Opiniões

Poema (e prosa) do domingo — “Recebe sua carta de alforria e se perde na correnteza”

Pontal Sesi 31-10-15 (2)
Yve, Saullo e Sidney na pele de pescadores de Atafona, ontem, na apresentação de “Pontal”, no teatro do Sesi, à beira do rio Paraíba do Sul (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

Para ser sincero, acordei tarde, um pouco depois das 13h, o que não fazia há muito mais tempo do que precisava. Como no domingo passado (aqui), também não me sobrou tempo durante a semana para pensar previamente no que postar hoje, dia em que você, leitor, já se acostumou a buscar e encontrar poesia neste “Opiniões”. Pois poesia foi o que subiu ontem (31/10) à noite ao palco do teatro do Sesi-Campos, em Guarus, à beira do Paraíba do Sul, onde a peça “Pontal” foi apresentada após subir o rio desde a sua foz no oceano Atlântico.

Após a apresentação, os atores Yve Carvalho, Sidney Navarro e Saullo de Oliveira, como de hábito, sentaram no palco e abriram um bate papo com a plateia, majoritariamente formada por estudantes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos que organizaram o Encontro Universitário de Cultura (Enuc), da qual “Pontal” foi parte e cuja programação ainda se estende por hoje e amanhã (confira aqui). Embora o tema da peça enseje mais que nunca o debate, com a crise hídrica sem fim do Paraíba cansado de guerra, falando para uma maioria de jovens vindos de outras cidades para buscar sua formação em Campos, o apelo que mais calou, pelo menos a mim, foi o feito pelo Sidney: “Conheçam o Pontal!”

Dentro desse espírito e antes que esta tarde dominical, mesmo esticada pelo horário de verão, cumpra sua metamorfose de noite, segue abaixo um dos 17 poemas meus que integram o espetáculo, o mais antigo em tempo entre eles, escrito por um jovem de 23 anos, de quando as sereias pouco ainda haviam lhe contado. E, para provar que mesmo mesmo em rio de prosa pode afluir a poesia, abaixo do poema corre uma crônica bem mais recente, publicada aqui, no site “Notícia Urbana”, da lavra de uma jovem ainda mais jovem, aos 22. Mais ou menos com a idade dominante da plateia de ontem, ambos, poeta e prosista, desvelam em palavras suas descobertas de si no Pontal de Atafona, onde até ilhas deixam de sê-las no baixio das marés, enquanto um rio deságua no oceano dentro de nós.

 

 

No debate após a peça, Sidney (último à direita) fez o apelo aos estudantes da Uenf e UFF que compuseram a maior parte da plateia: “Conheçam o Pontal!” (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
No debate após a peça, Sidney (último à direita) fez o apelo aos estudantes da Uenf e UFF que compuseram a maior parte da plateia: “Conheçam o Pontal!” (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

deriva

 

o navegador diz que liberdade

é diferente de estar à deriva

como sereia nunca me contou

se navegar é necessário

ou só demanda precisão

sigo a corrente

sem ver nisso prioridade

sentindo, roendo unha

pondo de lado as latitudes

ainda que as perceba

 

atafona, 14/11/95

 

 

Paula Vigneron, na manhã de 26 de outubro, na foz do rio Paraíba do Sul, sobre o istmo de areia que se forma na maré baixa entre as ilhas da Convivência e do Peçanha, com esta ao fundo, mais os cataventos da usina eólica de Gargaú (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Manhã de 26 de outubro, na foz do rio Paraíba do Sul, sobre o istmo de areia que se forma na maré baixa entre as ilhas da Convivência e do Peçanha, com esta ao fundo, mais os cataventos da usina eólica de Gargaú (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Encontro nas águas

Por Paula Vigneron

 

Manhã fria. O céu nublado aponta a possibilidade de chuvas ao longo do dia. As casuarinas à beira-mar, envergadas, potencializam a previsão. Os homens não sabem, mas não podem sempre identificar as vontades da natureza. O itinerário previamente planejado: caminhar sobre a areia, com toques da água de Iemanjá. No percurso, uma ligação transforma o dia, levando-os para outro destino: o encontro entre rio e mar; entre vidas que se cruzaram casualmente.

Pensamentos invadem o espaço antes ocupado por resquícios de uma noite de suspiros, sonhos e realidade. Incertezas que permeiam o dia que acabara de ser iniciado. Seria difícil a travessia? Os pés enterrados na areia, ora por vontade própria, ora pelos passos mal ajustados à nova superfície. Olhos que percorrem o ambiente, ainda pouco conhecido. A seu lado, o rosto familiar carrega sentimentos que se tornam sorrisos espaçados e sinceros.

A canoa, pintada de branco, traz histórias compartilhadas pelos ocupantes. Os olhos castanhos claros analisam movimentos diferentes: correnteza, conversas, suores, garças. Vegetação desconhecida que esbarra em corpo intacto. Estranheza causada a cada novo desvio. Distante, a terra se divide em duas ilhas, separadas pela vontade das águas. Pedaços de mesma construção natural. “Siamesas”, conforme afirma o homem de olhos infantis “como os olhos de um bandido”.

Em lugar próximo, um barquinho desliza no macio azul do mar, tal como previram, na época da Bossa Nova, os compositores Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal. “Tudo isso é paz. Tudo isso traz uma calma de verão.” À medida que avançam rio adentro, serenidade atípica domina a respiração dela. Buscas incessantes apaziguadas por barulhos da natureza e primeiros raios de sol, contrariando a previsão das primeiras horas da manhã. Os olhos dos dois se cruzam ocasionalmente. Mensagens são trocadas em silêncio.

Chegada à ilha. Primeiro contato mais íntimo com a natureza. Encontro com insetos incomuns. Picadas rápidas, dolorosas e aliviadas pelo contato com ar. Bancos de areia separados pelo fluxo das águas. Corpos levemente molhados atravessam o rio. Dedos brancos e morenos entrelaçados. Cabelos ao vento. A curiosidade infantil ressalta no olhar.

Sob o sol, ela observa o mundo que desponta ao seu redor. A realidade embalada pelas leves ondas. O fruto do beijo entre rio e mar. As águas frias que tocam os pés. Os pés que remexem a areia. Reconhecimento. Rotinas e horários foram sufocados pelos toques da brisa suave, que brinca com seu corpo e cabelos, arrepiando-os. Carinho mútuo abençoado por Oxum. Em canto esquecido, a criança, outrora presa à realidade exaustiva junto à adulta, recebe sua carta de alforria e se perde na correnteza. Desprende-se da mulher que a observa, sedenta pelo reencontro com a infância que lhe fora cruelmente subtraída.

 

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Este post tem 6 comentários

  1. maravilha de texto poesia e prosa Aluysio, como deixei em outro comentário o Pontal é e sempre será uma musa misteriosa a instigar poetas e prosadores, basta para para olhar o encontro das águas que se beijam e deixar as antenas abertas para o céu para captar as palavras de Deus.

    grande abraço

    1. Caro Artur,

      Sim, amigo: “basta para para olhar o encontro das águas que se beijam e deixar as antenas abertas para o céu para captar as palavras de Deus”.

      Abç e grato pela chance do eco!

      Aluysio

  2. Agradeço este “Deriva” maravilhoso e o texto perfeito da Paula, ambos ri, reli, e lerei ainda mais.

    Em retribuição, envio um poema antigo que no meu delírio, se mescla, ainda que timidamente, aos dois textos publicados:

    VELAS
    Sávio Moreira Gomes – 1997

    Que brisa sopra
    tão misteriosa e leve
    estas velas brancas…

    Empurra o barco
    silhueta ao sol,
    barco e barqueiro,
    imagem invertida
    no espelho d´água
    escorre na tarde
    embebida de luz.

    Que mistério conduz
    barco e barqueiro…
    Quem seduz o barco,
    O barqueiro, a tarde,
    o sol vermelho, o rio…

    Velas e brisa,
    tarde, sol, contraste…
    quem enfuna as velas,
    que mistério inventa
    a brisa, o barqueiro,
    silhueta ao sol?

    O silêncio do rio
    sorri na brisa…
    O mistério se esconde
    no dourado da tarde.

    1. Caro Savio,

      Na gratidão pela generosidade para com o poema, a certeza: sim, é perfeito o texto da Paula. Sobre os seus versos, enfunados de “velas brancas”, “sol vermelho” e “dourado da tarde”, as cores empurram o barco contra qualquer timidez.

      Abç e grato pelo poema!

      Aluysio

  3. A liberdade total não existe, abrimos mão de parte dela, quando nos organizamos em sociedade… Passamos a seguir regras, normas, tudo em nome da segurança aparente. Se isso é bom? Claro que sim! Passamos em tese, a respeitar o outro, o espaço social do outro, as diferenças de opiniões, o contraditório e sobrevivemos assim, o salto civilizatório nos diferenciou dos outros animais.

    Nos autodenominamos de livres, mas no fundo no fundo, somos prisioneiros de nós mesmos, o que nos liberta, é a Arte, a Música, a Poesia e, roubando de Maiakóvscki, deixo aqui este Poema, que deduzo que quem for ler, vai gostar e me alforriar…

    “Dedução

    Não acabarão nunca com o amor,
    nem as rusgas,
    nem a distância.
    Está provado,
    pensado,
    verificado.
    Aqui levanto solene
    minha estrofe de mil dedos
    e faço o juramento:
    Amo
    firme,
    fiel
    e verdadeiramente.”

    1. Caro Provisano,

      Alforriados estão todos os que jurarem:
      “Amo
      firme,
      fiel
      e verdadeiramente”

      Abç e grato pela chance do testemunho!

      Aluysio

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