Opiniões

Artigo do domingo — Bela, recatada e do lar

Marcela Temer na matéria da revista Veja (reprodução)
Marcela Temer na matéria da revista Veja (reprodução)

 

 

Marcelo Amoy
Marcelo Amoy

Por Marcelo Amoy (*)

 

“Bela, recatada e do lar”: uma expressão que mais desvela quem reage do que define a retratada (por mais que o faça bem).

Pelas minhas “investigações”, a (vice?)-primeira dama parece caber na definição. E qual o problema? O que há de errado com o fato dela ser bela, recatada e do lar? Pelas reações mais frequentes, o “problema” estaria no fato de que as mulheres, hoje em dia, não se vêem mais nesse papel — e que tal definição remete àquelas propagandas publicitárias dos anos 50, 60 e 70, quando a alegria suprema e o sonho mais vibrante de qualquer mulher seria ganhar, no dia das mães, um liquidificador potente ou uma batedeira turbinada. Quem sabe um fogão novinho em folha? Por isso, a reportagem estaria “enaltecendo um retrocesso” no papel que a sociedade espera das mulheres. Gente… isso é uma grande bobagem!

Acho fantástico que as mulheres tenham conquistado novos horizontes e torço para que conquistem, cada dia mais, novas maneiras de serem “muito mais” do que mães e donas de casa sempre que desejem. A luta pelos direitos das mulheres é justa e digna — e sempre poderá contar comigo! Só não contem comigo para condenar as mulheres que prefiram “se limitar” a ser mães e donas de casa. Eu defendo a liberdade individual e, por isso: que cada uma leve sua vida como desejar. Se a História é um rolo compressor que segue sempre em frente, apesar de tantas vontades por aí, porque temer (trocadilho involuntário, rsrsrs) uma reportagem? Alguém realmente acredita que muitas mulheres executivas deixarão seus postos de trabalho para voltarem a pilotar fogão só porque a Marcela assim decidiu?

Em segundo lugar, vi críticas cujo foco estaria mais no uso do termo “recatada”, como se seu emprego determinasse consciência de valor sobre alguma “virtude” inerente às mulheres assim descritas em detrimento das outras, “não-recatadas”. Para esses críticos, o “problema” estaria ligado mais à liberdade sexual das mulheres do que àquele entendimento do termo que significa, apenas, timidez, reclusão ou desejo de não sobressair, de não aparecer ou de se comportar de acordo com a ocasião.

Por mais que nossa sociedade ainda seja sexista (e, lamento constatar: ainda o será por muitas e muitas décadas), nós, pessoas esclarecidas, sabemos que as mulheres conquistaram, já faz tempo!, o direito de exercerem sua sexualidade como melhor lhes aprouver — e as valorizamos por isso também! Sempre haverá sexistas buscando “mulheres recatadas pra casar”, mas sempre haverá Homens que buscam Mulheres independentes, seguras de si, que sabem quem são e pra onde vão e Livres de qualquer escravidão sexual. Fora isso… recato não devia ser palavrão num país cuja sociedade desconhece quando deve parar de rebolar até o chão na boquinha da garrafa. Para homens e mulheres, recato deveria ser um Norte, um Valor — o que nem de longe nem de perto significa submissão.

Além disso, em grande parte, o que vi foram críticas cujo foco não estava em nada disso… São críticas “transferidas” para a Marcela por aqueles que desejam atingir Michel. Por que ninguém chama de sexistas essas pessoas que, para atingir o marido, alvejam a esposa? Não faltaram críticas e gozações a essa mulher por parte dos inconformados com o fato do marido dela ser quem vai suceder Dilma após o impeachment. O ranço e o cheiro da mágoa, do despeito e do ódio empesteiam essas críticas. Esse contingente não merece considerações.

Por fim, houve quem entrasse na brincadeira como eu mesmo: que o fiz sem qualquer crítica; só pelo prazer de brincar também. No final das contas… a brincadeira foi ótima!

Mas foi triste constatar que o que mais tinha era gente criticando a Marcela porque queria criticar:

1) a Veja;

2) o Temer;

3) o impeachment;

4) a beleza da Marcela;

5) o fato dela ter escolhido ser “do lar”; e

6) o fato dela preferir não aparecer nem sobressair do que houve gente verdadeiramente comprometida em respeitar o fato de que as mulheres já conquistaram o direito de serem aceitas e admiradas de acordo com as escolhas que fizeram para suas próprias vidas — o que inclui o direito de Marcela ser “bela, recatada e do lar”.

 

(*) Marcelo Amoy é tradutor

 

Publicado hoje (24/04) na Folha da Manhã

 

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Este post tem um comentário

  1. ME POUPE!! ISSO TUDO PORQUE É A MULHER DO VELHO TEMER. BELA, (trecho excluído pela moderação)

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