Fabio Bottrel — Folhetim Contemporâneo

Bottrel 06-08-16

 

 

Toda segunda sexta-feira do mês a Folha Letras traz um capítulo do romance folhetinesco Quando Nasce um Ser Humano, no dia 12 desse mês será publicado o sétimo capítulo. A ideia surgiu dos folhetins nascidos nos jornais franceses em torno de 1830, pós-Revolução Burguesa, impulsionada pelo romantismo, como destaca Marlyse Meyer em Folhetim: uma história. Cresceu em meio a Revolução de 1848 e entre as lutas e o massacre de operários foi proibido, retornando com a etiqueta pejorativa de “romance popular” informa Haickel em Folhetim: um fenômeno literário: “(…) data do Segundo Império (o regresso do folhetim), no reinado de Ponson du Terrail, autor de Rocambole, uma delirante narrativa que se arrastará por 13 anos, que culmina mais tarde com a Guerra Franco-Prussiana em 1870 e 1871 com a morte do autor; vem a Comuna de Paris, nasce também o folhetim da terceira fase, os romances das vítimas, retornando à consagrada receita, com um outro recado, mais conservador, onde irá se destacar, entre outros, Xavier de Montepin.”

Com Machado de Assis e José de Alencar dentre seus escritores brasileiros, o folhetim fez muito sucesso no Brasil alcançando seu apogeu no final do século XIX e deixando uma vasta técnica de dramaturgia esmiuçada ponto a ponto por seus herdeiros no rádio e logo depois na televisão, tais como os ganchos no final dos capítulos para prender a atenção do leitor e manter seu interesse no próximo, abordagens de temas polêmicos e narrativa fluida como uma correnteza forte. Os folhetins escritos pelos nossos autores logo depois eram editados e publicados em forma de livros, como A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo. Mas a nossa proposta de folhetim contemporâneo foi ao avesso, estreei adaptando um romance de minha autoria à estrutura folhetinesca e o resultado você pode acompanhar todos os meses na Folha Letras do jornal Folha da Manhã, e nessa publicação de hoje com o primeiro capítulo.

Espero que goste!

 

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Adagio for Strings – Samuel Barber

 

 

 

 

CAPÍTULO 1

 

Ao nascer um ser humano, mais de 1.200 animais serão sacrificados e seu pequeno corpo produzirá 40 toneladas de excremento e lixo. Se Deus assemelha-se a nós, todas as esperanças estão perdidas.

 

— Não deixe o meu filho morrer!!!

Com as mãos e braços banhados em sangue, Jéssica escuta o último suspiro da mulher deitada à sua frente.

— Salve o meu filho…

Trêmulas palavras palpitam as lágrimas lavando os poros cobertos de suor sobre a palidez da pele, confirmando a hemorragia que acabara de sofrer. Um leve gemido é solto sobre o ar quente, as veias haviam sumido das mãos sem movimento, a jovem está perdendo suas forças e as chances de não chegar a conhecer o filho são grandes.Há poucos minutos sua pressão subiu drasticamente e saiu do controle, sofrendo uma anoxiaintrauterina, podendo causar a morte do feto prestes a nascer.

Enquanto o sangue pingava de seus braços, Jéssica se sentia na pele da mulher que tentava salvar, o aumento da pressão ocasionou um abrupto descolamento da placenta, gerando uma hemorragia, em alguns minutosmataráa jovem se o bebê não nascer a tempo.

Os olhos nervosos dos ajudantes acostumados com os incidentes corriqueiros naquele canto de mundo assustaram-se ao perceber o tempo suportado pela jovem após tanto sangue derramado. A cama improvisada com esteiras de palha havia sido pintada de vermelho-sangue, lágrimas e esperanças. Pintura abstrata, que vem do corpo, mas não se faz dele. Pintura triste, só quem enfrenta a vida vê sentido.  A preocupação com o filho, cedendo sua própria vida em prol do nascimento, emocionara a todos, alcançou o pleno significado de mãe, doadora da vida, doadora das lágrimas, doadora dos sorrisos. Sem nenhum tipo de formação, os que ali ajudam observam atentos a todos os gestos da médica, que luta para salvar o neném junto com a mãe.

Escuta-se um grito. Jéssica levanta sua mão deixando o sangue vivo escorrer por todo o seu braço até chegar ao ombro e essa umidade vermelha fez com que o vento da noite, entrando pela janela da cabana e deparando-se com o seu braço esticado, se tornasse o alivio da sua pele torturada pelo calor e a respiração ofegante de todos os que ali compunham o parto. Refrescou-se com sangue.

No alto da sua mão, o bebê recém-nascidochora alto, forte, resplandecente para toda a tribo que lá fora esperava escutar o timbre de um pulmão puro se enchendo com o ar da floresta. Ali mesmo o pequenino abraçou a alma de sua mãe, que partiu com um sorriso merecido do seu nascimento.

Toda a tribo se ajoelhou e juntos entoaram cânticos ao ver o menino pela janela, seguro pelas mãos de Jéssica e banhado pela luz do lampião. As mãos foram dadas e um som uníssono — que nenhum coral poderia repetir com tamanha paixão — foi solto ao mundo, pedindo para que o vento levasse as suas vozes para outros ouvidos e outras bocas com os desejos de uma vida melhor para aquele pobre garoto.

Jéssica enrolara o bebê em um manto branco tão fino chegando a ser transparente, desceu os degraus de bambu que rugiam com a dificuldade em suportar o peso de seus pés e o entregou a uma idosa de aparência saudável e inabalável.Sua pele era toda enrugada pelo tempo, marcas de uma vida dura. Sua cor fora moldada pelo sol e bronzeada pela dor, era a mulher do cacique e quem cuidaria daquela criança.

— Amanaiara aeté aiyara —  diz a idosa revelando os olhos lacrimejantes ao desgrudá-los do bebê e fixá-los aos olhos de Jéssica.

Com um aceno delicado para a cabana, quase levantando voo com o vento forte batendo nas suas pontas de piaçaba:

— Amanaiara aeté aiyara — repete a velha, aparentando ter previsto a morte da jovem ao dar à luz.

Jéssica não entende as palavras pronunciadas em tupi, mas sabia da sua inerência à partida da alma dentro da cabana. A única coisa que ela podia fazer era lamentar junto com a índia, mas o tom de voz forte pronunciado pela senhora de cabelos selvagens não era de lamento; de conformismo, talvez. A médica achou melhor voltar para a cabana e confirmar a passagem da morte por ali.

— A mãe da chuva elevou a filha — disse um índio antes de Jéssica adentrar a cabana.

— Foi isso que ela disse.

Com os cabelos grisalhos ondulados pelos ventos fortes solapando a sua face, a sábia olha para a noite e sussurra para toda a infinidade que dela vem:

— Amanajé abequar amanara abirú acemira…

— Mensageiro que voa em dias chuvosos repleto de dor.

Ergue a criança como se ofertasse ao seu Deus e nesse momento um clarão acompanhado de um grande estouro assusta a médica. Era a chuva chegando, fria, linda, lavando as almas e o sangue que escorria do bebê erguido por ombros gigantes.

As gotas grossas caíam da escuridão e batiam no manto do recém-nascido, faziam-no desaparecer com a sua transparência, como um guardanapo se desfaz ao se molhar. Do mesmo modo, acontecia com a blusa branca usada por Jéssica, revelando seus seios tal como as outras índias presentes.

A médica volta ao local do parto e senta-se ao lado da jovem. Olhava com delicadeza a linda pele morena, lábios finos e novos enquanto a alma se esvaía deixando apenas o estupor do corpo vazio. Uma lágrima escorre em silêncio na pele fria, perdendo o seu brilho e a vida enquanto o vento levita o manto que cobrirá o sorriso da recém-mãe, recém-heroína, recém-morta. Põe-lhe a mão na testa, fecha seus olhos que já não mais enxergam as dores do mundo e lhe deseja que descanse em paz.

Assim como o menino, Jéssica abraçou a alma de sua própria mãe ao nascer.

 

***

 

Debaixo da tempestade, Jéssica corre entre as cabanas de piaçaba até chegar ao local onde estacionou o carro. O cheiro de terra levantado pela chuva não se fazia mais presente, pois tudo virara lama, contrastando com o branco do seu uniforme camuflado com barro dos pés aos joelhos.

— Ei!!! Doutora!!!

Escutou o grito em sua direção até chegar aos seus ouvidos molhados, vinha de um homem emergindo desesperado da escuridão na floresta. A médica parou e se pôs a escutar.

— Precisamos de ajuda!!! Rápido!!!

A chuva não dava trégua enquanto ela corria para dentro da mata junto com o homem, sendo guiada apenas pela lanterna e pelo grito de outro rapaz que aparentava estar ferido em algum lugar dentro da floresta, sentiu a luz da lanterna banhando seus seios nus pela transparência da camisa e teve medo do homem. Ao adentrar a mata deparou com uma imensa escuridão e mais uma vez, teve medo do homem. Os galhos grossos e espinhentos lhe cortavam a calça e um despercebido lhe arranhou a face,imaginou que os pingos de chuva escorrendo de seu rosto fosse sangue, as pernas tremiam, não pelo frio, mas pelo nervoso de entrar em uma mata fechada, na escuridão da noite, em plena tempestade e com dois homens que ela nunca vira antes. Só foi perceber onde tinha se metido quando já estava dentro do problema. A morte da mulher ainda permeava seus pensamentos e a deixara desnorteada quanto às circunstâncias que lhe acabaram de submeter. Um enorme clarão descendo rente a uma árvore lhe surpreendeu; por um segundo, todo o mundo se iluminou, toda a natureza se mostrou e gritou logo em seguida um enorme estouro, um trovão. Jéssica já não sabia mais como voltar…

 

Continua…

 

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Este post tem 2 comentários

  1. savio

    Muito bom!!! O “problema” é esperar até sexta-feira! Não que eu não tenha experiência sobre este tipo de angústia, porque já passei por esta sensação de expectativa com, pelo menos, 12 romances inéditos e inteiros de outro grande escritor campista. À medida em ele escreve os capítulos, me envia para apreciação/degustação.

    __A sensação é simplesmente “apavorante”! Por outro lado, este “espaço” tem o poder de agir na área do subconsciente, preocupa-nos o que irá acontecer com a personagem principal, uma vez que esta ganha “vida” no imaginário do leitor, muito bom!

  2. SÉRGIO PROVISANO

    Sim… sim, à espera (ou seria a espera) do segundo capítulo, Fabio…

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