Guilherme Carvalhal — O velho marinheiro

 

Carvalhal 15-12-16

 

 

Movido pelas alvíssaras estipuladas na bola de cristal garantindo-lhe sucesso nas aventuras e riquezas escondidas além dos mares, o jovem impulsivo ingressou no navio e atravessou águas longínquas acumulando um número infinito de histórias. Temperou-se de sal a estibordo e queimou-lhe o sol pendurado ao mastro, gritando ao capitão quando avistava terras nunca pisadas pelo homem ou bestas marítimas jamais registradas nos catálogos biológicos.

Cada vinco talhado na face guardava uma passagem específica e sua pele servia de papel para um diário escrito em cicatrizes e marcas. As rugas no rosto indicavam a bexiga e os dentes ausentes o escorbuto. O pedaço arrancado do mindinho se foi quando um tufão arrancou umas das velas e ele travou a mão tentando firmá-la pelas cordas. Sua respiração falha surgiu quando quase se afogou após um naufrágio e um navio dos mercantes holandeses resgatou-o e o degredou em uma ilha no Caribe.

Se seu corpo contava essas histórias, a memória de elefante acrescentava muitas e muitas mais. Resgatava de memória sua visita aos reinos de Shaka e o susto ao testemunhar a habilidade com que abatiam zebras em um único arremesso de lança. Avistou as tropas de soldados orientais combatendo com suas espadas recurvadas, bebeu vinho em crânios ao norte de Europa e assistiu às danças sensuais das mulheres em Cuba.

E, pelos muitos territórios, conheceu amores fugazes, preenchendo-se um pouco com os mistérios dos véus daquelas que cruzavam os desertos e daquelas com a pele protegida por grossos gibões nas terras glaciais. Cantou ao som do alaúde pelas tabernas da Espanha e fugiu de maridos ciumentos na América do Norte.

Os anos foram se passando e nada da fortuna aparecer. Colhia pouco dinheiro e o perdia em prazeres passageiros. Não amealhou nenhum grande patrimônio, tampouco um pecúlio para se sustentar na velhice. Quando faltou-lhe o viço da juventude, despejaram-no ao litoral à própria sorte, esperando crocodilos jurássicos devorarem suas sobras de carnes.

Em uma tarde de chuva branda à beira dos manguezais que o ouvi contar suas desventuras. Sua feição de pesar, de quem mete as caras por horizontes promissores e retorna com as mãos abanando e o estômago roncando, conquistava certo público e esses, pesarosos diante de sua súplica, lançavam algumas moedas com as quais ele comprava um pão dormido.

Assim então o coloquei sob minha proteção e lhe garanti um fim de vida menos desamparado. Dei-lhe pouso e duas refeições ao dia e, em troca, comparecia à sua cabana para tomar-lhe um bocado de seu conhecimento. Não poderia deixar de notar que aquele homem combalido por uma tosse sangrenta e insistente parecia gigante perante mim, impelindo-me a uma vergonhosa pequenez.

Ele morreu em meus braços. Tentei acudi-lo quando as dores no peito se acentuaram. Reclamou comigo a miséria de sua vida, pela sua busca inútil por uma promessa infundada na juventude, que o prendeu a uma paixão arrebatadora da qual não conseguiu se desvincular. E somente quando a morte bafejou em sua nuca ele se deu conta de escolhas erradas que o lançaram a uma morte à mendicância, dependendo do favor de um samaritano.

Fechei seus olhos inertes e saí da cabana tomado pela súbita vontade de chorar. Aquele homem morria com a plena certeza de ter desperdiçado toda a sua vida. E eu não conseguia parar de invejá-lo.

 

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