Artigo do domingo — O voto pensante em Dilma Rousseff

FHC e Lula panfletando juntos no 1º de maio de 1978, em plena ditadura militar, a favor da democracia
FHC e Lula panfletando juntos no 1º de maio de 1978, em plena ditadura militar, a favor da democracia

 

 

Jornalista Júlia Maria Assis
Jornalista Júlia Maria Assis

O discurso radical da militância e a postura pragmática dos candidatos

Por Júlia Maria Assis

 

Quem acompanhou essa semana na Globo News o debate entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-presidente do Banco Central no governo FHC, Armínio Fraga, chega a duas conclusões antagônicas: se por um lado é claro que há diferenças pontuais entre os projetos sociais e econômicos para o país defendidos pelo PT e pelo PSDB, por outro os caminhos a percorrer para manter a inflação sob controle e promover o desenvolvimento não são lá tão distintos assim. As divergências de cada um dos grupos que disputa a vaga no Planalto estão mais no passado recente de transição entre os dois partidos, em 2002, e na forma como encaram a suposta crise mundial do que nas conquistas e retrocessos do presente. Para ambos é preciso corrigir as falhas e seguir em frente. Cada um com seus projetos, ambos com discursos quase convergentes.

A impressão que fica que é esse climão pré-eleitoral cheio de ofensas, informações manipuladas e mentiras — por sinal, absurdamente potencializadas pelo escudo das redes sociais — é exagerado e desnecessário. Quem viveu e/ou tem o mínimo de informação sobre o período obscuro do regime de exceção que massacrou e envergonhou o Brasil sabe que de lá para cá a democracia — ainda cheia de falhas, com a devida mea culpa do eleitorado — foi de fato consolidada. Quem vota em Dilma Rousseff ou deixa de votar justificando seu perfil socialista está anos luz da realidade; o mesmo sobre quem vota ou deixa de votar em Aécio Neves colando nele a imagem da representação de um projeto de direita.

Não há nenhum extremista de esquerda ou de direita na disputa, nenhuma ameaça de fato à democracia, nenhum risco, ao menos severo, de retrocesso para algumas de nossas principais conquistas em relação aos avanços sociais e às liberdades individuais. Há diferenças sim entre PT e PSDB. Mas comparando os discursos, essas diferenças são mais sutis do que alguns defensores raivosos fazem parecer.

É desonesto deixar de creditar ao governo do PSDB a estabilização da economia com o real e o início dos programas de distribuição de renda, por iniciativa de Ruth Cardoso. Como o é negar que o governo do PT consolidou essas conquistas, atuou de forma muito mais positiva no cenário econômico, inclusive destacando internacionalmente o Brasil, e tirou milhões e milhões de brasileiros da linha da pobreza. Mais com Lula que com Dilma, pode até ser, mais ainda assim uma marca petista indiscutível.

É possível ficar ao lado do PT reconhecendo suas falhas. A militância cega e apaixonada é injusta não só com o adversário, mas com o país. Para muitos eleitores petistas o que pesa mais — ainda — é o princípio ideológico da esquerda — se é isso que isso ainda existe. Mas o modelo é de uma esquerda capitalista. Fato. Na outra ponta, o discurso elitista velado do PSDB, apesar de inegável, não é de forma alguma sinônimo de ameaça à democracia. Retrocesso sim, a volta do pesadelo definitivamente não.

No final das contas, quem radicaliza a coisa toda são alguns eleitores do PT e do PSDB. Infinitamente mais que os próprios candidatos, tão pragmáticos e evasivos em seus discursos, porque o que interessa é conquistar os votos de gregos e troianos. Para eles, é o resultado das urnas que importa e pronto.

O fato é que nem Dilma nem Aécio e muito menos as estruturas políticas e econômicas distintas (ou não) que sustentam suas candidaturas estão por aí defendendo nada assustador. É manter o que está bom e melhorar o que não está. Não é uma disputa de Jean Wyllys contra Bolsonaro. Longe disso.

 

Publicado hoje na Folha

 

0

Este post tem 2 comentários

  1. Lenieverson

    O PT governa 12 anos o país, chega. É hora de mudar.

  2. JOSE GERALDO

    Naquela entrevista conduzida pela Mirian Leitão, por sinal, de forma muito ruim porque ela mesma se enrola ao perguntar e não demonstra mesmo entender o que quer saber, tanto o Armínio quanto o Mantega, pouco afirmaram o que farão objetivamente em suas eventuais gestões na Fazenda, de modo a assegurar ao País o controle da inflação =que se agigante a cada mês que passa, com o aumento do endividamento interno, aumento do custo da máquina pública, queda da produção industrial em mais de 15%, controle doas aumentos dos preços públicos como energia elétrica em mais de 25% e de combustíveis em mais de 15%, insumos básicos em toda a cadeia produtiva e de transportes País afora, que já começa acontecer em novembro deste ano.
    Sem reforma tributária que trate de forma correta a redivisão dos recursos da União, Estados e Municípios, reequilibrando receitas e encargos em cada nível; reforma política que permita reduzir o custo da máquina pública, aumento dos investimentos em Educação, infra-estrutura produtiva e de exportação, aumento da eficiência da máquina pública, entre muitas outras ações, pouco irá mudar.
    Isto não ficou claro nem mesmo nos discursos dos Presidenciáveis.

Deixe um comentário para JOSE GERALDO Cancelar resposta