezes isolados em seus saberes. Entre 1994 e 2005, você dirigiu o departamento de cultura da Faculdade de Odontologia de Campos (FOC) e há pouco concluiu uma bolsa na Uenf. Qual a importância desse diálogo e como ele poderia evoluir no município?
Kapi – Sou do tempo em que a educação formal se baseava em preceitos humanistas, o que muito contribuiu para a formação do cidadão que hoje sou. Quando Lusitano me convidou para atuar na FOC como diretor teatral, vislumbrei a possibilidade de implantar uma coordenação cultural que pudesse incutir nos alunos uma consciência humanística que os levassem a uma consciência critica de seu papel social enquanto profissionais. Deu super-certo. Implantamos oficinas de teatro, canto coral, artes plásticas, buscando uma interação escola/comunidade que começou com a montagem de “Os órfãos de Jânio”, de Millôr Fernandes e culminou com a montagem de “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles, que envolveu 100 pessoas em cena, entre alunos da FOC, da FDC e integrantes da comunidade do Matadouro. Já na Uenf, a visão tecnicista da educação dificultou um pouco a implementação de uma leitura humanista da formação acadêmica. Somente através da arte o ser humano é capaz de depurar sua sensibilidade. Não que todo mundo deva ser artista, mas a depuração da sensibilidade possibilita uma leitura mais humana do mundo.
Folha – Em seus tempos na FOC, você foi o primeiro a montar uma peça no Trianon, em 1995, ainda com o teatro só no esqueleto, sem teto. Como foi aquela encenação de “Gota d’Água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes? Cristina Lima disse sentir falta dos artistas de Campos no Trianon. E você?
Kapi – À época, embora integrasse o governo Sérgio Mendes, resolvi montar “Gota d’água” no Trianon no osso, como forma de protestar contra a morosidade da obra, além de provar que os artistas de Campos tinham condições e talento para ocupar aquele espaço. Na minha concepção o palco do Trianon estava para nós, artistas, assim como a casa própria para os operários. Após cada apresentação, fazíamos questão de ressaltar a importância da obra para a arte campista. No Festival de Teatro Universitário daquele ano, ganhamos todos os prêmios e Angela Bastos, então colunista social da Folha, passou a se referir a mim como “o mestre Kapi” no jornal. Mas não foi somente “Gota d’água” que montei no Trianon. “Terror e miséria no III Reich”, de Bertolt Brecht; “Sons do Planeta Blue”, de Beth Rocha; “O pássaro azul”, de Maeterlinck; “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu; e “O Bruxo do Cosme Velho”, de Luciana Tavares, fazem parte do meu currículo naquela casa de espetáculos. Infelizmente o Trianon se transformou no grande detonador da produção cultural da cidade, com uma programação que em geral apresenta humoristas globais de qualidade duvidosa, do Zorra Total, um dos piores programas de humor da TV aberta brasileira. Quando não, é cedido para reuniões do estafe municipal, em pajelanças generalizadas, ou congressos e afins. O seu espaço deveria ser destinado exclusivamente para as arte.
Folha – Ironicamente, a última peça que você dirigiu, há um ano, no Sesc, foi justamente “Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico”. Na condição de quem mergulhou na vida e na obra do maior dramaturgo brasileiro, para reunir ambos no palco, como viu a denúncia da sua censura em Campos e a repercussão do caso em mídia nacional (aqui e aqui)?
Kapi – A sede de poder faz com que às vezes vassalos queiram ser mais realistas que o próprio rei. Não acredito que a iniciativa tenha partido diretamente de Rosinha. Muito menos de Orávio ou de João Vicente. Assim como não acredito nas desculpas esfarrapadas apresentadas para justificar o injustificável. Existe todo um estafe no Trianon capacitado para orientar os grupos e companhias que lá pretendem se apresentar. Se isso não ocorreu, alguém falhou e com certeza não foi o pessoal do grupo “Oito de Paus” (que denunciou a censura). Eu mesmo passei por uma situação no mínimo delicada, quando pretendi montar “Vestido de Noiva”, de Nelson. Quando souberam que eu estava ensaiando a peça, a então Fundação Teatro Municipal Trianon me solicitou o projeto, porque entendiam que o centenário de Nelson não poderia passar em branco. Apresentei o projeto e valores que seriam divididos com o Sesc. Fiquei aguardando até 15 dias antes da estréia prevista, com o contrato com o Sesc já assinado. Como não se dignaram a me dar uma satisfação, me vi obrigado a criar um texto, “Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico”, para não descumprir o contrato com o Sesc e, além de não receber, ter que pagar a multa devida por quebra de contrato. É uma falta de respeito total, ao teatro, aos artistas, à memória de Nelson. Acho que o Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões) deveria se pronunciar emitindo uma nota de repúdio a esta situação.
Folha – Sobre sua direção de “Meu querido diário”, peça de Adriano interpretada por Yve Carvalho, no Teatro de Bolso, em 2009, a matéria da Folha Dois à época já alertava ao “ostracismo a que pretenderam relegá-lo os podres poderes da planície”. Como alguém com mais de 100 peças encenadas, inclusive no Rio de Janeiro, pode estar hoje desempregado e já há um ano sem montar nada numa cidade governada por um grupo político egresso do teatro? Seu caso resume o da cultura de Campos? E fere?
Kapi – Já estou acostumado com as adversidades. Nasci após três tentativas de aborto, de uma mãe tuberculosa. Há 16 anos adoeci, entrei em coma e sobrevivi sem seqüelas. Em 2009, após ficar desempregado, por apoiar a candidatura de Arnaldo à prefeitura, entrei num processo depressivo que resultou numa tuberculose, que levei três anos pra curar. Herdei de minha mãe a perseverança e sou bom de briga, no sentido figurado. Mas no momento, estou ensaiando “Zoo Story” , “A história do zoológico”, de Edward Albee, com Yve Carvalho e Luis Fernando Sardinha, sem apoio nenhum do poder público. Estamos tentando sensibilizar a iniciativa privada para podermos viabilizar o projeto. Afinal, vaso ruim não quebra, vira craquelê.
Por Ricardo André Vasconcelos, em 26-08-13 – 18h04
Ainda sobre a entrevista da presidente da Fundação Cultural, o Blog veste a carapuça e, antes de comentar, destaca uma resposta de Patrícia Cordeiro:
“Tem coisas que quando eu leio vejo que a pessoa está totalmente desinformada. Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona”.
Este blogueiro tem por hábito antigo ler o Diário Oficial e, com o advento da Internet e suas facilidades, acha importante multiplicar as informações ali contidas como forma de dar aos leitores elementos para formação de juízo de valores. E assim o faz: Acho fundamental que o morador de Morro do Coco, por exemplo, que tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde, saiba quanto custa o aluguel do palco para a realização da festa de sua comunidade. Assim como qualquer munícipe precisa ser informado sobre quanto custo o calçamento da sua rua, a reforma da escola da comunidade e por aí vai. Assim, quem sabe um dia, o cidadão possa escolher entre gastar R$ 53.108,00 num show de Neguinho da Beija Flor (aqui), R$ 158 mil num show de Michel Teló (aqui), ou R$ 501 mil para aluguel de palco (aqui) ou ter remédio no Posto de Saúde, gaze e esparadrapo nos Postos de Urgência e quem sabe até professores bem formados e bem pagos na rede pública.
E nenhuma das citações acima são referentes a “registro de preço” e sim despesas efetivamente realizadas, no caso dos shows, e referente ao aluguel dos palcos trata-se de extrato do contrato 098/2013 para ser executado em 60 dias por R$ 501.215,00 pela empresa WORKING EMPREEDIMENTOS E SERVIÇOS LTDA, a mesma que aluga banheiros químicos para as festas, reforma escolas e até fornece abrigos de passageiros.
Portanto, este Blog pode até equivocar-se, mas não neste caso e não “omite” opinião. Pode até emitir, mas fundamentalmente divulga informação que é pública, mas inacessível à maioria. E, quanto à possibilidade de equívoco quando se interpreta como um único evento, que tal dar transparência e discriminar todos os eventos atendidos pelo aluguel de equipamentos de todos os contratos? A transparência não é só vacina contra interpretações mal feitas mas também evita eventuais desvios de funcionalidade dos recursos públicos.
Conheço o Fabiano Venancio desde os anos 80, quando ele já era repórter da Folha e eu, ainda um garoto. Posteriormente, nosso contato se estreitou, comigo já atuando na redação do jornal e ele, durante alguns anos, na gerência da rádio Continental. Nessa convivência, desenvolvi apreço pelo homem e respeito pelo jornalista. Não por outros motivos, tomo a liberdade de externar meu estranhamento ao fato da entrevista feita por ele e publicada aqui, em seu site Campos 24 Horas, com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patricia Cordeiro, em meio às 10 perguntas feitas e respondidas, não ter reservado nenhum espaço à indagação sobre as denúncias das contratações, bancadas com dinheiro público municipal, da banda A Massa, cujo percursionista Lucas “Cebola” é marido de Patricia.
Já que a pergunta permanece tabu na política cultural de Campos, sem ser feita e sobretudo respondida, inevitável o espaço escancarado a outra indagação lógica: como o entrevistador frisou que a entrevistada estava tão munida de documentos para fundamentar suas versões, será que ela esqueceu de levar aqueles relativos às contratações da banda do marido, que já foram inclusive alvo de denúncia no Ministério Público Estadual?
Também blogueiro, o advogado e competente fuçador das publicações do Diário Oficial Cláudio Andrade também fez outros questionamentos acerca da entrevista, que podem ser conferidos aqui. Especificamente sobre a banda A Massa e o mistério insolúvel das suas contratações pela Prefeitura de Campos, o professor, poeta e ator Artur Gomes deixou aqui suas observações sempre irreverentes, na democracia irrefreável das redes sociais.
Em respeito ao contraditório (mesmo quando se escolhe o que se pretende contradizer) e na defesa da reforma administrativa da prefeita Rosinha (PR), que concentrou toda a administração da cultura pública do município sob a presidência da FCJOL, movimento abertamente criticado em entrevista não apenas pelo Artur (aqui), como também pelos professores Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui) e Cristina Lima (aqui), além de mais recentemente pelo diretor de teatro José Sisneiro (aqui), o blog pede a licença devida para republicar abaixo a íntegra da entrevista dada por Patricia ao Fabiano…
Ela chegou para a entrevista munida de vários documentos e, em algumas perguntas, manuseava um ou outro, mostrando que tinha convicção do que falava. A presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro, critica algumas pessoas envolvidas em mídia que não sabem, sequer, ler e interpretar o que está publicado no Diário Oficial do Município, principalmente, quando se trata de licitação na modalidade registro de preço, o que, por vezes, causou comentários em rede social, mas “só por quem lê e não entende o que está escrito e interpreta do seu jeito”, afirma Cordeiro. Quanto a fusão dos órgãos municipais de cultura, ela classifica como boa e no meio da conversa explica porquê. No momento se dedica, entre outros, as Semanas Vinícius de Moraes e Nelson Rodrigues, respectivamente, em setembro e novembro.
Patricia Cordeiro (foto: Campos 24 Horas)
Campos 24 Horas – Vamos começar pelos shows na cidade, a maioria considerado caro. O que você pode falar sobre isso?
Patrícia Cordeiro – Olha, quase sempre a Fundação faz bons negócios e pelo que constatamos através da mídia, os valores pagos aos artistas aqui, são bem menores do que os pagos na região. Para isso, a gente busca a logística do artista, como por exemplo, o momento que ele está em turnê na região Sudeste e, especialmente, nas cidades próximas. Isso e outros detalhes acabam barateando os custos.
C24H – E por falar em shows, lembro do Cepop, que continua sendo visto pelas pessoas como elefante branco…
Patrícia – É preciso lembrar inicialmente, que vários eventos de grande porte já são realizados no Cepop, como Bienal do Livro, Carnaval, Desfile de 7 de Setembro e outros, não precisando mais usar a estrutura qwue usávamos, Mas o Cepop tem estrutura complexa no seu funcionamento e não se pode chegar, ligar uma tomada e tudo funcionar como a gente quer.Ele demanda de som projetado para o espaço, alimentação de energia suficiente e por aí vai. E cada evento que a gente faz ali, consolida o espaço e sua funcionalidade. Não são todos eventos culturais que são concebidos para um espaço como o do Cepop, assim como acontece também no sambódromo, no Centro de Convenções de Manaus e outros.
C24H – Além desses eventos que você citou, o que mais, então, pode dá para fazer no Cepop?
Patrícia – É o que eu estou te explicando, é um local de grande porte, para eventos também de grande porte. Não fica bem para uma pequena produção, proporcionalmente falando.Vou adiantar um evento que está sendo estudado para ser desenvolvido no local: gravação de um DVD. E tem, ainda, a formatura de alunos de uma faculdade da cidade, onde iremos alugar o espaço, agora no final do ano. Também os eventos institucionais, estão migrando para o Cepop, como a Agricultura Familiar e alguns na área de esporte.
C24H – Você tem sido muito criticada ultimamente, podemos dizer até que é a bola da vez. Como recebe essas críticas?
Patrícia – Tem coisas que quando eu leio vejo que a pessoa está totalmente desinformada. Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona.
C24H – Neste contexto está a discutida história de um palco?
Patrícia – Sim. Mas a prefeitura de Campos tem palco próprio, mas não tem um que atenda toda a demanda. Dai a necessidade de licitação de registro de preço para palco e acessórios de palco, que são muitos. Entende?
C24H – Vamos falar da fusão dos órgãos municipais, que fortalece por demais a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima…
Patrícia – Hoje, com a fusão, a gente trabalha mais em consonância com as outras secretarias do que antes, inclusive, nos aproximou mais da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte. E por isso há um alcance maior das ações, porque todos pensam juntos, decidem juntos e o resultado é levado a todos. E os setores da cultura são completos, cada um tem excelência na sua área, o nível de diálogo é bom e elevado, ou sejam todos trabalhando em cima dos projetos da Prefeita Rosinha, que é audacioso.
C24H – Polêmicas à parte, como você vê a cultura em Campos?
Patrícia – Todas as vertentes têm sido alcançadas pelos projetos desenvolvidos e, para começar, posso citar o Festival de Bandas de Garagem, que neste último teve registro de mais de 70 bandas inscritas com os vencedores se apresentando no projeto Aumenta que Isso é Rock in Roll; as Casas de Cultura com cursos de artes e ofícios; o Festival Literário, as Oficinas Literárias; o Curso Livre de Teatro; o Projeto Farol de Todas as Estações já com preparação para o da primavera em parceria com as secretarias de Desenvolvimento Econômico e de Trabalho e Renda, com festival de petiscos e com choro e jazz; os Cafés Literários Antônio Roberto Fernandes, uma pessoa que eu sempre admirei e respeito muito; as aulas de balé e capoeira; os festivais que fazem parte do calendário de festas da cidade e muito mais.
C24H – É verdade que você se reuniu com os artistas, mas que a reunião foi solicitada por eles?
Patrícia – É verdade. E foi muito proveitosa, vários equívocos foram esclarecidos e eles levaram solicitações que nos foram muito bem vindas, como a otimização da agenda do Teatro de Bolso, que vai agora passar por reforma e adequação para acessibilidade, modernização dos equipamentos e por aí vai.
C24H – Teve discussão sobre o sonhado Fundo Municipal de Cultura?
Patrícia – Há tempos que o governo municipal estuda essa questão. Agora temos a consolidação do Fundo que, por determinação da`Prefeita Rosinha, terá recurso destinado, oriundo do orçamento da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Isso vai proporcionar abertura de editais. Um verdadeiro avanço no município.
C24H – Antes de começar a entrevista, você já disse que queria muito falar sobre três consolidações. Quais são?
Patrícia – Claro, não posso deixar de falar na consolidação da nossa Orquestra de Música e no nosso Corpo de Baile, além do nosso Museu Histórico de Campos, importante que tudo isso é de nós campistas, envolvidos com talentos da nossa terra. Inclusive a orquestra vai para Portugal, para uma série de concertos e, quanto a dança, dia 26 Campos vai abrigar um Congresso, que este ano é internacional. Quanto ao museu, totalmente reformado e restaurado, além de guardar os ciclos sociais, culturais e econômicos do município, tem também espaço para exposições temporárias. O mesmo museu que em pouco mais de um ano concorreu a prêmio nacional, o Rodrigo Melo Franco, sendo escolhido no estado do Rio, na categoria governamental, ficando em terceiro lugar. Ele hoje é realidade, já tendo sido visitado por mais de 30 mil pessoas.
Curto na maioria das respostas, José Sisneiro foi também “grosso” numa delas, em definição própria, ao analisar a reforma administrativa da prefeita Rosinha que concentrou plenos poderes da cultura pública do município na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL): “Abaixo a concentração de poder!”. Com 64 anos e militando no teatro desde os 18, o diretor, dramaturgo, ator e iluminador de teatro, natural de Sergipe, mas campista por adoção, tem acompanhado a discussão sobre os rumos e desrumos da cultura de Campos, mais a partir das suas reverberações também no Rio, onde é diretor-tesoureiro do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated).
(Foto de Ricardo Avelino/ Folha da Manhã)
Folha Dois – Vivendo nos últimos anos entre o Rio e Campos, como tem acompanhado a discussão sobre a cultura da planície, a partir da denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha (relembre o caso aqui e aqui, que ganhou mídia nacional aqui e aqui)? Ela repercutiu no meio teatral carioca?
José Sisneiro – Há alguns anos atrás, falei para algumas pessoas que o avanço de outras religiões no Brasil iria acirrar a disputa pelo poder, usando o domínio das massas. Esse domínio já chegou a Campos, com dinheiro e um pouco de fundamentalismo religioso, influindo de forma definitiva no processo eleitoral. Esse modelo é perfeito para o nosso rico município. Quanto à repercussão do caso, eu sei o que chegou através de renomados artistas do Rio de Janeiro, capital.
Folha – Em entrevista à Folha, o professor Arthur Soffiati afirmou (aqui) que o debate importa menos do que os motivos que o geraram. Concorda?
Sisneiro – Na verdade, vejo que a “censura” abriu as glotes dos que se manifestaram. Mas não sei mensurar neste momento, por não estar participando do foco do debate.
Folha – A última peça que você encenou na planície foi “Conselho de classe”, de Adriano Moura, em 2010. Por que está há três anos fora dos palcos de Campos? Há outro motivo além da sua militância na diretoria do Sated-RJ?
Sisneiro – Há muitos anos, participo da existência de grupos como o “Boa Noite, Amor”. A militância no Sated-RJ me coloca politicamente num furacão maior. Por estar no Rio, participei de algumas vitórias para o interior. No Sated-RJ sou sempre apresentado como representante do interior. Além disso, o Sated-RJ, no qual obedeço expediente através de prestações de serviços, ajuda-me na minha provisão.
Folha – Como produtor cultural você esteve na Prefeitura desde o primeiro governo Anthony Matheus, em 1989, até a última gestão Arnaldo Vianna, em 2004. Conhecendo os dois lados da moeda, qual a sua visão sobre a política pública de cultura praticada ao longo dos anos em Campos?
Sisneiro – O Sr. Anthony sempre foi estrela. O Dr. Arnaldo Vianna sempre foi tiete. Sempre achei que a política do evento só seria salutar se fosse um motivador do desenvolvimento artístico local. Os grandes eventos são produtores de atividades econômica em todo mundo. Todos reconhecem essa importância. Mas temos que priorizar o desenvolvimento do ser humano local, em todas as áreas. Durante o tempo mencionado, a diferença existiu na generosidade e no prazer real do segundo.
Folha – Soffiati e Adriano (aqui) afirmaram que as políticas públicas de cultura, atreladas a um projeto político de poder, são as mesmas em Campos desde 1989. O primeiro citou o pensador francês Abraham Moles para classificar essa política cultural como “populista” e “autoritária”. Por sua vez, o professor Deneval de Azevedo Filho afirmou (aqui): “A ‘garotização’ da cultura foi péssima para Campos”. Como alguém que chegou a participar diretamente desse processo, qual a sua opinião?
Sisneiro – Acho que o populismo é um “ismo” como outro qualquer. não gosto de ser orientado pelos “ismos”, mas, já que eles existem, o domínio através da formatação da ignorância aliada das fantasias religiosas, ou não, geram idiotização. Batemos palmas, ou não, mas sem ao menos saber o por quê.
Folha – Já a professora Cristina Lima, com quem você trabalhou nas duas gestões dela à frente da FCJOL, disse (aqui) ter visto com preocupação a recente reforma administrativa da prefeita Rosinha que extinguiu a secretaria de Cultura e as fundações Trianon e Zumbi dos Palmares, concentrando toda administração da cultura pública de Campos na Fundação restante. Partilha dessa preocupação?
Sisneiro – Serei curto e grosso: Sim, me preocupo; e muito! Abaixo a concentração de poder! Já vivemos a imposição de idéias, durante a ditadura militar no Brasil, e foi um tempo que não deixou nenhuma saudade em ninguém, sobretudo entre os artistas. A secretaria de Cultura foi a grande perda.
Folha – Os artistas também foram alvo de crítica. Se Adriano ressalvou que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”, Soffiati foi além: “Ele (o artista) está no poder não para atender ao público, mas para realizar suas ambições pessoais e para ter uma fonte de renda”. O que pensa a respeito?
Sisneiro – Todos estão com razão. Não vejo, porém, que só os artistas de Campos sofram desses problemas. A luta pela provisão tem que ter um certo controle. Se não a violência a que nós estamos sujeitos geram bichos incontroláveis.
Folha – Adriano e Soffiati também afirmaram que a polarização política de Campos se reflete entre seus artistas, com o governo defendido por aqueles que com ele estão, tendo como críticos os que ficaram de fora, mas querem entrar. Funciona assim mesmo?
Sisneiro – Tenho percebido que, em toda movimentação política em volta do poder, há aquele sentimento pequeno e mesquinho de “agora é a nossa vez”, “ agora vamos armar o nosso esquema”. Não há verdade dirigida ao coletivo. Em Campos, onde está jorrando dinheiro, precisamos valorizar “o ser”. Os arcos da Beira Valão não dão nenhuma espécie de alimento interior, mesmo que haja sobra de dinheiro.
Folha – Soffiati propôs a formulação coletiva de uma notícia-crime ao Ministério Público para se investigar o suposto superfaturamento dos shows. O que acha?
Sisneiro – A transparência resolveria. O trabalho artístico não tem tabela.
Folha – Cristina confirmou existir na planície a política do “pires na mão” dos artistas em relação ao poder público, mas ressalvou que seria assim em todo lugar. No Rio, por exemplo, é assim que a banda toca?
Sisneiro – Não gosto de comparar. O fato é que o artista cria com pequenos custos ou com grandes custos. Porém, no ato da criação, o que tem que prevalecer é a realização desse artista, então ele procura recursos materiais e financeiros onde imagina haver possibilidade. Campos não tem indústrias e seus comerciantes não veem nos seus artistas os seus embaixadores sociais. Por isso, o dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto. O último espetáculo que fiz para a Prefeitura foi em 2007 e não recebi até hoje.
Folha – O poeta Artur Gomes afirmou (aqui) que a categoria artística de Campos está “acomodada” e “anestesiada”. Já Adriano lembrou que poucos artistas locais buscam soluções alternativas para mostrar seu trabalho, antes de recorrer à Prefeitura. Você está prestes a reencenar “Conselho de classe” no Rio, na cara e na coragem. Como se arriscar no próprio talento pode ser regra?
Sisneiro – O dicionário me informou que a palavra profissão significa: “formados academicamente ou os que sobrevivem de”. O que na verdade ocorre, é que se a ligação formada for química, ela facilita a liberdade na opção artística, por eliminar a violência da luta pela provisão que nos traz. O “Conselho de classe”, mesmo no Rio, é um desafio campista.
Folha – Depois de reapresentar a peça de Adriano no Rio, tem planos para trazê-la de volta a Campos?
Sisneiro – O meu maior objetivo é expor o Adriano Moura em todos os lugares possíveis.
Folha – Uma coisa que parecem unânime entre os artistas da planície é a necessidade de implementação do Fundo Municipal de Cultura, aprovado desde o fim do governo Mocaiber, mas empurrado com a barriga já há cinco anos. Esse deve ser o eixo da discussão?
Sisneiro – Para nós, brasileiros, o mais importante é o investimento em educação. A boa educação tornará as artes uma grande necessidade de consumo. Isso fará diminuir o poder das farsas controladoras. Newton disse que “para que consigamos enxergar longe é preciso estarmos apoiados em ombros de gigantes”. Esses dias estava lendo um livro, em que vi e anotei uma outra citação, mas sem guardar o autor, que dizia: “Os artistas não devem se afastar de seu tempo, eles devem se jogar na luta e ver o que podem fazer de bom ali. Em vez de manter uma distância segura dos fétidos pântanos dos valores do mundo, devem mergulhar de cabeça neles e agitar as coisas”. E nem importa mesmo quem tenha dito, afinal a verdade é a verdade.
Publicado na edição impressa da Folha Dois de hoje (25/08/13).
Atualização às 16h01 de 26/08 para inserção do crédito na foto.
Eventos em Campos sobre o centenário de Wilson Baptista
26/04 – Desfile do Bloco Psicodélicos, no Campos Folia, com o enredo Dos lampiões de Campos, à boemia carioca, em homenagem a Wilson Baptista
27/04 – Desfile do Bloco “Rapaz Folgado”
INFORMAÇÕES: https://www.facebook.com/events/167572930058155/ Panorama completo sobre o evento, com links e postagens sobre os preparativos, o desfile e a repercussão do bloco.
22/06 – O samba carioca de Wilson Baptista, com Rodrigo Alzuguir e Claudia Ventura, no Trianon (ESPETÁCULO CANCELADO)
03/07 – Seria o início da exposição sobre Wilson Baptista no Museu de Campos.
19/08 – Entrevista com Rodrigo Alzuguir e Claudia Ventura, atores do musical O samba carioca de Wilson Baptista, em No ritmo da folia, programa de Marcelo Sampaio na TV Litoral
O QUE ESTÁ POR VIR
Na reunião de Patrícia Cordeiro com os artistas do Nelson Censurado, quando Simone Pedro perguntou à presidente da FCJOL se a Prefeitura não homenagearia Wilson Baptista neste ano, teve como resposta que haveria:
o show de Lene Moraes (“Eu sou assim…”: já ocorrido; ver acima);
uma apresentação do Centro Cultura Musical de Campos, da qual Simone participaria
um evento organizado por Luciano de Paula, da Superintendência da Igualdade Racial, que contaria com Marcos Rodrigues, o ator que interpretou Wilson Baptista na gincana Conversa Literal Papo Reto, na homenagem ao compositor no Dona Baronesa e no show “Eu sou assim…”
Sobre as águas do nosso tempo
Nada prova mais que o tempo realmente passa por nós do que quando, sem nenhum aviso prévio, ele já não passa mais para quem o dividiu conosco. Sobretudo, se esta comunhão se deu em momentos aprazíveis, de confraternização descompromissada, daquelas embutidas na memória e que, como só sabe quem caminhou à beira do seu próprio tempo, são tudo que conta quando nossa hora finalmente chega.
Sendo ele e eu filhos de dois grandes amigos, cujos tempos de vida excedemos, conhecia André Coutinho há muitos anos. Foi, contudo, através da fraternidade construída na juventude com um dos seus irmãos, Maurício, e já em idade madura com outro deles, Gel, que nossa convivência se avizinhou. No correr dos anos, meu filho, Ícaro, ainda se tornaria amigo de João Marcelo, filho de Marcelo, outro irmão de André, no entrecruzamento natural em que a amizade parecia destinada a ficar presa às malhas de uma mesma rede.
Introspectivo no primeiro contato, André talvez fosse o mais afável dos cinco filhos de Geraldo e Audrey, numa prole unida, liderada por Tina. Se era reservado de início, tratava-se de biombo tão facilmente removível quanto a franja que vivia a ajeitar com a mão, quando o topete invariavelmente lhe escorregava à fronte, enquanto se permitia aprofundar amistoso em qualquer conversa, com qualquer um.
Responsável pelo apelido de “Professor Pardal” dado pelos irmãos, outra característica pessoal de André era sua vocação às invenções, particularmente às náuticas, responsáveis por outra alcunha conferida em família: “Comodoro”. Numa balsa que ele mesmo projetou e construiu, há alguns anos, tive talvez o dia mais agradável dos que passei na usina Paraíso, propriedade da família. Saindo de um canal próximo, navegamos, bebemos, jogamos conversa fora, fizemos escambo de cachaça por tilápia, entre cascos de madeira e fibra de vidro, com os pescadores em suas canoas, fritando o peixe fresco na cozinha que André concebeu em sua criação sobre as águas, naquela tarde achada dentro da Lagoa do Jacaré.
Por sorte, a cachaça não foi toda mercadejada em pescado, pois no caminho de volta a balsa acabou agarrada, já com a noite caída, na vegetação do canal. Enquanto esperávamos um trator da usina chegar para rebocar a embarcação e romper à força do diesel o enlace das plantas, a anestesia do destilado de cana foi minha única defesa contra as esquadrilhas ruidosas de mosquitos investindo em ondas cegas da escuridão. Além de aliviar o tormento da caça alada por sangue, não deixava de reconfortar a ideia efêmera de vingança, formulada entre goles queimando a garganta, por deixar aqueles algozes também embriagados pelo que bebiam das minhas veias.
Depois dali, sempre que nos encontrávamos, lembrávamos entre risos e brincadeiras da aventura, combinando reeditá-la numa nova embarcação que o Comodoro tinha projetado e estava construindo a partir da experiência da primeira. Mas não tivemos tempo de levar a ideia a cabo. Ontem, em caminhos de asfalto mais duros que os das águas, André foi um dos tantos cujo tempo a BR 101 não deixou mais passar. Tinha ao lado sua esposa, Gisele, companhia de vida da qual quase nunca se separava.
Diante à tragédia de duas aventuras de existência precocemente abreviadas, pares até nos mesmos 48 anos, pouco ou nada resta a dizer. Solidarizo-me com os irmãos de André, com seus três filhos, Andrezinho, Karina e Mariana; mas sobretudo com sua mãe, Audrey. Afinal, pai curtido da orfandade de pai, como era também André, sei que nada, neste e em qualquer outro tempo humano, pode doer mais que a crueldade antinatural de se perder um filho.
Gel tem uma sentença da qual gosto muito e, volta e meia, com o crédito devido, repito: “Se você não é bom filho, não é bom em mais nada”. Pois André foi um bom filho que soube navegar com serenidade a confluência das águas como irmão, marido, amigo e pai. Infeliz do homem, no confronto inexorável com o fim do seu próprio tempo, que desejar mais.
Acho que todo mundo lembra o que disse num discurso o presidente Kennedy: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país.” Eu estava lendo os jornais e aí me ocorreu, como já deve ter ocorrido a muitos de vocês, que nossa prática política se orienta por uma atitude oposta a essa exortação. Ou seja, queremos saber o que o Brasil pode fazer por nós, mas não alimentamos muita curiosidade sobre o que podemos fazer pelo Brasil. Isso se expressa no comportamento de nossos governantes, que não disputam nada pensando no país, mas em abocanhar ou manter o poder, aqui tão hipertrofiado, abarrotado de privilégios e odiosamente infenso ao controle dos governados.
Para que mais, a não ser desfrutar desses privilégios, não se sabe, porque não existe projeto, além da cantilena sobre justiça social, saúde para todos, educação de qualidade e outras generalidades com as quais todos concordam. Que modelo de estrutura socioeconômica queremos, que Estado queremos, que país queremos, como chegaremos lá? Que propostas concretas são oferecidas? Ninguém diz — e os programas partidários, como os próprios partidos, causam constrangimento, pela ausência de ideias e compromissos sérios. O negócio é se eleger e se abancar, depois se vê o que se pode fazer, conforme a necessidade e a serventia para a permanência no poder. Na pátria, como se falava antigamente, ninguém se mostra muito interessado.
Tudo o que se faz hoje é visando às eleições, ou seja, a continuação no poder ou ascensão a ele. Descobriram agora essa lambança das concorrências em São Paulo, que não é propriamente inédita na história nacional, e grande parte da reação parece do tipo “viu, viu? nós rouba, mas cês também rouba!” Todo mundo na vida pública rouba, o que pode não ser uma afirmação justa, mas já virou axioma na descrição de nossa realidade e um dado importante em qualquer equação política. Invoca-se o princípio da falcatrua consuetudinária. Ou seja, se é ilegal, mas costumeiro, prevalece o costume e é considerado sacanagem e falta de coleguismo fazer denúncias ou querer punições. Que outras novidades têm para nos segredar? Quem não aposta que nada vai dar em nada?
O Estado às vezes parece ter as pernas bambas. Recomeçou o dramalhão do julgamento do mensalão e muita gente não entende mais nada, a começar por esse singular minueto processual, através do qual o Supremo Tribunal Federal vira penúltima instância, dia sim, dia não. Todo mundo quer saber se as sentenças emanadas do Supremo eram à vera ou não eram, devia ser simples de responder. Essa novela vai por aí, se arrastando já há não se sabe quanto tempo, todo dia aparece uma notícia inesperada e creio que nenhum de nós se surpreenderá se, esta semana, for noticiado que a decisão final do Supremo estará condicionada à resposta a uma consulta feita pela Câmara de Deputados, ou coisa assim, o que, com a gripe que atacou um ministro, o impedimento de outro, e o atraso de outro, leva o caso, para que tenhamos certeza de uma decisão justa, para depois do recesso do Judiciário, no próximo ano.
Vimos também a cena envaidecedora em que nosso ministro das Relações Exteriores se manifestou, conforme ouvi num noticiário, “com dureza”, sobre a espionagem cibernética americana, numa fala dirigida em pessoa ao secretário de Estado John Kerry. Disse umas verdades na cara do gringo, que o escutou com atenção, cortesia e respeito, para logo após retrucar que nos devotava desmesurado amor e descomedida amizade, mas continuaria a espionar e, acreditássemos, era para o nosso próprio bem. Se não gostarmos, claro, temos todo o direito de nos queixar ao bispo, ele compreende.
Esse mesmo ministério, aliás, deve estar às voltas com o perdão de dívidas milionárias que alguns países africanos têm com o Brasil. Comenta-se que isso é por causa do esquerdismo do atual governo, notadamente em sua política externa. Comenta-se também que o perdão dessas dívidas possibilita que os governos beneficiados fechem novos contratos com empreiteiras brasileiras. É o que dá o envolvimento com setores notoriamente de esquerda, como nossas empreiteiras, essa linha avançada do socialismo. Há apenas um ligeiro embaraço na coisa, pois se sabe que as empreiteiras, com toda a certeza, vão receber o dela, mas os financiadores, ou seja, nós, vamos contribuir mais uma vez para os crimes e as contas bancárias de déspotas, genocidas e saqueadores de riquezas nacionais
No cada vez mais fugidio setor de grandes realizações, a complexa coreografia governamental se tem exibido em torno do trem-bala, que o pessoal lá do boteco deu para chamar “trem-bala perdida”. O trem-bala é um exemplo notável de aumento de custos recordista, talvez sem precedentes em todo o mundo, porque já perdemos a conta de quantas vezes esses custos foram revisados para cima. E agora li não sei onde, maravilhado com os nossos mecanismos de distribuição de renda, que, mesmo que se venha a desistir do trem-bala, o custo dele já terá sido mais ou menos um bilhão de reais. Não entendi direito, mas não se pode deixar de manifestar admiração.
Diante dessa sarabanda agitada e da luta para não largar o osso, lembro-me de quando eu era menino em Itaparica, punha um pedaço de rapadura no chão e ficava esperando formigas brotarem do nada, várias espécies que só tinham em comum gostar de açúcar. Umas ruças, grandalhonas, eram minhas favoritas, porque ficavam frenéticas e não paravam um segundo, para lá e para cá, em cima da rapadura, apesar de que, volta e meia, uma parecia se saciar e caía imóvel — dura para trás, dir-se-ia. Eu não sabia, mas estava vendo o Brasil, só que as formigas não se saciam e quem cai para trás somos nós.