Semana santa e Covid — Como Cristo na cruz, mas sem domingo de ressurreição

 

“Cristo de São João da Cruz” (1951), óleo sobre tela de Salvador Dalí, Museu e Galeria de Arte de Kelvingrove, em Glasgow, Escócia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Como Cristo na cruz, mas sem domingo de ressurreição

 

Ontem foi a sexta-feira santa. Dia em que a cristandade lembrou da crucificação de Cristo em Jerusalém. Lá, os judeus como ele comemoravam o Pessach (a Páscoa, ou “Passagem” em hebraico), quando quase 1.500 anos antes seu povo saíra do cativeiro no Egito para a Terra Prometida. Ao contrário do que talvez pense a maioria, a morte por crucificação não se dava por hemorragia nos pulsos e pés com que a vítima da pena capital romana era pregada. Todos os crucificados morriam de maneira muito mais sôfrega. Eram lentamente sufocados pelo peso do próprio corpo, que empurrava o diafragma contra os pulmões. É a mesma sensação que tiveram até morrer os mais de 325 mil dizimados pela Covid-19 no Brasil, entre eles 863 campistas, que segundo levantamento em cartório (confira aqui) chegam a 1.057.

Enquanto 49 outros campistas, doentes e lutando pelas próprias vidas, aguardam sem sequer terem direito a um leito de hospital, todos superlotados por pacientes da pandemia, há quem defenda o fim total ou parcial das restrições ao comércio não essencial, assim como à circulação de pessoas. Com as quais circulam o vírus, tornando-o ainda mais mortífero em variantes como o P-1 de Manaus e o P-2 do Rio, já presentes em todas as regiões do Brasil transformado em principal epicentro mundial da doença. Alguns buscam ignorar os fatos pela sobrevivência dos seus negócios e empregos, o que seria legítimo na velha luta de classes, se não fosse contra a preservação da vida humana. Na paródia a quem morreu mergulhado na mesma agonia: quem não tiver perdido um parente, amigo ou conhecido para a Covid, que bata o martelo nos pregos aos pés e pulsos dos que estarão crucificando.

O assunto é sério demais para ser tratado por leigos. Com a mesma pretensão dos 212 milhões de brasileiros que se tornam “especialistas” em futebol de quatro em quatro anos, durante Copas do Mundo. Tampouco pode ser vulgarizado em mais um Fla-Flu apaixonado e acéfalo das redes sociais. Quem deve falar são os especialistas, mulheres e homens da ciência, ao qual o momento de fé deve ser dirigido. Tanto pela razão quanto pela compaixão ao semelhante, que um rabi da Galileia ensinou a amar como a nós mesmos, maior virtude do cristianismo. Foi àqueles que afunilaram anos de estudo e prática no combate à maior pandemia que a humanidade enfrenta nos últimos 100 anos, que a Folha recorreu para tentar alcançar a real dimensão daquilo que todos enfrentamos.

O programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, ouviu na terça, dia 30 (confira aqui), os médicos Patrícia Meirelles e Vitor Carneiro, ela pneumologista e ele intensivista, no mesmo dia em que ambos completavam um ano de dedicação para salvar vidas no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos. Na quarta, dia 31 (confira aqui), o convidado foi o biólogo Renato DaMatta, cientista e professor da Uenf, mais importante universidade do município e da região. Já na quinta, dia 1º (confira aqui), foi a vez da médica infectologista Andreya Moreira, que comandou o combate à pandemia em Campos em 2020, como chefe da Vigilância em Saúde do governo Rafael Diniz (Cidadania). E quem ainda alguma dúvida tiver sobre com o que todos estamos lidando, que se vacine em seus testemunhos:

Patrícia Meireles, médica pneumologista

— A gente pede consciência à população. A gente poderia estar completando o ano no CCC em comemoração, mas infelizmente, neste dia, a gente abre o nosso serviço em superlotação. Pela primeira vez, a gente está além dos 100% da ocupação, temos pacientes em todos os lugares possíveis, à espera de uma vaga regular. Este é o nosso cenário atual. O início da vacinação e o fato de essa ser uma população que realmente respeita o isolamento, fez com que os idosos tenham hoje se tornado a exceção entre os internados em leitos clínicos e de UTI do CCC. Então essas são provas da eficiência da vacinação, do distanciamento. E isso trouxe essa faixa etária para baixo — alertou a pneumologista Patrícia.

Vitor Carneiro, médico intensivista

— Está difícil, a gente tem que usar várias alternativas às medicações usuais, não só para entubar o paciente, mas para manter ele entubado, manter ele sedado no respirador. Isso dificulta o manejo do paciente, prejudica o tratamento. Mas isso é uma falta nacional, não só no CCC; os hospitais particulares também estão sofrendo isso. A gente está sempre usando alternativas para manter esse paciente sedado, em ventilação mecânica. É uma situação dificílima para a gente. A gente pede cotação dessas medicações e não tem nem retorno, as empresas não têm como fornecer. A gente vai usando outras drogas, associando e tentando suprir essa necessidade — desabafou o intensivista Vitor.

Renato DaMatta, biólogo da Uenf

— As variantes são extremamente preocupantes e a vacinação lenta atrapalha o processo. Por isso o Brasil é hoje o epicentro da doença no mundo. Porque aqui é onde tem mais gente morrendo e mais gente com o vírus. Quando você tem muito vírus em muita gente, a probabilidade de novas variantes aumenta. Foi isso que aconteceu com o P-1, por exemplo. Ele apareceu em Manaus e tem uma grande capacidade de infecção. Quanto mais rápido você vacina, menos variantes você vai ter. Se você demora, o vírus vai infectar as pessoas durante um longo período. A chance de surgirem novas variantes é enorme. Inclusive, a variante pode ficar tão diferente que você tem que fazer uma nova vacina. A notícia boa é que, até agora, as vacinas estão funcionando contra as novas variantes — explicou o cientista Renato.

Andreya Moreira, médica infectologista

— Com muita tristeza, a gente está vendo esse momento. Colapsou não foi só em Campos, estamos vendo isso no Brasil inteiro. Já era previsto. Lá em dezembro, a gente sabia que as festas de fim de ano iriam ser bastante importantes no número de pacientes que seriam infectados, entre os que precisariam de tratamento intensivo (UTI) e clínico. Mas as pessoas ignoraram isso literalmente. E estamos pagando o preço; um preço alto nas vidas ceifadas. E, apesar disso, as pessoas mantêm a não restrição. Isso é um assassinato! O que vai ser mais preciso para essas pessoas usarem a máscara, fazerem o distanciamento social e evitarem aglomeração? Quantas vidas a mais? — indagou a infectologista Andreya.

Com base em estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Andreya também lembrou que a projeção, mesmo com a rede de saúde pública, contratualizada e privada de Campos já colapsadas, é de que os casos continuem aumentando no país e na cidade até a primeira quinzena de abril. Nesta segunda (05) o gabinete de crise do governo Wladimir Garotinho (PSD), que tem tido a coragem de se pautar pela ciência para salvar a vida dos seus governados, decide se mantém o município na Fase Vermelha.

Com a lentidão das vacinas no Brasil do Messias, se o isolamento não for mantido e respeitado, como o uso correto das máscaras e higienização das mãos, tudo indica que o próximo sistema de Campos a colapsar será o funerário. Certamente alguém que você e eu conhecemos, talvez bem próximo, talvez nós mesmos, estejamos em uma das duas filas por vaga. Ou de leito em hospital, ou de caixão e jazigo. Nestes, após sofrer como Cristo na cruz. Mas sem a chance de despedir da família ao pé do calvário. Nem domingo de ressurreição.

 

Publicado hoje (03) na Folha da Manhã

 

Este post tem um comentário

  1. Cesar Peixoto

    Na minha opinião, o que fez aumentar o numero de pessoas infectadas com covid, foi a eleição do ano passado.

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