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Crítica de cinema — Muito barulho por nada

Cinematógrafo

 

 

Terremoto

 

Mateusinho 1TERREMOTO – A FALHA DE SAN ANDREAS – “Terremoto – a falha de San Andreas” é um filme que só poderia ser produzido nos Estados Unidos. Grande orçamento, muita tecnologia, fraco roteiro e pífia direção. Não nego que as novas tecnologias aproximam o cinema cada vez mais da realidade vivida, sobretudo a tecnologia do 3D. Mas elas também entorpecem os roteiristas e os diretores. Dá pra imaginar um filme de Fellini, de Bergman, de Woody Allen ou de Glauber Rocha em 3D? Brad Peyton, seu diretor, está no meio cinematográfico desde 2001, roteirizando, dirigindo e produzindo alguns curtas e longas para o cinema e para a televisão. Nenhum título lhe deu notoriedade. O roteiro foi escrito por Carlton Cuse com a ajuda de Andre Fabrizio e Jeremy Passmore.

Um filme de aventura e ação com tanta tecnologia não precisa de um bom diretor e um bom roteirista. Bastam um bom estúdio e uma equipe de técnicos. “Terremoto” é um filme perfeitamente previsível. No meio de uma grande catástrofe, insere-se um drama familiar sabendo-se, desde o princípio, de que não haverá surpresa. O terremoto atinge a mais alta magnitude na Escala Richter da história, algo inesperado e esperado ao mesmo tempo, pois, nos Estados Unidos, tudo deve ser maior.

O cinema dos Estados Unidos reflete o complexo de superioridade de um país que se considera o mais poderoso do mundo pela sua série de vitórias desde a independência, em 1776, em relação ao Império Britânico. As sucessivas guerras contra a Líbia (1801), o México (1846-48) e a Espanha (1898) reforçaram esse complexo. É bem verdade que o país sofreu o agressivo ataque japonês a Pearl Harbour, que foi revidado com duas bombas atômica. É bem verdade que ele foi atingido pela Al-Qaeda, um grupo extremista sem um Estado, mas revidou de forma desproporcional no Afeganistão e no Iraque.

Enfim, tudo de bom e de mau acontece nos Estados Unidos. A natureza, os extraterrestres e os monstros odeiam o país. Seus mais virulentos ataques se dirigem ao país. O mundo ou não aparece ou aparece pouco. No final quem salva os Estados Unidos e o mundo são a própria força do país. “Terremoto” tem este caráter: no meio de um desastre natural, o medíocre Dwayne Johnson, Carla Gugino, Alexandra Daddario e Ioan Gruffudd vivem um drama familiar e uma história de amor juvenil que se sabe como irá acabar antes que o filme chegue ao final. Num determinado momento, até a falha de San Andreas pode ser vista como uma longa e profunda vala. Paul Giamatti vive um cientista que descobre um método de prever fortes terremotos no momento em que ocorre o mais virulento do mundo. O artifício de valorizar questões pessoais em meio a desastres ambientais e naturais vem dos primórdios do cinema, com Griffith e Eiseinstein, mas com bastante arte. Por outro lado, os profetas, que sempre advertiram sobre castigos divinos, foram substituídos por cientistas que advertem sobre castigos advindos do espaço, da natureza e de nós mesmos.

Enfim, para quem gosta de entretenimento superficial que não exija pensar e de sentir medo com efeitos especiais e música barulhenta, “Terremoto” acaba agradando.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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