Opiniões

David Bowie, choque cultural e homoafetividade abrem Cineclube Goitacá nesta quarta

Furyo

Homenagear o “Camaleão”, como era conhecido o cantor e ator inglês David Bowie (1947/2016), morto no último dia 10 de janeiro, é o principal motivo para a exibição às 19h30 desta quarta-feira, dia 17, no Cineclube Goitacá, do filme “Furyo, em nome da honra” (1983), dirigido pelo japonês Nagisa Oshima (1932/2013). Embora seja o papel mais importante da carreira de Bowie no cinema, esse drama de guerra ambientado num campo de prisioneiros japonês durante a II Guerra Mundial (1939/45) traz no choque cultural muitas vezes violento entre ocidentais e orientais, além da homoafetividade inevitável num ambiente exclusivamente masculino, os pontos mais promissores para esquentar o debate após a exibição do filme que abre a temporada de 2016 no Cineclube, sempre na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio.

Se o pop-star do rock Bowie interpreta o major britânico Jack Celliers, cabe a outro músico, Ryuichi Sakamoto, o papel do capitão Yonoi, comandante do campo de concentração. Sem esconder sua estranha atração por Celliers, ele tenta fazer deste o líder dos prisioneiros, mas é respondido com atos de insubordinação pelo alvo da sua afeição. Isso gera constrangimento entre os ocidentais, mas sobretudo para os japoneses, bastante cruéis por não terem assinado a Convenção de Genebra de 1929, que firmava condições humanitárias ao tratamento dos soldados inimigos capturados em guerra. E as cenas se aproximam do que foi na realidade, pois se baseiam no livro biográfico do holandês Lauren Van der Post, prisioneiro japonês na II Guerra.

Se a atribulada relação do “par romântico” vivido por Bowie e Sakamoto torna ainda mais tensas as relações na tela, cabe ao ator escocês Tom Conti servir de amortecedor, na pele do coronel britânico John Lawrence, que conhece o idioma e a cultura do Japão, tendo chegado a viver no país antes da II Guerra. Nessa função de tecla SAP cultural entre ocidentais e orientais, é ele quem batiza o filme em seu título original: “Merry Christmas, Mr. Lawrence”.

Síntese de toda a diferença entre as duas civilizações, mas também da sua humanidade comum, a felicitação do Natal inexistente na cultura japonesa é dita e repetida pelo personagem mais duro do filme: o sargento Hara. Interpretado brilhantemente por Takeshi Kitano, o papel serviu para abrir as portas do mundo a toda a capacidade dramática de quem era até então uma espécie de “Renato Aragão” do Japão. Tanto quanto Sakamoto, responsável também pela marcante trilha sonora do filme, já foi chamado de “Tom Jobim” daquele país insular.

Se, como ator e também diretor, Kitano depois reinventaria os filmes de gângster com “Brother” (2000), Sakamoto ganharia o Oscar pela trilha sonora de “O último imperador” (1987), do qual participa também como ator, dirigido pelo mestre italiano Bernardo Bertolucci.

Em outras palavras, a homenagem do Cineclube Goitacá é a David Bowie. Mas ao lado de Nagisa Oshima, Ryuichi Sakamoto, Tom Conti e Takeshi Kitano, o Camaleão raras vezes trocou de cores em tão boa companhia.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

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