Artigo do domingo — Muito a fazer pela Saúde de Campos, não por um grupo político

Saúde doente

 

 

Jornalista Rodrigo Gonçalves
Jornalista Rodrigo Gonçalves

Saúde doente

Por Rodrigo Gonçalves

 

Há quase três meses, utilizei este mesmo espaço de domingo para falar sobre uma sucessão de acontecimentos que deixavam expostas as feridas da Saúde de Campos. Na ocasião, já alertava que os defensores do governo até diriam que são situações pontuais, mas, ao que tudo indica, incuráveis, e que precisam ser revistas, principalmente neste momento de crise. Na última semana, conforme foi mostrado pela Folha em reportagem (aqui) feita pelo jornalista Alexandre Bastos, a Saúde de Campos foi examinada durante audiência pública na Câmara de Campos e recebeu dois diagnósticos. Se os gestores e vereadores ligados ao governo apontam progressos, sem a necessidade de grandes intervenções, a oposição afirma que “a Saúde está na UTI”.

Independente de opiniões, nos fatos, a Saúde tem se mostrado doente, tendo em vista não só os acontecimentos que antecederam a audiência na Câmara, mas também os que vieram depois, inclusive virando caso de polícia após registro de ocorrência feito por um deficiente visual que não conseguiu uma consulta específica de emergência nas três principais unidades de Saúde da rede municipal, na última sexta-feira. Neste mesmo dia, pacientes também denunciaram o caos em busca de atendimento no PU de Guarus, onde, na parte da tarde, só haveria um clínico geral para todas as consultas e faltavam remédios na farmácia. Ainda anteontem, o Sindicato dos Médicos de Campos (Simec) divulgou um comunicado em que veio “a público denunciar o colapso do sistema de Saúde do município”. Segundo a nota, “devido ao atraso nos repasses hospitalares, médicos da rede conveniada à Prefeitura estão com o pagamento atrasado há cinco meses. Nesta semana, parte dos profissionais recebeu os salários referentes à produção de novembro do ano passado. Em outras unidades, o pagamento é referente ao mês de dezembro. Como suporte a esta estrutura, a cidade possui uma rede conveniada com Sistema Único de Saúde (SUS) de quatro hospitais gerais que integram o sistema de atendimento à população, não só de Campos, mas de toda a região. A parcela de cidadãos que depende do sistema público para o tratamento de alguma patologia não é pequena: cerca de 85%”.

O sindicato denunciou, ainda, a “rede básica ineficaz, postos 24 horas sem as estruturas físicas e técnica para dar cabo às demandas da população. Muitos pacientes não fazem, sequer, os exames mínimos de urgência: ECG, RX e exames laboratoriais. Com isso, a maioria dos casos é encaminhada ao Hospital Ferreira Machado e Hospital Geral de Guarus, criando a sobrecarga ao atendimento nestes hospitais, além de descaracterizar os casos que deveriam ser realmente atendidos nestas unidades hospitalares”.

A sobrecarga nestas unidades e outras da rede municipal também já foi constatada recentemente, inclusive em vistorias do Ministério Público Federal (MPF), que ficou de tentar, junto à Prefeitura, um acordo para sanar vários problemas encontrados.

Infelizmente, seja qual for o Governo, a Saúde é um calcanhar de Aquiles. No artigo que escrevi há quase três meses, ressaltava o quanto foi importante o vice-prefeito Chicão assumir a secretaria municipal de Saúde em um momento em que o setor também sofria desgaste, credenciado, principalmente, pelo excelente médico que é. Como disse anteriormente, é verdade, também, que muitos problemas foram amenizados e que avanços são notórios, como a volta do antigo Programa Saúde da Família (PSF), agora Estratégia Saúde da Família (ESF). No entanto, hoje, o desgaste, mais uma vez, fala mais alto. Naquele, mesmo artigo eu já citava Chicão como um dos nomes mais cogitados para suceder Rosinha, mas ressaltava, também, que, com os cortes na Saúde que inviabilizam qualquer gestão, já dava para duvidar se ele é realmente a vontade do seu “grupo” político. O que já se sabe é que o atual secretário e vice-prefeito nunca foi unanimidade quando está em jogo a sucessão em 2016 e que o desgaste hoje enfrentado por ele pode fazer a diferença, principalmente na decisão final do “grupo”. Mas, ainda há tempo para se fazer muito pela Saúde de Campos, não por interesses políticos de um “grupo” que quer se manter, a qualquer custo, no poder, mas sim porque a população precisa, merece e exige.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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“Rombo” no primeiro governo Rosinha gera inquérito e indiciamento

Rombo Rosinha 4
Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

 

Denunciada pelo vereador Marcão (PT) desde 25 de novembro de 2014 ao Ministério Público Estadual (MPE), o rombo de R$ 109.819.539,37 nos cofres públicos de Campos, segundo auditoria interna determinada pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) sobre sua primeira gestão municipal (do início de 2009 ao final de 2012), rendeu um inquérito civil público e o posterior indiciamento do ex-secretário de Finanças de Campos, Francisco Esquef. As iniciativas foram de Marcelo Lessa, titular da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva da comarca. Ele, no entanto, isentou a prefeita de responsabilidade no que chamou de “supostas operações ilegais e prejudiciais ao erário”. Por sua vez, Esquef negou qualquer ilegalidade nas operações, garantindo ainda que estas deram retorno financeiro positivo aos cofres do município, esclarecimentos que ele disse já ter prestado com documentos, em maio deste ano, à Comissão de Tomada de Contas do Município.

Em novembro de 2014, Marcão conseguiu cópias da auditoria, concluída desde 15 de julho de 2013, assinada por Salvadora Maria Ribeiro de Souza, Denilson Amaro Barcelos Paravidino, Roberto Landes da Silva Júnior, Marcos André Hauaji Leal, Otávio Amaral de Carvalho, Calos Augusto Loureiro Martins e João Batista de Oliveira. Ao ser alertado (aqui) pelo blog “Opiniões”, numa postagem de 24 de novembro do ano passado, de que o rombo no primeiro governo Rosinha, identificado por sete auditores nomeados por ela, seria revelado na tribuna da Câmara, o impacto da notícia entre os governistas foi tanto que seus vereadores esvaziaram a sessão do dia seguinte (aqui). O vereador da oposição se empenhou, então, numa romaria para desvendar o rombo de quase R$ 110 milhões na Prefeitura, levando a denúncia documentada da auditoria de Rosinha ao MPE, ao Ministério Público Federal (MPF), à Polícia Federal (PF), aos Tribunais de Contas do Estado (TCE) e da União (TCU), além da Controladoria Geral da União (CGU).

Por enquanto, o único órgão fiscalizador a se manifestar oficialmente sobre o caso foi o MPE, que em 25 de maio mandou oficiar Marcão da abertura do inquérito civil público, aberto em portaria de 13 de janeiro, e do indiciamento de Francisco Esquef, feito num despacho de 20 de maio. O vereador viu com bons olhos a iniciativa por enquanto solitária de investigar, mas fez ressalvas ao entendimento do promotor sobre a responsabilidade da prefeita no rombo identificado por sua auditoria:

—  A denúncia se transformou em inquérito civil público. Isso significa que o parquet (promotoria) entendeu que há indícios de autoria e materialidade de crimes praticados contra o erário público municipal, dentro do governo Rosinha Garotinho. Mas o promotor entendeu que a prefeita não tem responsabilidade, do que eu discordo frontalmente.

Para endossar sua discordância, Marcão lembrou as recomendações finais à prefeita feitas pela por sua própria auditoria: “Recomendamos abertura de tomada de contas para apuração de responsabilidades e inscrição dos valores de possíveis danos aos cofres do tesouro municipal, e posterior envio ao TCE-RJ para apreciação e demais órgãos competentes, visando o ressarcimento ao erário e resguardo de responsabilidade da prefeita Rosangela Rosinha Barros Assed Matheus de Oliveira pela administração financeira do município”.

— Como Rosinha não apurou responsabilidades, não correu atrás do ressarcimento dos danos aos cofres públicos, nem tampouco enviou o caso ao TCE e demais órgãos competentes de fiscalização, coisa que só foi ser feita por mim, quase um ano e meio depois da conclusão da auditoria realizada por determinação dela, me parece óbvio que a responsabilidade da prefeita não ficou resguardada — concluiu o vereador do PT

Além do raciocínio de Marcão com base nas recomendações da auditoria aparentemente não cumpridas, na tentativa de isentar Rosinha de responsabilidade, Marcelo Lessa cometeu um grave erro cronológico em sua justificativa. Como pode ser visto ao lado (abaixo), o promotor alegou que a auditoria determinada pela prefeita “levou à exoneração imediata do Secretário (de Finanças)”. Na verdade, Francisco Esquef foi exonerado em 20 de maio de 2011, enquanto a auditoria só foi concluída em 15 de julho de 2013, mais de dois anos depois.

 

Defesa da legalidade e retorno das operações

“Soube da auditoria pela imprensa, assim como é através de vocês que agora sei desse inquérito civil público e do meu indiciamento. Concordo que quem ocupa função pública tenha que dar satisfação dos seus atos e estou muito tranquilo, pois todos os meus, enquanto estive à frente da secretaria de Finanças de Campos, não só foram absolutamente dentro da legalidade, como geraram retorno financeiro positivo ao município, num total de R$ 34 milhões, dos quais R$ 8 milhões foram especificamente na compra e venda de títulos públicos”. Foi o que garantiu Francisco Esquef, ex-homem das Finanças de Rosinha.

Ele disse que no início de maio foi procurado pela Comissão de Tomada de Contas da Prefeitura, a qual teria prestado no final do mesmo mês todos os esclarecimentos, facilitados pelo hábito de quem ressaltou “guardar as cópias das cópias de tudo aquilo que faço”. No raciocínio sempre lógico e sereno do ex-secretário, essas explicações devem ser repassadas ao TCE-RJ, o que em seu entendimento será suficiente para encerrar a questão. Ele, no entanto, se colocou à disposição do promotor Marcelo Lessa e do vereador Marcão, que ressaltou estarem cumprindo seus papeis, para prestar qualquer esclarecimento sobre o caso:

— A auditoria partiu de pressupostos errados para chegar a conclusões equivocadas. Desses quase R$ 110 milhões, cerca de R$ 100 milhões são de administrações passadas. O resto se refere à primeira administração Rosinha. Até o momento em que dela saí, em 20 de maio de 2011, por um processo de desgaste natural, deixei retorno financeiro positivo. Nessas operações de compra de títulos públicos, que você me diz terem sido citadas pelo promotor, a auditoria se limitou a comparar os preços da compra e da venda dos títulos, se esquecendo de contabilizar os rendimentos, objetivo primário de qualquer investimento. É relativamente fácil explicar.

 

Rombo Rosinha 1

 

 

Rombo Rosinha 2

 

 

Rombo Rosinha 3

 

 

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Poema do domingo — Os gritos

O despertar de um pesadelo na madrugada o imprime como tormenta pelo resto do dia, até que a poesia o exorcize em catarse. Nele, pareceram claramente impressas a memória de um filme, “Alien, o oitavo passageiro” (1979), do inglês Ridley Scott, e de um livro, “A metamorfose”, publicado a primeira vez em 1915, do tcheco Franz Kafka (1883/1924), que tanto marcaram uma adolescência curiosa de cinema e literatura. Depois, trocando ideia com um amigo, a lembrança ainda que inconsciente, mas como deve ser no terreno dos sonhos, ao quadro “O grito”, pintado em 1893 pelo expressionista norueguês Edvard Munch (1863/1944), pareceu também oportuna.

E assim, no meio de tantas leituras para tentar racionalizar o pavor de um pesadelo, ficou o poema:

 

“O grito”, óleo sobre tela de Edvard Munch (1893)
“O grito”, óleo sobre tela de Edvard Munch (1893)

 

 

os gritos

(p/ gregor samsa)

 

acharam dois gritos dentro do corpo

por apêndices sobre cada pulmão

se os cortassem, matariam o resto

do hospedeiro em científica ficção

 

os gritos tinham metástase em ecos

aprisionados na mão errada da boca

mudos de fora, foram cristalizados

como duas vidas internas da outra

 

a memória do cérebro foi apagada

ao vaticínio do último pensamento:

enquanto o corpo num grito sumia,

os gritos assumiam forma de corpo

 

atafona, 18/05/15

 

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Crítica de cinema — Espiã(o) sem panfletarismo feminista politicamente correto

Cinefilia

 

 

A espiã que sabia demais

 

 

Mateusinho 3A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS — A modificação de títulos originais de filmes estrangeiros no Brasil é uma tradição tão antiga quanto reprovada por críticos. Em alguns casos, até se baseia, de certo modo, no conteúdo da produção — como em “Noivo neurótico, noiva nervosa”, para “Annie Hall”, de Woody Allen, considerando as muitas associações entre quase toda a obra do diretor e a psicanálise; ou em “Os brutos também amam”, para “Shane”, de George Stevens, porque na trama um estrangeiro misterioso e durão mostra-se sutilmente atraído pela mulher casada do sítio no qual se instala, mas não se envolve com ela. Em outros, revela-se um desastre, porque, apesar de tentar indicar de que trata a narrativa, contribui para o público formar ideia equivocada a respeito dela. É o que ocorre com “A espiã que sabia de menos” (“Spy”),  uma das estreias da última quinta-feira no Kinoplex Avenida e do Multiplex Boulevard Shopping.

Longa-metragem que inicialmente teria o título de Susan Cooper, “Spy” é sobre a promoção dessa personagem, interpretada por Melissa McCarthy, de agente “de gabinete” à espiã que vai a campo. Funcionária da CIA há anos, Susan abandonou o magistério e ingressou na agência com a expectativa de atuar como os heróis da espionagem. Mas, mulher e gorda, foge aos padrões deles, limitando-se, portanto, a acompanhar as missões arriscadas de seu colega Bradley Fine (Jude Law), monitorado à distância por ela, por meio de um programa de computador que permite identificar a presença de inimigos nos locais invadidos pelo investigador, com quem se comunica por ponto eletrônico e por quem nutre uma paixão recolhida. Em busca de uma ogiva nuclear em poder da bela Rayna Boyanov (Rose Barnes), arma que esta pretende vender para o terrorista Sergio de Luca (Bobby Cannavale), Fine é morto, deixando Susan culpada por falhar como sua monitora. Menos visada que outros integrantes da CIA, como o supostamente valentão Rick Ford (Jason Statham), Cooper convence sua superior Elaine Crocker (Allison Janney) a enviá-la como espiã no caso não resolvido por Bladley. E, embora conheça um registro em vídeo mostrando as habilidades de Cooper com armas e luta corporal, Elaine é incisiva quanto à missão de sua subordinada: esta deve apenas colher informações sobre a negociação da ogiva. Como Rick Ford, desligado da CIA, interfere de forma desastrada no caso, acaba fazendo com que a protagonista se envolva mais do que deveria com os vilões.

Parceiro, atrás das câmaras, da atriz Melissa McCarthy em “Missão madrinha de casamento” (“Bridesmaids”, 2011) e “As bem-armadas” (“The Heat”, 2013), nos quais ela atou como coadjuvante, Paul Feig joga, de novo, com questões de gênero, tanto no sentido cinematográfico (filme de espionagem) quanto no social (masculino/feminino).

Fã desse tipo de produção desde criança, Feig brinca com ela sem a obviedade da paródia. Trata-se mais de uma comédia de ação que de uma gozação com o estilo, questionando a atividade de espionagem como exclusivamente masculina. Daí a armadilha do título no Brasil: “Spy”, em inglês, é substantivo comum de dois gêneros; a protagonista domina bem (sabe demais e não de menos) as funções de gabinete e da rua, sendo tão hábil e tão desastrada – humana, portanto – quanto seus pares homens. Mas o faz de uma forma que certamente oscila bastante entre sutileza e grosseria. Usa não só uma referência refinada ao tema musical de 007, como, de forma atualizada, apela ao recurso manjado de mostrar onde se desenrolarão sequências a partir de planos gerais por tomadas aéreas de cidades de várias partes do mundo, com seus nomes indicados por inserção de créditos digitados sobre as imagens. Surpreende – mas não muito – ao mostrar um personagem de Jason Statham que não simplesmente desconstrói seu estereótipo de ator de filme de ação (algo já bem explorado nas cinesséries “Adrenalina” e “Os mercenários”) e não só aparece quase em toda parte, como em “Velozes e furiosos 7”, mas é um mero contador de vantagens desastrado. Destaca a cumplicidade feminina e os preconceitos dirigidos a mulheres gordas e fora dos padrões de beleza, mas também os incorporados por elas, além dos utilizados pela protagonista contra homens afetados.

Trata-se, ao que parece, de táticas arriscadas de conquistar o grande público, que se limita à superficialidade das piadas e da escatologia, e os cinéfilos, que podem ir mais fundo, buscando as referências cinematográficas e a complexidade da guerra dos sexos, sem  panfletarismo feminista politicamente correto. Mas também de uma boa combinação de entretenimento e reflexão no escurinho do cinema. Se fosse possível, ganharia três Matheusinhos e meio.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Crítica de cinema — Idas, vindas e trocas: misturas que não deram certo

Bagdá Café

 

 

trocando os pés

 

Mateusinho 2TROCANDO OS PÉS – De filmes de comédia a terror, como “Se eu fosse você” (1 e 2; 2004 e 2008), de Daniel Filho, e “A chave mestra” (2005), de Iain Sofltey, a criação de roteiros nos quais os personagens trocam de corpos, espécies e personalidade é uma das formas interessantes e atraentes de explorar o mundo da ficção e da fantasia, tanto em cinema quanto nas artes cênicas e literatura. No rito de passagem para novas realidades, o protagonista, geralmente, enfrenta situações adversas que o levam a modificar sua identidade, seja por repetição de palavras – como ocorre nos filmes dirigidos por Daniel Filho – ou pelo uso de fórmulas mágicas, tal como acontece em cenas da obra literária e cinematográfica “Stardust – O mistério da estrela” (2007), escrita por Neil Gaiman e dirigida por Matthew Vaughn. O mais recente longa-metragem que segue o estilo é “Trocando os pés”, estrelado por Adam Sandler e dirigido por Thomas McCarty.

Sapateiro de Nova York, o judeu Max Simkin vive dos lucros gerados por uma pequena loja no Lower East Side. Herdado do pai, o comércio resume o cotidiano do homem, que passa grande parte do seu dia no local. Em casa, onde vive com a mãe idosa, ele passa por momentos carregados de maior densidade dramática do que de comédia e leveza, diferentemente de outros filmes protagonizados por Adam Sandler, como “Zohan – o agente bom de corte” (2008). Abandonados por Abraham Simkin, interpretado por Dustin Hoffman, mãe e filho vivem entre memórias deixadas pelo pai. O único amigo do protagonista é Jimmy (Steve Buscemi), barbeiro que trabalha na loja vizinha à de Max.

Certo dia, durante o horário de expediente, a máquina de costura de sapatos de Max quebra. Com uma encomenda para as horas seguintes, ele se lembra de outra, deixada pelo pai. Ele contava ao filho, quando criança, que aquele objeto era especial e, por isso, só deveria ser usado em poucas ocasiões. A máquina foi dada por um homem sem-teto a seu bisavô, que o abrigou e alimentou. O presente foi uma retribuição ao carinho recebido. Devido ao problema, Max opta por utilizar o aparelho e descobre, a partir de seu funcionamento, que pode vivenciar histórias diferentes das suas e descobrir novas realidades ao usar os sapatos consertados por ela.

Com a troca de personalidades e corpos, Mas vive prazeres e se sente mais vivo à medida que passa por experiências nunca imaginadas. Em cena, Adam Sandler, mais voltado, neste papel, ao drama do que à tradicional comédia, traz fortes expressões faciais e aparência levemente envelhecida e abatida, cabendo adequadamente ao personagem, cujas características vagam entre tristeza e solidão e que atraem mais a atenção do espectador em comparação a outros pontos do filme.

A exploração e mistura de aspectos cômicos e dramáticos, em muitos momentos, deixa confusa, para os espectadores, a real intenção do filme. A trilha sonora, cujo uso se adéqua mais a cenas de comédia, é erroneamente utilizada em passagens de drama. Em uma sequência filmada na casa de Max, o protagonista questiona a mãe sobre o almoço. A idosa responde que está dentro do microondas, basta o homem esquentar a refeição. Ao abrir o aparelho, ele encontra a bolsa dele. Nesse momento, a expressão de Sandler e a canção instrumental são completamente opostas e atrapalham o envolvimento do público com a situação de drama – a mãe idosa e com problemas de memória – pela qual passa o personagem. Devido a esses usos equivocados de recursos, “Trocando os pés” abre diversas portas e se esquece de fechá-las, deixando no espectador a sensação de que o enredo ainda não foi concluído.

 

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 Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

 

Leia aqui a crítica do Gustavo Alejandro Oviedo sobre o mesmo filme

 

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Crítica de cinema — Muito barulho por nada

Cinematógrafo

 

 

Terremoto

 

Mateusinho 1TERREMOTO – A FALHA DE SAN ANDREAS – “Terremoto – a falha de San Andreas” é um filme que só poderia ser produzido nos Estados Unidos. Grande orçamento, muita tecnologia, fraco roteiro e pífia direção. Não nego que as novas tecnologias aproximam o cinema cada vez mais da realidade vivida, sobretudo a tecnologia do 3D. Mas elas também entorpecem os roteiristas e os diretores. Dá pra imaginar um filme de Fellini, de Bergman, de Woody Allen ou de Glauber Rocha em 3D? Brad Peyton, seu diretor, está no meio cinematográfico desde 2001, roteirizando, dirigindo e produzindo alguns curtas e longas para o cinema e para a televisão. Nenhum título lhe deu notoriedade. O roteiro foi escrito por Carlton Cuse com a ajuda de Andre Fabrizio e Jeremy Passmore.

Um filme de aventura e ação com tanta tecnologia não precisa de um bom diretor e um bom roteirista. Bastam um bom estúdio e uma equipe de técnicos. “Terremoto” é um filme perfeitamente previsível. No meio de uma grande catástrofe, insere-se um drama familiar sabendo-se, desde o princípio, de que não haverá surpresa. O terremoto atinge a mais alta magnitude na Escala Richter da história, algo inesperado e esperado ao mesmo tempo, pois, nos Estados Unidos, tudo deve ser maior.

O cinema dos Estados Unidos reflete o complexo de superioridade de um país que se considera o mais poderoso do mundo pela sua série de vitórias desde a independência, em 1776, em relação ao Império Britânico. As sucessivas guerras contra a Líbia (1801), o México (1846-48) e a Espanha (1898) reforçaram esse complexo. É bem verdade que o país sofreu o agressivo ataque japonês a Pearl Harbour, que foi revidado com duas bombas atômica. É bem verdade que ele foi atingido pela Al-Qaeda, um grupo extremista sem um Estado, mas revidou de forma desproporcional no Afeganistão e no Iraque.

Enfim, tudo de bom e de mau acontece nos Estados Unidos. A natureza, os extraterrestres e os monstros odeiam o país. Seus mais virulentos ataques se dirigem ao país. O mundo ou não aparece ou aparece pouco. No final quem salva os Estados Unidos e o mundo são a própria força do país. “Terremoto” tem este caráter: no meio de um desastre natural, o medíocre Dwayne Johnson, Carla Gugino, Alexandra Daddario e Ioan Gruffudd vivem um drama familiar e uma história de amor juvenil que se sabe como irá acabar antes que o filme chegue ao final. Num determinado momento, até a falha de San Andreas pode ser vista como uma longa e profunda vala. Paul Giamatti vive um cientista que descobre um método de prever fortes terremotos no momento em que ocorre o mais virulento do mundo. O artifício de valorizar questões pessoais em meio a desastres ambientais e naturais vem dos primórdios do cinema, com Griffith e Eiseinstein, mas com bastante arte. Por outro lado, os profetas, que sempre advertiram sobre castigos divinos, foram substituídos por cientistas que advertem sobre castigos advindos do espaço, da natureza e de nós mesmos.

Enfim, para quem gosta de entretenimento superficial que não exija pensar e de sentir medo com efeitos especiais e música barulhenta, “Terremoto” acaba agradando.

 

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Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Crítica de cinema — Cultura e espiritualidade dos povos ancestrais na tela

Colyseu

 

 

filhos da terra

 

 

Mateusinho 5FILHOS DA TERRA — Elias Januário (educador, antropólogo e historiador) fala que a sociedade ao longo dos anos, em decorrência do modo de vida moderno e industrializado, foi se distanciando gradativamente da natureza, vendo nela um bem de consumo a serviço do capital. Também foi deixando de valorizar o seu caráter espiritual, os seres sobrenaturais que estão diretamente ligados com a natureza e que orientavam gerações passadas, restando apenas poucos grupos sociais tradicionais que ainda praticam a cultura da espiritualidade.

Os povos originais de maneira geral mantiveram, e muitas comunidades ainda mantêm uma estreita relação espiritual com seres que vivem na natureza em locais tidos por sagrados como rios, pedreiras, cavernas e matas.

A entrada de forma avassaladora nos últimos anos de missionários impondo as religiões de matriz judaico-cristã em terras indígenas tem provocado uma ruptura nos conhecimentos tradicionais de uma geração para outra, onde os jovens indígenas estão cada vez mais desconhecendo os valores espirituais de seu povo, fragilizando a identidade étnica e cultural de muitas comunidades tradicionais.

Quando falamos da prática cultural da espiritualidade dos povos originais, é fundamental ressaltar que em muitas aldeias os espíritos, sejam da natureza ou de antepassados, são a base para a realização de inúmeras atividades como os ritos, mitos, caça, pesca, extração de matéria prima para a confecção de adornos, a produção de medicamentos da medicina tradicional, o preparo e a colheita das roças. Todas essas atividades cotidianas estão amplamente interligadas com o mundo dos espíritos.

É o tema que trata o vencedor do Cine Cipó 2014 pelo júri popular e sucesso da Mostra Cenário Socioambiental2015 “Filhos da Terra” (“Hijos de la Tierra”) 2013 (29min). Realizado pela produtora espanhola Ultreia Films com colaboração do INAAC Instituto Navarro de Las Artes Audiovisuales y Cinematografia e direção de Axel O’Mill e Patxi Uriz. Filmado em encantadoras paisagens na Espanha, Brasil, México, Reino Unido e França, com excelente trilha musical étnica de Gorka Pastor, o documentário média-metragem conta com reflexões e depoimentos dos druidas Terry Dobney (Archidruida de Avebury) e Gracia Chacón (Archidruidesa Orden Mogor), dos xamãs Ricardo Awanach (Etnia Xuar) e Ávaro Tucano (Etnia Tucano), curandeiros Josefina Cháves (Mujer Medicina) e Juvenal Becerra (Hombre Medicina), do agricultor Josep Pamies, Juan Gonzáles (Psicólogo e Etnobotânico), Armando Loizaga (Pesquisador Tradições Indígenas) e Llorenç Teixé (Herborista).

É o testemunho de pessoas vinculadas à natureza que abrem seu coração para transmitir à humanidade a sabedoria da Mãe Natureza. O documentário pretende servir como veículo transmissor destes sábios conhecimentos e de conscientizar o espectador do que significa ser “filho da Terra”. E consegue, com enorme encantamento.

Antes do longa de ficção “Freud, além da alma”, de John Huston, que será apresentado pelo psicanalista e ator Luiz Fernando Sardinha, o média de documentário é programa para abrir a noite da próxima quarta-feira, dia 3, a partir das 19h, no Cineclube Goitacá!

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o making off do filme:

 

 

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