Fabio Bottrel — Pinturas

Van Gogh - autorretrato
Autorretrato de Vincent Van Gogh

 

 

 

Música: Camargo Guarnieri – Violin Concerto nº2, 2º Movimento

 

 

 

 

 

 

Escrito por

 

Fabio Bottrel

 

Rio de Janeiro/RJ

Maio de 2013

 

01   INT. ATELIÊ – TARDE         01

 

Mulher coberta parcialmente por um tecido leve posando para seu marido, que pinta a sua imagem.

No ateliê, belos quadros, livros e uma janela grande com vista para a cidade.

 

João (pintor) é acometido por uma forte dor de cabeça e sua

visão começa a escurecer. Vemos sua esposa vir acudi-lo.

 

ESPOSA

João! João!

 

02   INT. CORREDOR DO HOSPITAL – NOITE         02

 

João está deitado em uma maca em movimento. O ambiente é

confuso. Pessoas correndo em volta, Esposa continua

chamando seu nome.

 

03   INT. QUARTO DO HOSPITAL – DIA         03

 

João deitado com uma faixa nos olhos e estático, de repente faz um pequeno movimento e ESPOSA ao lado percebe.

 

ESPOSA

Enfermeira!

 

04   INT. CONSULTÓRIO MÉDICO – NOITE  04

 

João sentado em uma cadeira, médico tira a faixa de seus

olhos. Sua visão embaçada começa a voltar ao normal.

 

MÉDICO

Olá, João.

 

JOÃO

O que está acontecendo? Eu nãoconsigo enxergar direito.

 

Médico pinga gotas de um remédio nos seus olhos.

 

MÉDICO

Sua visão voltará ao normaldentro de instantes.

 

Médico pondera junto com Mulher as próximas frases.

 

MÉDICO (CONT)

Infelizmente as notícias que tenho para lhe dar não são boas, João.

 

JOÃO

Que notícias?

 

MÉDICO

Você sofreu uma degeneração macular aguda. É uma doença que tem propensão a atingir pessoas da sua idade.

 

Médico usa uma cópia palpável de um olho para explicar.

 

MÉDICO (CONT’D)

A degeneração macular é causada pelo dano na área ao redor dos vasos sanguíneos que abastecem a mácula.

 

JOÃO

Eu continuarei enxergando?

 

Médico mostra uma lauda do exame.

 

MÉDICO

O que aconteceu com você foi uma raridade. Apareceram também hemorragias e acúmulo de líquido devido ao surgimento de vasos sanguíneos anormais sob a retina…

 

JOÃO

(Corta)

Você não respondeu a minhapergunta.

 

MÉDICO

Você perderá a visão completamenteem breve.

 

JOÃO

Em breve quando?

 

MÉDICO

Três dias, no máximo.

 

Após um silêncio.

 

JOÃO

(À Mulher)

O quadro…

 

ESPOSA

Você não precisa…

 

JOÃO

Essa é a minha maior obra. Eupreciso terminá-lo.

 

MÉDICO

O importante é não deixar se abaterpela doença e…

 

JOÃO

(Corta)

Você não entendeu, doutor. Não meabati pelos meus olhos. Estes são apenas uminstrumento para a minha arte, a decepção de nunca concluir minha maior obra, essa destruiria a minha vida mais que qualquer doença conhecida.

 

05   INT. ATELIÊ – DIA       05

 

Mulher em pose. João de frente para ela, observando minúcias:

Os poros, o suor, a lágrima, os olhos, o bater do coração, o cabelo levantado suavemente pelo vento, as rugas, a murches dos lábios.

 

MULHER

João, você não vai conseguir pintarapenas com a lembrança.

 

JOÃO

Não é com a lembrança que eu ireipintar.

 

João continua a observar. Esposa abaixa a cabeça, parece desistir.

 

JOÃO (CONT)

Você quer continuar viva para mim?

 

MULHER

Sim.

 

JOÃO

Então não desista, essa é a última vez que olharei o seu sorriso, suas lágrimas,seu peito inflar ao respirar…

 

Esposa retorna à pose.

Os traços observados por João aos poucos vão se transformando em pinceladas. Dias e noites passam e João permanece de frente para sua esposa, observando-a. Até que a imagem se transforma completamente em pinceladas e tudo se apaga.

 

06   INT. ATELIÊ – NOITE         06

 

Cena em que percebemos João cego.

Sugestão para direção:

João, de costas para a câmera e de frente para a janela, como se observasse a cidade iluminada afora.

Vira-se e percebemos que está cego.

 

07   INT. ATELIÊ – NOITE         07

 

João de frente para o quadro. Tenta continuar a pintura.

Treme, sente insegurança. Mão de Mulher se põe sobre sua mão e tenta guiá-lo em alguns traços. Até que ele se exalta, derruba algumas coisas e tem uma crise misturada com melancolia.

 

08   EXT. TERRAÇO ATELIÊ – NOITE      08

 

João aparenta observar a cidade iluminada mesmo cego, como se estivesse em sua janela. (Direção) Logo após vemos que ele está na ponta de um precipício, apenas um passo o separa da queda. O vento bate forte em seu corpo.

 

09   INT. ATELIÊ – NOITE         09

 

Esposa entra no ateliê e não encontra João.

 

ESPOSA

João? João?!

 

Esposa sobe as escadas que termina no terraço e vê João de costas na ponta do precipício. Se põe ao seu lado e segura

sua mão. Os dois estão a um passo da queda.

 

João começa a sentir a mão de Esposa, vira-se para ela, seu

pé passa no vazio. Ela também se vira para ele, um de frente para o outro. João apalpa Esposa lentamente, como se

sentisse cada detalhe do seu corpo.

 

10   INT. ATELIÊ – NOITE         10

 

Esposa posando para João, mesmo cego. João pintando o quadro, para de pincelar, um sinal de término.

 

Esposa se levanta e vai olhar o quadro. Emociona-se.

Vemos o quadro, alguns borrões coloridos se juntam à imagem antiga que jazia na tela, tornando-se uma pintura abstrata.

 

JOÃO

Aqui, a sua pele já não se faz maispresente.

 

 

 

FIM

 

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Este post tem um comentário

  1. SÉRGIO PROVISANO

    Sim, eu li… com alguma dificuldade pois a minha vista não está legal, por conta da gripe, da descompensação da glicose, mas li, isso após um exílio compulsório por conta da dificuldade em ler, aos poucos vou retornando e dou de cara com este texto, meio assim premonitório, espero que não, no que me diz respeito, mas gostei, Fabio, para variar, pois andamos mesmo é no fio da navalha, à beira dos abismos de nossas tênues e frágeis existências…

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