Alexandre Buchaul — Cleptocracia

 

 

 

Com o título desse artigo o jurista Modesto Carvalhosa adjetivou todas as instâncias de todos os poderes constituídos de nossa jovem e escandalosa república. Teria ele razão, ou trata-se apenas de retórica moralista?

Podemos observar, com clareza que nos deveria corar as faces, indícios os mais graves de variados desvios. Assim como o futebol, também não inventamos a corrupção ou como já ouvi dizer a CPF (comissão por fora), mas assim como com a redonda, também nesse esporte parece que nossos conterrâneos têm aquele algo mais, ou menos, que eleva a prática ao estado da arte. Tive uma profunda decepção ao ler Gomorra, do escritor italiano Roberto Saviano, para quem vivencia a política brasileira o livro tem ares de literatura infanto-juvenil. Competir com a realidade tupiniquim, como perceberam os autores de House Of Cards, não é fácil.

De Triplex no Guarujá a auxilio moradia de juízes e outros, com hábitos alimentares menos ortodoxos, nossa república amarga a imoralidade de atores que, quando flagrados, se defendem nas minúcias hermenêuticas da lei ou na retórica pós-guerra de perseguidos políticos. Vale tudo para manter privilégios e escapar incólumes, ou com o menor nível de danos possível, das consequências dos atos praticados. O “whataboutismo” do “mas e o fulano?” talvez seja o mais debochado e cínico dos argumentos dos debates políticos na terra das palmeiras aonde canta o sabiá.

Ao tentar, através de inversão de significados e repetição contínua, transformar os crimes comuns de Lula em crimes ou perseguição políticos, seus seguidores repetem a velha fórmula já tantas vezes usadas com sucesso pelas esquerdas mundo afora. Bolsonaro, por sua vez, abusa da truculência para constranger aqueles que ousam o escrutinar. Prática adotada por muitos professores quando questionados por alunos, eu mesmo tive alguns assim, escondiam a incompetência sob o manto da arrogância. Já os juízes… os juízes nem se preocupam em responder questões morais postas por meros mortais. Quem somos nós para por a prova o valor dos semideuses de nossa república?

Espero que sejamos capazes de paulatinamente aperfeiçoar nosso sistema, eliminando os canalhas e evitando os “salvadores da pátria” que vez por outra surgem e se tornam em curto prazo grandes decepções. Vemos, com certo ineditismo, alguns figurões sendo condenados e presos. Ainda há muitos que o merecem ser e o judiciário precisa ter seus membros desvairados sendo responsabilizados. Ouso acreditar que o Brasil tem jeito, apesar das cascas de banana, das jabuticabas e dos chequinhos que encontraremos pelo caminho.

 

 

 

 

Aristides Soffiati — Estiagem da discussão sobre chuvas e alagamentos

 

De férias em Atafona, dolosamente não acompanho a mídia de Campos. Mas, desde a quinta passada (25), ainda com céu claro e sol a pino, pude ler no mar verde enconstando sobre a foz barrenta do rio Paraíba o prefácio da massa de ar frio que chegaria ao nosso litoral no sábado (27). E despencaria como tempestade sobre a planície goitacá na terça seguinte (30).

Ao acompanhar as redes sociais, mesmo de soslaio, pude constatar a repercussão dos alagamentos recorrentes em Campos, sempre que chove forte sobre a cidade. E, hoje, o historiador, escritor e ambientalista Aristides Soffiati, meu capitão, enviou um artigo sobre o assunto, para publicação neste “Opiniões”.

No meio de tanta besteira brotada desde o subsolo, no que diz respeito às chuvas de Campos e seus consequentes alagamentos, é sempre bom estiar o pensamento com alguém capaz de tratar do assunto com responsabilidade, conhecimento e a devida seriedade:

 

 

Pelinca alagada com as chuvas de terça (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Alagamentos

Por Aristides Soffiati

 

Com os alagamentos na cidade de Campos por conta das últimas chuvas, uma apresentadora de telejornal esbravejou contra a prefeitura em frente às câmaras. Nas redes sociais, pessoas que deveriam ser mais informadas por suas formações, criticavam a prefeitura por nada fazer, supondo logo que ela jogaria a culpa nos prefeitos anteriores. Há professores de história que desejam a cobertura do canal Campos-Macaé, conhecido por valão, entendendo que ele não tem mais finalidade.

Desde o primeiro, todos os prefeitos são culpados. Na verdade, a responsabilidade com os alagamentos começa com as origens da cidade. Não se pode transplantar um modelo de cidade concebido na Europa para a zona tropical impunemente. Mais ainda, erguer uma cidade europeia numa planície de inundação da zona tropical e achar que a natureza respeitaria o desejo dos europeus que aqui se instalaram no século XVII.

Levanto a hipótese de que Pero de Gois, donatário da Capitania de São Tomé, tentou erguer um povoado europeu na margem do Paraíba do Sul, como informa Gabriel Soares de Souza, mas acabou expulso pelas águas de planície aluvial. Então, buscou terreno mais alto e protegido nos tabuleiros e na zona serrana do vale do rio Itabapoana. No entanto, os Sete Capitães, mesmo encontrando pouco espaço seco para o gado, insistiram na construção de currais na baixada. Os fundadores de Campos não pensaram no alto custo de manter um núcleo urbano europeu numa planície aluvial na zona tropical.

O engenheiro campista Saturnino de Brito escreveu, na década de 1920, que a engenharia não podia satisfazer completamente aqueles que abominavam alagamentos, transbordamentos e inundações numa baixada. Ele concebeu um sistema de canais de drenagem para Santos, sistema adotado com sucesso, mas não muito mais considerado como importante. Ele projetou uma grande área livre às margens do rio Tietê, no ponto em que se ergueu a cidade de São Paulo. A intenção era criar uma área de expansão do Tietê em suas cheias e, ao mesmo tempo, uma área de lazer para os paulistanos.

Ele deixou escrito que um dique na margem esquerda do rio Paraíba do Sul deveria ser construído em ponto afastado do rio para incluir as lagoas a fim de que elas atuassem como amortecedores de enchentes. Ele concebeu uma rede de canais para Campos em ambas as margens do canal Campos-Macaé para drenar águas de chuva acumulada na cidade. Pela margem direita, um canal atravessaria a Avenida Pelinca, antes um grande brejo. Este canal receberia outro canal que deveria drenar a lagoa Dourada, ao lado do antigo Fórum, hoje sede da Câmara Municipal. Toda a água drenada desembocaria no canal Campos-Macaé.

 

Com as chuvas de terça, Pelinca retomou sua origem de brejo (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Na margem esquerda, outro longo canal começaria na altura do Cepop, onde existia a lagoa do Goiabal, passando pela lagoa de Santa Ifigênia, na atual rua Formosa, pela lagoa de João Maria, no entorno do edifício Salete, correndo ao longo da Avenida 28 de Março até desembocar no canal Campos-Macaé, que manteria drenada a lagoa do Osório, a maior e mais conhecida da cidade.

O princípio defendido por Saturnino de Brito era o seguinte: se queremos uma cidade europeia numa planície inundável da zona tropical, é preciso fazer ajustes. Embora nunca escrito, o princípio é depreendido de seus projetos. Mas a questão é que, numa economia de mercado, a terra vale dinheiro. São Paulo preferiu se transformar num inferno a destinar as margens do Tietê a uma imensa área livre, maior que o Central Park de Nova Iorque. O engenheiro Camilo de Menezes, do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, defendeu que o dique da margem esquerda do Paraíba do Sul em Campos, corresse junto ao rio, na forma de estrada. Assim, os interesses de proprietários rurais eram atendidos. Sucessivos prefeitos entenderam que o projeto dos canais de macrodrenagem na cidade de Campos correspondia à terra retirada do mercado. A pressão da especulação imobiliária, de engenheiros, arquitetos e da própria população levou o planejamento urbano a inviabilizar um desenvolvimento controlado.

E mais ações agravaram o problema dos alagamentos. Os canais que o DNOS abriu visavam a drenagem de lagoas para a agropecuária, não para a cidade. O antigo córrego do Cula, um dos eixos de ligação entre o Paraíba do Sul e o extinto rio Iguaçu, foi sendo segmentado e aterrado. Restou dele um estirão contínuo na cidade de Campos entre o Paraíba do Sul e o canal Campos-Macaé. Aos poucos, graças à ignorância dos prefeitos e à sanha da especulação imobiliária, inventaram que ele não era o Cula, mas sim um canal aberto pela Usina do Queimado nos anos de 1920. Ainda houve um esforço para protegê-lo com o instituto do tombamento. Ele foi tombado pelo Inapac sem nenhuma preocupação do órgão em conhece-lo. Tombado de qualquer maneira. Ele está sendo progressivamente destruído aos olhos do poder público e da população, que o preferem aterrado.

A grande e limpa lagoa do Saco foi drenada pelo canal do mesmo nome para o canal de Cacumanga até a lagoa Feia. Hoje, o canal liga nada a outro canal de drenagem. Em suas margens, uma urbanização desordenada e um grande condomínio atrás do Shopping Boulevard contribuem com esgoto e lixo para o canal. A lagoa do Saco volta a aparecer na rua Rocha Leão quando chove um pouco mais. O fantasma dessa lagoa encontra o fantasma da lagoa Dourada. Basta atravessar a linha do trem.

O brejo da Pelinca, mal drenado e superadensado de ruas e construções, alaga com qualquer chuvinha. No meio da cidade, o canal Campos-Macaé não drenou adequadamente a lagoa do Osório, como pretendia Saturnino de Brito. Para piorar a situação, o canal foi estreitado e poluído, quase não tendo mais comunicação com o rio Paraíba do Sul. O trecho entre o rio e a rua Formosa foi coberto. Mais tarde, Rosinha, quando governadora do Estado do Rio de Janeiro, construiu a ponte Leonel Brizola, cuja cabeceira no lado de Campos, funciona como um rio caudaloso quando chove, a despejar água no leito asfaltado da antiga lagoa do Osório. Na condição de prefeita de Campos por dois mandatos, ela gastou outro rio, este de dinheiro, para construir um sistema de drenagem para o Campos-Macaé. Não funcionou.

 

Descida da ponte Brizola, construída por Rosinha, é ponto de alagação a cada chuva (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Andemos em direção à ponte da Lapa. Ali, ao lado do edifício Fanta Uva, o antigo leito da lagoa do Curtume, alaga em tempo de chuva. Na rua Formosa, defronte ao 8º BPM, o leito asfaltado da antiga lagoa de Santa Ifigênia também alaga. No pé do edifício Salete, o leito impermeabilizado da lagoa João Maria acorda o fantasma da lagoa. Pras bandas do Cepop e do Novo Jóquei, a má drenada lagoa do Goiabal também alaga. Sempre que chove um pouco mais, os fantasmas das lagoas saem das sepulturas. Em breve, será assim com Guarus.

No governo de Arnaldo Vianna, houve o empenho em construir piscinões. Piscinão é uma redundância. Você extingue uma lagoa na superfície e constrói uma no subsolo. Campos tem 19 piscinões. Nenhum dá vencimento em dia de chuva. Eles estão entupidos e não absorvem nada. Na Pelinca, existem os piscinões-garagem. Qualquer bobeira permite a água entrar nas garagens abaixo do nível do solo e alagar tudo. Tem morador que perde o automóvel e precisa culpar alguém. Deus e São Pedro estão muito longe e podem castigar a pessoa pelas ofensas. Então, ela ofende a prefeitura.

Um fator ainda mais para agravar os alagamentos: a impermeabilização do solo com asfalto. A argila que está por baixo dele absorve água com dificuldade. O mais correto seria calçar as ruas com paralelepípedo. Mas os moradores querem asfalto. As empreiteiras também. E para os automóveis não correrem muito, a população pede quebra-molas.

Enfim, a drenagem já é difícil em situação natural. Com nossa secular ajuda, piorou. Existe um plano municipal de macrodrenagem urbana que nunca sai do papel. Entra prefeito e sai prefeito e o plano continua engavetado. Creio que já está desatualizado. Ele nunca foi prioridade para os governos. Temos poucas alternativas de escoamento superficial: canais Campos-Macaé, dos Coqueiros, de Cambaíba (a cidade já o alcançou) e de Cacumanga, todos canais primários, ligando o Paraíba do Sul ao sistema lagoa Feia. Os secundários e terciários saem desses ou desembocam nesses, como o canal natural do Cula e os canais construídos do Saco, de Santo Antônio e do Goiabal. Eles precisam ser otimizados. Inútil a drenagem subterrânea sem esses canais limpos e desimpedidos.

Se vocês querem morar numa cidade de padrão europeu erguida numa planície aluvial em zona tropical, é preciso cuidar muito bem do sistema de drenagem urbana. E o campista precisa saber aonde pisa. Ele nada sabe do espaço da sua cidade. O pior é que não quer saber.

 

Guilherme Carvalhal — Amor póstumo

 

 

 

Às 23h03, Renata e Maurício entraram em uma conversa pelo Whatsapp. Assuntos frívolos: uma música da moda, um vídeo do YouTube. Às 23h44 Renata mandou uma risada — kkkkkk — e Maurício não respondeu. Ela considerou que ele dormiu com o celular na mão, então virou para o lado e o sono chegou.

Às 8h17 ela despertou e logo checou o celular. De cara, uma mensagem de Cecília, irmã de Maurício — ele teve um infarto fulminante naquela noite. Passou mal na cama, saiu correndo pelo corredor do prédio atrás de ajuda e caiu em frente ao elevador, onde um vizinho o achou já morto.

Assustada, ela abriu sua tela no celular. Releu como se ali encontrasse alguma explicação para essa perda. Ou como se, através dessa realidade digital, pudesse estabelecer contato com ele.

O peso maior foi o de imaginar a si mesma como a última companhia, mesmo virtual, da vida dele. Pensou nos moribundos no hospital e seu último suspirar de mãos dadas com os entes queridos. A imagem que levariam para o além seria dessa conexão redentor. Então ela estaria nessa memória eterna de Maurício, a despedida do mundo físico, o elo final precedendo a partida.

Ela compareceu ao velório sentindo-se especialmente ligada a ele. Manteve-se quieta observando o choro dos parentes, ela própria engolindo a inesperada angústia formada por esse enlace inesperado.

Conhecia Maurício há tempos, mas não se consideraria uma grande amiga sua. Papeavam esporadicamente, normalmente futilidades, sem trocarem intimidades. Apenas essa situação inusitada criaria um vínculo mais profundo.

Dali em diante, Renata se habituou a constantemente repassar as conversas com Maurício. Sua saudade se expressava nessa busca por sentidos avulsos naquelas frases, nas indicações de filmes, nas histórias de bar que contava. Tudo ganhava um significado novo.

Despertava um sentimento nunca visto antes. Sentiu uma vontade repentina de tocá-lo, de estar ao seu lado. Vasculhava suas fotos nas redes sociais e conjecturava como seria debruçar em seu braço nesses momentos.

O sentimento aos poucos se converteu em obsessão. A todo momento ela pensava em Maurício. Dirigindo, trabalhando, tomando banho, aquela efígie aparecia do nada, tirando sua concentração, sugando suas energias. Ela precisava pegar seu telefone, reler e divagar como estariam caso ainda estivesse vivo.

Em uma madrugada de insônia, deparou-se imersa em lembranças e fantasias. Levantou e sentou na sacada. Relia pela milésima vez aquela série de diálogos e esses textos não mais supriam sua carência. Beirava o desespero.

Olhou para baixo. Nove andares até o chão. Era hora de dar um basta. Jogou seu celular de lá de cima, rompendo em definitivo essa relação quimérica.