Opiniões

Paula Vigneron — Quinze minutos

Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A manhã estava estranha. Maria não podia definir o motivo de senti-la diferente das demais. O vento balançava as árvores plantadas perto do ponto final. As ruas, pouco movimentadas, contribuíam para a sensação que a dominava. Olhou as horas. Nove e quarenta e cinco. O calendário indicava que trinta anos tinham passado desde a última vez em que estivera ali. Na época, optou por um vestido azul marinho. Mais curto do que os habituais. Queria despedir-se dele com uma aparência leve para não pesar o seu caminho. Se deveria partir, que partisse sem dores ou receios. Desejava, mesmo com os nervos à flor da pele, não demonstrar os medos que pulsavam em seu coração. Como seria a distância de Marcos?

Nove e cinquenta. Cinco minutos mergulhada em recordações. Trinta anos sem esquecer passos, palavras, gestos, sorrisos lacrimejados e o olhar do menino que estava prestes a se tornar um homem. Pronto para crescer longe dela.

Maria havia conhecido o rapaz em uma festa. Adolescentes, encantaram-se imediatamente. A atenção dele foi despertada pela beleza da garota. E a dela, pela sua inteligência ao se posicionar sobre diversos assuntos e uma perceptível sensibilidade para lidar com o próximo. “Quantos garotos são assim?”, questionou a si mesma.

O ônibus dele partiria às dez. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Agora, seu relógio marcava nove e cinquenta e três. Sete minutos de despedida que se eternizaram por trinta anos. Todos os dias, a mulher se lembrava da partida dele. Como estaria hoje agora? “Marcos, você ainda é capaz de me reconhecer?”, perguntou, em voz alta, às memórias que ecoavam em sua cabeça. Acendeu um cigarro. O vício cresceu à medida que os dois se distanciavam. Ela precisava calar a ansiedade.

“Pode ter certeza de que não me esquecerei de você, minha pequena.”

Embora eles tivessem a mesma idade, ele a tratava como uma criança. Perdia noites de sono para acalmá-la, por telefone, quando seus planos desandavam. Escolhia delicadamente as palavras que poderiam confortar Maria. Quando feliz, por quaisquer razões, ambos comemoravam juntos. Mantiveram-se assim por anos. A rotina foi modificada pela mudança. Marcos havia sido convidado para morar em outra cidade, na casa de seus tios. Conseguira seu primeiro e importante emprego. Não poderia recusar a oportunidade.

“Você me entende, Maria?”

“Entendo, Marcos. E acho que a sua escolha está certa. Não é sempre que temos uma chance como essa.”

“Eu vou, mas eu volto assim que tiver tempo. Em breve, em um ônibus igual a este, chegarei de malas prontas e ficarei definitivamente. Aguarde um pouco. Só um pouco.”

Ela esperaria o tempo que fosse necessário. Ele acreditava, embora temesse que a namorada mudasse de ideia. Todos os receios e anseios foram silenciados. Não poderia haver empecilhos.

Nove e cinquenta e cinco. Dois minutos que pareceram dias. Como era relativo o tempo.

“Eu também não me esquecerei de você, menino. Jamais. Estarei aqui, à sua espera, quando o seu ônibus estacionar.” Em troca, ele lhe entregou uma rosa vermelha, que ela guarda dentro de um livro da adolescência.

Nos primeiros meses, a troca de cartas era constante. Saudades, sentimentos e histórias. Nomes antes desconhecidos por ambos eram citados nos relatos cotidianos. “Mas queria mesmo que você estivesse aqui”, escreviam sempre. Era o desejo do casal. Um desejo calado pelo tempo. Afastaram-se. Afazeres. Trabalhos, escola. Provas, leituras, novas companhias. Dois anos se passaram até que a última mensagem de Marcos chegasse a Maria.

“Não é justo. Não posso te manter presa a mim. Minha vida mudou completamente. Não me vejo retornando à rotina até então conhecida por nós dois. Sinto que ficarei por aqui, Maria. E torço, acima de tudo, por sua felicidade. Grande beijo. Marcos.”

Uma mancha ainda é visível no canto direito da carta, abaixo da assinatura. A primeira reação de Maria ficara registrada com as letras de Marcos. Limpou os olhos. Seus sentimentos variaram entre tristeza, leveza e revolta. “Como ele pode determinar o que é melhor para mim? Ninguém pode escolher pelo outro. Pode ser que haja outra pessoa.” A resposta, ela nunca soubera.

Nove e cinquenta e nove. Um ônibus, que lembrava o de Marcos, estava no sinal. Faltavam alguns segundos para chegar ao ponto onde ela esperava sentada. Trinta anos. O cigarro queimava entre seus dedos. A pele amarelada estava acostumada. O coração de menina novamente pulsava em seu peito.

Dez horas. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Levantou-se. Pelas janelas, avistou os passageiros. Apenas cinco ocupavam as cadeiras. Dois homens, uma mulher e um casal de idosos, que conversava animadamente. Trinta anos de espera. Esperança vã.

“Aguarde um pouco. Só um pouco.”

A voz do seu menino continuaria a ecoar em sua cabeça por outros anos. Talvez mais trinta. Ou dez. Por dias. Até o último minuto.

“Falta pouco”, pensou. “Só um pouco.”

 

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Este post tem 3 comentários

  1. E nunca saberemos o que realmente passa no coração dos outros, dos amores mal resolvidos… O que penso saber é que o texto e todo o intertexto, aquele não escrito com todas as letras mas, que está lá, oculto e não oculto ao mesmo tempo, me rememora à coisas que senti e sinto, e é por isso, meu querido Aluysio, que amo ser marcado nessa publicações que vao do Blog Opiniões ao face, ainda mais um texto sensível e belo, como o da Paula Vigneron, que me encantou e com toda a certeza encantará e batera no fundo dos corações e mentes de quem o ler…

  2. É texto para ler e reler, ainda mais que neste exato momento ouço um velho LP, Paulo Moura & Raphael Rabello, ‘Dois Irmãos’. Bate certinho com o ritmo e sentimento da narrativa.
    Dá tristeza lembrar que Paulo Moura e Raphael Rabello já partiram, mas, ao ler/reler Paula Vigneron temos a impressão de que sentimentos não morrem, voltam sempre misturados com lembranças e ‘saudades’. No fundo, a leitura do que representa uma “espera”, sempre nos afeta de alguma maneira, sempre nos comove, ainda que procuremos dissimular ou esconder alguma lágrima insistente.

  3. Falta só um pouco mais, só um pouco mais… ansiedade, esperança, desejo, juventude, tudo se compõe nesse texto maravilhoso. E a fotografia das ruínas de Atafona aparece como uma excelente escolha pra combinar com esse sentimento que tem um quê de desilusão, mas não larga mão de ter a beleza da tragédia.

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