Opiniões

Crônica — Crise de Campos, golpe de mestre de Bolsonaro e eleição a prefeito

 

 

— E a eleição a prefeito, finalmente está esquentando? — abriu os trabalhos Castelo, antes molhar a garganta com a cerveja, na primeira visita ao botequim após a flexibilização.

— Está, sim. Mas o principal problema de Campos não é político, é econômico. Desde que fomos elevados à condição de cidade, há 185 anos, talvez seja a nossa pior crise financeira — respondeu Aníbal, antes de também matar a saudade não da cerveja, mas do seu gosto. Que, no boteco, é sempre diferente.

— É verdade. Zero de participação especial de petróleo em agosto. É de dar medo do que vem pela frente.

— Pois é, por terem começado a ser pagos bem antes, os royalties se enraizaram no linguajar do campista. Mas desde que as participações especiais trimestrais vieram em 2000, a cidade sempre arrecadou bem mais com elas. E foi a primeira vez na história que não recebeu nada.

 

(Foto: Petrobras)

 

— E o que esperar disso tudo?

— Só dá para saber três coisas. A primeira, é que será muito ruim. E a segunda, que vai piorar muito antes de melhorar.

— E a terceira?

— A terceira é que o atraso nos pagamentos dos RPAs e dos servidores aposentados e pensionistas é só a ponta do iceberg.

— Vai ser igual ao Titanic?

— Campos não pode simplesmente afundar. Mas está fazendo água para todos os lados. E o discurso dos servidores municipais que são contra o enxugamento, até nos equipamentos, ou o dos empresários que são contra o aumento da carga tributária, terá que se dobrar à realidade.

— Como assim?

 

 

— Servidores e empresários estão legitimados pela luta de classes. Mas o diálogo que a crise financeira vai impor sobre eles, no lugar do “farinha pouca, meu pirão primeiro” de sempre, será aquele da cena dos músicos enquanto o navio afunda no filme de James Cameron: “Foi uma honra ter tocado com vocês”.

— Lançou Di Caprio ao estrelato, em par romântico com Kate Winslet, com quem corneia o personagem babaca do Billy Zane.

— Da realidade goitacá às telas de Hollywood, quem ignorar a primeira deveria rever a cena final de “Butch Cassidy”. Lembra? Os dois já baleados, saindo da casa em que se abrigaram com os revólveres em punho, enquanto lá fora, armado de fuzis, espera todo o exército boliviano. A situação econômica de Campos é mais ou menos aquilo.

— É um filmaço. Inaugura Paul Newman e Robert Redford como “par romântico” do cinema. Que depois seria repetido pelo mesmo diretor George Roy Hill em “Golpe de Mestre”. Aliás, é um título sugestivo. De quem será o golpe de mestre nessa história toda?

— Por enquanto, é de Bolsonaro. Foi eleito presidente como o “Trump do Brasil” e tem, depois do original nos EUA, a pior condução da pandemia da Covid em todo o mundo, com mais de 105 mil mortos. E, ainda assim, agora aparece na Datafolha com 37% de ótimo e bom, maior aprovação popular do seu mandato.

 

(Foto: Smialowski – AFP)

 

— E, ironicamente, foi fruto do auxílio emergencial de R$ 600 para a pandemia, que o governo propôs para R$ 200, o Congresso elevou para R$ 500 e Bolsonaro, só para dizer que teve a palavra final, colocou em R$ 600. Atirou no que viu e acertou no que não viu. Mas gostou, vai manter e mandar às favas a agenda liberal de Paulo Guedes, que usou para se eleger.

— Liberal que acreditou no liberalismo de quem propôs fuzilamento de FHC por conta das privatizações, é burro, mau caráter, ou as duas coisas. Mas a pesquisa foi fruto também da queda na rejeição, que só aconteceu quando Bolsonaro sumiu do cercadinho do Alvorada e calou a boca, com medo de ter que responder a perguntas sobre a prisão de Queiroz. Mas ironia por ironia, quer uma melhor? É ver bolsominion postando a Datafolha nas redes sociais.

— Esse povo não se cansa de passar vergonha! — disse Castelo, gargalhando e se engasgando com a cerveja.

— Quer outra? Sem querer, Bolsonaro herdou o eleitor do Bolsa Família do PT, sobretudo no Nordeste, que não votou nele em 2018. Mas que também nunca foi de esquerda. São tão pragmáticos quanto o Centrão. Ao qual o capitão sempre pertenceu como deputado e agora, como presidente, cooptou para evitar o impeachment no Congresso e isolar Rodrigo Maia.

— É a tal da realpolitik do velho Otto Von Bismarck. Que depois foi traduzida por Jim Carville, estrategista da primeira eleição de Bill Clinton a presidente dos EUA: “É a economia, estúpido”.

 

 

— Verdade. Só que é economia do bolso a curto prazo. Se der ruim a médio e longo, como foi com o PT a partir do segundo governo Lula e o desastre de Dilma, vai boi, corda e tudo.

— Mas o grande John Keynes aprovaria essa política de abrir os gastos públicos em tempo e crise. Que Bolsonaro quer fazer para mergulhar de cabeça no populismo, como Lula.

— O negócio não é nem gastar, mas como e em quê. Mas mesmo que ele tenha sido o grande teórico do gasto público para girar a economia e sair da crise, como Roosevelt fez com o New Deal nos anos 30, para superar o Crash de 29, tenho sérias dúvidas se Keynes aprovaria Bolsonaro.

— De volta ao nosso canavial, e em Campos, de quem será o golpe de mestre?

— Forçado por Rodrigo ao lançar Calil, se Wladimir sair candidato a prefeito e ganhar, seria de Garotinho. E, se vier, o filho tem passagem quase garantida ao segundo turno.

— Mas no segundo turno pode perder para Caio. Ou alguém com rejeição mais baixa. A melhor chance de Wladimir seria contra Rafael. E vice-versa. Além do que, se ganhar, Wladimir pode perder mesmo assim. Deixaria seu bom mandato em Brasília para herdar o abacaxi que os pais plantaram.

— Aí é o que disse George W. Bush, ex-presidente dos EUA e filho de outro, em raro momento de sabedoria: “O futuro é algo que veremos amanhã” — proclamou Aníbal, enquanto tomava outro gole de cerveja, antes de observar a marca da espuma descendo lenta pela lateral interna do copo, até o fundo quase vazio.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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