Opiniões

Paula Vigneron — Previsão do tempo

 

Estava um dia quente, daqueles que invadem pele e alma. Observou o horário. Estava na hora do jornal, “do repórter”, como costumava falar. Ligou a televisão, buscou o computador — ler e escutar as notícias simultaneamente era um hábito cultivado há anos — e se sentou no sofá.

“Confira, agora, a previsão do tempo para os próximos dias: sol forte de manhã…”

Passeava pelos sites. No esporte, “Cruzeiro é o campeão da Copa do Brasil”, contavam o título do texto e a foto dos jogadores comemorando com a taça na mão. “O brasileiro e suas vãs paixões”, sorriu enquanto lia a notícia. Na cultura, comentava-se sobre o show do ex-Pink Floyd. “Após vaias, Roger Waters afirma que artistas têm responsabilidade de usar a arte para expressar suas ideias políticas”. Balançou a cabeça em concordância, seguindo para outros assuntos. Letras, caras, bocas. A vida de alguém pairando em colunas sociais.

Política preenchendo as palavras. “Relatos sobre agressões por motivação política crescem nas redes sociais no segundo turno, mostra estudo da FGV”. “Redes sociais e suas baboseiras extremistas”, pensou. Ainda bem que estava distante de tudo isso, o que lhe causava sensação de alívio. Detestava essas ferramentas da internet. Gostava mesmo da vida real, lugar em que essas brigas não aconteciam, acreditava.

“…noites de altas temperaturas, praticamente invariáveis…”

Um crime em análise. “Mais um. O que será desta vez?”, suspirou. “Ferido no ataque que matou Moa do Katendê após discussão política em Salvador, primo da vítima tem alta médica.” Releu. Novamente, focou a atenção nas letras e no que significavam. Sensação de vazio. Olhava a enxurrada de verbos, conectivos, vírgulas, pontos, coesão, incoerências.

“Polícia Civil detém suspeitos de picharem suásticas nazistas em capela de Nova Friburgo.”

Cerrou os olhos para se concentrar nas frases. Sentia dificuldade para compreender.

“Um vídeo com imagens de câmeras de segurança a que a polícia teve acesso também mostra os mesmos homens pichando em outros muros e calçadas próximos à capela frases contrárias ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL).”

Abriu outra página.

“Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país.”

Calafrios percorriam o corpo enquanto parecia ouvir ecos do passado. “Pô, cara, não é uma pergunta que tem que ser invertida, não? Quem levou a facada fui eu, pô! O cara lá, que tem uma camisa minha, comete lá um excesso. O que eu tenho a ver com isso? Eu lamento.”

“…mas fiquem atentos: há possibilidade de pancadas de chuva entre raios e trovões.”

Apertou as mãos. Fechou os jornais, desligou a televisão e apagou as luzes. O tempo era incerto.

 

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