Ricardo André Vasconcelos — Mais do mesmo no pós-Temer

 

Com os chefes tucanos e Lula fora do páreo e a eleição de 2018 pode ter dois jovens candidatos à Presidência: João Dória Júnior e Fernando Haddad. Um Emmanuel Macron brasileiro?

 

 

O Brasil continua funcionando pelo impulso da gravidade. Não aquela que resulta do  momento político e econômico por que passa o país, mas a outra, descoberta por acaso, quando, reza a lenda, uma maçã caiu sobre a genial cabeça do cientista inglês Isaac Newton (1643-1727). Tendo os poderes Judiciário e Legislativo encerrado esta semana seu luxuoso e indefensável recesso de meio de ano e o Executivo comprando deputados feito bananas para manter na chefia do Governo um presidente investigado por corrupção, o país dá perigosos sinais de que não prescinde das instituições. Parece aquele empregado que de tantas ausências do trabalho desperta no patrão a certeza de sua inutilidade.

Nada mais claro e repito, perigoso, porque o agravamento da crise é tão previsível quanto o nascer do dia seguinte. O congelamento das despesas pelas próximas duas décadas (emenda constitucional 95/2016), já é visível no sucateamento das universidades; inexistência de recursos para pesquisas; agravamento da violência a partir do contingenciamento de dinheiro para as polícias e principalmente a condenação por inanição dos programas sociais. Hospitais sem condições mínimas de atendimento nem são mais novidade. Até programas de reconhecimento mundial, como o de distribuição de medicamentos para pessoas com Aids já está afetado e, em muitos postos de distribuição se constata falta de alguns antirretrovirais.

Entre o Estado paquidérmico e o Estado mínimo, a escolha no Brasil tem sido pelo Estado ineficaz, corrupto e incapaz de retribuir suficientemente aos cidadãos que pagam uma das maiores cargas tributárias do Planeta.

Fruto de uma conspiração para impor uma agenda econômica derrotada quatro vezes nas urnas, Michel Temer segue equilibrando-se na corda bamba utilizando sua habilidade mais conhecida: barganhar com baixo clero do Congresso Nacional, onde, entre os seus, exerce liderança ímpar, e pendurado em residual apoio do etéreo “mercado”. Chega a ser bizarro ver o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (o mesmo que foi presidente do Banco Central nos oito anos do governo Lula), anunciar que a equipe econômica será mantida num eventual governo Rodrigo Maia, Ou seja, Temer é mesmo um mero detalhe e não passa disso. Com rejeição popular beirando à unanimidade, Temer deve conseguir escapar da primeira denúncia da Procuradoria Geral da República, que deverá ser arquivada esta semana pela Câmara dos Deputados. Mas há promessas de outras e o erário não teria fundos suficientes para alimentar a fidelidade dos deputados.

Falando em Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem sido elegante e republicano o comportamento do presidente da Câmara dos Deputados. Primeiro na linha sucessória a assumir o governo em caso de afastamento do presidente, o filho do atual vereador e ex-deputado constituinte pelo PDT brizolista,  César Maia, tem o tempo como seu aliado. Investigado na Lava Jato, mas longe ainda de uma denúncia, pode assumir a Presidência da República aos 47 anos e, sua atuação nos seis meses de mandato, pode determinar seu futuro político. Para assumir o governo, a Câmara precisa dar 342 votos para que seja aceita a denúncia do procurador Geral da República para que o STF processe Michel Temer por corrupção.

A favor de Maia tem o fato de que, ao contrário de Temer, a quem jura fidelidade como aliado e não como chefe do poder legislativo, não precisa conspirar para ganhar a cadeira presidencial. Basta esperar sentado. O problema é que, se assumir, Maia vai ter que convocar eleição indireta seis meses depois de assumir e, como não lhe interessa ser candidato a terminar o mandato iniciado por Dilma, o Brasil deve chegar a 2018 com quatro presidentes diferentes em quatro anos.

Quer prova mais robusta de que este país está cada vez mais funcionando por gravidade?

E por falar em 2018, o cenário hoje — por pura intuição — é de uma eleição tipicamente paulistana. Com Lula condenado em primeira instância e dificilmente não confirmada nas seguintes,  a disputa presidencial pode ficar entre o atual prefeito de São Paulo, João Dória Júnior e o ex-prefeito da mesma capital, Fernando Haddad. Uma versão “jovem” do velho jogo PSDB X PT, com ambos tentando carona na eleição do jovem presidente francês, Emmanuel Macron, de 40 anos. Os outros pré-candidatos devem fazer apenas figuração.

 

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Ocinei Trindade — Um dia qualquer, mas único

 

 

 

Apesar da aparência e das repetições rotineiras, os dias não são mesmo iguais. Nunca. O tédio, de repente, pode ser. Fechado no apartamento cedido, o desânimo tomando conta, eis que vem  a ideia de caminhar para espantar a falta de espantos. Vejamos se há algo inusitado na rua. A praça e o parque do Jardim São Benedito, valei-me, quem sabe, trarão alguma inspiração para ludibriar o tédio e, quem sabe, fazer rir. Sim, dia sem risada é desperdício completo.

Caminho. Nas primeiras passadas, flores do ipê rosa se espalham sobre a calçada. A árvore vai se despindo totalmente. À esquerda, do outro lado da rua, a fila dos sem-comida começa a se formar em frente ao mosteiro das freiras enclausuradas. Como elas conseguem dar conta de cozinhar para tanta gente? E será mesmo que as pessoas ali não têm condições de se sustentar? E se um dia eu entrar na fila de famintos, desempregados e excluídos brasileiros? Sou mais um.

As calçadas estão com poucas pessoas que se exercitam ou cumprem tarefas pela rua. Atravesso sobre a faixa de pedestre, insisto para que motoristas freiem. Eles fazem cara feia. Se eu for atropelado, farei cara pior. Na primeira volta, vigilantes e lavadores de carros estão parados esperando vítimas ou fregueses. Dentro do parque, alguns praticam exercícios e jogam vôlei nas quadras de areia. Em plena manhã, e tantos homens desocupados, penso. Sou igual.

Se bem que, cuidar do corpo e da mente é também uma ocupação, exige esforço e dá trabalho. Nossa, como penso demais sem necessidade. Hoje, só ouvi minha voz quando cumprimentei o porteiro. Bom dia, guarda a chave para mim? Já estou na quinta volta pelas praças. Reencontro uma conhecida da época da faculdade, amiga de amigas minha. Como muitos campistas,  percebo, logo, que ela fingirá não me conhecer para não me cumprimentar. Passou de cara dura.

Na volta seguinte, eu a encaro indo bem em sua direção e sorrio para ela. Ela ri também, mecânica, salva pelos fones de ouvido. O que estaria escutando? Sertanejo feminino? Implico com músicas de grande sucesso. Parece uma epidemia. Mas tem coisas boas que grudam no ouvido. Ruins também, como funks proibidões. São sujos, mas o pior lado de nós se diverte com orgia de batida pobre eletrônica. Que mal há em ser pobre? Não ser rico. Será que a Gretchen é rica? Como posso indagar isso? Perto de mim qualquer um é rico ou bem pobre.

A cada nova volta em torno do parque, fico me questionando: onde estão as pessoas bonitas? Sempre me intriga quando alguém vai a um evento, festa ou cidade e comenta que só tem gente feia por ali. E toda vez que eu penso o mesmo, imagino que os feios também me consideram feio e fazem a mesma pergunta: onde estão os bonitos de Campos? E os de Lisboa? Nenhuma mulher bonita cruzou comigo pela rua. O único homem bonito que passou perdeu pontos na estética: exibia muitas tatuagens feito mulher rendeira cearense ou mafioso da Yakusa.

Dizem que vicia tatuar a pele. Para quê rabiscar tanto o corpo, meu senhor? Nem nasci na Polinésia. Pele lisa é uma coisa tão bonita. Comerciais de sabonetes estão entre os meus prediletos, como os das estrelas de Lux. Faz tempo que não vejo Lux na mídia. Acabou o Lux? Nossa, Ali MacGraw e Bia Seidl eram as mais lindas espumadas. Estou bem suado e merecia um banho de Lux ou qualquer outro sabonete perfumado. Vontade de sumir…na banheira.

Na volta para a casa, revejo um homem que sempre revira o lixo em frente ao edifício. Parece um desses catadores que reciclam tudo. Ele encontrou alguns quadrinhos com figuras de santos católicos. Só deu tempo de ver uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Hum, até Nossa Senhora foi parar no lixo. Ele parecia comovido com a imagem. Será que guardará? O homem não aparentava ser muito religioso, mas, talvez, fosse um ateu exemplar para muitos cristãos movidos a culpa e fanatismo. No lixo, a gente pode encontrar paz de espírito, quem sabe?

De volta ao mundo particular do apartamento, pensamentos explodem, fome e dor de cabeça se misturam. Redes sociais me mostram um pouco mais da ficção diária das pessoas. Banho, almoço, mais dor pelo corpo, sono, cama, desejos. Tudo se mistura e não sei por onde começo. Anoitece. Vou para a rua. Chove fino. Encontro uma amiga por acaso. Sou obrigado a ouvir minha voz. Sauna? Reencontro um querido casal de amigos no supermercado. Sou obrigado a ouvir minha voz novamente. Rimos um pouco. Antes, vi uma pichação em um muro da rua 13 de Maio, onde escreveram abaixo do clássico Fora Temer: bixa também pixa.  Achei super.

Fui para casa comer, ver a Geórgia (o país) pela televisão. Antes de dormir, fiquei pensando na dupla transgressão do pichador. Feriu a língua portuguesa e maculou o muro branco. Bicha também picha como qualquer pessoa? Sim, e com X. Aliás, qualquer pessoa pode ser bicha, ser bicho, ser bicheiro, ser bichado, ser bichona, ser bichérrima, ser bichíssima. Ser pessoa apenas. Deu vontade de pichar também dia desses em um muro lindo. O quê?  Sei lá. Vou pensar…

Seja homem, Fernando, ninguém é Pessoa à toa, mas bixa também pixa.

 

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