Opiniões

Ex-reitores da Uenf antecipam em entrevista debate desta quarta sobre a universidade

 

Saída da eleição a reitor (aqui) mais polarizada dos 26 anos de história da Uenf, esta será passada em revista a partir das 18h desta quarta (09), no auditório do seu Centro de Convenções. Nele se dará a mesa “Os Desafios Institucionais da Uenf em Perspectiva Histórica”. Além do atual reitor e do eleito, respectivamente os professores Luís Passoni e Raúl Palacio, três ex-reitores promoverão o debate entre passado, presente e futuro da mais importante universidade de Campos e região: os professores Raimundo Braz Filho, Almy Júnior e Silvério Freitas. Antes, com respostas próprias às mesmas perguntas, os três falaram nesta entrevista das suas experiências, analisaram o pleito recente e os desafios que esperam a universidade concebida pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Promoção do cientista político e professor da Uenf Hamilton Garcia, o evento é organizado pela Centro de Ciência e Tecnologias Agropecuárias (CCTA), com o apoio do Centro de Ciências do Homem (CCH), do Movimento Uenf Democrática e do Grupo Folha da Manhã.

 

Ex-reitores da Uenf Raimundo Braz Filho, ALmy Júnior e Silvério Freitas (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Qual seu maior legado na reitoria da Uenf?

Raimundo Braz – Contando com um excelente vice-reitor e uma competente e dedicada equipe de pró-reitores, assessores em todos níveis administrativos, diretores dos Centros CCT, CCTA e CCH, a diretoria e assessores da Casa de Cultura Villa Maria, foi possível estabelecer produtivo convívio acadêmico e científico com órgãos de fomento, como a Faperj, secretarias de educação e de ciência, institutos e universidades do estado do Rio de Janeiro, envolvendo inclusive o contexto nacional: CNPq, Capes, Finep. Nos casos de sucesso observados em tais empreendimentos encontram-se necessariamente a parceria e o consenso de todas as forças da sociedade que atuam no desenvolvimento regional. Assim, a participação efetiva da Prefeitura, do Sebrae no apoio à pequena e micro empresa, da Uenf e de outras instituições de ensino sediadas em Campos e regiões adjacentes, sem descuidar das demais representantes das sociedades organizadas locais, como Fundenor, Firjan, Acic e CDL, promovemos o desenvolvimento regional

Almy Junior – Acredito que nosso maior legado repousa na recuperação e ampliação a infraestrutura universitária. Foi um momento com avanços importantes como a recuperação da Casa de Cultura Villa Maria, a construção do restaurante universitário, criação de núcleos de pesquisa, e de conquistas importantes para os servidores. Pautamos ações importantes para a expansão ao Noroeste e Macaé do modelo proposto por Darcy Ribeiro, principalmente após planejamento estabelecido no mandato do professor Raimundo Braz. Um aspecto importante que parece ter se perdido um pouco foi um ambiente de estímulo à iniciativa e à criatividade dos servidores, inclusive para ampliar sua formação. Conseguimos, à época, por exemplo, ver grupos de técnicos administrativos organizando eventos importantes em suas respectivas áreas. O projeto para expansão da Uenf no Noroeste e em Macaé, que ainda não vingou, e o retorno efetivo das ações da universidade via consórcio Cederj, foram importantes e são bases para o estabelecimento de ações para o desenvolvimento regional, que acredito ser o papel mais importante da nossa universidade.

Silvério Freitas – O maior legado na reitoria da Uenf foi o nosso esforço, juntamente aos diversos segmentos de servidores e discentes, para que a universidade se fizesse ouvir junto aos representantes do governo estadual e demais órgãos, federais, municipais e privados. Juntos, demos prosseguimento à consolidação e ampliação da Uenf, com a criação da Agência Uenf de Inovação (AgiUenf), da Diretoria de Informação e Comunicação (DIC), da Escola de Extensão,  do Centro de Memória da Uenf, bem como a aprovação e criação de novos cursos de graduação e de pós-graduação nos diferentes colegiados, a ampliação da infraestrutura de ensino e pesquisa, extensão e inovação.

 

Folha – O que mudou da Uenf em seu tempo como reitor para a universidade de hoje? 

Raimundo – Ocorreu, principalmente, maior condição para que a Uenf possa recepcionar, comemorar e sediar confraternizações a nível interno e a nível da sociedade campista, alimentando a cultura de boa convivência , proporcionado pela inauguração do Centro de Convenções. A construção e funcionamento do Restaurante Universitário foi outro avanço no sentido da convivência universitária. Sinto, infelizmente, uma redução do entusiasmo acadêmico e científico no contexto interno da comunidade universitária nos últimos anos, ocorrendo, provavelmente, em face da redução de recursos e outras facilidades disponibilizadas pelos órgãos de fomento para as atividades inerentes.

Almy – Pouca coisa. Talvez o que mais preocupa tem sido o acirramento e a divisão entre servidores que se ampliaram muito e isso tem se tornado um grande gargalo. Apesar dos muitos avanços com as bases colocadas por Darcy, como demonstrado pelo ranking da Folha de São Paulo (RUF) que saiu esta semana,  e que nos coloca como a segunda melhor universidade brasileira entre aquelas com menos de 30 anos e a primeira entre aquelas consideradas pequenas em número de alunos, no qual estamos em 3º geral no número de artigo publicado e de teses por docentes, em 7º no número de citações por docentes, entre outras, ainda precisamos de muito mais. Muitos professores estão fora da pós-graduação e precisamos resolver esta questão, notadamente com aquilo que tem sido pautado, por meio da Capes, para a produção científica brasileira.

Silvério – A crescente restrição orçamentária na universidade tem sido uma realidade em diversas ocasiões, causando limitações severas para a sua manutenção e o seu necessário crescimento, chegando ao ponto de atrasar e ou parcelar salários em 2016 e 2017.  A escassez de verbas implica numa avaliação constante, ainda mais crítica e cuidadosa, do que vem a ser realmente prioritário dentro da universidade.  Nesse contexto, a comunidade universitária tem que ser forçosamente interativa e, em conjunto, trabalhar o mais harmoniosamente possível.  Acredito que a comunidade está mais consciente de que é preciso estar mais unida e fortalecida internamente para alcançar as conquistas necessárias.

 

Folha – A autonomia financeira, a partir dos duodécimos, é o principal pleito da Uenf? Como chegar lá?

Raimundo – A autonomia financeira é um pleito muito importante e faz parte de uma luta muito antiga. Agora parece-me que a próxima etapa depende predominantemente de ação administrativa do Governo do Estado, já que conta a aprovação da Alerj. Na nossa administração, a conquista de etapa da autonomia da Uenf, em 23 de outubro de 2001, envolveu vários atores, particularmente a nossa comunidade universitária e a mídia local. Na ocasião, a  Uenf não conquistou autonomia plena, incluindo a financeira, mas certamente ultrapassou etapas importantes.

Almy – Tenho muitas preocupações com o modelo de autonomia financeira aprovada. Sem vinculação com a arrecadação estadual, como é a Faperj, por exemplo, acho que a nossa, se aplicada, é fragil.  Se a Assembleia Legislativa não aprovar orçamentos que cubram efetivamente as despesas da universidade, estaremos sempre nas mãos do governador que estiver ocupando o cargo. Além disso, autonomia financeira pressupõe muita responsabilidade, vejamos o que aconteceu com as universidades paulistas, que têm autonomia financeira vinculada a percentual do orçamento, tem a responsabilidade com relação aos aposentados. A USP criou um fundo de segurança que chegou a ter R$ 3 bilhões. E mesmo assim passaram muito aperto nos últimos anos, não conseguindo repor quadros, financiar projetos. E hoje, inclusive na Unesp, se fala em fechar alguns campi. Como será o debate sobre reposição salarial com autonomia fragilizada?

Silvério – A Uenf traz em seu DNA uma herança de lutas e conquistas, herdadas de seus idealizadores e fundadores, professores, cientistas, técnicos, estudantes, políticos, empresários e o povo de Campos e região, que sempre estiveram presentes com seu apoio nas horas necessárias. Com esse trabalho coletivo a Uenf chegará lá. Todos os reitores trabalharam para viabilizar a autonomia financeira da Uenf. Todavia, houve avanços e retrocessos. Agora, na gestão do professor Passoni, houve a aprovação dos duodécimos na Alerj, o que sem dúvida é um passo importante para a Uenf. Mas é necessário que isso seja viabilizado pelo Governo do Estado.

 

Folha – A pesquisa e a extensão, assim como o ensino gratuito e de qualidade, estão no tripé pensado por Darcy Ribeiro à Uenf. Como vê hoje essas três atividades?

Raimundo – A universidade gera novos conhecimentos através da pesquisa, forma profissionais de qualidade pela graduação e pós-graduação, monitora a qualidade do meio ambiente nas vizinhanças, oferece cursos anuais para produtor rural desde a nossa administração e estuda a qualidade de vida da população da região através da extensão, além de formar e treinar profissionais para a Petrobras. Assim, a Uenf assumiu parceria importante na busca de caminhos alternativos para a nossa sociedade, inclusive quando não existir mais petróleo, que é um recurso natural finito. Portanto, essas três atividades encontram-se consolidadas e em pleno desenvolvimento na Uenf. Nos seus primeiros 11 anos de intensa existência, tempo muito curto para a vida de uma universidade, as atividades da Uenf concentraram-se na consolidação de seus cursos de graduação, dos programas de pós-graduação e na criação e fortalecimento dos grupos de pesquisa, que permitiram ao CNPq classificar a Uenf em primeiro lugar no cenário nacional na composição qualificada do número de doutores.

Almy – As atividades de ensino-pesquisa-extensão na Uenf ocorrem de um modo muito particular, talvez tenhamos um dos melhores no cenário acadêmico nacional, com uma extensão pujante. Entretanto, precisamos investir mais na qualidade do ensino e das pesquisas universitárias. Precisamos estar mais antenados com as mudanças que o mundo tem exigido. Neste ponto me preocupa muito o que estamos ensinando e como nossos jovens estão se preparando para o mundo, que cada vez mais exige menos diplomas e mais habilidades para o trabalho.

Silvério – A Uenf continua reconhecida pelo MEC como uma das melhores universidades brasileiras, no ranking nacional baseado no IGC (Índice Geral de Cursos da Instituição), que compila num único índice uma série de parâmetros de qualidade da totalidade dos cursos de graduação e pós-graduação. Tem um programa robusto na extensão universitária, tem uma iniciação científica muito forte, premiada várias vezes pela Capes. Todavia, dentro de seus 26 anos, a Uenf passou por diversos momentos de dificuldade.  A partir de outubro de 2015, houve o agravamento desse quadro, piorando ainda mais  em 2016 e 2017, com a falta de verbas suficientes para o custeio das atividades básicas e essenciais da universidade, assim como para os pagamentos dos servidores professores, técnicos administrativos, estudantes bolsistas e das empresas prestadoras de serviços, além da paralisação de muitos projetos de pesquisa, devido aos atrasos na liberação dos recursos da Faperj.

 

Folha – Desde sua fundação, em 1993, a Uenf sofre críticas por ser “olímpica”, afastada do cotidiano de Campos e região. O que esse olhar tem de certo e errado? Algo mudou nos últimos 26 anos? 

Raimundo – A nossa administração tentou buscar e ampliar ao máximo a nossa integração com a comunidade do Norte e Noroeste Fluminense, tanto com os poderes públicos, quanto com a iniciativa privada e órgãos representativos da sociedade civil.  Para nós, a comunidade externa e seus problemas sempre foram fontes de reflexão, inspiração e estímulos. É natural que cada cidadão sinta orgulho e defenda a universidade pública como um patrimônio seu, querendo uma convivência máxima na sua vida cotidiana. A convivência inicial da Uenf revelou-se aparentemente arrogante e conseguimos reduzir significativamente tal situação injustificável, procurando trazer a comunidade para conviver através da oferta de cursos e programa de atividade de extensão e participando de todos eventos realizados na cidade e região.

Almy – Este é o grande desafio de todas as universidades brasileiras. Várias delas estão em regiões que reclamam da ausência. Precisamos estar mais presentes nas ações do dia a dia, mas o que fará a diferença é o modelo de desenvolvimento que a região busca. Vou citar um exemplo da minha área, a agronomia: a Uenf nunca estará presente efetivamente na região se esta, a região, não tiver mecanismos que, primeiro, reconheça o diferencial e busque mecanismos para os profissionais formados pela nossa universidade continuem na região.

Silvério – Reconhecemos a dificuldade que a Uenf teve para se integrar à cidade nos primeiros anos e ainda tem.  Todavia, olhando para o futuro e pensando no presente, observamos um crescente número de estudantes de Campos e região que participam do curso de pré-vestibular, dos diversos cursos de graduação e da pós-graduação. Além dos egressos da Uenf fazendo a diferença aqui em Campos e região, diversos projetos de extensão, com participação da comunidade campista, e a Agência de Inovação incentivando incubação de novas empresas. É um processo lento, porém capaz de transformar a sociedade e a própria universidade.

 

Folha – Antagonizada publicamente pelo presidente Bolsonaro e boa parte dos seus eleitores, a universidade pública é encarada como domínio e centro de doutrinação da esquerda. Em que essa visão está correta ou equivocada? Por quê?

Raimundo – A verdadeira esquerda brasileira estava sendo construída por Leonel de Moura Brizola, Darcy Ribeiro. Os dois construíram a Uenf e criaram o programa Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). Isso sem falar de Miguel Arraes, Valdir Pires, entre outros, que foram realmente perseguidos e tiveram que se ausentar do país pela imposição do regime ditatorial. Os cortes orçamentários e os contingenciamentos de recursos adotados pelos governos brasileiros nas dotações orçamentárias dos Ministérios de Educação (MEC) e de Ciência e Tecnologia (MCT) representam ameaças permanentes para a manutenção do ensino de qualidade oferecido pelas universidades públicas e para a sobrevivência de grupos de pesquisa formados através de grande esforço e dedicação individuais e institucionais. A relação de aproximadamente 500 pesquisadores no Brasil para cada milhão de habitantes é muito diferente da observada em outros países. Na Coréia do Sul esta relação é de 2.000 e no Japão de 6.000. A ausência de uma política consistente para o desenvolvimento educacional, científico e tecnológico no país contribui para a permanência de um ambiente desarticulado para a ciência e a tecnologia, provocando uma disritmia no processo de formação de recursos humanos e no sistema de atividade de pesquisa. No Brasil programa-se muito, investe-se pouco e não se cobra quase nada.

Almy – O momento político brasileiro, tanto de um lado quanto do outro, não tem dado espaço para debates mais produtivos.  A imagem de que tudo é “à esquerda” dentro das nossas universidades tem fundamento no caráter questionador que a ciência tem e, às vezes, em movimentos reivindicatórios corporativos.  De qualquer modo, é preciso trabalhar melhor, internamente, fazer uma autocrítica e deixar claro qual é nossa missão, com a construção do conhecimento, com o rigor científico, devolver à sociedade jovens com capacidade de promover mudanças que todos nós queremos e com autonomia e visão tecnológico-científica, antenados com um mundo que exige transformações rápidas. Evitar a partidarização, à esquerda ou à direita, é hoje o nosso maior desafio, não só nas universidade quanto em qualquer autarquia pública. Mas, as universidades estão sempre questionando modelos, na China, atualmente, questionam o modelo de desenvolvimento considerado à esquerda.

Silvério – Esta visão está equivocada. Mesmo que haja problemas em casos específicos, nas universidades impera um ambiente democrático, com diversidades de pensamentos e de ideias.  A falta de prioridade dos governantes com relação à educação, ciência, tecnologia e inovação, compromete o presente e o futuro, indo na contramão do desenvolvimento do país.  É sabido que a sociedade só se transforma positivamente com investimentos em educação, ciência e tecnologia, fato comprovado pelos exemplos de sucesso de muitos países que priorizaram investimento em educação e hoje estão recebendo os dividendos social e econômico.

 

Folha – Não só o Brasil, mas o mundo vive um negacionismo da ciência. Fatos científicos como o aquecimento global pela ação humana, a validade das vacinas, a ida do homem à Lua e até a forma redonda da Terra, hoje são abertamente questionados. Como a ciência deve reagir a esse obscurantismo?

Raimundo – Tais problemas podem ser resolvidos mediante um sistema educacional competente, amplo e consistente.

Almy – A ciência deve agir como sempre agiu, com o método e o rigor científico. Isso pereniza é o que tem garantido os fabulosos avanços que impactam positivamente a vida de todos nós. O momento é tenso, leigos questionando fortemente ações de quem se preparou para o tema é algo muito complexo. Se as universidades se fortalecerem no princípio científico, com a qualidade devida, este será apenas um momento de questionamentos e transição para um modus operandi que venha a superar o ceticismo advindo da desinformação.

Silvério – Com o avanço da tecnologia de informação, as pessoas passaram a ter acesso a muitas informações verdadeiras e falsas, em curtíssimo espaço de tempo.  Desta forma, não há tempo suficiente para uma análise mais profunda. Muitas vezes as pessoas não têm formação adequada para entender estas informações e são levados a acreditar em coisas irreais. Encontrar uma estratégia de combate às informações falsas é um desafio neste momento.

 

Folha – Em períodos de dificuldade, como a crise financeira do estado do Rio em 2017, quando a Uenf teve salários atrasados e parte de seus profissionais recorreu (aqui) à doação de cestas básicas para sobreviver, a universidade é questionada por não ser mais aberta à iniciativa privada. Como vê a questão?

Raimundo – O estabelecimento de uma interação das universidades com empresas não será alcançado sem a adoção de uma política consistente de investimento do empresariado em atividades de pesquisa e desenvolvimento, utilizando os conhecimentos apropriados decorrentes das investigações universitárias. Em tal contexto ampliado com a participação de diversos atores públicos e privados interessados, detectou-se imediatamente a necessidade do estabelecimento de mecanismos efetivos de transferência de tecnologia para permitir a tradução do conhecimento gerado na Uenf em bens tangíveis e intangíveis, transformando-os em empreendimentos com capacidade de atuação como uma das molas propulsoras para o desenvolvimento regional. A título de exemplo, veja o que ocorreu nos Estados Unidos com as patentes, que constituem produtos típicos do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento, através da aplicação de conhecimentos produzidos no ambiente acadêmico: das mais de 53 mil patentes registradas nos EUA em 1994, apenas 3% surgiram das atividades universitárias. Para nós, a comunidade externa e seus problemas constituem fontes de reflexão, inspiração e estímulos para atividades de pesquisa e para a formação do profissional cidadão que desejamos. Estou convicto de que é através da sintonia com os problemas e as demandas da sociedade que a universidade se torna capaz de formar não apenas o profissional, mas também cidadão apto a dar conta das necessidades do setor produtivo e dos desafios sociais.

Almy – Este é um problema mais complexo, no nível da autonomia universitária. Temos que fazer uma autocrítica, boa parte dos nossos movimentos internos universitários têm muitas dificuldades para entender e/ou apoiar parcerias com empresas privadas. O modelo universitário brasileiro tem muitas dificuldades com captação de recursos da iniciativa privada. Primeiro porque boa parte do que a iniciativa privada usa de tecnologia  desenvolvida em outros países, que acabam por financiar o desenvolvimento científico nas matrizes das multinacionais. Outra que tanto nossas universidades quanto o setor empresarial têm enormes dificuldades de comunicação. Mas temos coisas boas, se observarmos no RUF, num ranking com 198 universidades, a Uenf é a 23ª em publicações de artigos em colaboração com empresas.

Silvério – A Uenf é uma construção inspiradora, de diferentes pontos de vista. Do ponto de vista acadêmico, a universidade propôs inovar em termos de estrutura organizacional, especialmente substituindo os antigos departamentos por laboratórios transdisciplinares, entre outras inovações propostas por Darcy Ribeiro, como o quadro de professores, todos com doutorado e dedicação exclusiva. Defende o ensino público, gratuito e de qualidade.  É considerada uma das melhores universidades do país. A instituição tem que procurar, não somente em época de crise, outras parcerias com órgãos federais, estaduais e municipais e empresas privadas. Estes projetos e convênios são viabilizados pelas partes na Agência Uenf de Inovação (AgiUenf) para os devidos trâmites nos colegiados da universidade. A integração com todos os setores é sempre bem vida.

 

Folha – A Uenf saiu da eleição a reitor talvez mais disputada da sua história. Há quem tenha visto a vitória apertada de Raúl Palacio como o triunfo eleitoral dos técnicos e alunos sobre os professores. Houve uma luta de classes no pleito de 2019? Como cicatrizar as feridas?

Raimundo – O processo eleitoral da Uenf obedece à correspondente lei constitucional do Darcy Ribeiro: 70 % docentes, 15 % servidores não docentes e 15 % discentes. Assim, se a lei foi obedecida, não existe qualquer possibilidade de alguém ser eleito somente com votos de servidores não docentes e discentes, que totalizam 30%. Nestas circunstâncias, só se pode justificar tal resultado com base na ausência de docentes no processo eleitoral.

Almy – Eleições sempre são momentos de grande energia, às vezes com ações que não devem acontecer. Não vejo esta eleição com luta de classe, talvez precisamos clarear mais o projeto institucional com foco na formação, no desenvolvimento científico e tecnológico e na captação de recursos financeiros. Todos, cada um na sua função, estão inseridos nisso. Entendo que o tempo, e as ações dos vencedores do pleito, podem levar a um ambiente mais harmônico. A cicatrização só será possível com o engajamento de todos nas ações da universidade, no trabalho do dia a dia e com metas bem estabelecidas.

Silvério – Foi a vitória da democracia. Devemos combater preconceitos e respeitar a vontade da maioria e o resultado da eleição. O reitor eleito é para toda universidade; ele deve administrar para o bem comum. Deve respeitar e valorizar a experiência de todos que lutaram e continuam lutando para a consolidação da Uenf, na busca de uma universidade produtiva, mais humana, mais participativa. Também deve valorizar a inteligência e a garra dos jovens que representam o presente e o futuro desta universidade.

 

Folha – O jornalista Elio Gaspari volta e meia escreve missivas imaginárias de líderes do passado aos do presente. Se tivesse que escrever uma carta ao reitor eleito, o que diria?

Raimundo – Recomenda-se a preocupação permanente com a manutenção, fortalecimento e consolidação das atividades acadêmicas e científicas da instituição, respeitando sempre a hierarquia institucional e atendendo permanentemente as exigências do processo evolutivo e as necessidades e aspirações da sociedade. Nunca esquecer que a universidade é inquestionavelmente um patrimônio da sociedade e independente de pretensões partidárias, sindicalistas e outras entidades reivindicatórias personalizadas.

Almy – Difícil tal ação (risos).  Mas diria: foco na capacitação técnico-científica dos nossos estudantes. A sociedade e nosso principal “produto”, o estudante, não vão nos perdoar, se não fizermos isso.  Precisamos de um plano de metas bem claro, a defesa pura e simples da universidade pública e gratuita não nos ajuda mais. Precisamos prestar contas sempre. O Sistema de Pós-Graduação Brasileiro, com metas bem estabelecidas, com foco na qualidade científica, já é um caminho. As ações administrativas e respeito aos procedimentos democráticos é que nos levará a passar por este momento difícil.

Silvério – Diria que, em respeito a todos aqueles que lutaram pela fundação e pela existência da Uenf com qualidade, tenho a certeza de que ela resistirá, e sairá deste período de crise mais fortalecida e preparada para novas conquistas. Que é necessário encarar a realidade atual, a crise econômica no país e, principalmente, no Estado do Rio de Janeiro, conforme alerta da CPI da Crise Fiscal da Alerj, e se colocar a serviço da comunidade universitária, independentemente do apoio ou não que recebeu nas eleições. Conclame a todos para se colocar a serviço da plenitude de todas as nossas potencialidades e seguir em frente, pois ainda temos muito que avançar. Busque novas estratégias, trabalhando de forma integrada com toda comunidade universitária e a população de Campos e região, para que se mantenham em mobilização, com determinação, lucidez e capacidade. E que não fiquemos conformados em lamentar as dificuldades. Mas, ao contrário, que possamos aprimorar rotinas, articular e empreender novos caminhos e continuar, cada um de acordo com sua aptidão, a defender o presente e o futuro da Uenf, que é uma obra-prima, uma joia rara, uma riqueza inesgotável, um bem público que tem muito a contribuir para o desenvolvimento social e econômico da região, do estado e do país. A percepção da riqueza deste processo é o que garante o respeito e a reverência à instituição, independentemente das controvérsias ou disputas que ocorrem no ambiente de uma universidade.

 

Folha – Incluindo seu tempo como reitor, de onde veio a Uenf? Onde está e para onde vai? O que o passado da universidade deve ensinar ao presente e ao futuro?

Raimundo – Todos nós sabemos que a Uenf surgiu de movimento de anseios e empenho da sociedade campista e da capacidade criativa e política de Darcy Ribeiro e Leonel de Brizola. A administração da Uenf deve trabalhar intensamente no fortalecimento, consolidação e desenvolvendo de programas e parcerias para o desenvolvimento municipal, regional e estadual, preservando sempre a atuação profissional nas três atividades de ensino, pesquisa e extensão, envolvendo a formação de recursos humanos qualificados e geração de novos conhecimentos. Os docentes ocupantes de cargos administrativos não podem descuidar das necessárias atividades científicas essenciais para manutenção do mérito profissional através de publicações de artigos, apresentações de trabalhos em reuniões científicas nacionais e internacionais e orientações/coorientações de alunos.

Almy – No preâmbulo do volume 1, do Plano Orientador da Uenf, escrito por Darcy Ribeiro ele diz: “Dos planos que fiz, nenhum se cumpriu como fora pensado. Mas sua existência deu coerência e diretriz à vida universitária que prefigurou. O futuro, felizmente, é sempre imprevisível e surpreendente. Sendo assim, saúdo daqui a Universidade Estadual do Norte Fluminense, que há de ser, no mundo das coisas, tal como a história a fará. Desejando que dê ouvidos para as diretrizes que proponho e que faça suas as ambições generosas que lhe atribuo”. Darcy queria uma universidade pautada pela ciência. Ele, em princípio, queria uma universidade para formar doutores. Sinto que estamos desviando este caminho, temos que retomar, com bases no que o mundo está nos exigindo. Precisamos de protagonismo dos estudantes na formação deles próprios. E isso só se consegue com disciplina, trabalho e foco. Temos uma fragilidade emocional atualmente que tem sido barreira para que este protagonismo floresça.

Silvério – A Uenf é uma construção coletiva singular, cuja história está cheia de personalidades célebres e heróis anônimos. A universidade nasceu de um movimento popular, que se organizou e conseguiu incluir a criação da Instituição na Constituição do Estado de 1989, recorrendo ao mecanismo de emendas propostas pelo público. O sucesso deste esforço cívico significou uma grande quantidade de energia gasta por um grande número de pessoas. Hoje é uma instituição de ensino reconhecida no Estado do Rio de Janeiro, no país e internacionalmente. No futuro, espero uma instituição que tenha se expandido para outros municípios, conforme previsto em seu projeto de criação, com cursos atuais consolidados e criação de novos cursos e mantida a excelência no ensino, pesquisa, extensão e inovação.

 

Folha – O que pensa de iniciativas como a mesa de debate “Os Desafios Institucionais da Uenf em Perspectiva Histórica”, que se dará a partir das 18h desta quarta (09), reunindo o senhor, outros dois ex-reitores, o atual reitor e o eleito, promovido pelo cientista político e professor da universidade Hamilton Garcia, com apoio do Grupo Folha?

Raimundo – O programado debate “Os Desafios Institucionais da Uenf em Perspectiva Histórica” é uma proposta oportuna e positiva, já que a universidade precisa sempre ser repensada, discutida e avaliada para continuar no pleno atendimento da importante missão que lhe é conferida.

Almy – Achei a iniciativa excelente, infelizmente estarão ausentes ex-reitores nos quais destaco o primeiro, professor Wanderley de Sousa, tão importante na gênese da nossa Uenf; e o primeiro eleito, professor Salassier Bernardo. Acredito que a iniciativa e a liberdade para debatermos o que podemos fazer para sair do estado das coisas que estamos é fundamental para o desenvolvimento da Uenf e da região.

Silvério – Será uma excelente oportunidade para os ex-reitores, reitor atual e o reitor eleito compartilharem experiências e contribuírem no diagnóstico dos problemas a superar pela nova reitoria. Parabéns ao professor da universidade Hamilton Garcia e ao Grupo Folha pela iniciativa.

 

Para ler ou reler a entrevista com o professor Raúl Palacio, logo após sua eleição como reitor da Uenf, confira aqui.

 

Publicado hoje (08) nas páginas 6 e 7 Folha da Manhã

 

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