Guilherme Carvalhal — A mulher vestida de noiva

Carvalhal 20-10-16

 

 

Passou ali, linda com seu véu amarronzado de terra, encantadora com a bainha do vestido rasgada, charmosa com o buquê despetalado em mãos, restando somentes os talos. A maquiagem se perdeu frente chuva e vento, mas ainda assim assegurava uma beleza irredutível, que persistia mesmo quando o sal da maresia e o sol castigavam sua tez.

— Mãe, por que aquela moça está vestida de noiva? — Quis saber uma criança curiosa.

A dúvida pairava em todo povoado pelo qual ela passava, mas a resposta acompanhava no rastro. Andava à procura de um marido, proclamavam os boatos pulando de boca em boca. A essa informação estática agregavam-se versões sortidas. Seria ela uma mulher abandonada ao altar que partiu louca e sem destino por ver suas esperanças afundadas na espera pelo noivo que não chegava, ou seria uma fugida do hospício que atacou uma recém-casada, levou o vestido e agora esfaqueava homens a esmo.

Essa mistura de ficções tentando explicar a ação desarrazoada da mulher criaram um folclore regional por trás dela. A fama se espalhou e onde chegava os moradores já conheciam e achavam graça quando perguntava se encontraria um homem decente com quem se casar.

Muitos se prontificavam de maneira jocosa e ela logo identificava suas intenções e virava as costas. Outros se manifestavam com sinceridade, atraídos pelo negro de sua epiderme e pelas curvas bem constituídas de seu rosto. A largura das anáguas impossibilitava que captassem as feições do corpo, mas isso ajuda a fomentar a expectativa. A esses, ela lançava perguntas diversas e intermináveis, forçando o interessado em um jogo sem saída, no qual indubitavelmente terminaria revelando uma falha sua e assim sendo descartado.

Foram meses a fio nessa jornada. Seu vestido se tornava mais roto e ao longo do tempo se desfaria em andrajos pendurados deixando-a semi-nua em público. A beleza se mantinha, mas alterava-se pela magreza da alimentação menos farta. Catava frutas pelas matas onde caminhava e recebia piedade de senhoras, todas essas lembrando-se das agruras do próprio casamento, sustentando um senso de entendimento na busca daquela mulher por algo próximo à felicidade.

Seu itinerário logo se converteu em círculos. Visitou a mesma cidade mais de uma vez e constataram que seguia um caminho exato, e muitos cogitaram que reavaliava as propostas anteriores. Quem a propôs em casamento a procurava quando retornava em busca de uma resposta positiva, mas diante de sua interpelação recebia nova recusa, nessa ocasião acompanhada de novos argumentos. As mulheres que a alimentavam então concluíram que ela viajava atrás de uma perfeição que jamais obteria e, portanto, morreria nessa caminhada.

Contrariando sua previsão, um desvio de caminho a fez estacar. Remetida a uma cidade diferente, encarou quem a fizesse colocar um ponto final em sua busca. Não um quem, mas um que. Na praça principal, encarou a estátua do fundador, um homem de vestes nobres e cartola encarando o horizonte, e nela localizou o grande amor que buscava. Sua mente vislumbrou uma miríade de encantos proporcionados por aquele homem plúmbeo.

Assim, caminhou até ele com os passos de quem entra na igreja. Ladeou-se e jurou amor até a morte, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza. Selou seu compromisso com um beijo em seus lábios gelados e atrelou-se em um forte abraço ao seu novo marido.

Todos estranharem e quando chegaram os boatos, acharam graça em seu gesto. Tornou-se uma atração local, ela ali imóvel aproveitando cada segundo ao lado de sua grande paixão. Passaram semanas e nada de se mexer, apenas deixando escorrer pelas pernas os fluídos da sua excreção.

Quando alguém ousou romper o círculo de zombaria para convencê-la a sair dali, notou o tom arroxeado da sua pele e o mal odor próximo. Tocou-lhe e a constatou rígida, já endurecida pela morte. Faleceu aos braços de seu amado e quando a removeram constataram um sorriso de felicidade que levaria para o túmulo. Viveu seu casamento até que a morte os separasse.

 

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