Versos contra o horror

Sobreviventes, parentes e amigos na manhã seguinte à tragédia parida na relação incestuosa entre homofobia e terrorismo (foto: reprodução)
Sobreviventes, parentes e amigos na manhã seguinte à tragédia parida na relação incestuosa entre homofobia e terrorismo (foto: reprodução)

 

 

Na madrugada de sexta para sábado, uma pessoa que respeito e admiro profundamente, me falou do medo de ser mulher. A conversa veio a reboque do estupro recente do IFF, repetido coletivamente no Rio e no Piauí, além, lógico, da condenação de 14 pessoas pelo caso “Meninas de Guarus”.

Como homem, nunca havia pensado nessa perspectiva, que não me saiu da cabeça pelo final de semana. Com boa parte deste passado no plantão da Folha, o massacre na boate gay Pulse, em Orlando, na madrugada de sábado para domingo, me fez ampliar ainda mais a reflexão, a partir dessa união incestuosa entre homofobia e terrorismo.

Após o trabalho, mesmo cansado e com sono, não consegui dormir na madrugada de domingo para hoje, com o frio infiltrado pela proteção inúltil das meias. Enquanto pensava, sozinho no quarto, ouvi gritarem lá fora os gatos em cópula. Desisti de dormir para seguir-lhes o exemplo, me dedicando às preliminares com uma amante há muito negligenciada.

Ao “horror” de Joseph Conrad (1857/1924) encarnado por Marlon Brando (1924/2004) no “Apocalypse Now” da ficção e dos 50 mortos a tiros da minha realidade presente, busquei catarse na poesia. E junto dela vi o sol nascer e inundar o mundo lentamente de luz.

 

 

 

 

o horror

 

o frio mudo entre as meias

finas do dia dos namorados

grita lá fora no coito dos gatos

 

meus pés já não tocam o calor

das vidas calçadas por garras

sangrando a noite de orlando

 

à caça do coito dos gatos

corpos de homens gelados

e cento de pés sem função

 

campos, 13/06/16

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Savio

    Visceral, profundamente realista. O Poema diz e dói, comove.

    __Difícil entender, se é que há como entender e aceitar o terrorismo que mata “em nome da Fé”. Quando o fanatismo tem cores da Psicopatia, todos estamos expostos.

  2. Sandra Machado

    Triste .Melancólico.Absorvente

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