Igor Franco — Eleições 2018: Reloaded

 

Reprodução: Twitter/@FlavioBolsonaro

 

O país que encara com certo marasmo os mais de sessenta mil assassinatos anuais também é o país em que certos pudores ainda estão vigentes. Felizmente, a tentativa de homicídio do candidato líder nas pesquisas parece ser uma dessas fronteiras em que não toleramos cruzar. Embora rico em exemplos de ruptura institucional, a cena explícita compartilhada em ritmo alucinante via redes sociais e mídia tradicional extrapolou o que o mais pessimista observador poderia imaginar a respeito da campanha presidencial de 2018.

Tão brutal quanto a cena do homicida potencial cravando a faca no abdômen de Bolsonaro foi a baixeza e a estupidez de diversas reações de pessoas contrárias às ideias do militar. Não importava que houvesse dezenas de vídeos gravados pelos mais diversos ângulos ou que brotassem imagens de Bolsonaro sendo operado. Para os especialistas em medicina formados pelas séries da Netflix, estaríamos diante de uma encenação envolvendo milhares de populares, Polícia Federal, hospital, médicos e grande mídia, todos envolvidos num objetivo maior que, por algum motivo, envolveria uma facada fake em Jair. Tais reações só não envergonharam mais que a torcida explícita pela morte do candidato. Prontos a esquecer os pedidos de “mais amor, por favor” e as declarações a favor da tolerância, muitos buscaram justificar sua torcida pela tragédia maior na postura beligerante do candidato. Buscando algum tipo de equivalência mórbida, alguns chegaram a insinuar que a morte do candidato “compensaria” o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), ocorrido no início do ano.

Não cumpre aqui negar que o discurso histórico de Bolsonaro, que em diversos momentos ultrapassou a fronteira do bom senso e da prudência, seja alheio ao caldeirão de intolerância em que ferve grande parte do eleitorado. Porém, a vilania de atribuir à vítima culpa por seu infortúnio significa justificar crimes sempre pela ótica do criminoso — principalmente quando falamos de uma tentativa de homicídio. Para um estuprador, um ladrão ou um psicopata seu alvo sempre terá oferecido um pretexto que justifique sua conduta violenta.

Passado o choque inicial com o ocorrido, cumpre destacar as reações dos adversários eleitorais de Bolsonaro: em uníssono, condenaram a violência e reforçaram que certas condutas são inadmissíveis na democracia e, dentre elas, a eliminação física de opositores. Enquanto convalesce no hospital, o capitão pode esperar pelo menos alguns dias de trégua em relação à campanha negativa que vinha sofrendo durante o horário eleitoral, especialmente partindo do candidato tucano Geraldo Alckmin, que depende da migração para si dos votos antipetistas que hoje pertencem a Bolsonaro. É bem provável que toda a estratégia de campanha dos candidatos do primeiro turno seja revista a partir das primeiras pesquisas que capturarem a percepção do eleitorado a respeito do atentado.

A maior dúvida diz respeito ao efeito da comoção inicial da população em relação à altíssima rejeição do líder. No último Datafolha, divulgado na semana passada, Bolsonaro perdia em todos os cenários simulados — exceto contra Haddad (PT), cenário em que havia empate técnico. Nos poucos minutos restantes de negociação aberta após a facada, alguns grandes agentes do mercado fizeram a leitura de que o ocorrido seria suficientemente forte para amolecer os corações dos eleitores. No fechamento do mercado, o dólar despencou e a bolsa disparou.

O imponderável resolveu, mais uma vez, dar as caras na eleição presidencial brasileira. Enquanto a queda do avião de Eduardo Campos “zerou” a corrida de 2014 e quase foi suficiente para levar Marina Silva ao segundo turno — o que mudaria ainda mais a história do país — podemos estar diante de um novo turning point na política brasileira. À exemplo da guinada que teve início com a “Carta ao Povo Brasileiro” em que inaugurou o figurino “Lulinha Paz & Amor” que lhe rendeu dois mandatos em sequência, resta saber se Bolsonaro será capaz de utilizar a tragédia que lhe acometeu a seu favor, modulando seu discurso e propondo alguma espécie de união que soe sincera aos indecisos e aos que, hoje, enxergam no candidato algo que não desejam para o posto mais importante da política nacional.

Bolsonaro tem, hoje, o domínio da narrativa e grande poder de decidir o seu próprio futuro. A julgar pelas primeiras manifestações pós-cirurgia, entretanto, parece que a facada não lhe deixará outro legado que não seja um grande trauma.

 

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