O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?


 

 

 

Sociólogo Demétrio Magnoli
Sociólogo Demétrio Magnoli

A lista do PT

Por Demétrio Magnoli

Lula só pensa naquilo. Diante das vaias (normais no ambiente dos estádios) e dos xingamentos (deploráveis em qualquer ambiente) a Dilma Rousseff na abertura da Copa, o presidente de facto construiu uma narrativa política balizada pela disputa eleitoral.

A “elite branca” e a “mídia”, explicou, difundem “o ódio” contra a presidente-candidata. Os conteúdos dessa narrativa têm o potencial de provocar ferimentos profundos numa convivência democrática que se esgarça desde a campanha de ataques sistemáticos ao STF deflagrada pelo PT.

O partido que ocupa o governo decidiu, oficialmente, produzir uma lista de “inimigos da pátria”. É um passo típico de tiranos — e uma confissão de aversão pelo debate público inerente às democracias. Está lá, no site do PT, com a data de 16 de junho (Leia AQUI).

O artigo assinado por Alberto Cantalice, vice-presidente do partido, acusa “os setores elitistas albergados na grande mídia” de “desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior” e enumera nove “inimigos da pátria” — entre os quais, este colunista.

Nas escassas 335 palavras da acusação, o representante do PT não cita frase alguma dos acusados: a intenção não é provar um argumento, mas difundir uma palavra de ordem. Cortem-lhes as cabeças!, conclama o texto hidrófobo. O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?

O artigo do PT é uma peça digna de caluniadores que se querem inimputáveis. Ali, entre outras mentiras, está escrito que os nove malditos “estimulam setores reacionários e exclusivistas a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes”.

Não há, claro, uma única prova textual do crime de incitação ao ódio social. Sem qualquer sutileza, Cantalice convida seus seguidores a caçar os “inimigos da pátria” nas ruas. Comporta-se como um miliciano (ainda) sem milícia.

Os nove malditos quase nada têm em comum. Politicamente, mais discordam que concordam entre si. A lista do PT orienta-se apenas por um critério: a identificação de vozes públicas (mais ou menos) notórias de críticos do governo federal.

O alvo óbvio é a imprensa independente, na moldura de uma campanha de reeleição comandada pelo ex-ministro Franklin Martins, o arauto-mor do “controle social da mídia”. A personificação dos “inimigos da pátria” é um truque circunstancial: os nomes podem sempre variar, aos sabor das conveniências.

O truque já foi testado uma vez, na campanha contra o STF, que personificou na figura de Joaquim Barbosa o ataque à independência do Poder Judiciário. Eles gostariam de governar um outro país — sem leis, sem juízes e sem o direito à divergência.

Cortem-lhes a cabeça! A palavra de ordem emana do partido que forma o núcleo do governo. Ela está dirigida, imediatamente, aos veículos de comunicação que publicam artigos ou difundem comentários dos “inimigos da pátria”.

A mensagem direta é esta: “Nós temos as chaves da publicidade da administração direta e das empresas estatais; cassem a palavra dos nove malditos.” A mensagem indireta tem maior amplitude: no cenário de uma campanha eleitoral tingida de perigos, trata-se de intimidar os jornais, os jornalistas e os analistas políticos: “Vocês podem ser os próximos”, sussurra o persuasivo porta-voz do presidente de facto.

No auge de sua popularidade, Lula foi apupado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dilma foi vaiada na Copa das Confederações. As vaias na abertura da Copa do Mundo estavam escritas nas estrelas, mesmo se o governo não experimentasse elevados índices de rejeição.

O governo sabia que viriam, tanto que operou (desastrosamente) para esconder a presidente-candidata dos olhos do público. Mas, na acusação desvairada de Cantalice, os nove malditos figuram como causa original da hostilidade da plateia do Itaquerão contra Dilma!

O ditador egípcio Hosni Mubarak atribuiu a revolução popular que o destronou a “potências estrangeiras”. Vladimir Putin disse que o dedo de Washington mobilizou um milhão de ucranianos para derrubar o governo cleptocrático de Viktor Yanukovich. O PT bate o recorde universal do ridículo quando culpa nove comentaristas pela recepção hostil a Dilma.

Quanto aos xingamentos, o exemplo nasce em casa. Lula qualificou o então presidente José Sarney como “ladrão” e, dias atrás, disse que FHC “comprou” a reeleição (uma acusação que, nos oito anos do Planalto, jamais levou à Justiça). O que gritaria o presidente de facto no anonimato da multidão de um estádio?

Na TV Estadão, critiquei o candidato presidencial José Serra por pregar, na hora da proclamação do triunfo eleitoral de Dilma Rousseff, a “resistência” na “trincheira democrática”.

A presidente eleita, disse na ocasião, é a presidente de todos os brasileiros — inclusive dos que nela não votaram. Dois anos mais tarde, escrevi uma coluna intitulada “O PT não é uma quadrilha”, publicada nos jornais O GLOBO e “O Estado de S. Paulo” (25/10/2012), para enfatizar que “o PT é a representação partidária de uma parcela significativa dos cidadãos brasileiros” e fazer o seguinte alerta às oposições: “Na democracia, não se acusa um dos principais partidos políticos do país de ser uma quadrilha.”

A diferença crucial que me separa dos Cantalices do PT não se encontra em nossas opiniões sobre cotas raciais, “conselhos participativos” ou Copa do Mundo. Nós divergimos, essencialmente, sobre o valor da liberdade política e da convivência democrática.

Se, de fato, como sugere o texto acusatório do PT, o que mais importa é a “imagem do país no exterior”, o “inimigo da pátria” chama-se Cantalice. Nem mesmo os black blocs, as violências policiais ou a corrupção sistemática são piores para a imagem de uma democracia que uma “lista negra” semioficial de críticos do governo.

 

Leia mais sobre a “lista negra” do PT, aqui, no Blog do Bastos, único jornalista a noticiar o caso na blogosfera goitacá.

 

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Este post tem 13 comentários

  1. sandra santos

    Generalizar é muito perigoso,principalmente qdo se fala emm moral.

  2. Herval Guimarães

    Denise Abreu e Olavo de Carvalho no Conexão Denise Abreu
    Denise Abreu, pré-candidata a presidência da República pelo PEN51, Partido Ecológico Nacional, e o professor, filósofo e escritor Olavo de Carvalho fizeram em 19/06/2014 uma avaliação do panorama político nacional:

    – “luta de classes”
    – o decreto bolivariano 8.243/2014 que cria os sovietes no Brasil
    – Farc
    – Foro de São Paulo.
    -Comparação entre a Direita Americana e a Francesa
    -Gulag na U.R.R.S.
    -Pressão psicológica nas universidades brasileiras
    E muitos outros.
    Imperdível !!!

    https://www.youtube.com/embed/CPNli5YJ19w?autoplay=1

  3. Edi Cardoso

    como sabemos pela Historia da humanidade, basta que uma palavra que interesse faça o trabalho e ecoe de forma simpatizante na cabeça de um humano, desde que esta palavra vá ao interesse de uma pessoa ou grupo delas, para se fazer uma guerra.

    e aqui no Brasil, o grito de guerra já foi dado.
    E muitos,até sem conhecimento e causa, estão sendo usados como bois de piranha e se deixando levar por politicos inescrupulosos e ávidos pelo poder, usando o povo para fins próprio.
    Acredito que, na maioria dos casos, o POVO brasileiro está sendo manipulado para agir de forma tão reacionária.
    que o governo provocou a ira, provocou.
    Mas isso já vem de outras épocas. Nenhum outro foi melhor também. Farinhas do mesmo saco.

  4. Herval Guimarães

    ESCASSEZ NA VENEZUELA CHEGA ÀS FUNERÁRIAS E FALTAM ATAÚDES. DEFUNTOS FICAM ATÉ 3 DIAS INSEPULTOS SEM A URNA MORTUÁRIA.
    Por Aluizio Amorim

    Os ataúdes sumiram das funerárias. Há casos em que os defuntos permanecem até por três dias ou mais insepultos, criando uma situação dramática e constrangedora para a população.

    A Venezuela vai ficando cada vez mais parecida com Cuba. Um dos aspectos mais dramáticos da aventura bolivariana é a escassez imposta aos 30 milhões de habitantes que compõem esse país. Ironicamente, a Venezuela possui a maior jazida de petróleo do mundo, enquanto as prateleiras de lojas, supermercados e farmácias estão vazias.

    Falta de tudo. Desde uma simples caixa de palitos até um rolo de papel higiênico, passando por produtos de asseio pessoal, como sabonetes e desodorantes, além de coisas como esmalte de unha e tinturas para os cabelos. Tanto é que os homens já são obrigados muitas vezes a utilizar desodorantes femininos.

    Agora, segundo relata o site noticioso El Venezolano, começou a escassear as urnas funerárias, o que tem levado muitas famílias a postergar o enterro de seus familiares falecidos. Há casos, segundo consta, que os defuntos permanecem insepultos até por três dias ou mais, criando situações constrangedoras para essas famílias.

    Há igualmente notícias dando conta de que concessionárias de automóveis também estão começando a ficar vazias e faltam peças de reposição para os veículos o que indica que realmente a Venezuela está caminhando para uma situação similar à cubana.

    Transcrevo do site El Venezolano no original em espanhol matéria que relata o drama dos venezuelanos castigados pela ditadura chavista. Leiam:

    Um grande supermercado na Venezuela e as gôndolas vazias

    EN ESPAÑOL – Tintes para cabello, desodorantes, afeitadoras, piezas para equipos mecánicos, tapas plásticas para botellas y hasta ataúdes: la lista de productos que junto a alimentos y otros artículos básicos escasean en Venezuela debido al control de cambios y a la sequía de divisas es larga.
    “¡Ahora escasean los ataúdes! La gente que pierde a un ser querido prolonga su dolor buscando la urna”, dijo Roberto León, presidente de la Alianza de Usuarios y Consumidores de Venezuela (Anauco).
    La Anauco, organización de defensa del consumidor, acumula 15 denuncias de personas que han tardado hasta tres días en conseguir un ataúd en Venezuela, donde a las muertes naturales hay que sumar los homicidios, cuya tasa calculada por Naciones Unidas es de 53 por cada 100.000 habitantes, la segunda más alta del mundo.
    “Los insumos para fabricar los ataúdes empezaron a escasear desde marzo, la producción va a la baja: un fabricante de Caracas hacía 1.000 mensuales, ahora entre 600 y 700″, explica Tomás Rodríguez, presidente de la Cámara de Empresas Funerarias.
    “Registramos unos cuantos casos de familias que ante la dificultad de conseguir la urna, se olvidan del funeral y se llevan el cuerpo directo al crematorio”, sostiene por su parte el presidente de Anauco.
    • – ¿Maquillaje, desodorante, acetona…? “No hay”
    “Le llamé a mi mamá y le pregunté qué quería de regalito. ‘Desodorante’, me dijo. Traje una maleta llena y mi mamá es la mujer más feliz del mundo”, dice irónico José López, venezolano residente en Estados Unidos que visita Caracas.
    En una tienda de artículos de belleza, la empleada repite con aburrimiento “no hay” a clientas que acuden en busca de quitaesmalte, maquillaje, lápices y determinados colores de tintes.
    “Hace meses que no tenemos ni acetona, ni maquillaje, desaparecieron. Hay tinte, pero sólo dos o tres colores”, dice mientras muestra una estantería desbordada de cajas, pero todos del mismo tono.
    • Ni desodorantes, ni tornillos
    En ferreterías la respuesta es similar, no se consiguen tornillos o tuercas de determinado tamaño, por no hablar de piezas para automóviles, uno de los sectores más afectados.
    El desodorante se encuentra tras mucho buscar, pero sólo de una marca, para mujer y conocido por su “bolita mágica”, pero que no es del gusto del consumidor “porque huele a ‘antaño’”, observa José.
    “Hasta los hombres tenemos que usar desodorante de mujer porque es lo que hay.Tampoco hay repuestos de afeitadoras, sólo nuevas al triple del precio”, se lamenta el presidente de Anauco. Del sitio web El Venezolano

    http://bit.ly/TeTo1t

  5. Ronald

    Eu e outros leitores sempre falamos aqui nas páginas online deste jornal que este partido não tem nada de “democrático”, o PT sempre foi um partido comunista que vestiu a máscara de um partido moderado de esquerda, veja a lista do vice-presidente do PT O Alberto Cantalice como é esquizofrênica, na tal lista de que chama jornalistas e artistas de “conservadores” e “reacionários” NÃO TEM NENHUM CONSERVADOR, veja que a sociais-democratas como o Demétrio Magnoli, Marcelo Madureira e Arnaldo Jabor que são homens de esquerda, e a os liberais como Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Lobão e até Libertários como o Danilo Gentilli.

  6. Santos

    o Demétrio Magnoli, Marcelo Madureira e Arnaldo Jabor que são homens de esquerda, e a os liberais como Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Lobão e até Libertários como o Danilo Gentilli.
    Não gosto de ofender mas como as ofensas estão livres nos comentarios: este povo tem vizeiras com nome e sobrenome, Veja, Globo, Sbt,Band………………..Agora Jabor da Globo como homem de esquerda, uiiii esta esta doendo ate agora.

  7. marcelo soares

    Esta campanha tem deixado claro quem é quem no jogo politico, mais ainda, quem é quem na sociedade, chamar o PT de comunista, brincadeira, é o mesmo que chamar Chico Buarque de analfabeto.
    Está muito claro que a democracia está incomodando setores atrasados da sociedade, em tempos, de Comissão da Verdade, de investigações da Policia Federal, coisa que não existia no governo FHC e anteriores.
    Incomoda uma mulher, com história de combate a ditadura, na presidência, incomoda programa de transferência de renda, pois ninguém critica transferir recursos a empresários e banqueiros, até porque muita gente ganhou dinheiro na nossa região com dinheiro do Governo fechou usinas e estão bem obrigado enquanto milhares de trabalhadores ficaram com pires na mão.
    Esta eleição ainda não é uma luta de direita x esquerda precisamos avançar muito na politica ideológica mas a luta de quem quer continuar avançando socialmente, economicamente e politicamente e aqueles que querem voltar ao passado de preferência aos anos de chumbo para perpetuar suas mazelas.

  8. Ronald

    Santos, o único que botou alguma viseira ( com “s” e não com “z” viu) aqui foi você, pela sua excelente lógica, PETISTAS como Paulo Betti, Antônio Fagundes e José de Abreu(amigo particular de José Dirceu)que trabalham na GLOBO são o quê? Além dos mas, bom mesmo é a mídia pró-governo, como Record, carta capital, caros amigos, Diário do Centro do Mundo e fins, e outra, você pode espernear ,chorar, reclamar mas Arnaldo Jabor é sim de esquerda, ele mesmo se declara como tal, fora as asneiras que fala e escreve sobre o parido republicano(EUA) e do partido Conservador( britânico),além da paixonite agúda que tem pelo Obama que beira ao ridículo.

  9. Santos

    Caro Ronald, vc escreveu “parido republicano” ao invés de partido, isto acontece como trocar o “s” por “z”, quanto a logica não existe logica, existe opiniões diferente isto faz parte do regime democrático que pensamos e queremos no nosso pais. Cada um expõe suas opiniões da maneira que quer e lhe convier, isto é democracia e é bom que comecemos a pensar no seu aprimoramento, pois é urgente nos expor mais nas questões politicas do nosso pais. Realmente o Betti, Camila Ze de Abreu e muitos outros são sim simpatizantes do PT, agora a linha editorial da Globo, Record, SBT e Band são pró Aécio ou Campos, mas isto também faz parte do jogo, apenas não deveria ser tão descarado, mas……. Agora Jabor de esquerda é o mesmo que dizer FHC filho de general foi revolucionário que combateu a ditadura o que todo historiador sabe que é uma farsa. Jabor é a Miriam (trecho excluído pela moderação) de calças ou vice verça. O problema dos brasileiros é que são iguais a crentes fanáticos estão sempre a procura de um salvador da pátria, um fazedor de milagres, ex. disto foi a adoração ao desequilibrado Joaquinzão que vestido de capa de batman arrebatou corações arrependidos que votavam no PT, um homem que recebe a muito tempo da UERJ sem trabalhar e que comprou um APTO nos EUA com endereço de seu domicilio do STF o que é ilegal apenas para burlar o fisco dos EUA com uma firma de fachada, este é o homem ético pra endeusa?Isto sem falar nas supostas porradas na ex mulher, e olha que é apenas um exemplo de muitos caçadores de marajás, playboyzinhos e outras peças que neguim se apega para “expulsar a maior quadrilha do Brasil”. Opinião minha ate agora não apareceu alguém que faça melhor que o PT, mesmo com seus erros mas com grandes acertos de distribuição de rendas, agora com MP que vai ajudar nosso setor sucroalcooleiro assinado pela presidente para o RJ, mais médicos, investimentos maciços na educação ou sera que ninguém vê o crescimento assustador com varios polos regionais da UFF e IFF em Campos? poderia falar mais, mas falar muito cansa e enjoa agora Jabor de esquerda e de morrer de rir. E salve o regime democratico de direito onde ate é permitido mandar um presidente tomar…….

  10. Herval Guimarães

    A divisão de trabalho no Foro de São Paulo: como o Brasil serve de QG da revolução

    Desde o fim dos anos 1990, a América Latina vem passando por uma “onda” de governos de esquerda, considerados mais radicais ou mais moderados, conforme avaliação de suas políticas e discursos. Por muito tempo, o governo brasileiro foi considerado moderado e um player confiável para estabilizar a região. Em suma, um modelo de “pragmatismo” a ser seguido.

    Com os últimos eventos na Venezuela e o decidido apoio brasileiro à Maduro, no entanto, os principais analistas da mídia brasileira mostram-se confusos. Com Dilma, o Brasil teria dado uma guinada ainda mais à esquerda? Os afagos a Cuba teriam quais motivações?

    Em toda parte, há enorme grau de insatisfação com a atual política externa brasileira. Dilma é cobrada a se pronunciar sobre a violação dos direitos humanos pelo governo de Caracas e atuar como mediadora do conflito, o qual já fez mais de três dezenas de mortes e uma centena de prisões. Empresários reclamam do Mercosul (e sua intensa ideologização) e do imobilismo da política comercial em costurar acordos bilaterais com outros parceiros. Enquanto isso, o caso de espionagem dos EUA foi tratado de forma histérica com discursos tipicamente antiamericanos atrapalhando toda a agenda bilateral existente. Para aqueles que se surpreendem pelos posicionamentos do Brasil, é bom lembrar: há muito tempo nossa política externa saiu das mãos do Itamaraty para ser gerida pelo Foro de São Paulo[1].

    A crise na Venezuela apenas está explicitando novamente qual o papel do Brasil na região e dentro da estratégia do Foro.

    A Dialética do Foro e o sentido socialista da história
    O principal fator a ser observado em qualquer movimento revolucionário é a existência de duas faces: uma face visível e pública e outra clandestina ou discreta – onde fica o cérebro e o comando da operação. A parte visível faz a militância, promove a guerra cultural, proclama sentimentos nobres e posa de moderada enquanto defende e acoberta as ações da parte discreta, através da mobilização de meios legais, diplomáticos, jornalísticos.

    “Radicais” e “moderados”: todos “companheiros” por uma mesma distopia socialista.

    Há também sempre uma facção radical e histriônica que chama a atenção e desvia o foco, enquanto a facção considerada mais pragmática viabiliza as verdadeiras ações decisivas no processo de conquista do poder.

    Dentro deste panorama, a tradicional divisão entre os grupos de esquerda “moderados” e os grupos “radicais” é apenas estratégica e artificial, pois a falsa dissidência radical atua em unidade com os “moderados”. Essas divisões dentro da esquerda revolucionária – “público x discreto” e “moderados x radicais” – apenas provam sua vitalidade e multiplicam sua capacidade para ataques “desconexos” e “contraditórios”, os quais deixam os adversários paralisados ou os induz a reações que reforçam a própria esquerda, em um de seus pólos.

    No entendimento marxista, a história é dialética e movida por contradições. Portanto, a tarefa da vanguarda revolucionária é estimular as contradições para acelerar o “sentido da história”[2]. Por essa razão, a esquerda acaba dividindo-se em pólos “opostos”, mas que atuam em conjunto.

    Com esses conceitos, pode-se entender o papel desempenhado pelos países e seus governos esquerdistas no âmbito geral da cooperação dentro do Foro de São Paulo.

    A Cuba castrista é o símbolo ideológico e a unidade de inteligência estratégica do Foro. A Venezuela e a Argentina, cujos governos são fanfarrões e radicais, podem ser consideradas “pontas de lança” do processo, auxiliadas por satélites como Bolívia e Equador. Nesses países, o estágio de socialismo é avançado, com as instituições totalmente aparelhadas, economia subjugada pela burocracia estatal e um clima de controle social ostensivo, seja através da repressão governamental, seja através da ameaça de grupos pró-governo.

    Já o Brasil é o verdadeiro quartel-general da revolução latino-americana, dando cobertura para o avanço socialista no resto do continente. Ao nosso país cabe o papel de fornecedor de recursos – o “prestígio” e o peso econômico – para guarnecer a tomada de poder em outros lugares. É a face discreta e moderada do movimento.

    Essa divisão de trabalho implica na diversidade de “experiências socialistas”, que terão velocidades distintas dependendo da situação de cada nação. Porém, todas essas experiências apontam na mesma direção e nos mesmos objetivos: agem em unidade rumo à concentração de poder progressiva nas mãos dos revolucionários.

    Como as ações do Foro e de seus membros são dialéticas e na base da duplicidade, os grandes lances estratégicos e a radicalização dos processos socializantes se dão fora do QG central – o Brasil -, mas contam com sua complacência e cobertura.

    Protagonismo bolivariano e a discrição petista
    A Chávez sempre coube o protagonismo na criação e patrocínio de projetos políticos no subcontinente, entoando o “socialismo do século XXI” e o “sonho da Pátria Grande”, atribuído a figura histórica de Simon Bolívar. Com dinheiro do petróleo de sobra – graças ao boom das commodities – a Venezuela exerceu uma forte diplomacia pró-comunismo na América Latina, interferindo abertamente em países estrangeiros.

    Chávez passou a sustentar a ditadura cubana através da criação da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), um acordo o qual estabelecia o envio em massa de médicos cubanos para o país, enquanto a Venezuela abastecia a Ilha caribenha com petróleo barato.

    Posteriormente, Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Daniel Ortega (Nicarágua) também aderiram, complementando a aliança com alguns pequenos países do Caribe, que venderam seus apoios em troca de petróleo barato.

    Chávez também atraiu o casal Kirchner para o bolivarianismo comprando os títulos da dívida externa argentina (o que viabilizou a sua reestruturação após o calote) e fornecendo petróleo barato para a combalida economia platina. Graças a decisiva “solidariedade” chavista, o governo argentino pôde enfrentar seus credores e reestatizar diversas empresas estratégicas para controlar a economia do país.

    Já no Mercosul, a entrada da Venezuela, de forma concomitante com a decisão de suspensão do Paraguai, em junho de 2012, deixou claro que o Foro passou a mandar no bloco[3], o qual desde a ascensão de Lula e Kirchner, passou a ser uma instância de acomodação de interesses argentinos. A integração comercial perdeu espaço para um arranjo totalmente político, beneficiando os “companheiros”.

    Outro projeto multilateral do Foro capitaneado pelo chavismo foi a constituição, em 2008, da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Ali foram criadas diversas instâncias de planejamento estatal, na forma de conselhos para infra-estrutura, economia, energia, etc. Na atual crise venezuelana, é a entidade que monitora os “diálogos” e apóia Maduro contra a oposição.

    A Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) foi outra iniciativa chavista para incluir Cuba e excluir EUA e Canadá das discussões e, praticamente, substituir a OEA. A Celac passou a ser um palanque para discursos anti-EUA e de apoio à Cuba, feitos até por “moderados”, como Bachelet do Chile.

    No fim de janeiro de 2013, Rául Castro, ditador de Cuba, assumiu a presidência rotativa e os discursos dos Chefes de Estados da Celac deram o tom de hostilidade ostensiva contra os EUA. Cristina Kirchner, presidente da Argentina, falou que a liderança cubana marcaria “uma grande mudança” para a região.

    Na última Cúpula de janeiro de 2014, realizada em Havana, todos os chefes de Estado presentes ajudaram a endossar o bolivarianismo e Maduro[4]. Dilma aproveitou para condenar o “bloqueio cubano”, e depois inaugurar o Porto de Mariel – que conta com financiamento público brasileiro.

    Propaganda da oposição venezuelana mostra a “incoerência” daqueles que apoiam Maduro
    Foi Chávez também o responsável por dar guarida às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) quando o combate à guerrilha pelo governo Uribe estava no auge. O papel das Farc é essencial: além de um poderoso braço militar pronto a intimidar os inimigos, vê-se claramente que a marcha da revolução comunista no continente é financiada pelo narcotráfico[5], que avançou, principalmente, no Brasil, que saiu da condição de rota do tráfico para ser um grande mercado consumidor.

    Em 2013, relatório da ONU chegou a conclusão que o Brasil tornou-se o principal reduto de passagem de cocaína para a Europa. No mesmo relatório, chama atenção o fato de que em 6 anos, o consumo de cocaína no Brasil dobrou, alcançando o país a condição de segundo maior consumidor da droga no mundo, atrás apenas dos EUA[6].

    As Farc possuem relacionamento intenso com petistas graduados, e a diplomacia brasileira, através de Marco Aurélio Garcia, constantemente apóia o grupo nas “discussões de paz” com o governo da Colômbia. O Brasil jamais reconheceu-as como um grupo terrorista, mas a considera como “força beligerante” legitimando sua atuação, enquanto viabiliza uma saída “política” para a guerrilha.

    Nesse ponto, há duas estratégias: a primeira é transformar as Farc num partido legal. A segunda é legalizar sua fonte de receita, o que será conseguido com a legalização das drogas, levando as Farc a terem um quase monopólio do comércio na região[7].

    A diplomacia brasileira, enquanto brada um antiamericanismo caricato, acostumou-se a ceder em prol dos interesses de aliados do Foro. Tanto Evo Morales como Fernando Lugo ganharam as eleições com base em um discurso anti-imperialista contra o Brasil e suas principais promessas de campanha foram cumpridas graças a complacência do governo petista. Morales foi “agraciado” com as instalações da Petrobras – as quais foram encampadas pelo exercito boliviano, sem nenhuma reação do Brasil -, fundamental para que ganhasse legitimidade interna. O mesmo ocorreu com os acordos de Itaipu com o Paraguai, quando o Brasil passou a pagar mais pela energia. Rafael Correa, assim que se tornou presidente do Equador, também ameaçou dar calote em financiamentos providos pelo Brasil.

    O governo brasileiro deixou-se aparentemente conduzir em todos esses processos, nos quais, na verdade, liderou nas sombras e nos bastidores do Foro, apenas para não perder sua face “moderada” e de “mediador isento”. Em todos os casos, a disputa entre os “companheiros” era apenas uma fachada a encobrir as articulações no âmbito do Foro e desnortear os adversários.

    O recuo da vanguarda e o avanço da retaguarda: o Brasil petista mostra a sua cara… mais uma vez!
    O “modelo bolivariano” de gestão da economia, no entanto, tem cobrado seu preço e as economias venezuelana e argentina começaram a sofrer de graves problemas estruturais, colocando em risco a vanguarda do movimento.

    “O socialismo dura enquanto durar o dinheiro dos outros”, nos dizia Margaret Thatcher. O fracasso econômico bolivariano faz o Brasil assumir os fardos e tomar a dianteira do processo, mostrando a unidade entre os movimentos nacionais e arcando com custos da desestabilização econômica de Argentina e Venezuela: medidas protecionistas prejudicam as exportações de bens e serviços brasileiros para o mercado argentino e penalizam nosso setor industrial, enquanto imensos atrasos comerciais e confiscos cambiais são provocados pela Venezuela.

    Embora a Unasul tenha sido chamada para “mediar” o conflito, o governo brasileiro tem sido forçado a agir diretamente nos bastidores e tomar posições que evidenciam sua cumplicidade mafiosa com a vanguarda venezuelana. A retaguarda brasileira avança, expondo o flanco, ou seja, o compromisso com os “radicais”.

    Situação semelhante ocorreu quando da deposição de representantes do Foro no Paraguai e em Honduras, que precipitou reações rápidas e enérgicas das lideranças da esquerda latino-americana.

    O governo brasileiro não tem medido esforços para apoiar Maduro[8] e cala-se sobre o massacre de estudantes e opositores na Venezuela.
    O Brasil também tem sido forçado a aumentar seu apoio aos Castros para dar legitimidade ao processo de “abertura” do regime. Cuba tem recebido ajuda econômica fundamental com acesso a linhas de crédito para obras de infra-estrutura e importação de serviços e bens brasileiros: o comércio bilateral aumentou dez vezes desde que o PT chegou ao poder. Por fim, o programa “Mais médicos” é um verdadeiro “mensalão cubano” para sustentar o regime. Mas também não é possível duvidar da hipótese, altamente plausível, de que esse dinheiro poderia voltar ao Brasil na forma de “caixa 2″ para a campanha presidencial petista, cuja vitória é fundamental para os planos do Foro.

    Próximos lances no tabuleiro
    Se o governo de Maduro cair, será muito provável um recuo estratégico da esquerda latino-americana, mas não a derrota do projeto, pois o principal país coordenador do esquema é o Brasil. No entanto, os efeitos psicológicos da derrota do bolivarianismo na Venezuela, onde ele reina há mais de 15 anos, seriam perturbadores e muito piores para o Foro que a queda de Manuel Zelaya em Honduras ou Lugo no Paraguai.

    Outra “pedra no sapato” do Foro é a Colômbia. O país vem mostrando força para resistir ao avanço comunista na América Latina, e nas últimas eleições legislativa elegeu para o Senado o ex-presidente Álvaro Uribe , principal inimigo das Farc e talvez único líder conservador de projeção na região. O bloco formado por Uribe conseguiu tirar a maioria de cadeiras da coalizão de seu antigo aliado Juan Manuel Santos – que passou a colaborar com o Foro – e deverá bloquear qualquer acordo de paz com a narcoguerrilha.

    Mais ainda, o partido União Patriótica (comunista e ligado à guerrilha) não conseguiu eleger nenhum representante para o senado.

    Iconografia petista: a semelhança com a propaganda comunista não é uma mera coincidência.
    No Brasil, as manifestações de junho de 2013, inicialmente estimuladas por membros do petismo para forçar um upgrade revolucionário, saíram do controle, colocaram Dilma na berlinda e um recuo foi necessário para garantir a reeleição em outubro deste ano. Apesar de tudo, o PT ainda não tem o total monopólio para comandar os protestos, e muitos recusam o petismo, mesmo que por motivos difusos. Se a oposição foi liquidada no campo político-partidário, ainda há forças esparsas que impedem a hegemonia e a total mutação revolucionária das instituições brasileiras.

    Texto de Rodrigo Sias, mestre em economia pelo IE-UFRJ

    http://bit.ly/T0riqd

  11. Leniéverson

    ” Esta campanha tem deixado claro quem é quem no jogo politico, mais ainda, quem é quem na sociedade, chamar o PT de comunista, brincadeira, é o mesmo que chamar Chico Buarque de analfabeto.
    Está muito claro que a democracia está incomodando setores atrasados da sociedade, em tempos, de Comissão da Verdade, de investigações da Policia Federal, coisa que não existia no governo FHC e anteriores.
    Incomoda uma mulher, com história de combate a ditadura, na presidência, incomoda programa de transferência de renda, pois ninguém critica transferir recursos a empresários e banqueiros, até porque muita gente ganhou dinheiro na nossa região com dinheiro do Governo fechou usinas e estão bem obrigado enquanto milhares de trabalhadores ficaram com pires na mão.
    Esta eleição ainda não é uma luta de direita x esquerda precisamos avançar muito na politica ideológica mas a luta de quem quer continuar avançando socialmente, economicamente e politicamente e aqueles que querem voltar ao passado de preferência aos anos de chumbo para perpetuar suas mazelas.”

    Marcelo Soares, seu argumento prova que você é mais um inocente útil e não tem a ideia da besteira que escreveu. Dizer que o PT não é comunista. hahahaah. Isso é piada, né?

  12. Leniéverson

    Alias, marcelo. discutir com petista é igual jogar xadrez com pombos, não rende nada.

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