Pesos e medidas da PF de Campos
Logo após a Telhado de Vidro ter sido deflagrada em Campos, em 11 de março de 2008, o vereador Marcos Bacellar (PDT), então presidente da Câmara, veio a público denunciar que o hoje candidato a vereador Edson Batista (PTB) o teria procurado dois dias antes, como emissário enviado pessoalmente por Anthony Garotinho (PR), para tentar negociar o rearranjo político do município, a partir do grande impacto que seria causado (como de fato foi) pela operação cujo conhecimento prévio deveria ser restrito aos órgãos federais de atuação judicial em Campos.
Com o passar do tempo, mudaram os desafetos e os aliados. O ex-prefeito Alexandre Mocaiber e alguns dos seus principais assessores, execrados publicamente por Garotinho, encontraram abrigo no colo do seu grupo político e da sua esposa. Já alguns parceiros umbilicais de antes, como a prefeita sanjoanense Carla Machado (PMDB), foram transformados em desafetos figadais. O que não mudou, no entanto, foram as aparentes coincidências entre o que Garotinho anuncia em tom de ameaça contra seus adversários e aquilo que a realidade se encarrega de cumprir não muito depois.
No último dia 30 de junho, na convenção do PR em São João da Barra (SJB), que lançou o ex-prefeito Betinho Dauaire (tradicional opositor convertido em aliado) à sucessão de Carla, Garotinho disse textualmente, sem se importar em ser filmado: “Há uma quadrilha instalada na Prefeitura de SJB, e a chefe desta quadrilha chama-se Carlinha Machado. Vocês não tenham dúvida, isto aqui vai terminar igual terminou em Campos: secretário preso, prefeito preso. E antes que a eleição termine, depois vocês me digam aí, vai ter um grupo grande da prefeita passando uma temporada lá em Bangu I”.
Pois pouco mais de 90 dias depois, na noite da última terça, a apenas cinco dias da eleição na qual o vereador Neco (PMDB), candidato apoiado por Carla, segue tão favorito nas pesquisas quanto a prefeita Rosinha (PR) em Campos, mais uma profecia de Garotinho foi cumprida quase integralmente. Carla realmente foi presa, pela mesma Polícia Federal (PF) que quatro anos antes prendera secretários do governo Mocaiber. E talvez não seja irrelevante a constatação de que, baixada a poeira do inevitável (e insanável) estrago político, nenhum deles foi condenado pela Justiça.
Bem verdade que a prefeita de SJB, pelo menos por enquanto, ainda não foi para Bangu I, mas passou a madrugada de ontem presa na Delegacia da PF de Campos, de onde saiu no início da manhã, após pagar fiança, prometendo questionar na Corregedoria do órgão vários pontos da operação montada para prendê-la. Por sua vez, a PF prometeu divulgar hoje dois CDs com vídeos e áudios que comprovariam os crimes eleitorais que teriam sido cometidos pela situação sanjoanense.
Se o Ministério Público Eleitoral de SJB denunciar e, sobretudo, se a Justiça Eleitoral de SJB condenar Carla e seu grupo com a mesma certeza com que fez ontem, em entrevista coletiva, o delegado titular da PF em Campos, Paulo Cassiano Júnior, este merecerá aplausos por sua ação, assim como merecem os policiais federais do Rio, o Ministério Público Federal do Rio e a Justiça Federal do Rio, que juntos conseguiram impor a Garotinho sua condenação como líder de quadrilha armada.
Todavia, mesmo que Carla venha a ser também condenada como chefe de quadrilha, confirmando o discurso do deputado federal em 30 de junho, ecoado ontem pelo delegado federal de Campos, o que qualquer um, político, jurista, delegado ou o simples cidadão leigo poderá questionar é por que esse mesmo rigor da PF local não se deu, por exemplo, na apreensão de R$ 318,2 mil, na antevéspera da eleição municipal de Campos em 2004, que seriam usados para compra de votos e estavam na sede do PMDB — então partido de Garotinho, que lá dentro se encontrava?
Certo que, à época, o comando da PF em Campos era outro. Muito embora fosse o mesmo de hoje, na Operação Cinquentinha, que comprovou compra de votos na eleição de 2008, nos distritos de Morro do Coco e Vila Nova, para a então candidata Rosinha Garotinho. No caso, talvez fosse cabível questionar: mesmo tendo nomeado logo após tomar posse, como seu subsecretário de governo, um dos principais envolvidos (Thiago Calil) na compra de votos faturados à sua candidatura, como Rosinha conseguiu não ser indiciada ou sequer chamada para prestar nenhum esclarecimento na mesma delegacia em que Carla passou uma madrugada presa?
Publicado na edição de hoje da coluna Ponto Final, da Folha da Manhã.















