Amantes no cinema (II)
Depois de “Houve uma vez um Verão”, “A Filha de Ryan”, “O leitor”, “Lavoura Arcaica” e “Casablanca” (aqui), chegou a vez dos próximos cinco filmes numa brincadeira descompromissada que acabou dando o maior trabalho: listar e analisar os 30 melhores filmes de “romance” já produzidos. A idéia, como dito anteriormente, se deu a partir da seleção análoga feita pelo Edgar Vianna de Andrade, pseudônimo de Aristides Soffiati. Na opinião de outro crítico, que ainda fica devendo 20 títulos após este post, seguem os próximos…
6) “Closer — Perto Demais” (“Closer”, de Mike Nichols, EUA, 2004, 104 min.) – Se os triângulos amorosos estão longe de ser uma novidade nos filmes “românticos”, essa obra recente do veterano diretor alemão, então aos 73 anos, se monta sobre um retângulo: Alice Ayres (Natalie Portman), Dan Woolf (Jude Law), Anna Cameron (Julia Roberts) e Larry Gray (Clive Owen). Não que a arquitetura seja uma novidade para Mike Nichols, que a usou para revolucionar o gênero, ainda nos anos 60, logo em seus dois primeiros longas: “Quem tem Medo de Virgina Woolf?” (1966) e “A Primeira Noite de um Homem” (1967). Quase quarenta anos depois, ao som de “The Blower’s Daughter” (a “É isso aí” da versão brasileira de Ana Carolina), apropriada e bela música tema do compositor e cantor irlandês Damien Rice, a primeira cena de “Closer” traz a stripper Alice e o jornalista aspirante a escritor Dan caminhando pelas ruas de Londres, até o encontro inusitado, ponto de partida da relação. Numa sessão de retratos para a promoção do seu novo livro, Dan conhece a fotógrafa Anna, com quem estabelece uma atração mútua, interrompida pela chegada de Alice, que percebe o clima. Por motivos insondáveis, mas de resultado cômico, Dan se faz passar por Anna, pela internet, onde marca um encontro entre ela e o médico Larry, compondo o outro casal. Numa exposição de fotos de Anna, ela e Dan acabam retomando o flerte interrompido, muito embora o evento também tenha servido para Larry conhecer Alice, que define causticamente os valores da pós-modernidade dos nossos dias, do qual o filme, ironicamente, é um retrato fiel. Entre traições e
reconciliações, retomadas e abandonos, a grande surpresa fica para o final, quando a verdade sobre Alice, numa placa de jardim, confirma a revelação anterior da stripper Jane Jones, ambas reunidas na grande interpretação do filme, a cargo da israelense Natalie Portman (indicada ao Oscar de coadjuvante de 2005, assim como este ano, para atriz principal, por seu trabalho em “Cisne Negro”). Liberta de um elo desvelado fraco, ela pode caminhar por outras ruas, ao som da mesma música, cujos versos finais, apenas sussurrados por Rice, servem de mantra aos “líquidos” relacionamentos contemporâneos: “I can’t take my mind off you/ I can’t take my mind…/ My mind… my mind…/ Until I find somedody new” (Não consigo parar de pensar em você/ Não consigo parar de pensar…/ Meus pensamentos… meus pensamentos…/ Até encontrar alguém novo”).
7) “Não Amarás” – (“Krotki Film o Milosci”, de Krysztof Kieslowski, Polônia, 1988, 86 min.) – Ao lado de Roman Polanski (“O Pianista”, de 2004) e Andrezj Wajda (“Danton — O Processo da Revolução”, de 1983), Kieslowski foi um dos grandes diretores poloneses revelados pela Escola de Teatro e Cinema de Lodz. Mais conhecido pela trilogia das cores, em sua fase francesa (“A Liberdade é Azul”, de 1993, e “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”, ambos de 1994), para muitos ele produziu suas melhores obras ainda na Polônia comunista dos anos 80, entre elas “Não Amarás”. Filmado inicialmente como sexto episódio da série “Dekalog” (“Decálogo”), feita para TV, com 10 filmes de 60 minutos ambientando cada mandamento bíblico na Polônia moderna, acabou alongado para o cinema, devido ao sucesso internacional em festivais. Um tímido e solitário rapaz de 19 anos, Tomek (Olaf Lubaszenko), mora no apartamento da mãe idosa de um amigo (Stefania Iwinska) e se apaixona obsessivamente por Magda (Grazyna Sapolowska), exuberante mulher mais velha, que desfila sua vida sexualmente ativa pela janela indiscreta do apartamento em frente. Ela é observada através de uma luneta, todas as noites, por Tomek, que não só usa seu emprego nos Correios para enviar avisos de correspondência falsos e forjar encontros (im)pessoais, como utiliza trotes para intervir na rotina sexual da amada, chegando a se empregar como leiteiro, apenas para exercitar seu voyerismo mais de perto. O final é trágico, mas na versão para o cinema é em parte atenuado pelo acréscimo de Magda chegando ao quarto de Tomek, quando comunga a visão de si mesma pela perspectiva de quem a amou mais que a própria vida. Neste momento, as melodias compostas por Zgnibnew Preisner como temas das duas personagens centrais se fundem numa só música. A inversão de perspectivas é ainda mais curiosa, levado em consideração que Kieslowski era um católico praticante, condição que impunha como subversão na leitura de dogmas religiosos sob a luz da sua arte, vivendo ainda numa ditadura comunista e oficialmente atéia, no mesmo mundo de um Papa polonês. Moral de Moisés (e Marx) à parte, o resultado, na opinião deste crítico, é o filme definitivo sobre paixões platônicas.
8 – “Um Bonde Chamado Desejo” (“A Streetcar Named Desire”, de Elia Kazan, EUA, 1951, 125 min.). No bonde elétrico cuja rota é chamada “Desejo”, Blanche DuBois (Vivien Leigh, Oscar de melhor atriz) salta com mala, cuia e toda sua afetação sulista no bairro pobre de New Orleans, onde a irmã caçula Stella (Kim Hunter, Oscar de coadjuvante) e seu rude marido Stanley Kowalski (Marlon Brando no auge) residem no andar térreo de um cortiço habitado pela classe operária. Sob a capa de seus modos refinados, herança do Sul agrário derrotado pelo Norte industrial na Guerra Civil dos EUA (1861/65), totalmente anacrônica naquele período pós II Guerra Mundial, Blanche oculta seu alcoolismo e suas perturbações mentais, frutos de graves frustrações amorosas, da mesma maneira que busca camuflar as rugas do seu rosto com véus e luminárias sobre as lâmpadas da casa. Kowalski, pelo contrário, não esconde nada, nem quando também abusa do álcool. Ele é exatamente o que aparenta, sem a mínima vergonha de sê-lo: um operário grosso, machista, desbocado e violento. Numa casa pequena e pobre, com quartos separados apenas por divisórias de pano, o conflito inevitável entre os cunhados vai superando a capacidade de mediação de Stella, que ainda por cima está grávida. Ciente de que seus dias estão contados naquela casa, Blanche reúne todo charme e beleza que ainda lhe restam, numa derradeira tentativa de casamento com Harold Mitch (Karl Malden, também vencedor do Oscar de coadjuvante), amigo solteiro e menos bronco de Kowalski. Este, porém, está decidido a não lhe dar nenhuma chance. Após descobrir que a cunhada fora expulsa da escola em que lecionava, após seduzir um aluno de 17 anos, ele revela o fato ao amigo e
destrói a última esperança de Blanche. Não satisfeito, depois que sua mulher é internada para ter seu filho, ele estupra a cunhada, quebrando o pouco que restava ainda intacto em sua alma, fraturada desde quando, ainda jovem e recém-casada, seu marido se matou após ser flagrado por ela, na cama, com outro homem. Roteiro adaptado de Oscar Saul (em trabalho indicado ao Oscar) da obra prima de Tenesse Williams, maior dramaturgo estadunidense, já havia sido dirigida nos palcos pelo mesmo Elia Kazan que a transpôs às telas (com indicações de melhor filme e diretor), na notável fotografia em preto e branco de Harry Stradling Jr. (também indicado). Da Broadway a Hollywood, quem acompanhou Kazan foi Brando, numa dobradinha que faria igual sucesso em outro clássico do cinema, “Sindicato dos Ladrões” (1954). Relevante notar, nos conflitos entre as personagens, o embate também entre duas escolas de representação: a de Vivien Leigh, com a mesma grandiloqüência com que estrelara, 12 anos antes, “E o Vento Levou” (de Victor Flemming), contraposta à naturalidade, ao jeitão “não estou nem aí”, egresso do “método” de Lee Strasberg, na Actor Studios, com que Marlon Brando dividiu as águas do mundo na arte de interpretar no cinema.
9 – “O Céu que nos Protege” (“The Sheltering Sky”, de Bernardo Bertolucci, Grã-Bretanha e Itália, 1990, 138 min.) – Casal burguês de Nova York, a escritora Kit (Debra Winger) e o compositor Port Moresby (John Malkovich), acompanhados do amigo playboy George Tunner (Campbell Scott), partem num navio rumo ao Norte da África. É 1948, três anos após o fim da II Guerra, da qual a região foi um dos palcos de batalha, saindo do conflito para iniciar seu processo de descolonização de uma Europa devastada. A diferença no caráter da viagem para o casal e o amigo fica estabelecida logo ao desembarque: Turner: “Somos os primeiros turistas desde a guerra.”/ Kit: “Somos viajantes, não turistas.”/ Turner: “Qual a diferença?”/ Port: “O turista pensa em voltar para casa assim que chega.”/ Kit: “E o viajante pode nem voltar”. Na verdade, o único retorno planejado pelos Moresby é à paixão que esfriou em ambos no ócio de Nova York. Ao perceber que a atração (correspondida) de Turner por Kit pode ser um empecilho ao seu objetivo, bem como à fuga do conformismo opulento que o amigo representa, Port o deixa para trás em sua jornada cada vez mais para dentro da África e fora do mundo moderno. Na busca do amor, da música e, mesmo, da humanidade (da qual a África é o berço) em seus estágios mais primitivos, Port encontra o tifo, num forte da Legião Estrangeira, em pleno deserto do Saara, onde a vida abandona seu corpo em contraponto à areia que entra por todas as frestas do aposento. Antes, confessa à esposa que amá-la foi toda a razão da sua vida, e que tudo que fez foi por ela. Atônita pela morte do marido, Kit simplesmente segue uma caravana que passa, tornando-se amante de um nômade bérbere. Ela mergulha naquele mundo árido, miserável, tribal e repleto de moscas, onde o dinheiro não tem serventia e a língua estranha só se torna íntima ao traduzir o desejo. Como Ofélia, que enlouquece de verdade, enquanto
Hamlet apenas simula, é Kit quem completa a busca de Port. Embora os transgressores “O Último Tango em Paris” (1973) e “Os Sonhadores” (2003) também sejam filmes de Bernardo Bertolucci que poderiam integrar qualquer lista de melhores filmes de “romance”, a opção se dá por essa solar transposição às telas do livro homônimo e autobiográfico (adaptado pelo próprio diretor italiano e pelo roteirista queniano Mark Peploe) do escritor estadunidense Pawl Bowles. É dele a voz da narração em off e é o próprio que surge, já idoso, encarando Kit, ao final do filme. Além da direção e das atuações de Winger e Malkovich, o destaque fica por conta das envolventes melodias compostas na parceria entre o japonês Ryuichi Sakamoto e o estadunidense Richard Horowtiz, assim como para a belíssima fotografia em planos amplos do gênio italiano Vittorio Storaro, conhecido como “mago das luzes” e discípulo assumido do pintor renascentista Caravaggio. À luz do sol real, é fato: no deserto ou no amor, só o céu nos protege.
10 – “O Paciente Inglês” (“The English Patient”, de Anthony Minghella, EUA e Grã-Bretanha, 1996, 160 min.) Outra estória de amor nos desertos no Norte da África, não após a II Guerra, mas antes e durante. Abatido pela artilharia antiaérea alemã, num biplano sobre as dunas do Saara, um aviador (Ralph Fiennes, em papel indicado ao Oscar) tem quase todo o corpo queimado, sendo socorrido por nômades bérberes, que salvam sua vida e o entregam ao exército britânico. Alegando amnésia e com o rosto desfigurado pelo fogo, a única suposição para identificá-lo é que seja inglês, por falar a língua. Levado com o esforço de guerra aliado à Itália, ele passa aos cuidados da enfermeira canadense Hana (Juliete Binoche, Oscar de atriz codjuvante), que perde o noivo e a melhor amiga em (con)sequência da guerra, apegando-se de maneira obsessiva à pessoa mais próxima que lhe restou: seu paciente “inglês” e terminal. Ela se muda com ele para uma igreja abandonada na Toscana (região mais bela da Itália), passando a dividir o local com o sombrio David Caravaggio (Williem Dafoe) e o desarmador de minas indiano Kip (Navenn Andrews). A partir daí, se desenvolvem duas linhas narrativas entrecortadas: no presente, com o envolvimento entre Hana e Kip, e no passado, com as memórias do paciente gradativamente resgatadas pelas anotações e anexos com os quais transformara em diário pessoal a sua cópia de “História” (livro que narra as guerras entre gregos e persas, no séc. V a.C.), de Heródoto, único pertence pessoal que mantinha consigo. Ele não é inglês, mas húngaro, o conde László de Almásy, integrante de uma expedição arqueológica internacional no Saara, onde se apaixona pela inglesa Katharine Clifton (Kristin Scott Thomas, em outra indicação ao Oscar) casada com Geoffrey (Colin Firth, indicado este ano por seu trabalho em “O Discurso do Rei”), espião britânico interessado no levantamento geográfico da região. A Almásy e Katharine, o que interessava era a paixão comum por Heródoto, mais precisamente pela passagem de Candaules, rei da Lídia no séc. VII a.C., assassinado por Giges, que lhe rouba a coroa e a rainha. Embora o conde húngaro tenha roubado a mulher de Geoffrey, é este que parte para o crime capital, ao lançar seu avião sobre os amantes, se matando e ferindo gravemente a esposa. Almásy deixa-a numa caverna e parte a pé pelo deserto, em busca de ajuda. Encontra primeiro os britânicos, que o tomam por inimigo e o prendem, sepultando as chances de socorro a Katharine. Após conseguir escapar, ele entrega os preciosos mapas da região aos alemães, em troca do avião com o qual resgata o corpo da amada. Indicado a 12 estatuetas do Oscar, levando nove, incluindo de filme e diretor, é o melhor trabalho do cineasta inglês Anthony Minghella, dotado de grande talento imagético e falecido precocemente em 2008, aos 54 anos. Também roteirista, ele assinou a adaptação (em mais uma indicação) do romance homônimo do canadense
Michael Ondaatje. Outro oscarizado foi o competente diretor de fotografia australiano John Seale, num trabalho que reflete o zênite do mestre inglês Freddie Young, em “Lawrence da Arábia” (1962). Da onipresença solar do Saara à luminosidade setentrional da Toscana, destaque à cena noturna em que Kip suspende Hana com cordas, para ela descobrir os afrescos da igreja na oscilante vertigem do rapel improvisado e da chama da vela em sua mão.

Geraldo Coutinho — PSDB na oposição, mas fora da Frente
Liderança de um partido que sempre se posicionou na oposição ao grupo político do hoje deputado Garotinho (PR), mas que atualmente é presidido por um integrante do governo Rosinha (PMDB), o tucano Geraldo Coutinho reafirmou o compromisso do PSDB como alternativo ao grupo que voltou a dar as cartas no poder do município. Segundo ele, essa distinção se tornará mais visível nos próximos meses, com a reforma completa do ninho tucano, incluindo a eleição de novo diretório. Embora aposte nessa repaginada na cara de oposição do PSDB, Geraldo entende que a maneira como a Frente Democrática foi montada não coincide com o modo de atuação do seu partido, que prega ser propositivo, além de simplesmente crítico. Apesar de admitir a contribuição empresarial à campanha de Rosinha, ele não nega a disposição de construir (ou a possibilidade de ser) uma alternativa a ela em 2012.

Folha da Manhã – O presidente do PSDB local, Robson Colla, está integrado ao governo de Rosinha, na cota de Paulo Feijó (hoje no PR). Até onde isso significa que os tucanos estão integrados ao grupo político de Garotinho, opinião que parece quase unânime em Campos?
Geraldo Coutinho – Não concordo que seja unânime o entendimento de que o PSDB integre o grupo político do deputado Garotinho. Resta, ainda, por parte de alguns, uma visão equivocada que leva a confundir os destinos do deputado Feijó (ainda sem tomar posse na Câmara), hoje totalmente afastado do partido, com os rumos do PSDB. Durante muito tempo, Paulo Feijó comandou o PSDB em nossa cidade e, como é comum acontecer quando se tem um líder único, as imagens da sigla e do líder se misturam para formar uma só leitura. O PSDB não ocupa nenhum cargo político no governo Rosinha, o Robson foi levado por Feijó para compor a administração municipal como técnico em TI, e como bom técnico que é, seguiu sendo aproveitado. A executiva municipal não emitiu nenhuma orientação contrária a essa situação, que é circunstancial. O partido será totalmente reformado dentro dos próximos meses, inclusive com eleição de novo diretório, ocasião apropriada para se rever casos como o do Robson.
Folha – Político conhecido pela correção pessoal, assim como por sua lealdade a Feijó, como o PSDB poderia integrar a oposição, sendo presidido por Robson Colla?
Geraldo – Olha, Aluysio, o Robson não é só correto, é um grande e importante quadro que temos no PSDB. Tenho certeza de que ele engrandeceria, por sua capacidade e seriedade, qualquer diretório de partido estabelecido em Campos. Por convicções próprias e por devoção às bandeiras do PSDB, ele permanece conosco, leal como sempre foi. Mais uma vez confunde-se a fidelidade que Robson devota ao partido com o apoio que ele sempre reservou ao então presidente. Robson já demonstrou por diversas vezes que tem disposição para qualquer sacrifício político em favor do PSDB. Isto não significa que devemos cobrar a amizade que ele mantém com o cidadão Paulo Feijó. A verdade é que hoje o PSDB não tem mais qualquer ligação com o Feijó, que segue direção própria e orienta-se pelos interesses de outro partido. O Robson, por sua vez, mantém-se firme e reto, compondo as nossas fileiras, pronto para qualquer embate ou missão que lhe for delegada pelo partido.
Folha – Consta que tanto na época da campanha, quanto depois, na montagem da equipe de governo de Rosinha, você teria sido convidado a participar. É fato? Em caso positivo, como foram esses contatos e por que não aceitou?
Geraldo – Desconheço qualquer menção considerando a possibilidade que me incluísse como integrante da equipe de campanha da então candidata Rosinha. Definitivamente, isso não ocorreu, não faria nenhum sentido, não havia e não há qualquer identidade minha com a orientação política do grupo do Garotinho, como também não há nenhuma coincidência quanto ao modelo de administração utilizado pela atual administração e aquele que eu julgo mais adequado. Com relação à ocupação de cargo no governo que se formava, ouvi alguns comentários e outros tantos me foram relatados que apontavam meu nome como tendo um perfil apropriado para assumir uma secretaria. Estes relatos davam conta de que eu poderia agregar com conhecimento de causa e também contribuiria para levar uma boa imagem do novo governo a uma classe ainda reticente quanto às possibilidades da nova gestão. O convite não aconteceu. Se tivesse ocorrido eu não aceitaria. Além dos conflitos que resultariam pelas diferenças de orientação política e modelo de gestão, entendo que tenho mais a contribuir com nossa cidade ocupando a presidência regional de uma entidade como a Firjan, somado a outras funções que desempenho na iniciativa privada, do que me dedicando à gestão de uma secretaria municipal.
Folha – Empresas do seu grupo também apareceram na lista de doadores de campanha da prefeita eleita. Até onde isso pode servir ou não para endossar a adesão sua e do PSDB à atual administração municipal?
Geraldo – Isto não tem absolutamente nada a ver com o PSDB, nem com ideologia partidária, é uma prática tradicional de nossas empresas contribuir formalmente, de forma modesta, com todos os candidatos que nos procuram. Entendemos que assim fortalecemos o lícito e legítimo processo eleitoral, beneficiando ao final a própria democracia.
Folha – Como você e o PSDB enxergam a Frente Democrática de Oposição, atualmente formada por 10 partidos: PT, PMDB, PPS, PDT, PV, PCdoB, DEM, PRP, PSC e PSL? Por que o PSDB não participou de nenhuma reunião? Vocês podem vir ainda a participar?
Geraldo – Olhamos para Frente como muita atenção e respeito. Entretanto, entendemos que a forma como ela foi pensada e estruturada não coincide com o modelo de atuação seguido pelo PSDB, ou seja, me parece que a frente surgiu com único propósito de fazer oposição ao governo instituído. Nós preferíramos ver toda esta gente junta discutindo prioridades e oferecendo opções de projetos à população. Ao invés de se fazer um esforço por uma frente pró-oposição, deveríamos somar inteligências e experiências para elaborar as melhores proposições. Da forma que está, fica nos parecendo que a Frente tem como prioridade os projetos eleitorais de seus componentes. Estaremos sempre dispostos a participar desta ou de qualquer outra iniciativa que vise pensar a nossa cidade, olhando para o futuro com a ousadia que temos direito e decidindo o presente com responsabilidade que é nossa obrigação.
Folha – Os líderes dos partidos que formam a Frente já disseram que o objetivo principal é o compromisso de todos com alguns pontos comuns, como orçamento participativo, transparência nos gastos, pregão eletrônico e privilégio aos concursos públicos. Ainda que ocorra dispersão de candidaturas à sucessão de Rosinha, em 2012, aquele que chegar ao segundo turno contra o candidato do grupo de Garotinho, receberia o apoio dos demais. Isso bastaria ao PSDB? Se não, o que mais?
Geraldo – Como já disse, não está claro para nós quais são exatamente os pontos que unem os líderes que tem voz nessa Frente. Precisávamos conhecer isso com maior clareza e dar conhecimento ao público de forma inequívoca dos propósitos desta Frente. Não sendo assim, o que resta é a interpretação de que pessoas estão reunidas para viabilizar um projeto politico. E fica ainda mais complicado imaginar a conciliação de interesses, uma vez que a metade dos partidos ali representados tem seus próprios candidatos que postulam a cadeira hoje ocupada pela prefeita Rosinha. Falando com todo o respeito que individualmente todos que ali estão merecem, mas pela diferença de ideários, histórias e posturas de cada um, fica difícil imaginar que esse movimento possa fazer sentido no futuro.
Folha – Até que ponto os tucanos julgam produtivas as visitas de fiscalização promovidas pela Frente em obras municipais, como a eterna reforma do canal Campos/Macaé e a atrasada construção de casas populares?
Geraldo – Temos muito a lamentar com relação aos incômodos e prejuízos causados pelo atraso injustificado destas obras. Mas, sinceramente, não vejo efetividade nessas visitas. Qual o resultado que se pretende com isto? Se for levantar inconformidades para que a Câmara Municipal adote providências saneadoras, porque então não pressionar a Câmara para que ela ative os instrumentos legais para, aí sim, exigir as correções que sejam necessárias e cabíveis. Mais uma vez vemos um movimento politico eleitoral nessa iniciativa que busca identificar erros que possam ser debitados à atual gestão, em vez de propor soluções que evitassem a recorrência destes equívocos.
Folha – Ainda em relação à Frente Democrática, como você e seu partido viram a defecção do PTdoB, por meio da cooptação de Garotinho, e do PSOL e PCB, que se aliaram ao PSTU na Frente de Unidade Popular, mais à esquerda e crítica também dos ex-aliados do ex-governador, hoje seus opositores?
Geraldo – Toda e qualquer aglutinação politica que se forme, por melhor e mais forte que seja, terá que estar sempre preparada para medir forças. É natural do jogo político. Ninguém pode esperar que uma iniciativa de oposição encontre o seu alvo manso e pacífico como um espectador. É certo que novas investidas irão ocorrer, como é certo, também, que novas defecções serão registradas ao longo do caminho, seja por diferenças ideológicas seja por incompatibilidade de interesses específicos de cada um que compõe a Frente.
Folha – Mesmo que Garotinho consiga promover mais divisões na Frente Democrática, se esta mantiver partidos de maior força, como PT e PMDB, com seus tempos de rádio e TV, além do apoio da presidente Dilma Rousseff e do governador Sérgio Cabral, não continuará com peso considerável para 2012? E por que a força de partidos como PT e PSDB, que polarizam a política nacional há 17 anos, nunca se fez valer em Campos?
Geraldo – O PT e o PMDB são partidos com bons quadros, sozinhos já seriam fortes, aliados ganhariam muita densidade, mas isto não define as chances de sucesso em uma disputa eleitoral. O tempo de televisão e o envolvimento da máquina que detém o poder são ingredientes que fazem diferença, mas não decidem pelo eleitor. O que se deve levar para uma eleição é uma coleção de bons projetos, é uma proposta de modelo administrativo moderno, é a capacidade de convencer o cidadão de que o pretendente é capaz de implementar o que promete e que isto irá mudar a vida da população para melhor. Não há uma receita para se alcançar isto, o bom projeto tem que coincidir com a percepção das pessoas quanto a sua oportunidade. Este fenômeno é bem resumido por um enunciado do grande pensador Victor Hugo, que nos meados dos anos 1800 já dizia algo mais ou menos assim: “Nada é mais forte do que uma idéia cujo tempo chegou”. Pois é, temos que oferecer os melhores projetos e apresentar as idéias reformadoras. O tempo para isso acontecer é uma prerrogativa exclusiva da consciência coletiva do eleitor e independe de tempo de televisão, grau de envolvimento da máquina ou número de aliados que se possa somar. A idéia que muda, que transforma, tem seu tempo próprio. Quanto ao PSDB e o PT, eles se revezaram no governo federal nestes últimos anos, mas cada um deles tem maior ou menor densidade em cada espaço geográfico brasileiro. Em Campos, nenhum dos dois foi protagonista na gestão municipal. Isso não justifica, mas ajuda a explicar porque não temos a força que poderíamos ter. São dois partidos com muitas e profundas diferenças, mas que têm em comum uma história de boas lutas em favor de nossa cidade e, no tempo certo, serão reconhecidos e recompensados com a chance de por em prática os valores das bandeiras que cada um defende.
Folha – Entre os novos nomes cogitados a disputar a Prefeitura de Campos, o seu aparece há algum tempo. Isso seria possível? Em qual conjuntura? E, por mais que ninguém questione sua capacidade técnica, até que ponto a condição de usineiro poderia lhe trazer dificuldades?
Geraldo – É fato que o meu nome tem sido lembrado pelo partido e por cidadãos dos mais variados segmentos de nossa cidade para uma disputa eleitoral. Sempre me senti envaidecido com essas menções, entretanto jamais me disponibilizei a frequentar um palanque como candidato. Em 2008, houve apelos muito fortes para que eu disputasse a Prefeitura, e agora, em dezembro último, ante à possibilidade de eleições extraordinárias, uma grande articulação foi montada visando me pressionar a aceitar o desafio. Não tenho receio do embate, mas continuo restrito e firme no propósito de participar da política de nossa cidade como interlocutor interessado e apaixonado, jamais deixei de frequentar os grupos de debates e fóruns que se proponham a pensar o nosso futuro. Entendo que essa é a melhor contribuição que eu possa dar e que coincide com o que Deus me reservou no plano da vida, tal como tem se apresentado até hoje. Fosse eu um postulante a cargo eletivo, levaria com muito orgulho a minha trajetória de industrial, ou de usineiro, se preferir. Tenho uma história de retidão e bons combates para apresentar, e se hoje não temos um caso de sucesso clássico para expor, considero uma vitória importante o fato de termos trazido até aqui a nossa usina ativa e operacional. Aliás, entre as administrações que existiam à época que assumi a direção da Paraíso, em 1985, a nossa é a única unidade que resistiu ao cruel e injusto processo de corrosão que fez ruir excelentes parques industriais de nossa cidade.
Amantes no cinema (I)
Há algum tempo, o Aristides Soffiati, sob pseudônimo de Edgar Vianna de Andrade, publicou na Folha sua seleção dos 30 melhores filmes de romance já produzidos. Baseado naquilo que Cazuza chamou de “inveja criativa” em relação a Renato Russo, fiquei com a idéia de também compor minha lista, extraída e lapidada no correr das últimas três semanas, não sem certo pesar por deixar de fora alguns títulos marcantes. Neste primeiro texto, estão listados apenas os cinco primeiros filmes, que serão seguidos dos demais 25, nas cinco próximas semanas. Essa multiplicação de críticas (com a divisão de cinco filmes em cada) advém da incapacidade confessa de ser tão sucinto quanto Soffiati para falar de tantos filmes que, falando do amor comungado entre sentimento e desejo, tanto falaram a mim…
1) “Houve uma vez um Verão” (“Summer of ‘42”, de Robert Mulligan, EUA, 1971, 103 min.) – Numa ilha, três adolescentes vivem o rito de passagem à idade adulta, durante o verão de 1942, com os EUA engajados na II Guerra. Um deles, Hermie (Gary Grimes) se apaixona platonicamente por uma mulher mais velha, Dorothy (a belíssima Jennifer O’Neill, então com 23 anos), e busca se aproximar dela, após o marido deixar a ilha para prestar serviço militar. Segue-se então um jogo de sedução entre o garoto de 15 e a “velha” de vinte e poucos, consumado numa cumplicidade sem par entre melancolia e êxtase, com uma notícia chegada do continente. Linda como Jennifer O’Neill é a trilha sonora do craque francês Michel Legrand, vencedora do Oscar de 1972, sobretudo a música tema, com sua melodia romântica e nostálgica, conhecida de ouvido mesmo por quem não viu o filme. Destaque também à fotografia em tons pastéis de Robert Sturtees, bem como ao sensível e por vezes hilário roteiro autobiográfico de Herman Raucher, o “Hermie” retratado nessa jóia de rara beleza do cinema. É da boca dele que ouvimos, na narração em off retrospectiva, sobre quando avistou pela primeira vez o seu primeiro amor: “Nada desde aquele dia em que a vi, e ninguém que conheci depois, foi tão amedrontador e perturbador. Porque nenhuma pessoa que conheci a vida inteira fez tanto para me fazer sentir mais seguro, mais inseguro, mais importante e menos significativo”. Nem para Hermie e, talvez, nem para nós…
2) “A Filha de Ryan” (“Ryan’s Daughter”, de David Lean, Grã-Bretanha, 1970, 195 min.) – Outro affair à beira-mar, com outra mulher casada, durante outra Grande Guerra Mundial. Em 1916, num vilarejo litorâneo da Irlanda, Rosy (Sarah Miles), filha de Thomas Ryan (Leo McKern), dono do pub local, se casa com seu ex-professor, Charles Shaughnessy (Robert Mitchun), excelente marido, amante nem tanto. Quem aparece para suprir as carências da jovem esposa é o major britânico Randolph Doryan (Christopher Jones), galante apesar da deficiência na perna e das perturbações na mente como consequências dos campos de batalha da I Guerra. Sua missão é vigiar de perto as ligações dos irlandeses (dominados pela Inglaterra) com os alemães (inimigos dos ingleses). Um desembarque de armas pelo mar (em sequência majestosa) é denunciado por Ryan, mas a culpa recai sobre sua filha, que tivera o romance antes revelado pelo deficiente mental Michael (John Mills, vencedor do Oscar de 1971, como ator coadjuvante). A parceria entre dois gênios da sétima arte, David Lean na direção e Freddy Young na fotografia (responsáveis por outra obra-prima, “Lawrence da Arábia”, de 1962), rendeu ao último o outro Oscar conquistado por “A Filha de Ryan”. Na verdadeira aula de fazer cinema em que se consiste esse filme, destaque à cena da consumação do amor de Rosy com o major, deitado sobre ela na relva irlandesa, com o corte sutilmente erótico (e sensibilíssimo) à brisa que esparge no útero do espaço as sementes brancas das flores.
3) “O Leitor” (“The Reader”, de Stephen Daldry, EUA e Alemanha, 2008, 124 min.) Outra paixão entre um adolescente e uma mulher madura, tendo a II Guerra Mundial (ou suas mais trágicas lembranças) como pano de fundo. O filme começa em 1995, com o advogado alemão Michael Berg (Ralph Fiennes) remetido em flash-back até um bonde que tomara, aos 15 anos (na pele de David Kross), num dia chuvoso de 1958. O rapaz passa mal, salta do veículo e busca abrigo na entrada de um prédio, no qual mora a trocadora do bonde, Hanna Schmitz (Kate Winslet), que o ajuda. Daquele contato, se inicia uma relação amorosa, consumada na carne com a leitura (dele) e a audição (dela) da “Odisséia”, de Homero. Os encontros se sucedem no apartamento de Hanna, na cruza entre o sexo e a leitura das obras que ele estudava na escola e ela ouvia avidamente em sua cama. Um dia, sem explicações, Hanna parte e a vida do garoto (“kid”, como ela sempre o chamou) segue até a faculdade de Direito, onde ele e um grupo de colegas, já em 1966, vão acompanhar o julgamento de ex-guardas femininas do regime nazista, pela morte de prisioneiras judias. Surpreso por reencontrar Hanna entre as rés, o espanto se torna compreensão, quando ele finalmente percebe que a avidez da ouvinte derivava do seu analfabetismo, condição que poderia amenizar a condenação, mas é omitida por ambos. Sentenciada à prisão perpétua, Hanna passa a receber na cadeia fitas gravadas e enviadas por Michael, com as leituras de várias obras. Comparando as palavras ouvidas nas gravações com as sílabas pacientemente debulhadas nos livros da biblioteca da prisão, Hanna aprende a ler. E, humanizada por essa nova condição, na busca do seu amor, ela alcança a dimensão do seu crime. Oscar de melhor atriz para Kate Winslet, que dobrou a tribo judaica de Hollywood com sua permeável composição da nazista arrependida, além da terceira indicação de melhor diretor para o teatrólogo inglês Stephen Daldry, na terceira obra de sua filmografia, após os igualmente sensíveis “Billy Elliot” (de 2000) e “As Horas” (de 2002).
4) “Lavoura Arcaica” (Idem, de Luiz Fernando Carvalho, Brasil, 2001, 161 min.) – Primeiro filme desta lista que também consta na de Soffiati, só está aqui pela definição dele, já que a classificação geral dessa exuberante leitura cinematográfica do livro homônimo de Raduan Nassar, sempre esteve mais para um drama baseado na inversão da parábola do filho pródigo. O elemento escolhido pelo colega crítico para considerar o filme como de “romance”, é a paixão incestuosa entre os irmãos André (Selton Mello) e Ana (Simone Spoladore). Todavia, também a severidade do pai (Raul Cortez) e o amor sufocante da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) foram causas para a fuga de André, da casa rural de sua família de imigrantes libaneses, para uma pensão. A pedido da mãe, o filho mais velho, Pedro (Leonardo Medeiros), vai em busca do irmão. Após uma conversa regada a álcool e tensão, com memórias evocadas em fluxos de consciência, alguns ternos, muitos violentos, André retorna à casa, mas só para que a incompatibilidade entre as tradições cristãs do pai e o profetismo de si mesmo, do filho, exploda na consumação do incesto deste com a irmã. Após passarem nove semanas na fazenda do interior de Minas que serviu de locação, onde aprenderam a trabalhar a terra, ordenhar, fazer pão, bordar e dançar como uma família libanesa, todos os atores atingem interpretações à flor da pele. Delas, não fica atrás a fotografia do mestre Walter Carvalho, equilibrada no claro-escuro (o chiaroscuro da inovação renascentista de Da Vinci) ofertado pela luz do dia e das lamparinas; tampouco a trilha sonora do compositor Marco Antônio Guimarães, que utilizou temas da música árabe, não sem uma citação d’A Paixão Segundo São Mateus, de Bach. Único longa no cinema do diretor de novelas e minisséries Luiz Fernando Carvalho, está, na opinião deste crítico, entre os três melhores filmes brasileiros já feitos, independente de gêneros, ao lado de “Limite” (1930), de Mário Peixoto, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha.
5) “Casablanca” (Idem, de Michael Curtiz, EUA, 1942, 103 min.) – Outro filme passado durante a II Guerra, como “Houve uma vez um Verão”, e sobre um triângulo amoroso, como “A Filha de Ryan”, tem sobre estes dois, ou qualquer outro filme de “romance” já produzido, o papel não de criar, mas de fundamentar o gênero. O estadunidense Rick Blane (Humphey Bogart) é o dono de um bar em Casablanca, no Marrocos, rota de fuga para Portugal e de lá para a América, buscada por muitos perseguidos pelos nazistas, então senhores da Europa. Naquela babel do Norte da África, governada pela França de Vichy, subordinada à Alemanha de Hitler, todos se reúnem no Rick’s Café Américain: franceses ressentidos pela dominação, alemães triunfantes, fugitivos de todas as nacionalidades, ladrões, policiais, soldados, jogadores, bêbados e prostitutas. Rick os observa indiferente do alto de seu escritório, descendo de vez em quando para rodar entre as mesas do bar e a roleta do cassino, enquanto alguns afogam suas mágoas e outros negociam seus interesses ao som do piano de Sam (Dooley Wilson). Nesse frágil equilíbrio, tudo corre relativamente bem até que entra em cena o líder da resistência Victor Laszlo (Paul Heinreid). Nada que afetasse o impassível e cínico dono do estabelecimento, não fosse o fato de Victor vir acompanhado da Sra. Laszlo, Ilsa (Ingrid Bergman), antigo amor de Rick, vivido intensamente até Paris ser invadida pelos alemães. O reencontro reacende a paixão, mas conta com outro complicador, além de Victor Laszlo: os dois salvo condutos de que este precisa, para fugir à perseguição do major nazista Heinrich Strasser (Conrad Veidt), ficaram em poder de Rick, após o contrabandista Guillermo Ugarte (Peter Lorre) ser morto em seu bar, pela polícia do capitão francês Louis Renault (Claude Rains, indicado ao Oscar de coadjuvante). Tudo passa, então, a girar em torno de quem ficará com ficará com os salvo condutos e o amor de Ilsa. A bem da verdade, nem a atriz Ingrid Bergman sabia, até pouco antes de filmar a cena final, dúvida que os roteiristas Julius J. Epstein, Phillip G. Epstein e Howard Koch (três judeus) impuseram dolosamente à composição da personagem. Mais até do que às interpretações antológicas de Bogart e Bergman (ambos indicados ao Oscar), do que ao figurino emblemático de Orry-Kelly (responsável pela definição dos anos 40 como ápice da elegância na moda do séc. 20), do que à brilhante fotografia em preto e branco de Arthur Enderson (outra indicação), ou do que à direção irretocável do húngaro Michael Curtiz (vencedor das estatuetas de melhor diretor e filme), cabe aos três roteiristas, também ganhadores do Oscar, a maior parcela pela perenidade desse filme de quase
70 anos. À parte frases que se tornaram lugar comum, como a que antecipa o The End (“Acho que isso é o início de uma bela amizade!”), a maioria dos diálogos continuariam intactos em inteligência e atualidade se fossem postos na boca de personagens do próximo filme de Quentin Tarantino: Major Strasser: “Qual a sua nacionalidade?”/ Rick: “Eu sou um bêbado.”// Yvonne (Madeleine Le Beau): “Onde você estava ontem à noite?”/ Rick: “Faz tanto tempo que eu não lembro.”/ Yvonne: “Eu vou te ver hoje à noite?”/ Rick: “Eu nunca faço planos com tanta antecedência.”// Capitão Renault: “O que, em nome de Deus, te trouxe a Casablanca?”/ Rick: “Minha saúde. Eu vim a Casablanca por causa das águas.”/ Renault: “Águas? Que águas? Nós estamos no deserto!”/ Rick: “Eu estava mal informado.”// Ugarte: “Você me despreza, não é?”/ Rick: “Se eu pensasse em você, provavelmente o desprezaria”. De fato, o roteiro é tão instigante que a ele é atribuída a fala mais famosa da história do cinema, mas que nunca foi dita no filme: “Play it again, Sam!” (“Toque de novo, Sam!”). Com a deixa correta ou não, o que importa fica nos versos finais da canção: “The word will always welcome lovers / As times goes by” (“O mundo sempre dará boas vindas aos amantes / Com o passar do tempo”).










