Opiniões

Igor Franco — O “mito” resiste

 

 

Quem esperava um completo desastre do candidato à presidência Jair Bolsonaro durante a entrevista do Roda Viva precisará dar o braço a torcer. Questionado e provocado por uma bancada claramente opositora de seu discurso mais radical, Bolsonaro soube se virar com as mesmas tiradas e provocações de outros momentos, não cedendo uma só nova polêmica ou declaração bombástica ao longo de quase uma hora e meia de entrevista.

Desde a entrevista inaugural com os pré-candidatos, ocorrida há mais de três meses, a grande expectativa dos que acompanham desde já a movimentação dos candidatos era uma só: Bolsonaro teria coragem de enfrentar uma bancada hostil ou se ausentaria, como já fez em outros momentos? Quando do anúncio de sua participação, a entrevista dos pré-candidatos restantes parecia apenas cumprimento de tabela até o tão aguardado jogo decisivo.

O grande evento fez jus à expectativa. Bolsonaro no Roda Viva virou Top 1 no Trending Topics mundial do Twitter. Ao longo da entrevista, mais de 200 mil pessoas acompanhavam ao vivo no YouTube e, no Facebook, menos de uma hora depois de finalizada, a sabatina contava com 1,6 milhão de visualizações e mais de 249 mil comentários. Como comparação, a audiência do programa foi seis vezes maior que a do tucano Geraldo Alckmin, entrevistado na última semana. Como curiosidade, a única edição recente do Roda Viva a superar tais números foi a do juiz Sérgio Moro, em março deste ano.

A bancada do programa buscou representantes de algumas das redações mais conceituadas do país: Veja, O Globo, Folha de São Paulo, O Estadão e Valor Econômico. Não obstante, os entrevistadores rapidamente desistiram de questionar Bolsonaro a respeito de suas propostas para o país ou mesmo de explorar seu pouco preparo para lidar com a complexa situação em que se encontra o país. Em vez disso, buscaram o confronto desde antes do término do primeiro bloco, levando a pauta do programa para o terreno em que o candidato se sai melhor: a polêmica.

Ao confrontar Bolsonaro com antigas declarações e insistir em temas como armas de fogo, voto impresso, ditadura militar e outros temas profundamente contaminados pelo antagonismo direita x esquerda, os jornalistas permitiram ao militar fazer uso de suas frases de efeito que movimentam memes e corações nas redes. Desde a “você espera levar um tiro e oferece uma florzinha a ele (o traficante)” ao convite para um jornalista ensinar a polícia a como combater o crime organizado armado até os dentes, passando pela sua proposta de revirar os empréstimos do BNDES aos regimes autoritários amigos do PT, Bolsonaro soube esquivar-se de temas mais interessantes ao eleitor indeciso, como seu despreparo quanto à economia ou o seu escasso trabalho legislativo em quase três décadas. Lá para as tantas, quando toda a abordagem jornalística havia se transformado em uma busca incessante pelo lacre, ainda fomos brindados pelo colunista Bernardo Mello Franco com a novidade teológico-política de que Jesus Cristo era um refugiado. Aliás, registre-se, en passant, a tara da esquerda por transformar Jesus, o ponto central da tão odiada fé cristã, em seu bibelô de ocasião: no Natal, Jesus é comunista; na semana passada, foi classificado como travesti, por um auto-proclamado artista e, hoje, transformou-se em refugiado quando importou confrontar Bolsonaro com suas declarações classificadas como xenófobas.

O programa de hoje prestou mais aos memes e a colocar fogo na disputa incandescente entre direita e esquerda que a contribuir para a democracia e para elucidar eventuais dúvidas dos eleitores. Em seu primeiro teste de fogo, Bolsonaro saiu muito menos chamuscado que o mais otimista de seus apoiadores imaginaria. Ao tratar o candidato como um grande boçal que se destruirá sozinho ao ser exposto ao seu próprio discurso, a imprensa brasileira comete o mesmo erro da americana com Trump, ao subestimar o nível de ojeriza e impaciência da população com a política e os meios tradicionais de informação.

Ao fim e ao cabo, resta admitir que a expectativa de fazer desmoronar Bolsonaro em sua primeira sabatina séria foi ineficaz. Os supostos pés-de-barro do “mito” parecem esconder alguma substância ainda mais resistente.

 

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