Opiniões

Arthur Soffiati — Rio Paraíba do Sul morre em vão na poluição do Grande Rio

 

Poluição do rio Guandu, que recebe 2/3 das águas desviadas do rio Paraíba do Sul, causando o fechamento da sua foz e o avanço do mar em Atafona

 

 

Arthur Soffiati, ecohistoriador

A morte em vão do Paraíba do Sul

Por Aristides Soffiati

 

Se um doador de sangue perde 2/3 numa transfusão em benefício de uma pessoa que não precisa tanto assim, o doador morre em vão, pois o receptor, além de receber mais sangue do que o necessário, é um contumaz consumidor de drogas pesadas que contaminam o organismo. Um provérbio chinês diz: “Um peixe mal preparado deu sua vida em vão”.

Pela barragem de Santa Cecília, o antigamente pujante Paraíba do Sul doa 2/3 do se sangue ao pequenino rio Guandu a fim de abastecer a cidade do Rio de Janeiro com água potável. A grande estação de tratamento de água (ETA) do Guandu aproveita menos da água que é transposta. Ela é também usada pelas indústrias instaladas na bacia do Guandu, além de ser intensamente poluída por esgoto urbano e por rejeitos industriais. O sangue do Paraíba do Sul oferecido aos cariocas está saindo com cheiro, cor e gosto não correspondentes à água potável. A Cedae, que faz o tratamento, contudo, garante que o sangue é bom.

Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) alertam sobre a grande poluição que sofre a bacia do Guandu por lançamento de esgoto e resíduos industriais. Esses dejetos provocam o acúmulo de matéria orgânica em decomposição, que estimula a produção excessiva de cianobactérias, principalmente. Elas geram geosmina e o 2-metilsoborneol, que conferem odor e sabor à água. Mas ninguém fala de onde vem a água do Guandu.

 

Foz do rio Paraíba fechada entre o antigo Pontal de Atafona e a antiga ilha da Convivência (Foto: Divulgação)

 

Mapa registra o que o mar ja levou de Atafona, desde que o desvio do rio Paraíba para o Guandu começou na barragem de Santa Cecília, em 1952

Em resumo, o Paraíba do Sul cede dois terços do seu sangue para que ele seja poluído no Guandu e maltratado pela Cedae. Todos perdem: o Paraíba do Sul quase morre depois da transfusão e a população do Rio de Janeiro recebe água de má qualidade. Mais ainda: a transposição de água do Paraíba do Sul em Santa Cecília fragmentou o rio em dois. Atualmente, o primeiro Paraíba do Sul nasce na Serra da Bocaina, como aprendemos nos livros de geografia, mas desemboca agora na baía de Sepetiba através do rio Guandu. A nascente do segundo coincide com a nascente do Paraibuna de Minas e foz em Atafona. Essas novas informações precisam ser divulgadas. Os dois Paraíba do Sul são ligados por uma vala estreita e poluída entre a barragem de Santa Cecília e a cidade de Três Rios, onde o Paraibuna de Minas e o Piabanha, desembocam no Paraíba do Sul II.

Em 1785, o capitão-cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis informava que a foz do Paraíba do Sul era problemática para a entrada e saída de embarcações. Era preciso esperar a maré alta e os ventos favoráveis para navegá-la. E, nessa remota data, a bacia do Paraíba do Sul era coberta por vastas florestas, não tinha suas margens tão ocupadas por lavouras e pastos, não era densamente urbanizada nem tinha os leitos dos rios barrados para a geração de energia elétrica e para outros fins. Sobretudo, não tinha 2/3 de suas águas transpostos para outro rio.

A bacia hoje sofre muitos problemas. O mais grave deles é, sem dúvida, a transposição de Santa Cecília. Com a perda de vazão, na foz, o equilíbrio já instável entre mar e rio tornou-se mais acentuado. O aproveitamento do antigo rio Água Preta para a abertura do canal do Quitingute desativou os braços auxiliares de Grussaí e Iquipari. O conjunto das obras de drenagem desativou também a lagoa do Açu. Todos integravam o grande delta do Paraíba do Sul. Nas estiagens, o rio desaguava por dois braços: o de Atafona e de o de Gargaú. Nas enchentes, por cinco. Atualmente, apenas pelo de Gargaú. O de Atafona se fechou por insuficiência do rio em mantê-la aberta e por força do mar em fechá-la.

E a água transposta para o Guandu está sendo muito poluída pela urbanização desordenada e pelas indústrias. A estação de tratamento do Guandu carece de reformas e de modernização. A despoluição do Guandu está orçada em R$ 1,4 bilhão. Entende-se que a cidade do Rio de Janeiro não tem fontes de abastecimento para consumo público e não pode mais prescindir do rio Guandu. Por extensão, a cidade não pode mais viver sem o rio Paraíba do Sul. No entanto, o sangue que o Paraíba transfunde para o Guandu está sendo contaminado e não agrada os consumidores de água da cidade do Rio. O sistema deve ser repensado. O uso das águas do Paraíba do Sul deve ser otimizado em todos os lugares onde é usada. A cidade do Rio de Janeiro deve pagar royalties pela água que usa do Paraíba do Sul. O volume transposto deve ser reduzido e otimizado. Entende-se que houve descuido e desprezo com o Paraíba e com todos os rios do Brasil no passado e ainda no presente. Já passou o momento de um grande trabalho conjunto de revitalização.

Segundo a ONU, dois terços dos rios do mundo estão barrados. Eles não correm mais livremente. Não têm mais o mesmo volume. Revitalização não é uma simples proposta de ambientalista, mas uma premente necessidade econômica e social.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

Este post tem 3 comentários

  1. Parabéns pela publicação. Mas também precisamos exigir dos governantes dos Municípios que integram a bacia do Rio Paraíba do Sul, que coloquem nas suas metas de governança ações que visem salvar o Paraiba. Os eleitores devem ficar atentos às propostas dos candidatos a Prefeitos deste Municípios.

  2. A grande mídia carioca só fala no Guandu. Não sei o motivo, uma vez que sabem muito bem de onde vem a água.

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