O Brasil de um alemão — Fome de cultura saciada na antropofagia de nós
“História Verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria, e que agora traz a público com essa impressão”. Tão longo quanto sensacionalista é o título do livro lançado numa terça-feira de carnaval de 1597, na Alemanha em que Johannes Gutenberg (1398/1468) havia inventado a prensa de tipos móveis no século anterior. Com a publicação em larga escala, o livro na verdade escrito pelo ghost writter conhecido apenas como Dr. Dryden, se tornou um dos primeiros best-sellers da Europa, trazendo os testemunhos das duas viagens do mercenário alemão Hans Staden ao Brasil Colônia, sobretudo a última, quando uma série de reveses seria depois compensada pela sorte de sobreviver nove meses como prisioneiro da tribo indígena Tupinambá (ou Tamoio), antropófagos e inimigos dos colonizadores portugueses.
E “Hans Staden”, filme luso-brasileiro de 1999, dirigido pelo cineasta paulista Luiz Alberto Pereira, com o qual o Cineclube Goitacá inicia hoje suas atividades, a partir das 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, é o retrato em movimento mais fiel de tudo que viu e viveu aquele improvável aventureiro de pele clara e pelos ruivos, num Brasil ainda chorando as dores do seu nascimento. Entre índios no Neolítico e os europeus que iriam lhes exterminar para fundamentar sua Idade Moderna, não sem a contribuição escrava de milhões de africanos negros da Idade do Ferro, num dar-se à luz sangrento e suado, seria parido a fórceps de aço, ferro e pedra, tudo aquilo que somos nós.
Com vinte e poucos anos e fome de aventura, Staden saiu da Alemanha planejando chegar às Índias. Sob a bandeira de Portugal, acabou vindo ao Brasil pela primeira vez, aportando no litoral da capitania de Pernambuco em 28 de janeiro de 1548. A pedido de Duarte da Costa, então governador geral do Brasil, os cerca de 40 recém-chegados d’além mar, incluindo Staden, foram auxiliar os aproximadamente 120 defensores da cidade de Igaraçu, próxima a Olinda, numa luta renhida contra mais de oito mil índios. Conquistada a vitória após a resistência a um mês de cerco, o navio de Staden subiu pelo litoral até a Paraíba, para pegar pau-brasil, onde acabou travando batalha no mar com piratas franceses, voltando a Portugal 16 meses depois da partida.
Mas é na segunda viagem do alemão que o filme se centra, quando voltou ao Brasil, dessa vez ao litoral sul e a serviço da Espanha, chegando a pé e aos farrapos à cidade paulista de São Vicente, após naufragar no litoral da aldeia próxima de Itanhaém. Como precisava sobreviver em meio aos portugueses, Staden passou a servir-lhes como artilheiro no pequeno forte de São Felipe, no litoral de Bertioga. Era por ali que os Tupinambás, aliados dos franceses, promoviam suas incursões de guerra contra São Vicente.
Quando caçava fora dos limites do forte, Staden acabou sendo capturado e feito prisioneiro pelos Tupinambás, numa das expedições de guerra que foi contratado para combater. Tomando-o como português, aliado dos seus rivais Tupiniquins, os Tupinambás despiram o alemão e o levaram amarrado pelo pescoço, fugindo em canoas, para sua aldeia de Ubatuba (nome até hoje mantido pela cidade paulista que depois ali se instalaria) como troféu de guerra, cujo destino era invariavelmente ser espezinhado, morto com um golpe na cabeça e ter o corpo devorado por toda a tribo, na cultura de canibalismo ritual do inimigo, então mantida pelos índios brasileiros.
Ocorre que, como alemão, Staden não era inimigo dos Tupinambás, servindo contra estes apenas por força das circunstâncias. Como a Alemanha é vizinha à França, e esta era aliada dos seus captores, o prisioneiro apelou à sua argumentação tribal em tupi, não só com os índios, como com dois franceses com os quais se encontrou em momentos diferentes, mas sem grande sucesso.
Pelo menos segundo Staden, foi sua fé cristã, não sua nacionalidade, que o acabou salvando de ser devorado, após uma peste que se abateu sobre a tribo e algumas coincidências atribuídas a atos divinos pelo crente que se sentiu agraciado. Fato é que a cruz erguida pelo alemão na aldeia parece ter causado impacto em meio ao fetichismo dos índios, bem como sua atuação na guerra ao lado dos Tupinambás contra os Tupiniquins, muito embora ele sempre planejasse, sem êxito, fugir para junto dos índios aliados dos portugueses.
Melhor sorte não tiveram outros prisioneiros, entre eles o índio de nome Ticoaripe, da tribo dos Maracajás, único que o filme mostra sendo morto e devorado, embora mais sutilmente do que o relato com riqueza de detalhes de Staden, que presenciou e contou no livro o mesmo destino antropofágico dado a outros inimigos capturados. Entre estes, alguns cristãos mestiços de lusos e índios que o alemão conhecera em São Vicente. Quando ele pede pela vida de alguns deles ao grande chefe Tupinambá Cunhambebe, enquanto este comia da perna tirada de um grande cesto de carne humana, em diálogo sonegado no filme, recebe a resposta em tupi de um dos maiores inimigos portugueses do séc. XVI: “Jauára ichê” (“Sou uma onça. É gostoso!”). Diante ao humor negro coagulado de sangue, Staden afastou-se.
Depois de nove meses cativo dos Tupinambás, após tentativas frustradas de um navio português e num francês, Staden acabaria finalmente resgatado por outra embarcação desta última nacionalidade. Ao armarem sua fuga, como o filme corretamente evidencia, é curioso observar que o diálogo entre um alemão e um francês, vizinhos europeus, mas sem dominar o idioma um do outro, se comunicam através do tupi, “inglês” no sentido de língua comum entre os estrangeiros de pátrias diferentes quando nas terras ou mares daquele Brasil de então, cujo maciço da população ainda era índia.
Traduzido em várias línguas, o livro de Staden voltaria da Europa para influenciar profundamente a cultura brasileira, desde a vertente indigenista do Romantismo, como nos versos de Gonçalves Dias (1823/64), em poemas como “I-Juca-Pirama” e “O Canto do Piaga”; ou na prosa de José de Alencar (1829/77), em romances como “O Guarani” ou “Iracema”. E foi numa tradução em português dos relatos do alemão dos anos 1500, que seria gestado o Modernismo brasileiro parido na Semana de 1922, como atestam o quadro Abaporu (“O Comedor de gente”, em tupi) , de Tarsila do Amaral (1886/1973), uma das peças que nossos hermanos argentinos expõe com maior orgulho em seu Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba); ou, por motivos óbvios, o Manifesto Antropofágico do escritor Oswald de Andrade (1890/1954), base de tudo aquilo que viria depois, até nossos dias, na artes Tupiniquins — inimigos dos Tupinambás e digeridos autofagicamente na língua portuguesa como sinônimo de Brasileiros.
Também inimigos dos Tupinambás, com fronteira definida em guerras constantes pelo curso do rio Paraíba do Sul, quem também aparece nos relatos de Staden são “uma tribo de selvagens chamados Guaiatacás”. O Goitacá, de quem herdamos esta planície cortada pelo mesmo Paraíba que ainda corre, estava lá. Que através da valorização da cultura e da abertura ao debate, os “alemão”, “inimigos” na gíria das comunidades nas quais sangue índio, africano e português ainda se misturam na mesma carência de quase tudo, inclusive diversão e arte, não sejam mais devorados por considerados de outra tribo.
Publicado hoje na edição impressa da Folha Dois.
Presidente da AIC analisa a cultura da “Era dos Royalties”
Jornalista, escritor e presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Vitor Menezes acredita que a política pública de cultura do governo Rosinha Matheus é a mesma das gestões Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber, no que denominou como “Era dos Royalties”. Embora concorde com as críticas mais fortes feitas pelo colega Ricardo André Vasconcelos, em outra entrevista na Folha Dois com foco cultural, e tenha considerado “infelizes” algumas declarações da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, numa entrevista recente em outro jornal, Vitor não considera o comportamento dos gestores públicos locais uma exceção. No entanto, criticou esse comportamento, cobrou promessas e propôs mudanças, entre elas a descentralização administrativa da cultura goitacá. Para ele, o maior crime cultural cometido nos últimos anos em Campos, “empreendido no âmbito dos interesses privados”, foi o “assassinato do jornal Monitor Campista”, no qual era articulista aos domingos.

Folha Dois – Qual sua opinião sobre a cultura de Campos e as discussões que sobre ela têm se dado?
Vitor Menezes – Tenho acompanhado à distância, mas considero muito produtivo que este debate se dê. Campos por vezes se assemelha a um deserto, uma província conservadora com cada um cuidando dos seus mexericos e interesses menores, satisfeitos com as suas fotos nas colunas sociais, e então vez por outra algo significativo se move na paisagem. E aí a gente se anima de novo. Parece até que este é o sentido de ficar por aqui: estar a postos para quando se dá alguma oportunidade de oxigenação. No entanto, há um dado desalentador quando se percebe que uma discussão tão séria e necessária como esta sempre se torna vítima da polaridade crônica que as prefeituras de cidades médias e pequenas exercem no cenário local, com a consequente partidarização e “fulanização” dos temas. Como presidente da AIC, creio que seja minha obrigação lembrar, por exemplo, que o maior crime contra a cultura de Campos cometida nos últimos anos foi o assassinato do jornal Monitor Campista, empreendida no âmbito dos interesses privados, como ocorreu com o antigo Trianon, e sob inexplicável omissão do poder público. Não houve situação, oposição ou qualquer outra força social que percebesse a gravidade do que estava ocorrendo. Permitimos que uma publicação de quase duzentos anos se perdesse. Uma cidade assim vai demorar a poder falar seriamente sobre cultura.
Folha – Em comentário nas redes sociais, você afirmou assinar embaixo de tudo do que disse o também jornalista Ricardo André Vasconcelos, na entrevista dele (aqui) sobre a cultural local. Tudo não é muita coisa?
Vitor – Embora, claro, eu tenha lido a entrevista, em se tratando de Ricardo André a gente poderia concordar até sem ler. Ele é um dos mais íntegros jornalistas que conheço e seu espírito público é o que falta em muitos políticos. Creio até que seria um bom vereador, se ainda houvesse ambiente político na cidade para eleger gente como ele. Uma das maiores satisfações profissionais que tenho foi ter dividido com ele a, digamos, bancada do programa “Mercearia Campista”, que fazíamos na Mult TV.
Folha – O lead daquela entrevista foi definido numa declaração forte do Ricardo: “Cultura no governo Rosinha, só o da gastança”. Ainda que, diferente dele, você não se mostre, enquanto blogueiro, afeito à conferência das despesas municipais publicadas em Diário Oficial, o que pensa sobre essa sentença?
Vitor – De fato não tenho a paciência que o Ricardo tem para os números municipais, o que é apenas uma das minhas muitas falhas profissionais. Mas não é difícil concordar e fazer apenas um adendo: essa também foi a cultura de todos os governos que antecederam ao atual, se tomarmos o período da Era dos Royalties do Petróleo. Ou alguém pode se esquecer do que foi o governo Arnaldo, ou o governo Mocaiber? Mais uma vez, reduzir a questão ao simulado duelo entre oposição e situação em Campos é improdutivo sob o ponto de vista analítico. Padecemos há décadas de um ambiente transparente.
Folha – Outra denúncia forte do Ricardo foi afirmar que a política de shows da Prefeitura é pensada e executada no sentido de se levar pessoas às ruas para criar um clima permanente de campanha. Vê da mesma maneira?
Vitor – É engraçado como o óbvio em Campos às vezes soa como “denúncia forte”. O Ricardo só falou o que todos sabemos. Só que, infelizmente, torna-se mais uma vez necessário o adendo de que essa não é uma exclusividade de Campos e nem mesmo do atual governo, o que de forma alguma abona a cidade e a sua gestão do momento, mas abre a perspectiva para pensarmos porque as coisas funcionam deste modo e o que temos feito ou deixado de fazer para reagirmos.
Folha – Ricardo também afirmou ser necessário “despatricizar” a discussão da cultura goitacá. Em sua visão, qual o limite entre a política cultural do governo Rosinha e seu cumprimento por quem foi tornado único poder central da cultura municipal, a partir da última reforma administrativa?
Vitor – Se há tanta insistência em focar a análise no governo Rosinha, o que é até compreensível em virtude dele ser o que está em curso, prefiro então outra ferramenta: a análise do Plano de Governo apresentado pela então candidata ainda para o seu primeiro mandato. Há, nele, 20 itens na área da Cultura. Sugiro à Folha, como pauta, verificar o que dali foi feito, o que não foi feito e o que foi feito parcialmente. Há, de fato, itens onde houve avanço, como a “reestruturação do Carnaval” e a conclusão do restauro do Museu de Campos, ainda que se possa fazer críticas a aspectos que envolvam a ambos. Mas há outros que não, como a “reedição de obras antológicas” de Lamego e outros autores, ou o aproveitamento das antigas estações ferroviárias. E há ainda os que poderiam ficar na categoria do “parcialmente”, como a Bienal do Livro, que tem o mérito de continuar a ser realizada, o que em si mesmo é uma conquista, dado o histórico de rupturas de projetos entre governos, mas que ainda precisa melhorar para atingir níveis propostos pelo próprio plano de governo apresentado.
Folha – Fica mais difícil atender essa “despatricização” quando a presidente da FCJOL concede uma entrevista em outro jornal (aqui), em resposta clara a esta série de entrevistas da Folha Dois, e já abre dizendo: “Eu não estou aqui para me defender, não preciso disso e nem o governo”?
Vitor – É uma frase lamentável. Infeliz mesmo. Talvez ela mesma repense isso em algum outro momento. Mas o fato é que a cultura política que temos é essa: o gestor público brasileiro, de modo geral, se considera em condição de mando, não na condição de subalterno dos interesses maiores da cidadania. Então cunha expressões como essas, como se não precisasse prestar contas, demonstrando um fastio em relação às cobranças e sempre utilizando a estratégia de tentar desqualificar quem o questiona. E em Campos, terra onde a herança escravocrata se faz tão presente, não haveremos de nos surpreender com arroubos autoritários, tanto no poder público quanto nas empresas, nos condomínios, nas relações domésticas.
Folha – Numa outra entrevista da presidente da FCJOL, dada anteriormente a um site local (aqui), ela havia afirmado que “todas as vertentes da cultura têm sido atendidas”, ao que outro entrevistado da Folha Dois, o diretor de teatro Antonio Roberto Kapi, respondeu com veemência (aqui): “É mentira!”. Como saber quem está mais próximo à verdade?
Vitor – O problema é o conceito de “atendida”, que é parente próximo do conceito de “clientela”. O governante, até por razões eleitorais, pode ser tentado a acreditar que seu papel é “atender” às demandas que lhe são apresentadas, sofregamente, de mo-do a deixar o máximo de setores contemplados, sem que se tenha uma noção de conjunto e um planejamento democrático e plural, que é fruto do debate republicano, não dos pedidos de gabinete. Por isso, uma das propostas que a Associação de Imprensa Campista fez na audiência da Lei Orgânica do Município foi justamente a dos editais da Cultura, para tornar impessoais essas relações e não tratarmos mais de “atendimentos”. Agora mesmo, na ausência de uma política de editais, a própria AIC e a Academia Campista de Letras se vêem na condição de proponentes de um projeto, feito à Secretaria de Desenvolvimento e Turismo, de criação do que estamos chamando de “FDP!”, Festival Doces Palavras, uma feira nos anos ímpares que misture a cultura do doce com a produção literária, em um local aberto e de modo mais informal que uma Bienal, que seria mantida nos anos pares. Não gostaríamos que uma sugestão como esta, que é para toda a cidade e para as futuras gerações, fosse reduzida ao “atendimento” de uma clientela. Tenho muita esperança que esta ideia dê certo e que sobreviva a qualquer falso debate entre oposição e situação, como de forma positiva ocorreu com a Bienal.
Folha – Um ponto unânime não só entre Ricardo e Kapi, mas também para os professores Artur Gomes (aqui), Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui), Cristina Lima (aqui) e Cristiano Pluhar (aqui), além do diretor teatral José Sisneiro (aqui), é a crítica à centralização administrativa de toda a política cultural de Campos na presidência da FCJOL. Para você, essa concentração de poder merece ser revista?
Vitor – Sim, precisa ser revista. Pelos evidentes perigos anti-democráticos que qualquer centralização oferece. Mais que isso: não foi devidamente explicado o esvaziamento das funções da natimorta secretaria de Cultura, que manteve o professor Orávio de Campos, uma referência a quem respeito e a quem a cidade deve muito, extremamente limitado em suas possibilidades de ação, até a extinção relâmpago da pasta.
Folha – Como encarou não só a negação, pelo rolo compressor governista, do pedido de audiência pública para debater a cultura de Campos (aqui), como a retirada da assinatura do seu pedido, na última hora, pela vereadora da situação Auxiliadora Freitas (PHS), em sequência ao esvaziamento da sessão do dia anterior, comandado (aqui) pela vereadora Linda Mara (PRTB), personagem também atuante nos corredores do Palácio da Cultura?
Vitor – Compreensível sob o ponto de vista do jogo menor da política, como estratégia para não legitimar um movimento feito pelo oponente, ao assumir uma agenda ditada por ele. Acontece todo dia, em todas as esferas de poder. E lamentável sob o ponto de vista da oportunidade que se perde para que se faça um debate democrático, no caso, sobre a cultura local. Foi mais um sintoma da má apropriação da questão pela armadilha da disputa entre oposição e situação.
Folha – Como a presidente da FCJOL propôs, em sua última entrevista, dá para resumir toda a discussão sobre a cultura com a exibição de um vídeo na Câmara, mas só “quando ficar pronto”, com as realizações do governo Rosinha no setor?
Vitor – Isso não seria debate. Seria propaganda. Não creio que a presidente da Fundação Cultural tenha realmente pretendido dizer isso. Deve ter se expressado mal.
Folha – Como a experiência do Cine Jornalismo da Aic, na exibição e debate de filmes com temas pertinentes à categoria, ao longo dos últimos cinco anos, tem contribuído com a atividade cultural da cidade? Acredita que essa experiência, como a de outros cineclubes, poderia servir de exemplo para as políticas públicas de cultura do município?
Vitor – O Cine Jornalismo AIC é muito específico e contribui pouco, mas é algo que fazemos com nossas parcas possibilidades, em cumprimento da nossa vocação institucional de promover o debate permanente sobre o papel do jornalismo e da comunicação. Tem sido um espaço mensal muito rico em discussões sobre a nossa realidade, inclusive cultural. Mas esperamos que nossa contribuição maior, junto com a Academia Campista de Letras, outras instituições e o próprio poder público, venha mesmo a ser o Festival Doces Palavras. Esta é uma grande aposta nossa. Sua pergunta também me dá oportunidade para ponderar sobre o que podem fazer outros agentes na área da cultura, para não ficarmos apenas nesta eterna lamentação sobre as ausências da Prefeitura. Na área do audiovisual, que você cita, por exemplo, a nossa realização é baixíssima, mesmo com instituições como a Uenf, que nos deve até hoje uma Escola de Cinema, e a UFF, que tem um curso de Cinema em Niterói. Na área privada, o que fazem os bancos no município além de nos cobrarem tarifas? Onde está a Caixa Cultural? Por que não temos um Centro Cultural Banco do Brasil? Ou um Itaú Cultural? E as empresas de telefonia? Quando houve aqui uma mostra do OI Futuro? Uma exceção recente ocorreu com a Ampla, ainda assim com o seu evento episódico, e não com uma política de investimento local permanente na área. Pegue qualquer política cultural pública bem sucedida e verá que ela se deu em uma ambiência privada favorável. Ainda estamos por fazer isso aqui.
Folha – Pergunta de Soffiati agregada (aqui) à pauta geral: se você fosse convidado a organizar o setor cultural de Campos, quais seriam as suas ações?
Vitor – Gostaria mesmo é de um dia ver um Soffiati organizando o setor cultural de Campos. Mas para não fugir da pergunta, creio que experimentaria uma democracia radical. Todo fim de tarde o Palácio da Cultura seria uma audiência pública. A Câmara de Vereadores nem precisaria convocar uma. Tenho maior vocação assembleística, herança dos meus tempos de movimento estudantil. Ia gostar mais de estar com os Cabruncos Livres no Jardim São Benedito discutindo os rumos da cultura do que engravatado buscando recursos em Brasília, até mesmo porque buscaria recursos com projetos consistentes e em relações institucionais. Falando um pouco mais sério, há também um certo cacoete autoritário na noção de que cultura se “organiza”. Há, no máximo, a criação de uma plataforma de ações que estimulam a criação, a pluralidade, a preservação da memória, a inclusão, o espírito artístico, a produção, a livre manifestação. E isso deve perpassar todas as áreas de um governo, porque cultura é algo grande demais para caber em uma pasta de cultura. Se o burocrata da área de finanças não entender a importância que a cultura tem para uma cidade, não vai funcionar, e assim também com outras secretarias. Cabe então ao governante ter essa sensibilidade maior, de tocar o governo neste sentido. Um belo exemplo é Berlim, que está desbancando Paris e Londres como nova referência cultural da Europa, justamente porque uma geração identificou que a cultura os redimiria e entendeu o valor de cada músico de esquina, de cada bar, de cada figuraça, de cada alma criativa, e adotou como slogan a admissão de ser uma cidade pobre, mas sexy, o que anda tão distante de Campos, uma cidade careta com sucessivos governos caretas.
Folha – Tendo como tema o atual cenário da cultura goitacá, se tivesse que traduzi-lo num conto, como seriam o início e o final?
Vitor – Seria difícil escapar do realismo mágico, especialmente na terra de José Cândido. Para caber numa resposta, prefiro então arriscar um mini-conto:
Escolha inevitável
Caminhando sobre o dique do rio Paraíba, braços abertos na aerodinâmica do vento nordeste, ele oscilava entre se atirar na água, e ganhar o Atlântico, ou se jogar no asfalto da XV de Novembro, e morrer atropelado por uma van Centro-Nova Brasília sob a Ponte Rosinha. Tomou a sua decisão quando passou pelo Teatro de Bolso. E você, que estava lá, sabe qual foi.
Benedita endossa pessoalmente filiação de Carla ao PT

“Não existe isso de não aceitar Carla Machado no PT. Ela já foi aceita, com 17 votos favoráveis e duas abstenções pela nossa executiva regional. Só nos resta dar-lhe as boas vindas e recebê-la de braços abertos”. Foi o que garantiu a deputada federal Benedita da Silva, durante encontro pessoal hoje à tarde, em Campos, com a ex-prefeita de São João da Barra e pré-candidata a deputada estadual em 2014. Além de prestigiar a nova filiada petista, Bené esteve na cidade para participar de um debate no sindicato da Cedae, na noite de ontem, com os três candidatos a presidência da executiva regional, entre eles a deputada.
Em relação à resistência à entrada de Carla no PT, comandado por seus deputados estaduais Robson Leite e André Ceciliano, conforme noticiou o blogueiro Ralfe Reis, Benedita minimizou, dizendo que isso é normal no partido:
— O PT é assim mesmo. Se as pessoas concordam, têm liberdade de dizer. Se não concordam, têm a mesma liberdade. É um partido em que sempre prevalece é a democracia. E, na democracia, prevalece a vontade da maioria. Não há dúvida de que a maioria aprovou com entusiasmo a filiação de Carla e sua intenção de se candidatar à Assembleia Legislativa pelo partido no ano que vem.
A deputada federal explicou que, além do debate com os demais candidatos a presidente regional do PT, sua vinda a Campos teve como objetivo prestigiar a nova colega de legenda:
— Além da minha campanha para presidir o partido na regional, como sou também membro da executiva nacional, tenho que participar da campanha nos demais diretórios estaduais. Devido a esses compromissos, não pude estar presente na filiação de Carla na última segunda (dia 30), em São João da Barra, junto com (o senador e pré-candidato a governador) Lindbergh Farias. Mas fiz questão de estar aqui hoje, em Campos, para dar pessoalmente meu apoio a nova companheira de luta. E Carla, como todos sabem, dentro e fora do PT, é de luta!
A própria ex-prefeita sanjoanense também comentou as resistências internas ao seu ingresso ao PT:
— Isso é coisa de deputados estaduais que sabem da minha força eleitoral e estão com medo de perder, no voto, uma cadeira na Assembleia.










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