Igor Franco — Sobre Mitos

 

 

 

“Eu usava para comer gente”. Com essas singelas palavras a respeito da destinação de sua verba para auxílio-moradia, o Jair Bolsonaro decidiu inaugurar sua caminhada em 2018 para as eleições presidenciais. Sob a pretensão de manter sua autenticidade, o deputado louva sua decisão de (ainda) não ter um marqueteiro para sua campanha. Dado o desastre que foi sua primeira interação no ano eleitoral, sugiro não apenas que o parlamentar mantenha um profissional do ramo ao seu lado ininterruptamente, mas que também a esposa de Jair permaneça presente para que confissões pouco republicanas voltem a escapar.

O ano de 2018 parece não reservar vida fácil aos políticos mais populares das redes.

Enquanto a ofensiva da imprensa – legítima e desejável – sobre as ponta soltas na narrativa de moralidade da família Bolsonaro é intensificada, noutra frente, corre implacável o prazo para o julgamento em segunda instância de Lula, que deve ter sua sentença condenatória confirmada pelo TRF-4 no dia 24 deste mês. Com pelo menos 13 anos de atraso, a Justiça parece seguir o rito que deveria ter sido imposto ao presidente corrupto desde o escândalo do Mensalão, quando todas as suspeitas a respeito da hipocrisia do discurso lulopetista se confirmaram.

Não há como comparar a gravidade da situação de Bolsonaro, até agora culpado apenas por boçalidades ditas semana sim e outra também com a situação de Lula. O ex-presidente foi condenado por corrupção, é réu em outros seis processos e as práticas de seu governo já foram demonstradas como inegavelmente a serviço de interesses partidários e empresariais através do desvio sistemático de recursos públicos.

Feita a devida distinção entre suas naturezas, é admirável a força política que ambos sustentam com seus simpatizantes, incapazes de analisar friamente todas as provas e evidências demonstradas a respeito do roubo perpetrado pelo petista e seus asseclas e as bobagens indefensáveis proferidas pelo parlamentar. Buscar uma explicação lógica para tal comportamento parece inútil. Talvez a melhor definição para o fenômeno tenha sido dada pela alcunha imposta a Bolsonaro pelos seus admiradores: mito.

Para Platão, o mito refletiria uma figura didática cuja função seria a de ensinar aos homens determinadas lições, uma espécie ferramenta de persuasão coletiva. Porém, não possuiria ele a própria verdade, apenas verossimilhança, ou seja, uma fração da própria verdade. Equivaleria a uma narrativa vinculada a determinada cultura ou momento histórico específico cujos desdobramentos precisavam ser transmitidos às gerações futuras.

Embora propositalmente falsos, há fartas evidências históricas de povos cujos mitos tornaram-se centro de sua religiosidade – gregos e romanos são exemplos deste fenômeno. Os mitos, por permanecerem muito tempo no imaginário coletivo sem contestação, tornaram-se deuses. O passo seguinte da incorporação dos mitos à realidade daqueles povos foi estabelecer práticas e rituais que pudessem conectar os homens comuns à existência sobrenatural que agia em suas vidas. Oferendas, sacrifícios e rituais eram oferecidos aos antigos mitos – ora deuses – de modo que as mazelas como a fome e a guerra permanecessem longe de suas vidas.

Compartilhar a “versão oficial” dos mitos em contraponto à busca sincera pela realidade já se tornou um ritual diário para muitos adeptos da ideia da política – e dos políticos – como redentores das mazelas brasileiras. No altar da democracia, os fatos, a verdade, o bom-senso, a lei e a justiça vem sendo sacrificados diuturnamente em honra dos mitos políticos da era das redes sociais.

Para o bem do nosso país, a fração de verdade que possa existir nos mitos Lula e Bolsonaro, precisa encontrar melhores corpos para encarnar.

 

Este post tem 5 comentários

  1. cesar peixoto

    Que Lula não vai ser preso eu tenho certeza absoluta,mesmo ele sendo o chefe do esquema

  2. Ronald

    O Interessante é que se juntar o dinheiro todo da Família Bolsonaro dá entorno de 15 milhões, em quando o dinheiro e as propriedades que tem o nome da Marisa Letícia, falecida mulher do Lula estão por volta de 11 milhões, isto é claro se formos juntar o que tinha a Marisa Letícia com os seus filhos com o Lula e com o dinheiro do próprio Lula teremos por volta uma quantia incalculável, não é mesmo? Além disso todo dinheiro da família Bolsonaro até que se prove o contrário é lícito, inclusive o Janot já deu um parecer favorável ao Bolsonaro enquanto a isso, quando o PT e PSOL tentaram mover uma ação contra ele, não a absolutamente nada a se questionar nesse caso sobre o dinheiro do Bolsonaro, a única coisa que deve sim se questionar é o que todos já sabem, um político ganhar um salário de quase 30 mil por mês para ir lá só 3 vezes por semana é um escarneio contra o contribuinte…O Igor Franco que é um liberal clássico só esqueceu de dizer que os filhos do Bolsonaro tem pós-graduação em economia austríaca pelo Instituto Mises Brasil , o conservador Flávio Bolsonaro mesmo, além de advogado é EMPRESÁRIO por exemplo, ou seja, em se tratando de economia eles são mais liberais do que o Igor Franco que é adepto da escola monetarista de Chicago…Por fim, eu gostaria muito das explicações do UOL/FOLHA de São Paulo sobre os R$225 MILHÕES que recebeu dos governos petistas.

  3. Ronald

    Tentar igualar o Lula ao Bolsonaro é (trecho excluído pela moderação), um paralelo rápido entre os 2 qualquer um que não seja mal intencionado sabe que um não tem absolutamente nada haver um com o outo, e tentar empurrar um e outro para os polos ao extremos, abrirá um precedente perigoso para o tais “iluminados” da “nova política”, como o um Luciano Huck candidato da globo e amigo Íntimo de Aécio Neves e Sérgio Cabral, o João Amoedo do NOVO ligado ao Banco Itaú, até mesmo um comunista como o Ciro Gomes que tem o apoio do Partido comunista chinês, vide site do próprio PDT, está “NOVA Política” e a velha política só que de banho tomado, ou seja, é mais do mesmo.

  4. Igor Franco

    Prezado Ronald,

    Não conheço indícios relevantes que levem à suspeita de enriquecimento ilícito de Jair Bolsonaro ou de seus filhos. Aliás, sequer mencionei ou insinuei qualquer coisa a respeito do assunto. Isso, obviamente, não exime Bolsonaro e seus filhos políticos de prestarem contas a qualquer cidadão a respeito da utilização de recursos públicos que lhes são pagos a título de remuneração, auxílio, reembolso etc. Sequer precisaria mencionar que se trata de um preceito constitucional, bastando invocar apenas o tão surrado e esquecido bom senso no trato da coisa pública.

    Não são os filhos de Bolsonaro que possuem pós-graduação no Instituto Mises, mas apenas Eduardo Bolsonaro que postou há quase dois anos o registro do seu início no curso, sobre o qual não há mais informações. A escola austríaca deriva para um segmento diverso do liberalismo – o libertarianismo, não havendo motivo para discutir “quem é o mais liberal” da turma, pois, aliás, “liberalismo” parece ser um termo desconhecido para Jair e para sua família.

    Não sei daonde surgiram UOL e Folha no assunto.

    Por fim, não igualei qualquer um dos candidatos, senão em um lamento pessoal a respeito da miséria moral de um (Lula) e intelectual do outro (Bolsonaro) que cumprem um excelente papel em rebaixar ainda mais o debate público.

  5. Ronald

    “””Não conheço indícios relevantes que levem à suspeita de enriquecimento ilícito de Jair Bolsonaro ou de seus filhos. Aliás, sequer mencionei ou insinuei qualquer coisa a respeito do assunto. Isso, obviamente, não exime Bolsonaro e seus filhos políticos de prestarem contas a qualquer cidadão a respeito da utilização de recursos públicos que lhes são pagos a título de remuneração, auxílio, reembolso etc. Sequer precisaria mencionar que se trata de um preceito constitucional, bastando invocar apenas o tão surrado e esquecido bom senso no trato da coisa pública.”””
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    R:foi exatamente o que eu disso, só que com outras palavras, em momento nenhum disse que o Bolsonaro e seus filhos não devessem ser investigados, o que eu disse é que o dinheiro dele não é ilícito e sim lícito, e o que se deve questionar SIM são os altos salários recebidos pelos deputados.
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    “Não são os filhos de Bolsonaro que possuem pós-graduação no Instituto Mises, mas apenas Eduardo Bolsonaro que postou há quase dois anos o registro do seu início no curso, sobre o qual não há mais informações.””
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    R:tenho informações que o Carlos tbm chegou a fazer, por isto useis a palavra “filhos”, porém vou dar uma checada em minha fonte.
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    “”” A escola austríaca deriva para um segmento diverso do liberalismo – o libertarianismo, não havendo motivo para discutir “quem é o mais liberal” da turma, pois, aliás, “liberalismo” parece ser um termo desconhecido para Jair e para sua família.””””
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    R= existe sim a diferença entre liberais clássicos, liberais sociais e libertários, muitas vezes são forças antagônicas até mesmo no mesmo segmento como os libertários gradualistas e libertários brutalistas, pelo menos o Bolsonaro é humilde em reconhecer que não entende de economia e pede justamente a ajuda a um liberal clássico, um “Chicago boy”, discípulo de Roberto Campos que é o economista monetarista Paulo Guedes, e isto sim deveria ser louvado por vocês liberais, mas preferem sempre ficar na zona de conforte criticando, aí fica difícil ter o tão sonhado diálogo entre conservadores e liberais como muitos por aí sonham, e a esquerda agradece.
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    Não sei daonde surgiram UOL e Folha no assunto.
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    R= Justamente pq no seu texto, logo no 1° parágrafo você usa uma citação da matéria que foi publicada pela Folha de SP(“Eu usava para comer gente”), e é sempre bom relembrar que as matérias destes veículos(Folha/UOL) de comunicação são viciados, e ele está certo quando diz que cortará 80% do dinheiro do contribuinte para esta e outras empresas privadas na área da comunicação, para mim, deveria cortar tudo, e como disse a jornalista Joyce Hasselmann na Jovem Pan, como o Bolsonaro não faz parte da panelinha da folha eles faxem aquele tipo de mantéria Mandrake… e em relação a funcionária, ele falou com o Datena na Band FM SP na sexta que ela estava de férias e só volta dia 26, e está tudo documentado na câmara, logo ela poderia muito bem está na loja de açaí da irmã que não tem problema nenhum, e em relação a mulher dele, não configura ser uma coisa ilícita, porém seria de bom tom não fazer moralmente, até pq a filha do Lula já trabalhou na prefeitura de Maricá a pedido do pai.
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    “””Por fim, não igualei qualquer um dos candidatos, senão em um lamento pessoal a respeito da miséria moral de um (Lula) e intelectual do outro (Bolsonaro) que cumprem um excelente papel em rebaixar ainda mais o debate público.””””
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    R= Mas é sempre bom deixar claro, que em um debate político só um dos lados poderá chamar o outro de ladrão sem receber a réplica…e em relação a rebaixar o debate político, todos os candidatos que citei em meu posts aqui em cima já falaram muita bobagens,a boçalidade reina neste país desde quando deixou de ser um Império e virou esta republiqueta das bananas como bem disse o grande Rui Barbosa certa vez.
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    Interessante é que a alguns meses atrás uma pesquisa publicada pelo “antagonista” feita pela Paraná pesquisas, disse que quanto maior o grau de escolaridade do brasileiro pesquisado, maior é o percentual de pessoas que tendem a votar no Bolsonaro, ou seja, falar certas verdades que sejam inconvenientes ao politicamente correto reinante hoje em dia, vira sinônimo de boçalidade, vai entender…

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