Alemão em Hollywood — Turista ou para ficar?

Diretor do excelente “A Vida dos Outros” (“Das Leben der Anderen”, GER, 2006, 137 min.), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007, o cineasta alemão Florian Henckel Von Donnersmarck tinha sua estréia em Hollywood aguardada com ansiedade também por reunir como casal protagonista em seu “O Turista”, em cartaz nas telas de Campos, duas estrelas de primeira grandeza do cinema dos EUA, que nunca haviam trabalhado juntas: Angelina Jolie e Johnny Depp.
Atual Sra. Brad Pitt e filha de Jon Voight (Oscar de melhor ator por “Amargo Regresso”, de 1978, dirigido por Hal Ashby), Angelina Jolie provou ser mais que um rosto bonito ao conquistar seu próprio Oscar como atriz coadjuvante, em 2000, com apenas 24 anos, após eclipsar a protagonista Winona Ryder, em “Garota, Interrompida” (“Girl, Interrupted”, de James Mangold, EUA, 1999, 127 min.).
Por sua vez, Johnny Depp ficou conhecido ainda nos anos 80, com a popular série televisiva “Anjos da Lei”, antes de migrar ao cinema para se tornar o ator de referência do personalíssimo diretor Tim Burton (algo como Robert De Niro para Martin Scorsese, Toshiro Mifune para Akira Kurosawa ou Woody Allen para Woody Allen), numa parceria aberta em 1990, com “Edward, Mãos de Tesoura” (“Edward Scissorhands”, EUA, 105 min.), e que já rendeu nada menos que seis outros filmes, de lá para cá.
Todavia, foi na pele do doidivanas capitão Jack Sparrow, na trilogia “Piratas do Caribe” (de Gore Verbinski, mas cujo quarto filme da série, com estréia nos cinemas ainda para este ano, foi dirigido por Rob Marshall), que Depp foi transformado, de ator cult, em astro das multidões-pipoca.
Refilmagem do francês “Anthony Zimmer – A Caçada” (“Anthony Zimmer”, de Jérôme Salle, FRA, 2005, 90 min.), “O Turista” traz a beleza estonteante de Angelina para encarnar a elegância britânica de Elise Clifton-Ward. Incógnito para escapar à perseguição da Scotland Yard, da Interpol e dos mafiosos dos quais surrupiou milhões de libras, seu amado passa instruções que até Johnny Depp, num trem rumo a Veneza.
A primeira visão de Elisa, com o sujeito sentado na poltrona, lendo um livro de espionagem, enquanto traga tranquilamente seu cigarro sob o aviso de proibido fumar, corresponde mais ao ator transgressor, do que ao personagem revelado: o turista Frank Tupelo, um inexpressivo professor de matemática nos EUA.
Após constatar que o cigarro era apenas um inibidor da abstinência, exalando vapor d’água no lugar de tabaco queimado, Elisa seduz Frank, envolvendo-o numa série de perseguições e fugas pelos canais, bailes de gala e prédios históricos de Veneza (que se estende até por seus telhados), com um desfecho que só é capaz de manter o suspense para quem não é íntimo das tramas de Hollywood, mesmo sob a batuta de um diretor germânico. Cartão postal da belíssima cidade italiana, a Piazza de San Marco só aparece como cenário para uma marcha decidida do mocinho, em meio à revoada dos pombos, ao pôr do sol, quando o risco do cigarro finalmente se torna real.
Em “A Vida dos Outros”, filme que abriu as portas à indústria do cinema dos EUA para Von Donnersmarck, a espionagem era mais séria, pano de fundo para um drama real, mesmo quando humanizada pela arte contagiante dos espionados. Em “O Turista”, ela roça os limites da credulidade, num tom comedido de comédia.
Na dúvida sobre a qualidade do resultado, insistente mesmo no dia seguinte à sessão, melhor apostar que a boa bilheteria de “O Turista”, ao rastro de Jolie e Depp, baste para garantir mais uma chance de certeza, em Hollywood, ao promissor cineasta alemão.











(72 HORAS) Cria da televisão, o diretor canadense Paul Haggis, no cinema, alcançou o sucesso primeiro como roteirista. Sua adaptação no roteiro de “Menina de Ouro” (“The Million Dollar Baby”, EUA, 2004), foi responsável pelo filme mais profundo sobre o boxe, esporte chamado de “nobre arte” que já rendeu tantos clássicos da sétima arte. Apesar do final lacrimogêneo, rendeu Oscar de melhor filme, diretor (Clint Eastwood), atriz (Hilary Swank) e ator coadjuvante (Morgan Freeman), além de uma indicação ao próprio Haggis.

Madrugada de Atafona. Verão de 1989. Na escuridão de um bar abandonado, iluminado apenas pela precoce brasa de cigarros, com o Paraíba do Sul correndo ao lado para desaguar no Atlântico, três adolescentes sobrevivem ao abandono prudente dos demais amigos, após mais cervejas do que seria recomendado àquele tempo em que a vida ainda parecia guardar tantas descobertas quanto o oceano espraiado diante deles, negro de noite e prata de lua.