Kapi — Hoje, no Sinasefe, Sarau para um poeta vivo com seus moinhos de vento

Sarau Kapi

 

Por Paula Vigneron

Hoje (2), poetas, músicos, atores e diretores de Campos irão se reunir em uma homenagem a Antônio Roberto de Góis Cavalcanti, o poeta e diretor de teatro Kapi. No dia que marca um mês da morte do artista, será realizada uma edição especial do sarau Baião de Dois, com obras de Kapi interpretadas por 18 amigos. O evento será realizado às 19h, no Sindicato Nacional dos Servidores Federais de Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe), localizado na rua Álvaro Tâmega,  132. Também neste sábado (2), será novamente exibida, às 10h e às 17h, na Plena TV, a última entrevista concedida por Kapi, dois meses antes de sua morte, feita pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa.

O músico Paulo Celso Ciranda apresentará seis poemas musicados de Kapi. Com voz e violão, ele trará aos campistas algumas canções compostas pela dupla.

— Conheci-o em 74. Ele produziu e dirigiu o show “Gotas de Suor”, com meu grupo “A Turma do Campo”, no Teatro de Bolso. Fui para São Paulo e voltei, no começo dos anos 80. Morando em Copacabana, eu o reencontrei quando ele estudava na Unirio. Foi nesse período que fizemos várias canções em parceria — contou Ciranda, que disponibilizará, no evento, canções da dupla no sarau por meio da venda de CDs caseiros.

Artistas da nova geração também fazem parte do elenco que levará ao público as poesias de Kapi. O ator, músico e produtor cultural Saullo de Oliveira, que apresentará “Sangue da cidade”, “Canção amiga” e “órbita de hal”, trabalhou com Kapi em 2010. Para ele, o diretor foi um grande incentivador da sua carreira.

— Fui dirigido por Kapi na primeira versão de “Pontal”. Ele me apresentou músicas, contou sobre a vida particular, me deu livros e falou sobre grandes teatrólogos. Acabou sendo uma referência para mim. Não consigo ler textos teatrais sem pensar no Kapi. É um mestre do teatro de Campos que morreu — comentou Saullo, que também participou de oficinas ministradas pelo diretor.

Para Saullo, Campos, assim como outras cidades do interior, não valoriza os artistas locais, e o sarau Baião de Dois será um momento adequado para a apresentação de trabalhos de Kapi.

— Soube, na reunião de ensaio (do sarau), que não há registro da poesia de Kapi em nenhuma biblioteca de Campos. A homenagem pode dar visibilidade ao trabalho dele. Campos está muito carente culturalmente e Kapi simboliza a morte cultural da cidade – opinou.

Com a interpretação do poema “Aborto”, o ator Paulo Victor Santana prestará sua homenagem a Kapi.

— Estou empolgado para esse memorial de sábado. Sou agradecido pela maravilhosa oportunidade de prestigiar um grande artista que não morreu nas nossas memórias e na nossa história. É uma honra — assegurou.

A atriz Mahelle Pereira também estará em cena. A poesia interpretada pela artista será “Luminância”, escrita para Aluysio. Para ela, arte campista e Kapi são sinônimos.

— Eu acho que falar de arte em Campos sem citar Kapi é o mesmo que não falar. Por eu ser artista, é um dever estar presente. É uma forma de não deixar morrer o trabalho dele. Normalmente, quando as pessoas morrem, independente do que fazem, ficam esquecidas. Então, para deixá-lo vivo, é o mínimo que a gente pode fazer. Todos os artistas deveriam estar. É uma forma de agradecimento — ressaltou a atriz.

A poesia “Um Márcio” também faz parte da lista dos textos que serão apresentados na noite de hoje. A intérprete será a atriz Luciana Rossi, que foi dirigida por Kapi no espetáculo “O inferno são os outros”, com texto de Eugênio Soares.

— Estou muito emocionada. Aprendi técnicas com ele. Kapi me definiu como atriz sensorial e me deu uma compreensão que me ajudou muito. Se você tinha que dizer a palavra “oi”, ele queria saber qual era a sua intenção, o objetivo e o verbo de ação. Aí o ator ia compondo o personagem. Aprendi essa técnica com ele e até hoje não consigo trabalhar de outra forma. Ele tinha bagagem enorme, tanto do teatro clássico, quanto do contemporâneo. Kapi era a nossa Bárbara Heliodora, o nosso parâmetro — comparou a artista.

Pedagoga e prêmio Alberto Lamego de Cultura, Elisabeth Araújo, grande amiga de Kapi, também participará da homenagem. Ela recitará “Amigo”.

— O título e o conteúdo são muito sugestivos para nossas vidas porque a minha relação com Kapi foi pautada em uma amizade muito estreita, que se solidificou de tal forma que eu o transformei em filho, e ele me transformou em mãe. A poesia reúne atributos que faziam parte de interesses que nos identificavam muito, como filosofia, apelo poético e visão do mundo e do homem, que se traduzem numa relação de amor, afeto, compreensão e generosidade — disse a pedagoga.

Beth acredita que Kapi tenha exercido não somente o papel artístico, mas também uma função social devido à sua preocupação com o desenvolvimento do outro em todos os sentidos.

— Ele, filosoficamente, procurava conhecer o ser humano. Por outro lado, em tudo o que ele fazia, havia grande preocupação social, com a história e com o sistema sociopolítico sob o qual vivemos. Queria que morte física dele não representasse a morte artística, a morte intelectual. E que a vida dele, do ponto de vista de cultural, fosse um exemplo para nós todos e para as próximas gerações — afirmou.

Diretor de teatro, Fernando Rossi, que recitará a poesia “Magia”, acredita que a edição especial do sarau Baião de Dois será uma justa homenagem a Kapi, que promoveu diversos cafés literários em Campos.

— Acho que o artista tem que ser preservado. Kapi tem um legado incrível. Campos é muito ingrata com os artistas. A história de uma cidade é feita pelas pessoas que movimentam sua cultura. Enquanto pudermos reverenciar esses artistas, é necessário e urgente que façamos a reverência — alertou Rossi.

 

Mapa Sinasefe

 

(Reprodução TV)
(Reprodução TV)

No ar, pela Plena TV, a última entrevista de Kapi

Desde o dia 2 de abril, Kapi tem recebido diversas homenagens. Poeta e diretor consagrado, Antônio Roberto de Góis Cavalcanti é constantemente lembrado por amigos e admiradores, que almejam manter em evidência suas memórias e trabalhos. Ontem (1), foi ao ar, pela Plena TV, do grupo Folha da Manhã, a última entrevista cedida por Kapi, dada ao jornalista e poeta Aluysio Abreu Barbosa. Quem ainda não teve oportunidade poderá assistir ao vídeo hoje (2), às 10h e às 17h, na Plena TV (canal 24 da ViaCabo e 3 da Ver TV).

Editada por Aluysio em parceria com o jornalista Antunis Clayton e o editor Aldo Viana, a entrevista foi filmada na sala de Fátima Castro, diretora da Associação Irmãos da Solidariedade, onde Kapi  estava vivendo. Com duração de 1h30, a entrevista é uma fonte de conhecimento sobre vida e arte do diretor.

— Não se conta a história da arte e da cultura de Campos, nos últimos 40 anos, sem se falar de Kapi. E essa entrevista serviu para se contar essas décadas, não só no palco, nas coxias e entre o “respeitável” público, como da cidade do lado de fora de um teatro que buscou representá-la. Num município governado há 26 anos por um grupo político egresso do teatro, assistir a essa última entrevista de Kapi não deixa de ser uma oportunidade para o campista também se olhar refletido ao espelho; e decidir se gosta do que vê — afirmou Aluysio.

A entrevista será reprisada durante a semana: amanhã (3), às 10h e às 23h; segunda-feira (4); às 22h; terça-feira (5), às 22h; quarta-feira (6), às 23h e quinta-feira (7), às 20h.

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Julio

    A letra de Kapi que mais admiro chama-se “Aborto”, que foi divinamente musicada por Joel Ramos. Infelizmente a “elite” artística a desconhece.

  2. Edson

    Um evento alegre, divertido, com vários artistas. Fantástico, bela Homenagem.

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