Carol Poesia — A hora grave

 

Carol Poesia 13-12-16

 

 

Todo fim de ano me traz pensamentos de morte. Não são pensamentos pessimistas, são reflexões sobre a vida, vontade de perdão, de reparos, de acertos. Vontades vindas da impressão de que o próximo ano pode ser o último ano da minha vida. E se for?

Há poucas semanas uma grande amiga perdeu o único irmão. Com apenas vinte e sete anos, ele enfartou. Fulminante, em casa. Sem explicação. E existe explicação para alguma morte? Nos olhos dela, serenidade. A certeza de que o irmão partiu no momento em que tinha que ir. Era a sua hora grave.

A paz de Nathália me comove de um jeito único. O seu discurso é de certezas, equilíbrio e resiliência. De onde vem isso? Lucas, pouco antes de morrer, olhava o céu com as mesmas certezas, conta a mãe.

Lembro-me do meu pai me esclarecendo de que o céu, na verdade, não é azul, essa cor é uma ilusão de ótica. Depois disso eu nunca mais olhei o céu da mesma maneira. Parece que estou sendo enganada. Céu não tem cheiro de nada… Preciso confiar na visão.

— Que diferença faz saber que o céu não é azul?

— A diferença é que essa é a verdade.

— Verdade pra quem?

— Para todos.

— Então o azul não é verdade?

— Não. É só o que você pode ver.

Nesse momento a surpresa de que a verdade não é necessariamente aquilo que a gente vê, ou aquilo que a gente vê não é necessariamente verdade foi impactante. Quando crianças, somos fiéis a nós mesmos, por isso a dificuldade de aceitar que a ciência tem muito mais credibilidade do que os nossos sentidos. Enfim, o mundo nunca mais foi o mesmo rs.

Lucas olhou para o céu na véspera de sua hora grave. O que ele via? Provavelmente o que todo mundo via naquele dia ensolarado — o céu azul. A pergunta certa não é o que ele via. A pergunta certa é o que ele via além do que os olhos podem ver. Eu não sei o que ele via para além do que os olhos podem ver, mas eu sei que ele tinha certeza.

Num mundo de meias verdades, quem tem certeza é rei. E, de fato, eles são nobres. Cada gesto de Nathália é gesto de compreensão. Cada palavra é de serenidade. Junto a sua percepção de mundo e de gente existe uma sincera e rara tolerância. É sem esforço. É de verdade.

Ela me disse que sentiu muito pelos chapecoenses. Disse isso no meio do luto por seu irmão. “Lucas está no céu, Carol. Ele não era daqui. Nunca foi. Ele sabia. A gente sabia.”, ela diz com voz doce, sorriso calmo e olhar sereno. Ela diz com a tranquilidade de quem tem certeza e não quer e não precisa provar nada pra ninguém.

Eu não sei de que cor é o céu. Soube, desde pequena, que azul ele não é. E desde então evito olhá-lo, ora por preguiça de entendê-lo, ora pra desviar de ilusão. Eu não sei se 2017 será minha hora grave, pode ser que sim, pode ser que não…

Percebo agora que pouco importa de que cor realmente é o céu… Importa o que vejo para além do que se pode enxergar. Importa olhar pra cima e enxergar o que se QUER ver. Só assim haverá certeza sobre a sua cor. Só assim há certezas.

[Acabo que criar uma meta para o ano novo!]

 

O calmo adeus (Vilmar Rangel)

 

Por ser irrevogável, simplesmente

a ideia de morte não me assusta.

Sequer me aflige o que ela representa

— a certeza da minha finitude.

 

Sinto-a presente toda vez que fito

minha imagem no espelho de mim mesmo,

fugindo, insidiosa, cada dia,

entre ponteiros de um relógio exangue

na mesa imponderável de Dali.

 

Busco aceitá-la como o réu confesso

ouve a sentença já imaginada.

Entrevejo-a e tento decifrá-la

nos desvãos da matéria que recobre

um pobre espírito que busca a luz.

 

Ela se instala mansa e habilmente

e transforma vestígios em sinais

que desalinham todos os sentidos.

Ela se veste de ilusória paz,

mas desnuda sem dó os meus enigmas,

como quem cobra da fugas memória

inventários de perdas e de ganhos,

– relatórios de perdas e de saltos -,

confluência de auroras e crepúsculos.

 

Reexamina os ritos de passagem,

revisita caminhos sem atalhos,

o trajeto trilhado em luta e sonho,

o sonho tantas vezes revivido

em partilha de crenças e renúncias.

 

Sei que virá, envolta em sombras, muda,

os braços em convite, a face oculta.

Mesmo que venha lenta ou num só golpe,

preparo-me sem medo, sem angústia,

sem nada por fazer ou repesar.

 

Lanhos na pele pálida, sem viço,

mas aço dentre os ossos e na alma,

sinto a vida insistir, e por inteiro

espero a hora grave, a grande noite

para exprimir, liberto, o calmo adeus.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Alessandra

    Parabéns pela reflexão, linda!
    A fé realmente é algo extraordinário…

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