Brasil — retrospecto contra o Equador e perspectivas contra o Paraguai
Do jogo Brasil 4 x 2 Equador da noite de ontem, que não fiz nem para o blog, nem para a Folha impressa, pelo horário avançado da partida, algumas observações:
1) Dizer que Júlio César falhou nos dois gols sofridos é chover no molhado. Todavia, falhas individuais à parte, os quatro gols que o Brasil tomou na duas últimas partidas evidenciam que o setor defensivo, coletivamente, não está bem. Isso se agrava não só porque até o jogo anterior, 2 a 2 com o Paraguai, a defesa vinha sendo o ponto alto do time de Mano Menezes, como pelo fato de que na defesa estão os jogadores mais experientes da jovem Seleção Brasileira. Para que os debutantes do meio para frente se firmem na Seleção, os veteranos lá de trás podem passar tudo, menos insegurança.
2) Ponto positivo da defesa, Maicon foi ontem o melhor jogador em campo. Sem sombra de dúvida, reconquistou a titularidade dos tempos de Dunga, substituindo agora com Mano a Daniel Alves, pior brasileiro no jogo anterior, com o Paraguai. Curiosamente, o lateral-direito do Barcelona, que perdeu a vaga na Seleção, é até mais habilidoso do que o da Inter de Milão. Todavia, por apoiar quase sempre entrando em diagonal da área adversária, Daniel acabava se embolando com Robinho, que joga aberto naquele setor. Com Maicon e seu vigor físico invejável, a Seleção ganhou não só em fluidez e velocidade nas tramas ofensivas pela direita, como uma importante opção de jogada pela linha de fundo, necessária a um time que pecava por afunilar pelo meio suas ações de ataque.
3) Entre os dois volantes, o jovem Lucas Leiva cumpre suas funções táticas e defensivas, mas não tem imaginação no passe. Do lado oposto na linha defensiva do meio-de-campo, Ramires, que nunca foi grande passador, mas se destacou como eficiente condutor de bola, não atravessa boa fase técnica. Marcada pela obviedade dos passes curtos e laterais, a saída de bola brasileira facilita a marcação adversária e expõe a defesa aos contra-ataques. Um volante criativo como ex-são paulino Hernandes, destaque na última temporada italiana, pela Lazio, como meia de ligação, poderia ser uma solução. Todavia, como Mano sequer o convocou, a opção só vale para depois da Copa América.
3) Prejudicado pela bola que não chega redonda dos volantes, Paulo Henrique Ganso não tem conseguido ser o homem do último passe, aquele que acha o atacante em condições de conclusão. Bem verdade que tem tentado buscar o jogo menos do que poderia, passividade refletida também em sua pouca movimentação, facilitando a marcação dos adversários. Mas até por seus 21 anos e por não termos, em todo o futebol brasileiro, um reserva à altura para a função, não resta outra coisa a não ser a paciência.
4) Os dois gols de Pato e os dois de Neymar, além do legal que Robinho marcou e o bandeirinha uruguaio garfou, não podem camuflar a demanda que o ataque brasileiro tem da figura do pivô, aquele atacante que joga de costas para o zagueiro, retendo a bola lançada à chegada dos homens de trás, ou que gire com ela para concluir a gol. Ontem, Pato até marcou dois gols típicos de centro-avante, convertendo o lançamento que André Santos colocou em sua cabeça e, depois, chutando corajosamente a bola disputada entre ele, Robinho e dois zagueiros equatorianos. Todavia, seu senso de colocação no primeiro gol e seu destemor no segundo, além da sua habilidade e velocidade, não lhe confererem o físico ou as características de um pivô, função que nunca exerceu no Internacional, nem executa no Milan, onde atua como garçon do excelente centro-avante sueco Ibrahimovic. Dos convocados, mesmo sem estar na melhor forma, o único capaz de desempenhar o papel é Fred. Tendo ele como referência de área, o próprio Pato poderia render mais, assim como Neymar, que finalmente passou a objetivar o gol sobre o drible. No caso, mesmo que ontem não tenha atuado mal, quem poderia sair é Robinho.
5) As análises anteriores se atêm àquilo que Mano poderia fazer, não ao que fará. Com o placar elástico final a disfarçar o susto dos dois empates parciais impostos pelo fraco Equador, a tendência nas quartas-de-final de domingo é a manutenção do time que entrou jogando ontem. Contudo, com ou sem mudanças, tolo é quem acha que o reencontro com os paraguaios, agora em jogo eliminatório, tem um favorito. O Brasil possui valores individuais capazes, em dia inspirado, de construir uma vitória até tranquila. Mas mantendo a base da equipe que só foi eliminada na Copa do Mundo da África do Sul, com um suado 1 a 0 da campeã Espanha, nas mesmas quartas-de-final em que o Brasil caiu diante da Holanda, o Paraguai, como time, é melhor. Não custa lembrar que, de 2000 para cá, no confronto entre as duas seleções, foram quatro vitórias para cada lado e dois empates. A lógica aponta, pois, para o equilíbrio. Muito embora a grande graça do futebol tavez seja assistir a lógica, tantas vezes, levar de goleada.
MP denuncia presidente da Câmara de Itaocara por dispensa de licitação
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro ofereceu denúncia em face do empresário e presidente da Câmara dos Vereadores do Município de Itaocara, Michel Ângelo Machado de Freitas, e do ex-presidente da Comissão Permanente de Licitação do órgão Aldimar Oliveira da Cunha pela prática de crime previsto no artigo 89 da Lei nº 8.666/93 (lei das licitações e contratos da Administração Pública). A denúncia foi oferecida no Juízo da Vara Única da Comarca de Itaocara, no Noroeste Fluminense.
De acordo com a denúncia oferecida pela Promotoria de Justiça de Itaocara, os denunciados, em 13 de janeiro de 2005: “dispensaram licitação fora das hipóteses previstas em lei e deixaram de observar as formalidades legais pertinentes à dispensa de licitação, tudo para celebração de contrato entre a Câmara dos Vereadores do Município e o Instituto Niteroiense de Administração Pública (Inap), no valor de R$ 44 mil”.
Ainda segundo a denúncia, Freitas, na qualidade de Presidente do Legislativo Municipal, determinou ao então presidente da Comissão de Licitação do órgão, Cunha, a contratação de empresa especializada em assessoria e consultoria de gestão governamental ou instituto de pesquisa em administração pública. Mesmo diante de parecer não conclusivo da Assessoria Jurídica da Câmara dos Vereadores, o presidente do Legislativo declarou a dispensa de licitação em favor do Inap, homologou o procedimento e adjudicou o objeto do contrato. Anteriormente à decisão, o presidente da Comissão Permanente de Licitação informara que o Inap “apresentou a proposta nas diretrizes fornecidas pela Comissão.”
“Os denunciados ainda procederam à dispensa de licitação sem a comprovação efetiva da pertinência entre o objeto pretendido pela Administração e a finalidade da instituição contratada.” Em outro trecho, acrescenta que “deixaram de apresentar a justificativa do preço pactuado, indispensável à demonstração da economicidade do contrato”, diz trecho da denúncia.
As penas previstas para o crime tipificado no artigo 89 da Lei 8.666/93 são de detenção, de três anos a cinco anos, e multa.
Da Assessoria de Comunicação Social do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro
Frente Democrática amanhã, na Alerj, com Paulo Melo e Picciani
Segundo o repórter da Folha Rafael Vargas acabou de apurar com a vereadora petista Odisséia Carvalho, está confirmado o encontro da Frente Democrática de Oposição, às 17h de amanhã, na Assembléia Legislativa, com o presidente da Casa, Paulo Melo (PMDB), e o presidente estadual da legenda, Jorge Picciani. De Campos, vão os presidentes dos diretórios dos oito partidos que integram a Frente, mais os vereadores de oposição. Eles vão apresentar suas ações e se colocar como alternativa de governo ao município de Campos, na eleição de 2012, mesmo que em candidaturas divididas no primeiro turno, que se reuniriam no segundo contra o casal garotinho. O encontro deve servir também de preparação para uma reunião da oposição campista com o próprio governador Sérgio Cabral (PMDB).
Opiniões de poesia — Castro Alves
Conforme anunciado aqui, segue o transplante, do “Cantos” a este “Opiniões”, de textos que o blogueiro produziu sobre poesia. A bola da vez, no resgate, é Antônio Castro Alves, mais alto eco do nosso Romantismo aos “Versos que Homero gemeu”…
Castro Alves — Brisa do Brasil
Por aluysio, em 07-10-2009 – 15h33
Ouvir ou dizer que o Brasil nunca produziu poetas à altura de seus maiores romancistas, não é conversa nova. Tampouco é recente constatar que o conceito de brasilidade desta mesma prosa superior (será?) foi fundamentado com a publicação de “Os sertões”, em 1902, narrativa ocular de Euclides da Cunha (1866/1909) da Guerra de Canudos (1896/97). Após seguir seus passos pelo sertão baiano, expedição que rendeu um caderno publicado a 26 de dezembro de 2002, comemorativo ao centenário da obra, escrevi que a partir dela “nossa literatura (…) rompeu com a importação de modelos, de realidades estrangeiras, e se propôs a discutir o Brasil, plantando na terra seca a semente do Modernismo, fazendo brotar Ramos e Rosas em meio a Rochas, contrapondo nosso atraso diante de outros países e, muito mais grave, o atraso do Brasil em relação ao Brasil”.
Sete anos depois, necessário ressaltar que a defesa de “Os sertões” como pedra fundamental de uma prosa genuinamente brasileira foi feita antes e depois, por gente mais balizada, do grande euclidianista Roberto Ventura (1957/2002) ao mestre peruano Mario Vargas Llosa. Mas e a posia brasileira? Se realmente ainda deve o seu equivalente a Machado de Assis (1839/1908) — para quem a prosa de Euclides serviu de ponte rumo ao Modernismo de Graciliano RAMOS (1892/1953) e Guimarães ROSA (1908/1967) —, quem há de contestar a brasilidade pujante e inaugural do poema “O navio negreiro”, escrito por Castro Alves (1847/1871) em 1868, 34 anos antes de “Os sertões”?
Certo que Gonçalves Dias (1823/1864), primeiro grande poeta do Romantismo que teve Castro Alves como estrela derradeira, buscou fundamentar antes essa mesma brasilidade. Todavia, se poemas seus com essa aspiração nacional, como “O canto do Piaga” (de 1847) e “I-juca-pirama” (de 1851), pela qualidade dos versos, estão à altura de “O navio negreiro”, deste se distanciam pela idealização indianista de Gonçalves Dias, no paralelo fictício do Brasil pré-crabalino com a Idade Média européia e suas estórias de cavalaria. Já Castro Alves optou por desenrolar o drama dos seus versos sob a luz do sol real, sem abandonar o hemisfério Sul ou se afastar do Equador. Bom baiano, sua latitude era África com Brasil.
Escrito por um jovem de 21 anos, “O navio negreiro” integrava o livro “Os escravos”, seu segundo. O primeiro — único publicado nos 24 anos em que se resumiram sua vida — foi “Espumas flutuantes”, sendo “A cachoeira de Paulo Afonso” o terceiro.
Cronologicamente, o primeiro poema de “Os escravos” foi “A canção do africano”, escrito em 1863 por um adolescente de 16 anos, idade em que se manifestou pela primeira vez a tuberculose que iria matá-lo, assim como o amor pelas mulheres, marca da sua vida, começou a se manifestar em sua lírica. Iminência da morte oposta à paixão pela vida: contraste superlativo que iria marcar toda a poética de antíteses de Castro Alves.
Três anos mais tarde, em 1866, o poeta passou de admirador a amante da atriz portuguesa Eugênia Câmara, 10 anos mais velha que ele e sua grande paixão. Para ela, além de poemas, escreveu a peça “Gonzaga”, sobre o famoso caso de amor que teve a Inconfidência Mineira como pano de fundo.
Quando compôs “O navio negreiro”, Castro Alves estava em São Paulo, roteiro precedido por Rio e Bahia, após deixar, em 1867, os estudos de Direito em Recife, curso no qual nunca se formaria. Ia em companhia de Eugênia, lendo em público seus versos e encenando com a musa sua peça, colhendo sucesso popular incomum a um poeta no Brasil, cujo crédito devia mais à audição do que à leitura da sua obra. Não por outro motivo, classificava o ritmo, que marca a musicalidade dos versos, como “talismã da verdadeira poesia”. E isso num tempo anterior à disseminação do verso livre de Walt Whitman (1819/1892), quando a rima e a métrica ainda eram elementos indissociáveis do fazer poético.
Guardadas as proporções devidas, fenômeno análogo ocorre em Campos, com o já tradicional Festival Nacional de Poesia Falada. Em algumas de suas edições anuais anteriores, o sucesso de poetas egressos do teatro, como Antônio Roberto Kapi e Adriana Medeiros, deveu-se muito à oralidade impressa em seus versos pelo ritmo do palco, esse “talismã” que raras vezes brilhou na poesia brasileira como em “O navio negreiro”. Não terá sido coincidência que o poema foi recitado por seu autor, pela primeira vez, em um teatro, triunfalmente, num hoje distante 7 de setembro de 1868.
Seja pela forma de pequena epopéia, ou pelo conteúdo libertário — equilibrado entre Romantismo e Sociologia —, “O navio negreiro” é fruto direto da principal influência de Castro Alves: o escritor francês Victor Hugo (1802/1855). E para além da literatura iam os paralelos com seu mestre. Ainda que sem a excelência deste, que chegou a ser um dos maiores artistas gráficos da França de sua época, o poeta baiano manteve em paralelo a atividade de desenhista e pintor.
Se essa característica de imagista está expressa em toda a sua obra literária, em “O navio negreiro” ela atingiu, talvez, o seu ápice. Após as antíteses entre mar e céu do primeiro movimento, como vida e morte confluídas no eterno (“Embaixo — o mar… em cima — o firmamento… / E no mar e no céu — a imensidade!”), será pelos olhos do albatroz, “Leviatã do espaço”, que se descortinarão as glórias passadas dos povos marinhos, cantadas no segundo movimento e pontuadas, não coincidentemente, com os nautas da pátria de Homero, pai de todos os vates.
Segue-se então o terceiro movimento, reunido na vertigem de uma única estrofe, quando a ave-poeta dá seu mergulho. Como um travelling descendente do cinema, num daqueles geniais planos-sequência de Orson Welles, revela-se ao leitor o “quadro de amarguras”, a “cena funeral”, as “tétricas figuras”, a “cena infame e vil”, o “horror” do tráfico de escravos.
No quarto movimento,“talismã” do autor, o ritmo imprime a musicalidade expressa pelo “estalar do açoite” sobre os africanos, tirados do porão e postos “horrendos a dançar” no convés, costume realmente adotado nos navios negreiros para que o prejuízo da morte por inanição não se abatesse sobre a mercadoria humana. E no refrão da “orquestra irônica, estridente”, ecoa o riso do maestro Satanás.
Na passagem do quarto ao quinto movimento, outra das antíteses de Castro Alves. Após Satanás, surge Deus, cujo livre arbítrio aos homens não O exime de ser violentamente cobrado pelo poeta, que recruta também as forças da natureza a apagar o “borrão” da escravidão. É ainda neste movimento que os escravos ganham indentidade, a partir de referências geográficas (“Ontem a Serra Leoa”) e etnográficas, muito embora a citação das personagens bíblicas Agar (escrava egípcia de Abraão) e Ismael (filho dos dois e patriarca da tribo dos ismaelitas, mais tarde árabes) aponte para a África do Norte, o Magreb muçulmano, enquanto a maioria dos escravos negros trazidos à América advinha da África sub-saariana, ao sul. Espécie nativa da Ásia, tampouco os tigres citados fazem parte da fauna africana.
Como o caráter de nacionalidade do poema se refere ao continente do outro lado do Atlântico, é só no sexto e último movimento que surge o “povo que a bandeira empresta / P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia”: “Auriverde pendão da minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança”. Nas aliterações (brisa, Brasil, beija, balança), recurso antecipado ao Modernismo, nossa digital é descoberta na arma do crime, como se toda a descrição da crueldade com que este foi cometido convergisse em preâmbulo à revelação final dos assassinos de uma raça: NÓS!
Ao fim do seu prefácio de “Os sertões”, ao resumir todo caráter da sua obra, Euclides da Cunha sentenciou o genocídio praticado pelo Exército Brasileiro contra as 25 mil almas arrebanhadas por Antônio Conselheiro num aldeamento miserável de sertão: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”.
Em verso e prosa, nas denúncias dos crimes que cometemos, a identidade de uma nação.
O NAVIO NEGREIRO
TRAGÉDIA NO MAR
1ª
’Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — doirada borboleta —
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.
’Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro.
’Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?…
’Stamos em pleno mar… Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas…
Donde vem?… Onde vai?… Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste Saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!…
Embaixo — o mar… em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! Que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! Esperai! Deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia…
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia…
…………………………………………………………………………………………………………
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! Quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas…
2ª
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?…
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a noite é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como um golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
Às vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor.
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente
— Terra de amor e traição —
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos do Tasso
Junto às lavas do Vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou —
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando orgulhoso histórias
De Nelson e de Aboukir.
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir…
Os marinheiros Helenos
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
…Nautas de todas as plagas!
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu…
3ª
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais… não pode o olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador.
Mas que vejo eu ali… que quadro de amarguras!
Que cena funeral!… Que tétricas figuras!…
Que cena infame e vil!… Meu Deus! meu Deus! Que horror!
4ª
Era um sonho dantesco… O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar do açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo à tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças… mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arqueja… se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala…
E voam mais e mais…
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
…………………………………………………………………………………………………………
Um de raiva delira, outro enlouquece…
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”
E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da roda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…
5ª
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante is céus…
Ó mar! por que não apagas
Co’a a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?…
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!…
Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?… Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!
São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão…
Homens simples, fortes, bravos…
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão…
São mulheres desgraçadas
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
Nalma — lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar a Ismael…
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram — crianças lindas,
Viveram — moças gentis…
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus…
… Adeus! ó choça do monte!…
… Adeus! palmeira da fonte!…
… Adeus! amores… adeus!
Depois o areal extenso…
Depois o oceano de pó…
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome , o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer…
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormindo à toa
Sob as tendas d’amplidão…
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cum’lo de maldade
Nem são livres p’ra… morrer…
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas ròscas da escravidão.
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite… Irrisão!…
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus…
Ó mar, por que não apagas
Co’a a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?…
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!…
6ª
E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!…
Silêncio!… Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança…
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!…
… Mas é infâmia de mais… Da etérea plaga
Levantavai-vos, heróis do Novo Mundo…
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!
S. Paulo, 18 de abril de 1868
Futebol-arte com ou sem o Brasil
“Todo brasileiro nasce flamenguista, só que alguns degeneram”. Volta e meia repetida pelos rubro-negros, a frase do compositor Ary Barroso é não só verdadeira, no que se refere aos exageros ufanistas do torcedor médio do time da Gávea e da Seleção Brasileira, como pertinente à sequência de um raciocíonio que comecei a desenvolver aqui, em diálogo com um leitor, e que pretendo retomar agora, véspera do jogo de amanhã, contra o Equador, que definirá (ou não) nossa passagem à próxima fase da Copa América.

Caracterizado por seu aspecto lúdico e sua vocação ofensiva, disse anteriormente que o chamado futebol-arte, na Seleção Brasileira, foi praticado dentro de um período histórico muito claro e definido, que vai da Copa de 1938, na França, à de 1982, na Espanha. Em ambas, coincidentemente marcadas pela presença de craques do Flamengo (Leônidas da Silva e Domingos da Guia, em 38; Zico, Leandro e Júnior, em 82), caimos diante da Itália, que acabaria levando aqueles dois Mundiais separados por 44 anos.

Entre eles, mesmo quando não foi campeão, o Brasil só não foi a seleção sensação da Copa, quando dela foi eliminado por duas equipes européias que figuram até hoje entre as melhores na história do futebol mundial, como provas vivas de que a arte no trato com a bola não tem pátria: a Hungria de Ferenc Puskas, em 1954, e a Holanda de Johan Cruijff, exatos 20 anos depois.

E não deixa de ser curioso constatar que ambas cairam na final diante da Alemanha (ainda Ocidental, dividida pelo Muro de Berlim), país que, junto com a Itália, tradicionalmente pratica em melhor nível aquilo que ficou conhecido como contraponto do futebol-arte: o futebol-força. No paralelo, devidas são as ressalvas da superioridade técnica da Itália de 38, de Giuseppe Meazza, sobre à de 82, do carrasco Paolo Rossi, assim como a da Alemanha do kaiser Franz Beckenbauer, de 74, sobre à de Fritz Walter, em 54.

Em relação ao Brasil, a ressalva também é pertinente à Copa de 1966, quando fomos eliminados ainda na primeira fase, com Pelé violentamente caçado pela boa seleção portuguesa de Eusébio e Coluna, no único Mundial que a Inglaterra sediou e venceu, pelos hábeis pés dos Bobby Charlton e Moore. Mas, além de 1938 e 1982, a beleza do jogo brasileiro encantou o mundo em 1950, quando perdemos a final em pleno Maracanã, diante do Uruguai; em 1958, nossa primeira conquista, quando o campista Didi conduziu o futebol brasileiro à sua maioridade; em 1962, no Bi de Garrincha, mais lúdico dos nossos jogadores; em 1970, na apoteoese do Tri e talvez desse próprio período histórico de quase meio século, muito bem resumido pelos pés de Pelé, Gérson, Rivelino e Tostão; e até em 1978, quando o time do capitão Cláudio Coutinho saiu da Argentina do generalíssimo Jorge Videla com o duvidoso título de “campeão moral”.

Mas a partir da Copa de 1986, no México, com Zico no sacrifício e já na mesma curva descendente de Falcão e Sócrates, um Telê Santana escaldado pela derrota quatro anos antes escalou como titulares dois típicos volantes de contenção, desprovidos de maior qualidade ténica: Alemão e Elzo. Tolidos de capacidade criativa no meio-de-campo da Seleção Brasileira, útero sem o qual o futebol-arte não se concebe, a decadência e posterior aposentadoria daquela brilhante geração de 82 foi parcialmente atenuada nas Copas de 1986, de 1990 (na Itália), de 1994 (nos EUA), de 1998 (novamente na França), de 2002 (no Japão e na Coréia do Sul) e de 2006 (na Alemanha reunificada), pela linha direta de três atacantes de exceção: Careca (86 e 90), Romário (90, como reserva, e 94) e Ronaldo Fenômeno (94, como reserva, 98, 2002 e 2006).

Bem escudados na frente por Muller (Careca), Bebeto (Romário e Ronaldo) e Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho (Ronaldo), e com uma priorização cada vez maior dos cuidados defensivos, a coisa meio que virou: segura na defesa e chuta a bola para a frente, que os caras resolvem. Romário, em 94, e Ronaldo, em 2002, resolveram. Mas tanto eles, quanto Careca, como dito antes, foram atacantes de exceção, não regra — numa linha direta tão rara, quanto na filosofia foram, por exemplo, Sócrates (o ateniense, não o brasileiro), Platão e Aristóteles.

Quando a regra prevaleceu em nosso ataque, com Luís Fabiano (na Copa de 2010) e, agora, com Pato, bons jogadores, mas incapazes de resolver as coisas sozinhos, como seus antecessores eram, fomos obrigados a olhar para trás, para o setor de criação de jogadas. E, em todo o futebol brasileiro (ou jogado por brasileiros), ninguém é capaz, como o próprio Mano Menzes já admitiu, de encontrar nada além de Paulo Henrique Ganso, um jovem de 21 anos, para depositarmos todas as esperanças do resgate de algo que a Seleção Brasileira abandonou como regra há quase três décadas.

Não por acaso, Ganso, assim como Neymar, são produtos de um time, o Santos, que voltou a tentar colocar em prática o futebol-arte. Nem tão artístico assim, a partir da consistência defensiva imposta por Muricy Ramalho, deu até para conquistar a última Libertadores, contra o mesmo Peñarol que o Santos de Pelé derrotou na primeira conquista da América do Sul por um clube brasileiro, em 1962. Mas o fato histórico é que, depois do Flamengo de Zico (campeão da Libertadores e Mundial, em 1981), referência e base daquela Seleção de 82, apenas dois clubes tupiniquins praticaram, sem margem à contestação, o futebol-arte: o São Paulo de Telê, Bi-Mundial 1992/93, e o Palmeiras, de Vanderley Luxemburgo, Bi-Brasileiro 93/94.

No que se refere à Seleção de hoje, deve até dar para bater o Equador, amanhã, a exemplo do que fez ontem a Argentina, com uma seleção sub-22 da Costa Rica, e passar à próxima fase da Copa América. Mas mesmo que conquistemos a própria competição, convém baixar a bola do ufanismo tolo e constatar a verdade: não temos mais o melhor time, ou a melhor seleção, ou o melhor jogador do mundo. Estes são, por ordem, o Barcelona, a Espanha e, admitam ou não as patriotadas argentinas, Lionel Messi.
Frutos de anos de trabalho nas divisões de base do clube catalão, os três são hoje as melhores traduções coletivas e individual daquilo que se convencionou chamar de futebol-arte. Para que ele volte a caracterizar o jogo da Seleção Brasileira, após quase 30 anos de abandono, por ora não resta nada além do trabalho, da humildade, do compromisso e, sobretudo, da paciência.
O IFFernal

Quem quiser conhecer melhor a realidade presente do Instituto Federal Fluminense (IFF), mais importante instituição de ensino da região, pela visão bem humorada e crítica de alguns dos seus alunos, clique aqui…
Versos do domingo — Gregório de Matos
A recente retomada de atividades do blogueiro serviu para retomar alguns dos temas pretendidos na gênese deste “Opiniões”, mas que infelizmente foram ficando no meio do caminho. Entre eles o de discutir cultura, sobretudo a poesia. Neste intuito, comecei a republicar aqui alguns dos textos feitos para o blog “Cantos”, infelizmente também abandonado, no qual colaborava em parceria com o professor Fernando Moura e a antropóloga Fernanda Huguenin, camaradas em armas e pena.
Pois, hoje, neste domingo de inverno, se aqueça você, leitor, com os versos daquele que considero o maior talento já produzido pela poesia brasileira, grande nome do nosso Barroco, Gregório de Matos (1636/1695), o Boca do Inferno…
As Cousas do mundo
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
Relaçõe$ entre mídia e recur$o$ público$ diante do e$pelho
Personagem do jornalista Élio Gaspari, Eremildo, como o blogueiro, é um idiota. Nesta condição, ele me perguntou e eu não soube responder se quando alguém põe sob suspeita as relaçõe$ entre mídia e recur$o$ público$, sendo eminência parda da mais importante insituição de ensino da região, que tem um concurso público para jornalista reprovado e investigado pelo Ministério Público Federal, será que esse alguém fala de mais alguém além daquele alguém que vê diante do $eu e$pelho???…




