O NF Transplantes fez hoje a primeira captação de órgãos na região em 2020. Dois rins e o fígado de um paciente de São Francisco de Itabapoana, de 53 anos, vítima de AVC que veio a óbito no Hospital Ferreira Machado (HFM), foram doados com a autorização da viúva. Ele deixa três filhos e outras vidas que seus órgãos vão ajudar a prolongar.
Coordenador do NF Transplantes, o médico Luiz Eduardo Castro de Oliveira explicou que, pela vida útil menor do órgão, o fígado será transplantado ainda hoje. Os rins devem sê-lo até a manhã deste domingo (26). A seleção, com base em lista de espera e em critérios pré-estabelecidos, já está sendo definida pelo Programa Estadual de Transplantes.
Psicólogo do NF Transplantes, Luiz Antonio Cosmelli destacou que a ação para salvar vidas vem sendo favorecida pelo trabalho de conscientização realizado em hospitais, igrejas, escolas e universidades, com apoio da imprensa.
Presidente — ou presidenta, na guerra ideológica levada à gramática em que as duas formas estão corretas — do PT de Campos, a ex-vereadora Odisséia Carvalho enviou hoje ao blog uma nota pública. Ela trata da posição do diretório municipal da legenda sobre a declarações de apoio do presidente da Alerj, deputado estadual André Ceciliano, também do PT, na eleição a prefeito de Campos de outubro.
A despeito do PT de Campos manifestar a vontade de ter candidato próprio a prefeito no município, o petista Ceciliano reafirmou (aqui) na tradicional Festa de Santo Amaro, no último dia 15, o que já havia relevado na Feijoada da Folha, em 26 maio de 2019: caminhará com quem seu colega deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD) apoiar. E tudo indica que o apoiado será o pré-candidato a prefeito Caio Vianna (PDT).
Odisséia aproveitou a nota para também rebater os questionamentos contundentes de Roberto Dutra, sociólogo e professor da Uenf. Também blogueiro do Folha1 e militante de esquerda, mesmo da Alemanha ele acompanhou a polêmica pelo portal do maior jornal de Campos e região. E, em postagem nas redes sociais reproduzida (aqui) neste blog, aproveitou a polêmica para classificar o PT de “um PP de grife”, criticando ainda o ex-presidente Lula.
Abaixo, a nota pública do PT enviada por Odisséia, reproduzida (aqui) nas redes sociais pelo secretário de Comunicação do partido em Campos e também blogueiro do Folha1, Gilberto Gomes. O texto é seguido da tréplica de Roberto Dutra. Mesmo em viagem pela Europa, a partir da Folha, o professor da Uenf continua acompanhando e intervindo no noticário político de Campos. No qual reforçou suas críticas ao PT local, estadual e nacional.
Nota pública
Sobre as recentes declarações do presidente da Alerj, deputado André Ceciliano, o diretório municipal do PT de Campos dos Goytacazes reafirma que terá candidatura própria no município, fruto de um esforço coletivo de dezenas de militantes dispostos a apresentar à população campista uma alternativa à esquerda nos moldes do programa democrático-popular.
O partido conta com apoio do diretório estadual (aqui), nacional e do próprio presidente Lula, que em recente declaração deixou clara a orientação aos diretórios do PT de apresentarem candidaturas próprias em cidades com mais de 100 mil habitantes.
Ceciliano não foi somente infeliz em ignorar as construções locais do partido, mas em supor que seu apoio a qualquer outro nome, que não seja aquele oficialmente apresentado pelo PT, possua alguma relevância.
O respeito às instâncias partidárias faz parte do único caminho possível de reconstrução do PT no estado do Rio de Janeiro. E declarações que não dialoguem com esta compreensão devem ser repudiadas.
Mais infelizes ainda foram as declarações de um professor universitário, quadro do PSB local, em recente entrevista ao portal Folha1.
Embora seus ataques ao PT carreguem um falso clamor por uma esquerda “de verdade”, o professor esconde que o PSB em Campos é muleta do terminal governo Rafael Diniz que, cercado por tecnocratas insensíveis socialmente, foi incapaz de compreender quais as reais necessidades do povo e apresentou a Campos uma crise social sem precedentes.
Estas declarações refletem o medo com a reorganização em Campos do maior partido de esquerda da América Latina.
O PT mantém claro qual seu papel junto à população e não abrirá mão de apresentar uma alternativa real, com uma candidatura própria que terá o trabalhador como prioridade.
Quem já mudou o Brasil, vai mudar Campos.
Secretaria de Comunicação do PT Campos
Presidenta municipal
Odisseia Pinto de Carvalho
Roberto Dutra, sociólogo, professor da Uenf e em processo de filiação ao PSB, no “Ele Não!” da praça São Salvador, em 29 de setembro de 2018
Minhas críticas ao PT não são de agora. São feitas em análises sobre a crise da política de esquerda desde de 2016. Fui filiado ao PT por muito tempo. Sempre votei em Lula e em Dilma. Não votei no Haddad, porque já não acreditava na existência de um projeto ousado de transformação social representado pelo PT. Quando critiquei a postura do deputado estadual do partido sobre as decisões do partido em Campos, meu foco foi o desrespeito com o diretório local. Quanto mais desprovido de projeto de transformação social é um partido, mais este partido pode ser um PP de grife.
Minha crítica não é moralista. O foco é a incompetência política do partido em oferecer alternativas de políticas públicas transformadoras. Não falo como membro do PSB. Mas cabe destacar que o partido está buscando oferecer políticas que transformem estruturas sociais de modo duradouro, cumulativo e crescente. Sua contribuição ao governo Rafael Diniz é marcada por políticas ousadas que estão, por exemplo, melhorando a qualidade da educação, como nunca foi feito. Nesta área, o PT confunde corporativismo sindical com interesse público.
A nota do partido sequer tem a coragem de entrar no mérito de minhas críticas. Limita-se a dizer que são infelizes. Infeliz é uma esquerda controlada pelo interesse organizacional desprovido de programa para o Brasil, o Estado do Rio de Janeiro e Campos. O PT estadual e o de Campos são uma versão piorada deste PT nacional sem rumo para ofertar ao país.
Na madrugada de hoje, duas viaturas da PM passam por carro de clientes da boate Luxx, que permaneceu parado na contramão da Pero de Góis (Foto: Reprodução)
Só dinheiro?
Parte da mesma população que considerou a segunda gestão Rosinha Garotinho (hoje, Patri) tão ruim ao ponto de eleger Rafael Diniz (Cidadania) no primeiro turno de 2016, não faz juízo diferente de quem hoje a governa. Se a ex-prefeita teve em seus oito anos de administração, sem correção pelo IPCA, a média de R$ 120 milhões de Participação Especial (PE) de petróleo, as dificuldades financeiras são bem maiores (confira o contraste aqui) para quem teve média de PE de R$ 40 milhões, como Rafael. Sendo que a última, paga em novembro, não chegou a R$ 17 milhões. Mas dinheiro, ou sua falta, não é a única explicação.
Procura-se a GCM
Desde que o grupo que explora a boate Luxx se instalou comercialmente na rua Pero de Góis, ainda no governo rosáceo, o bairro residencial do Parque Tamandaré, com um dos IPTUs mais caros da cidade, passou a viver um inferno nas suas noites e madrugadas antes tranquilas. Só que, com Rosinha no poder, a Guarda Civil Municipal (GCM), atendia às chamadas e enviava viaturas para coibir o estacionamento em fila dupla, por vezes tripla, dos clientes da casa noturna na Pero de Góis. Só que, nos três anos do governo Rafael, a GCM simplesmente deixou de fazer esse tipo de serviço.
Brigas e tiros
Autorizada provisoriamente pela superintendência de Postura a cada novo evento, a seleta clientela da boate Luxx transformou as madrugadas das ruas do Parque Tamandaré em palco (confira todos os vídeos aqui) para brigas generalizadas, agressões físicas e verbais a mulheres, e até disparos com arma de fogo, como foram flagrados por câmeras de segurança na madrugada de 1º de novembro de 2018. Diante da divulgação do fato pela Folha, a Postura foi forçada a agir. Em dezembro daquele ano fechou a casa noturna para tratamento acústico. Depois do qual foi novamente liberada em maio de 2019.
Fogueteiro
A vedação acústica da Luxx é cobrada com juros por seus frequentadores. Com a inação da GCM, os baladeiros de outros bairros não só voltaram a parar carros em filas duplas e até triplas no Tamandaré, como acintosamente elevam potentes sons automotivos à máxima altura. E transformam noites e madrugadas de quem quer dormir, dentro da sua casa, em um inferno. Seu início é bem conhecido dos residentes do bairro. Como fogueteiro do tráfico, uma moto passa pela Pero de Góis roncando o motor. É a senha para que o baile funk a céu aberto comece. Quase sempre, até raiar o dia.
Adestrados
Com o movimento nas praias nos finais de semana, o verão trouxe uma novidade. Os ilícitos dos frequentadores da boate, que fazem da rua sua extensão, começaram esta semana na noite de quarta (22). E se estenderam pela madrugada de ontem. Avisado da bandalha acústica, o solícito comandante do 8º BPM, tenente-coronel Henrique, enviou uma viatura ao local. Mas, na mesma sincronia com o ronco da moto como fogueteiro do tráfico, os frequentadores da Luxx abaixam o som dos seus carros quando chega a patrulha. Que retornam ao máximo volume assim que a PM dobra a esquina.
Confira nos flagrantes de vídeos o baile funk a céu aberto na rua Pero de Góis, que só cessa enquanto passa a PM:
Jogo de empurra
Nesse jogo de gato e rato, duas viaturas da PM flagraram um carro parado na contramão, em frente à Luxx, que acabara de abaixar o volume do som. Saudados pelos seus ocupantes, como filmado por um morador insone do Tamandaré, os PMs nada fizeram. Após assistir ao vídeo, o comandante Henrique disse que a função de coibir o estacionamento na contramão é da GCM sempre ausente. Como a Postura diz que sua obrigação é coibir o som da boate, não dos carros, que seria função da PM. E nesse jogo de empurra, o prejudicado é o cidadão pagador dos seus impostos e impedido de dormir.
Confira nos flagrantes de vídeo o carro na contramão com som na máxima altura, em silêncio só quando passam as viaturas da PM, que nada fazem com o veículo em estacionamento irregular:
Quem lucra?
O superintendente da Postura é pré-candidato a vereador. Se confirmar a pretensão, dificilmente terá um voto no Parque Tamandaré. Por enquanto, é membro da mesma gestão cuja GCM se omite. E é estranho que um governo sem receio de se indispor com a população carente no corte de programas sociais, ou com médicos, hospitais, servidores e comerciantes da CDL, pareça ter medo em fazer cumprir a lei sobre uma boate instalada em bairro residencial. Em um município em crise financeira, até onde se saiba, só quem tem lucrado com o inferno do Tamandaré são os donos da Luxx.
As distensões entre o PT goitacá e o presidente petista da Alerj, deputado estadual André Ceciliano, sobre as eleições a prefeito de Campos em outubro. O circo armado pela deputada federal carioca Major Fabiana (PSL) no Hospital Geral de Guarus (HGG), cobrando pelas redes sociais a aplicação de uma verba não liberada, para depois aparecer sorrindo ao lado do secretário municipal de Saúde Abdu Neme. O mistério do governo Rafael Diniz (Cidadania) sobre a liberação, desde 23 de dezembro, de R$ 10 milhões do governo estadual Wilson Witzel (PSC) à Saúde Pública de Campos. E as críticas do deputado estadual Gil Vianna (PSL), pré-candidato a prefeito da cidade, à falta de compromisso do também pré-candidato Caio Vianna (PDT), de quem foi vice na chapa derrotada de 2016.
Os quatro assuntos foram tratados hoje na segunda edição do programa “Jogo Jogado”, com a participação dos jornalistas Arnaldo Neto, Aldir Sales e minha. Veiculado aqui na conta do Facebook da Folha, trará sempre no início das noites de segunda e quinta a análise dos bastidores dos principais fatos da política de Campos e região.
Na madrugada de hoje, duas viaturas da PM passam por carro de clientes da boate Luxx, que permanece na contramão da Pero de Góis (Foto: Reprodução)
Diante da passividade dos órgãos fiscalizadores do poder público municipal, como a Guarda Civil e a superintendência de Postura, a bandalha generalizada se repete impunemente na rua Pero de Góis, no Parque Tamandaré, em todos as noites e madrugadas de eventos na boate Luxx. Antes restrita aos finais de semana, os potentes sons dos carros parados na rua pelos frequentadores da casa noturna agora também perturbam o sono do bairro residencial nas noites de quarta e madrugadas de quinta. Como foi flagrado em vários vídeos na noite de ontem (22) e madrugada de hoje (23).
Diferente do que ocorria no governo Rosinha (hoje, Patri), a Guarda Civil Municipal (GCM) na gestão Rafael (Cidadania) tem se mostrado durante três anos incapaz de enviar uma única viatura ao local, para tentar resolver o problema que se arrasta. A ausência de fiscalização da GCM se repete em todas as noites e madrugadas em que não residentes do Tamandaré formam filas duplas, às vezes até triplas, nas duas vias da Pero de Góis. E as interditam parcial ou totalmente.
Já a Postura se limita a informar que sua responsabilidade é sobre o som da Luxx, cujo funcionamento autoriza a cada novo evento. Brecha explorada por quem aprendeu — ou foi ensinado — a seguir interrompendo impunemente o sono de todo um bairro residencial. Para lucrar com isso. Toda noite de evento, como um fogueteiro do tráfico, o ronco alto do motor de uma moto passa para dar sinal verde à bandalha dos carros da clientela da boate.
Único órgão fiscalizador do poder público a demonstrar interesse com a reincidência do problema, a Polícia Militar (PM) tem enviado viaturas ao local, sobretudo sob comando do tenente-coronel Henrique no 8º BPM. Quando elas cruzam a Pero de Góis, os carros dos frequentadores da boate abaixam o som, que voltam a aumentar ao máximo volume, tão logo a presença policial se afasta.
O mesmo ocorreu na madrugada de hoje com um veículo parado na contramão na Pero de Góis. Que abaixou o som quando duas viaturas da PM passaram no local, mas permaneceu com o carro estacionado na contramão.
Confira abaixo os vários flagrantes de vídeos com os carros da clientela da Luxx, que transformam as noites e madrugadas de um bairro residencial em baile funk a céu aberto. E é silenciado, apenas momentaneamente, quando passam as viaturas da PM:
Confira nos flagrantes abaixo o som alto do carro parado diante à boate Luxx, na contramão da Pero de Góis. Que silencia o som quando passam duas viaturas da PM, cuja presença é saudada com um “Oi!” por quem permanece impunemente com o veículo parado na contramão:
Comandante do 8º BPM, tenente-coronel Henrique
Informado na noite de ontem da reincidência dos ilícitos cometidos pelos frequentadores da boate Luxx, o comandante da PM em Campos, tenente-coronel Henrique, determinou envio de viaturas ao local. Após receber hoje os vídeos com as duas viaturas que passaram pela madrugada no local, permitindo que o veículo permanecesse parado na contramão, ele esclareceu:
— Eu vi essa filmagem das viaturas passando pelo carro parado na contramão. Na realidade, não percebi som alto quando as patrulhas passaram. Percebi que eles falaram alguma coisa, não sei se com o condutor, mas com as pessoas que estavam próximas do veículo. Isso não é desculpa, mas esse tipo de infração, estacionamento na contramão da direção, ela é uma competência do município. Não estou dizendo que a gente não possa melhorar nada, que não podemos fazer nada. Mas os demais poderes públicos têm que comparecer, têm que se fazer presentes também. A Guarda Municipal tinha que ter ido lá, infracionado. Tá complicado de ir sozinho? Pede o auxílio da Polícia Militar. Mas nós estamos aqui para atender. E vamos ajustar os processos. Mas a Polícia Militar não vai ser a única ferramenta para acabar com esse problema. Somos apenas um elo, para conseguir com os demais órgãos, para poder ajudar os moradores. Quando fui comunicado, mandei a viatura lá naquela mesma hora.
O governo estadual Wilson Witzel (PSC) liberou, desde 23 de dezembro, R$ 10 milhões à Saúde Pública de Campos. Com cópia da ordem bancária, a informação foi divulgada (confira aqui) no blog Opiniões no último sábado (18). Devido à crise nos hospitais contratualizados, com atraso da complementação municipal, no mesmo dia a reportagem da Folha tentou contato com o presidente do sindicato dos Hospitais, Frederico Paes, e o secretário de Saúde Abdu Neme. Ainda no sábado, Paes informou que nada tinha sido repassado aos hospitais. Já o município informou só ontem que o dinheiro “será utilizado na compra de medicamentos e insumos”.
Pai da verba?
A informação da liberação da verba estadual foi repassada ao blog pelo presidente do PSC de Witzel em Campos, o empresário e pré-candidato a prefeito Marcelo Mérida. Segundo ele, a verba teria saído de um esforço seu, coordenado com o deputado estadual Bruno Dauaire, líder do partido do governador na Alerj, junto ao secretário estadual de Saúde Edmar Santos. Já para a Prefeitura “houve uma articulação do governo Rafael Diniz (Cidadania) com o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), fundamental para a obtenção do recurso. E, como ocorre no jogo político, há quem tente buscar a paternidade para ganhar destaque”.
Por quê?
O contraste entre as informações traz questionamentos lógicos: 1) se a verba saiu da articulação entre Rafael e Ceciliano, por que foi Mérida quem revelou sua liberação? 2) com tanta agenda ruim pela crise financeira do município, uma notícia boa na Saúde não deveria ser divulgada logo pelo verdadeiro “pai da criança”? 3) compra de remédios e insumos é fundamental à Saúde, mas não daria para destinar parte da verba também aos hospitais contratualizados, que igualmente atendem à população, inclusive pacientes transferidos às pressas do Hospital Geral de Guarus (HGG), quando este foi interditado (relembre aqui) em 20 de novembro?
“Situação caótica!”
A “paternidade” da verba estadual à Saúde Pública pouco ou nada importa a quem dela precisa: a maioria do meio milhão de campistas que não pode pagar um plano. E é também atendida pelos hospitais contratualizados. Em seu diagnóstico, Frederico Paes não demorou: “A nossa situação é caótica! São três meses de salários atrasados e começa a faltar material hospitalar. Não sabemos onde isso vai parar. Entendemos que não há da Prefeitura a disposição ao diálogo. Precisamos pelo menos que nos seja colocado um cronograma de pagamento dos atrasados”. Coletiva à imprensa está marcada às 9h desta quinta (23), na Santa Casa.
“O PT do Estado do Rio de Janeiro é ridículo. É um PP de grife, como diz (o professor de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora) Gustavo Castañon. Qualquer deputado estadual se acha no direto de desancar diretórios municipais, como fazem com o diretório de Campos, historicamente reduzido a apêndice de Garotinho (sem partido) e Arnaldo Vianna (PDT). O ‘Napoleão da Lapa’ definiu muito bem a agremiação como ‘partido da boquinha’”.
Foi o que Roberto Dutra, sociólogo, professor da Uenf e blogueiro hospedado no Folha1 (confira aqui), postou hoje (aqui) nas redes sociais. Ele reagiu à posição do presidente da Assembleia Legistlativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado André Ceciliano (PT). No último dia 15, durante a Festa de Santo Amaro, como a Folha revelou hoje (aqui), o líder petista declarou que caminhará na eleição a prefeito de Campos, em outubro, com quem seu colega deputado Rodrigo Bacellar (SD) apoiar. E, até aqui, tudo indica que apoiará o pré-candidato Caio Vianna (PDT).
Mesmo em viagem pela Alemanha, Roberto Dutra acompanhou a notícia da declaração de Cecicliano pela Folha. Assim como a reação (confira aqui) à posição do presidente da Alerj por petistas de Campos. Militante de esquerda, embora crítico ao lulopetismo e à pauta identitária, o professor da Uenf foi além em suas críticas contundentes ao PT. E também ao Psol:
— Lula que usa as prefeituras que o PT governa, como Maricá, para empregar seus parentes. Depois de Brizola, o Rio de Janeiro nunca mais teve esquerda popular e decente. O elitismo colorido do Psol obviamente não é nem esquerda, nem popular. Precisamos de uma alternativa progressista!
Ceciliano, Rodrigo, Caio, José Maria, Gilberto, e Luciano (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Ceciliano com Bacellar/Caio
A declaração do presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), André Ceciliano (PT), de que caminhará na eleição a prefeito de Campos com quem seu colega Rodrigo Bacellar (SD) apoiar, não pegou bem entre lideranças petistas locais. Foi o que Ceciliano disse no último dia 15, na Festa de Santo Amaro, em almoço organizado por Bacellar. O evento foi visto como ato de apoio de Rodrigo à pré-candidatura à Prefeitura de Caio Vianna (PDT). Ainda assim, o prefeito Rafael Diniz (Cidadania), pré-candidato à reeleição, esteve lá. Assim como outro pré-candidato ao cargo, o deputado estadual Gil Vianna (PSL).
Presentes e ausente
A presença de Rafael no evento talvez se justifique pelo fato de que Rodrigo tem intermediado o contato com o governo estadual Wilson Witzel (PSC) na tentativa de reabrir o Restaurante Popular, em parceria com o município. Ainda assim, quem esteve presente notou o empenho de Caio em não ficar junto do prefeito de Campos, com quem chegou a posar para fotografia no começo do processo eleitoral de 2016. Naquele pleito, vencida no primeiro turno por Rafael, Gil foi candidato a vice na chapa de Caio. Quem fez questão de marcar sua ausência no almoço foi outro pré-candidato a prefeito, o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD).
PT reage a petista
Em matéria (aqui) da página 2 desta edição, o petroleiro José Maria Rangel, candidato a deputado federal em 2018 e também pré-candidato do PT a prefeito de Campos em 2020, reagiu à declaração do petista Ceciliano, de caminhar junto com quem Rodrigo apoiar: “Nós do diretório em Campos procuramos sempre respeitar as instâncias partidárias. Teremos uma candidatura própria e essa declaração é infeliz. O diretório do partido em Campos não foi ouvido, eu não fui procurado para falar sobre esse assunto, assim como acredito que Odisséia também não”. A ex-vereadora é a outra pré-candidata a prefeita do partido em Campos.
Lição de Pudim
As reações a declaração de Ceciliano foram da ala mais jovem à mais experiente do PT de Campos. Estudante da Uenf, Gilberto Gomes é o secretário de Comunicação da nova executiva municipal do partido. “Causa estranhamento a declaração e o tipo de relação que Ceciliano pretende estabelecer em Campos, ignorando a atuação e a construção do PT na cidade. Custo a acreditar que ele obtenha êxito em qualquer articulação sectária e isolada, sem ouvir o diretório municipal sobre a dinâmica local, como na frustrada tentativa de emplacar seu aliado Geraldo Pudim nas fileiras do PT em Campos”, alfinetou.
Voz da experiência
Dos quadros mais respeitados do PT na região, o professor Luciano D’Ângelo foi o primeiro diretor eleito da antiga Escola Técnica Federal de Campos (hoje, IFF), ainda em 1985, nos estertores da ditadura militar. Depois, foi secretário municipal dos governos Arnaldo Vianna (PDT) e Carlos Alberto Campista (sem partido) em Campos, além do de Godofredo Pinto (PT), em Niterói. Ele minimizou a declaração do presidente da Alerj sobre a disputa do poder goitacá em outubro: “A eleição de prefeito é municipal. Quem tem o poder de indicação de candidatos é o diretório municipal. É só uma manifestação pessoal do Ceciliano”.
Instituto Federal Fluminense, IFF (Foto: Isaias Fernandes – Folha da Manhã)
Solidariedade
Por falar em IFF, a maior instituição de ensino da região também entrou na onda de solidariedade ao município de São Francisco de Itabapoana. Na fronteira com o Espírito Santo, sofreu como Iconha e Alfredo Chaves, municípios do sul do estado vizinho também afetados pela tempestade que caiu sobre a região no final de semana, causando 6 mortes e deixando 415 pessoas desabrigadas. Como informa (aqui) matéria da página 6 desta edição, outras entidades de Campos como a CDL, a Casa da Amizade e o Grupo de Resgate Voluntário também estão recebendo donativos para destinar à população afetada.
IFF com Ifes
As doações com mesmo fim podem ser entregues até esta sexta (24) nos setores de Gestão de Pessoas da reitoria do IFF. E dos seus campus Campos-Centro, de Guarus, São João da Barra, Cambuci, Bom Jesus do Itabapoana, Itaperuna, Pádua, Macaé, Quissamã, Cabo Frio e Maricá. Pede-se água potável, alimento não perecível, roupas, colchões, travesseiros, material de limpeza e de higiene pessoal. A iniciativa do IFF é feita em parceria com o campus de Piúma, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), que fará a distribuição de todo o material arrecadado.
Ciente de que o jornalismo de qualidade é mais do que nunca necessário nestes tempos de fake news e “especialistas” de tudo nas redes sociais, a redação da Folha da Manhã deu hoje (20) o pontapé inicial ao “Jogo Jogado”. O programa (conheça aqui sua proposta) será um bate-papo sobre os bastidores da política goitacá e regional, sempre gravado e veiculado na página da Folha no Facebook, no início das noites de segunda e quinta. O de hoje, mediado pelo jornalista Arnaldo Neto, editor-geral da Folha, teve a participação do jornalista Aldir Sales, editor de Política do jornal, e minha. Outros jornalistas e personagens políticos também serão convidados nas próximas edições.
Quem quiser conferir o resultado da estreia, gravada hoje, pode fazê-lo aqui, na conta da Folha no Facebook. Ou conferir o vídeo abaixo, postado no Youtube:
Depois de “Era Uma Vez em.. Hollywood” (confira sua resenha aqui), de Quentin Tarantino, e “Coringa”, de Todd Phillips, dois outros fortes candidatos ao Oscar de 2020 estão sendo exibidos no cinema de Campos. São o o sul-coreano “Parasita”, de Bong Joon-ho, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, que estreou desde quinta (16); e a produção britânica “1917”, de Sam Mendes, que teve sua pré-estreia no sábado (18) e domingo (19), voltando para ficar nesta quinta (23).
Como sempre acontece com o cinema de qualidade na planície goitacá, ambos estão em cartaz no Kinoplex Avenida, no Shopping 28. Não no Cine Araújo do Shopping Boulevard, restrito a blockbusters comerciais. E quase sempre dublados, na pressuposição de que seu público seja composto de analfabetos — de fato ou funcionais.
“1917”
“1917” é uma história de dois cabos do Exército Britânico no penúltimo ano da sangrenta I Guerra Mundial (1914/1918) — e também da Revolução Russa, que não é tratada no filme. Em um tempo sem comunicação em tempo real, os dois soldados recebem como missão levar uma mensagem do alto-comando para impedir um ataque contra os alemães, que recuaram para montar uma armadilha aos seus inimigos nas trincheiras da França. Entre outras armadilhas deixadas pelos germânicos e o confronto direto contra estes, serão muitos os percalços enfrentados pelos mensageiros.
Motivo de crítica por Luiz Fernando Veríssimo em “Dunkirk” (aqui, de 2017,), de Christopher Nolan, sobre a importante batalha homônima da II Guerra Mundial (1939/45), a ausência dos britânicos negros, além dos hindus, muçulmanos e siks da Índia, é lapso racial que não se repete em “1917”. Nele, lado a lado com os anglo-saxões pálidos, estão soldados de pele escura e de turbante.
Ganhador dos Oscar de melhor diretor e melhor filme por “Beleza Americana” (2009), filme de estreia de Sam Mendes e clássico recente do cinema, o diretor inglês traz em “1917” uma comentada novidade estética: seu novo filme é todo em plano-sequência, sem cortes. Outro inglês, o mestre Alfred Hitchcock já havia feito isso em “Festim Diabólico” (1948), todo filmado dentro de um apartamento. Ao levar a ousadia técnica a campo aberto, Mendes foi agraciado com o Globo de Ouro de melhor diretor em 5 janeiro. É sempre um forte indicativo ao Oscar, que será entregue em 9 de fevereiro.
Samuel Johnson
Sem spoiler, o final de “1917” é sensível e revelador. No que lembra o epílogo de um dos maiores filmes de guerra já feitos: “Glória Feita de Sangue” (1957), baseado em fatos reais da mesma I Guerra Mundial e dirigido pelo mestre estadunidense Stanley Kubrick. Que nele imortalizou no cinema um dito do pensador inglês Samuel Johnson, tão pertinente ao Brasil e ao mundo de hoje: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.
“PARASITA”
Mas a grande novidade entre os indicados a melhor filme é mesmo “Parasita”. Nas desigualdades sociais inevitáveis do sistema capitalista, mesmo em um país tido como um seu exemplo positivo, como a Coréia do Sul, é difícil saber quem melhor batiza o título do filme. Seria a família pobre de embusteiros — ao melhor estilo do clássico “Feios, Sujos e Malvados” (1977), do mestre italiano Ettore Scola, morto ontem (aqui) há exatos quatro anos? Ou a família rica, fútil e elitista que a primeira inveja e engana para servir? Na dúvida, a crítica mordaz ao capitalismo não peca por maniqueísmo, já que o regime comunista e oligárquico da vizinha Coréia do Norte também é exposto ao ridículo devido.
Questão emblemática desde sempre no conceito marxista da “luta de classes” — que o excelente roteiro sul-coreano não busca nivelar no proletariado, apenas tomar o lugar do patrão —, o “cheiro do povo” tem sua universalidade independente de Ocidente e Oriente, hemisférios Norte ou Sul. É ele que ativa o turning point contundente da história, ao transformar uma comédia na mais extremada tragédia. Tragédia no sentido grego do termo, que não serve de base ao Extremo Oriente, não de fazer tragédia. De fato, esse “cheiro do povo” evoca uma frase marcante de um bom filme brasileiro, “Linha de Passe” (2008), dirigido por Walter Salles Júnior e Daniela Thomas, sobre desigualdades sociais muito semelhantes: “Olha pra minha cara, porra!”.
Com suas surpresas subterrâneas, “Parasita” talvez seja um filme ainda mais revolucionário e marcante do que o frenético “Oldboy” (2003), de Park Chan-wook. Foi com ele, numa leitura oriental de Tarantino em suas bases no cinema de kung-fu de Hong Kong, que a Coréia do Sul impactou o mundo do cinema no novo milênio. Se não dedicado à violência estilizada de “Oldboy”, o sangue derramado em “Parasita” pode chocar ainda mais. Tanto quanto a antológica cena da jovem e bela mulher sentada sobre a privada que regurgita esgoto durante uma inundação no porão onde habita, enquanto fuma seu cigarro “mentolado” de fezes. E é choque necessário para tirar o espectador de classe média da sua zona de conforto, em qualquer parte do mundo.
Thomas Hobbes
Igualmente sem spoiler, talvez ainda mais que “1917” o(s) final(is) de “Parasita” não precisa de código Morse para entregar sua mensagem. No filme sul-coreano e universal, o “inimigo” é visceralmente humano. Como quem está sentado na poltrona do cinema.
“1917” é um filme sobre honra e altruísmo. “Parasita” é sobre falta de honra e ambição. Faces da mesma humanidade, não por coincidência ambos são também sobre família. E sobrevivência.
Entre comédia e tragédia, o parasita real do filme da Coréia do Sul é revelado em outro dito, de outro pensador inglês. Que serve também aos campos de batalha reais de 1917. Como sentenciou Thomas Hobbes em seu clássico “Leviatã”: “O homem é o lobo do homem”.
Confira abaixo os trailers dos dois filmes candidatos ao Oscar em cartaz no Kinoplex Avenida:
Ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, em seu pastiche do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels
Jornalista Vera Magalhães
Mudança x concessão
Por Vera Magalhães
Como tudo no Brasil de hoje, o filme Dois Papas foi tragado pela polarização rasa e redutora que engolfa da política às artes, passando pelo esporte e pelas relações familiares. Direita e esquerda “adotaram” cada uma um Papa, alheias à complexidade de uma Igreja de milhares de anos e aos aspectos sutis da obra.
Numa das cenas mais marcantes do filme, os dois monstros Anthony Hopkins (Bento 16) e Jonathan Pryce (ainda Bergoglio) discutem a diferença entre mudança e concessão. “Eu mudei”, diz o argentino ao Papa, diante de cobranças sobre a revisão que ele fez de dogmas e ritos da Igreja. “Não, você fez concessões”, replica Bento. “Não, eu mudei. É algo diferente.” De fato.
Em mais um episódio de espantosa gravidade, o País foi dormir na quinta-feira e acordou na sexta assombrado por um pesadelo: num vídeo de composição macabra, o então secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, recitava com excitação indisfarçada e olhos vidrados um texto com trechos copiados de Joseph Goebbels, o mais fanático dos ideólogos do nazismo, que foi com Hitler até o final e morreu e matou a mulher e os seis filhos para não fazer nenhuma concessão e não abdicar da ideologia mortífera que ajudou a implementar.
A reação foi avassaladora, mas não unânime. Num sinal de deterioração profunda do tecido social, houve quem defendesse o discurso tresloucado de Alvim pela necessidade de uma cultura que ou será nacional ou “não será nada”, alinhada aos valores cristãos e da família, e lamentasse sua demissão. Outros contemporizaram, celebrando a “rapidez” com que o presidente demitiu Alvim. E é aqui que entra a diferença entre mudança e concessão a que aludi no início do texto.
O presidente de fato se indignou com o que o auxiliar disse? Não, de forma alguma. Menos de 24 horas antes de demiti-lo e poucas antes de ele publicar sua ópera bufa, Bolsonaro o saudou numa das lives semanais – também elas obra da estética autoritária do bolsonarismo, não nos enganemos – como o redentor da cultura nacional. Finalmente, disse o presidente do Brasil, tínhamos um secretário da Cultura digno do posto. E ali Alvim já desfiava sua política cultural sectária, anunciando um prêmio que contemplaria apenas os alinhados com o regime.
Bolsonaro mudou entre os dois atos, o da louvação e o da demissão? Não, fez uma concessão. A contragosto, momentânea. Que não muda o caráter francamente autoritário de seu projeto de poder para a educação, a cultura, a política externa e os costumes, para ficar em poucas áreas.
Na manhã de sexta o presidente ainda relutava em rifar Alvim. Tanto que a primeira nota do Palácio diz que ele já havia se explicado, e o fã de Goebbels se pôs a dar entrevistas em que reiterava o conteúdo da frase copiada. O que levou Bolsonaro a fazer sua concessão foi a evidência de que a comunidade judaica, aliada política importante de seu projeto, não aceitaria uma demonstração tão violenta de antissemitismo vinda de um auxiliar direto do presidente.
Portanto, não haverá mudança. As manifestações racistas, autoritárias e francamente persecutórias a vários setores da sociedade continuarão vindo diariamente do presidente e da ala ideológica do governo.
Mas foi riscada mais uma linha no chão. A sociedade não tolerará mais esses arroubos e nem as tentações de aparelhar e tutelar a vida nacional num projeto que é tudo, menos liberal e democrático. Quantos e quais setores ainda estarão dispostos a fechar os olhos para essa evidência em nome da política econômica é algo que será definidor dos próximos anos.
Mas Bolsonaro foi avisado: pode xingar, ofender, tentar calar a imprensa, que não vai adiantar. Ele não vai mudar. Mas terá de fazer concessões. É democracia que chama.
Poluição do rio Guandu, que recebe 2/3 das águas desviadas do rio Paraíba do Sul, causando o fechamento da sua foz e o avanço do mar em Atafona
Arthur Soffiati, ecohistoriador
A morte em vão do Paraíba do Sul
Por Aristides Soffiati
Se um doador de sangue perde 2/3 numa transfusão em benefício de uma pessoa que não precisa tanto assim, o doador morre em vão, pois o receptor, além de receber mais sangue do que o necessário, é um contumaz consumidor de drogas pesadas que contaminam o organismo. Um provérbio chinês diz: “Um peixe mal preparado deu sua vida em vão”.
Pela barragem de Santa Cecília, o antigamente pujante Paraíba do Sul doa 2/3 do se sangue ao pequenino rio Guandu a fim de abastecer a cidade do Rio de Janeiro com água potável. A grande estação de tratamento de água (ETA) do Guandu aproveita menos da água que é transposta. Ela é também usada pelas indústrias instaladas na bacia do Guandu, além de ser intensamente poluída por esgoto urbano e por rejeitos industriais. O sangue do Paraíba do Sul oferecido aos cariocas está saindo com cheiro, cor e gosto não correspondentes à água potável. A Cedae, que faz o tratamento, contudo, garante que o sangue é bom.
Cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) alertam sobre a grande poluição que sofre a bacia do Guandu por lançamento de esgoto e resíduos industriais. Esses dejetos provocam o acúmulo de matéria orgânica em decomposição, que estimula a produção excessiva de cianobactérias, principalmente. Elas geram geosmina e o 2-metilsoborneol, que conferem odor e sabor à água. Mas ninguém fala de onde vem a água do Guandu.
Foz do rio Paraíba fechada entre o antigo Pontal de Atafona e a antiga ilha da Convivência (Foto: Divulgação)
Mapa registra o que o mar ja levou de Atafona, desde que o desvio do rio Paraíba para o Guandu começou na barragem de Santa Cecília, em 1952
Em resumo, o Paraíba do Sul cede dois terços do seu sangue para que ele seja poluído no Guandu e maltratado pela Cedae. Todos perdem: o Paraíba do Sul quase morre depois da transfusão e a população do Rio de Janeiro recebe água de má qualidade. Mais ainda: a transposição de água do Paraíba do Sul em Santa Cecília fragmentou o rio em dois. Atualmente, o primeiro Paraíba do Sul nasce na Serra da Bocaina, como aprendemos nos livros de geografia, mas desemboca agora na baía de Sepetiba através do rio Guandu. A nascente do segundo coincide com a nascente do Paraibuna de Minas e foz em Atafona. Essas novas informações precisam ser divulgadas. Os dois Paraíba do Sul são ligados por uma vala estreita e poluída entre a barragem de Santa Cecília e a cidade de Três Rios, onde o Paraibuna de Minas e o Piabanha, desembocam no Paraíba do Sul II.
Em 1785, o capitão-cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis informava que a foz do Paraíba do Sul era problemática para a entrada e saída de embarcações. Era preciso esperar a maré alta e os ventos favoráveis para navegá-la. E, nessa remota data, a bacia do Paraíba do Sul era coberta por vastas florestas, não tinha suas margens tão ocupadas por lavouras e pastos, não era densamente urbanizada nem tinha os leitos dos rios barrados para a geração de energia elétrica e para outros fins. Sobretudo, não tinha 2/3 de suas águas transpostos para outro rio.
A bacia hoje sofre muitos problemas. O mais grave deles é, sem dúvida, a transposição de Santa Cecília. Com a perda de vazão, na foz, o equilíbrio já instável entre mar e rio tornou-se mais acentuado. O aproveitamento do antigo rio Água Preta para a abertura do canal do Quitingute desativou os braços auxiliares de Grussaí e Iquipari. O conjunto das obras de drenagem desativou também a lagoa do Açu. Todos integravam o grande delta do Paraíba do Sul. Nas estiagens, o rio desaguava por dois braços: o de Atafona e de o de Gargaú. Nas enchentes, por cinco. Atualmente, apenas pelo de Gargaú. O de Atafona se fechou por insuficiência do rio em mantê-la aberta e por força do mar em fechá-la.
E a água transposta para o Guandu está sendo muito poluída pela urbanização desordenada e pelas indústrias. A estação de tratamento do Guandu carece de reformas e de modernização. A despoluição do Guandu está orçada em R$ 1,4 bilhão. Entende-se que a cidade do Rio de Janeiro não tem fontes de abastecimento para consumo público e não pode mais prescindir do rio Guandu. Por extensão, a cidade não pode mais viver sem o rio Paraíba do Sul. No entanto, o sangue que o Paraíba transfunde para o Guandu está sendo contaminado e não agrada os consumidores de água da cidade do Rio. O sistema deve ser repensado. O uso das águas do Paraíba do Sul deve ser otimizado em todos os lugares onde é usada. A cidade do Rio de Janeiro deve pagar royalties pela água que usa do Paraíba do Sul. O volume transposto deve ser reduzido e otimizado. Entende-se que houve descuido e desprezo com o Paraíba e com todos os rios do Brasil no passado e ainda no presente. Já passou o momento de um grande trabalho conjunto de revitalização.
Segundo a ONU, dois terços dos rios do mundo estão barrados. Eles não correm mais livremente. Não têm mais o mesmo volume. Revitalização não é uma simples proposta de ambientalista, mas uma premente necessidade econômica e social.