“Nossa guerra não é só contra um vírus” — Vereadores de Campos x ciência

 

“É preciso ficar claro que a nossa guerra não é só contra um vírus, mas principalmente contra pessoas que se negam a ver o essencial através da ciência. Nossa luta, além da doença, deve ser contra gestores irresponsáveis frente a uma situação grave e preocupante”. O alerta do médico Nélio Artiles, professor da Faculdade de Medicina de Campos (FMC) e com 34 anos de experiência só em infectologia, talvez seja o melhor resumo das análises sobre as declarações de alguns vereadores campistas sobre a pandemia da Covid-19. E as formas de combatê-la no município, onde até quinta (29) já tinha tirado 1.116 vidas humanas. Isto, no mesmo dia em que o Brasil ultrapassava a casa dos 400 mil mortos pela doença. Com 2,7% da população global, o país deveria ter cerca de 86 mil óbitos, se seguisse as recomendações da ciência e a média de perdas do mundo. Pelo que fizemos e continuamos a fazer diferente do resto da Terra, 315 mil brasileiros morreram desnecessariamente. Tragédia sem precedentes e que se agrava pelo ritmo lento da vacinação — Campos e diversos outros municípios do território nacional suspenderam a aplicação da Coronavac desde terça (27), por falta do imunizante.

Sobre como lidamos com a pandemia, os edis Beto Abençoado (SD), Anderson de Matos (Republicanos), Raphael Thuin (PTB), Leon Gomes (PDT), Helinho Nahim (PTC), Rogério Matoso (DEM) e Nildo Cardoso (PSL) se posicionaram publicamente. Os seis primeiros, na tribuna da Câmara Municipal, quando nela celebraram a reabertura do comércio não essencial de Campos, enquanto o sétimo se posicionou sobre a Covid e o governo Jair Bolsonaro (sem partido) em matéria recente da Folha. As declarações de cada um foram analisadas por especialistas das ciências. Em ordem alfabética: o biólogo Carlos Bacelar, com 49 anos de Plínio Bacelar, maior laboratório de exames do interior do estado do Rio; o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos; o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF; o economista José Alves de Azevedo Neto, professor da Universo; e o biólogo Leandro Monteiro, professor da Uenf; além do médico infectologista Nélio Artiles. A reabertura do comércio goitacá contou com apoio de José, foi questionada por George, João e Leandro, sendo condicionada por Carlos e Nélio.

 

Vereadores Beto Abençoado, Aderson de Matos, Raphael Thuin, Leon Gomes, Helinho Nahim, Rogério Matoso e Nildo Cardoso (Montagem: Joseli Mathias)

 

Beto Abençoado – “Temos que socorrer os comerciantes nesse momento de dificuldade. As mortes por Covid são metade do que é falado no Brasil. E as outras doenças? Ninguém morre de outras doenças. Um parente meu morreu outro dia, ele tinha histórico de outros problemas, e colocaram como suspeita de Covid. Isso é algo que esses esquerdopatas querem fazer para derrubar nosso presidente”.

Carlos Bacelar – Segundo o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), a queda do número de mortes em 2020 pelo histórico não Covid foi ligeiramente menor que nos outros anos. Então se sabe que pode ter havido notificação errada de morte por Covid, mas não altera o resultado total de óbitos.

George Gomes Coutinho – A primeira frase aponta à necessidade de termos políticas de crédito subsidiado para um grupo econômico específico. A demanda é legítima, necessária e quase um palavrão sem os rearranjos tributários necessários. Sobre o restante pode-se entrar em jogos discursivos de baixa qualidade, como dizer que o HIV jamais matou ninguém no mundo; morre-se de doenças oportunistas. Opera no maniqueísmo ao imputar aos “esquerdopatas” o alerta sobre a pandemia, ignorando que diferentes setores do lado direito do espectro político concordam com as análises que indicam que o Covid é mortal.

João Monteiro Pessôa – Aqui temos um exemplo descarado de negacionismo misturado com a politização da pandemia. Não tem nenhuma base factual a insinuação de que as mortes por Covid estão sendo superdimensionadas, até porque isso implica em médicos estarem assinando atestados de óbito falsos por motivações políticas! A pergunta que fica é: à esta altura do campeonato, nós vamos achincalhar os médicos? Me lembra a velha prática dos déspotas da Pérsia, que matavam os mensageiros que traziam más notícias!

José Alves de Azevedo Neto – É uma declaração inapropriada para o momento. De pessoas que querem politizar numa hora em que deveríamos estar unidos no combate à Covid-19, visando prioritariamente mitigar o crescente número de óbitos e o sofrimento das famílias enlutadas. Concordo apenas com a primeira parte da colocação, onde ele ressalta que os comerciantes devem ser socorridos, e eu acrescento, sobretudo, os micro e pequenos empresários que estão sofrendo mais na atual conjuntura, por falta de crédito barato no mercado financeiro para se financiarem e salvarem os seus negócios.

Leandro Monteiro – Mostra a preocupação com o destino dos comerciantes que precisam ser socorridos neste momento. No entanto, percebe-se que a intenção do declarante não é criticar a falta de ação, que caberia ao governo federal, mas sim promover um argumento falso sobre a Covid-19. Há o negacionismo em aceitar o volume de mortes e a gravidade da doença. Certo é que o número de mortes deve ser maior, por conta da subnotificação. Na sequência, cita um exemplo pessoal, que por mais doloroso que seja, não tem relevância sobre o número de pessoas que morreram em decorrência dos erros do governo federal na pandemia. Por último, ele identifica a motivação do seu negacionismo: proteger o presidente.

Nélio Artiles – É uma afirmação contaminada pelo negacionismo com bases em influências políticas. Concordo com a necessidade de assistência aos comerciantes, mas discordo em relação à questão do número de mortes. Há a possibilidade de majoração do número de óbitos por Covid, contabilizando alguns casos que tinham outra doença de base. Porém, a quem está na linha de frente e conhece análise epidemiológica, a situação infelizmente é muito grave.

 

Anderson de Matos – “Queria falar do artigo científico que diz que o lockdown não diminui o número de mortes por Covid-19. O artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, teve repercussão internacional ao afirmar que o lockdown não diminui o número de mortes por Covid-19 em diversos países do mundo. Antes, o cientista Michael Levitt, da Universidade de Stanford, vencedor de um Nobel de Química em 2013, também falou contra o lockdown. E há também quem deixou de ser tratado por outras doenças. Existe uma série de estudos científicos de pessoas renomadas na ciência que comprovam que é um tipo de medida que desencadeia uma série de outros problemas, sem contar a questão econômica”.

Carlos – Segundo também a Nature (revista científica britânica), em trabalho publicado por Wu-Yi-Hsiang (matemático chinês da universidade de Berkeley), “as medidas de redução do contágio em 1,7 mil localidades da Ásia, Europa e EUA sugerem que 140 milhões de infecções haviam sido evitadas ou adiadas graças às restrições”. Evidente que lockdown diminui o contágio, a ciência vem mostrando isso com evidências indiscutíveis. O exemplo de Portugal é claro: dois meses de lockdown pleno, com vacinação em massa, testagem em massa, ajuda econômica em todos os níveis. O resultado? A média de 300 mortes dia em março passou a zero de mortes esta semana. Valeu o sacrifício? Se Bolsonaro fosse presidente do mundo, faria intervenção em Portugal, porque o governo local tinha decretado “estado de sítio”.

George – Argumento curioso. Faz apropriação seletiva do argumento de autoridade, o Nobel em química, mas ignora que outros tantos laureados com o Nobel e demais cientistas apresentam justamente o oposto! Há a “nossa autoridade”, a que se adequa e nos é conveniente, e há a dos outros. Para estes outros talvez caibam termos como “globalista”, “esquerdopata” e afins. Só pode ser argumento de alguém sem treinamento científico em qualquer campo. E, se tem treinamento, é desonestidade intelectual pura e simples. Ignora que, salvo as mortes e sequelas dos pacientes, os danos provocados pela pandemia são reversíveis e a recuperação mais ágil se as medidas reconhecidas forem seguidas: isolamento social, assepsia quando ocorrer a exposição no espaço público, testes e vacinação em massa.

João – Espero que esse comentário tenha sido feito no início da pandemia em 2020, pois desde então essa retórica contra o lockdown caiu em descrédito no mundo inteiro. Basta observar que os países que adotaram medidas restritivas mais rigorosas e organizadas estão voltando à normalidade primeiro. O lockdown não é desejo de ninguém e causa problemas, mas é a única solução temporária até a vacinação em massa. Criticar o lockdown nesses termos é equivalente a criticar um tratamento de quimioterapia por fazer o paciente sentir náusea e perder cabelos. Os efeitos colaterais existem e devem ser minorados como possível, mas a alternativa a esse tratamento é a morte.

José – Respeito muito a ciência e não vou entrar no mérito para discutir a publicação dos cientistas na revista. Todavia, acho, sim, que deve ter uma saída equilibrada para conciliar os aspectos relativos à saúde e à economia. E, em algumas situações, até mesmo fazer o lockdown de forma organizada. O grande problema do combate à pandemia no Brasil está relacionado à falta de uma coordenação nacional do governo federal, que subestimou a crise sanitária através das declarações infelizes do presidente da República, que inclusive, afirmou com todas as letras em março de 2020 que morreriam somente duas mil pessoas e na quinta (29) ultrapassamos a marca dos 400 mil brasileiros mortos.

Leandro – No site da Scientific Reports, o artigo aparece com uma nota dizendo que está sujeito a muitas críticas, que estão sendo consideradas pelos editores. A declaração também menciona Michael Levitt, químico ganhador do Nobel, não especialista em epidemiologia. Esta alusão a um pesquisador renomado é a chamada falácia do apelo à autoridade irrelevante. O fato de um pesquisador ser renomado em uma área não quer dizer que seja competente para ter uma opinião sobre qualquer assunto. As previsões de Levitt em março de 2020 se mostraram completamente equivocadas. Infelizmente, o estrago feito quando estes erros são apropriados por negacionistas é grande. A discussão posterior que esclarece o problema não importa aos negacionistas. Importa apenas a perspectiva da confusão para dar a impressão de que existem argumentos “científicos” dos dois lados da discussão.

Nélio – É uma afirmativa que não tem um embasamento científico adequado, pois é um relato observacional sem levar em conta avaliações comparativas, randomizadas e multicêntricas. O distanciamento social extremado pelo lockdown, apesar de ser danoso em vários aspectos, é a única forma comprovada de redução da circulação do vírus em meio a uma epidemia. Não tivemos lockdown aqui em Campos e no país. Estamos no momento observando o reflexo de uma redução de atividades no comércio e no lazer, propostas pelos municípios e estados, com uma tendência a redução do número de casos e melhora do quadro epidemiológico.

 

Raphael Thuin – “Sou um defensor declarado do comércio, do desenvolvimento econômico, da reabertura… Também sou contra o lockdown. Não posso deixar de agradecer a sensibilidade do prefeito, de todo o setor do combate à Covid, por causa da flexibilização do comércio, das academias, da qual todos nós votamos como atividade essencial. Espero que não feche mais daqui para frente. A gente sabe da importância da atividade esportiva e da importância do comércio. A CDL, Acic, Carjopa, todas as instituições estavam implorando para volta, claro, seguindo todos os protocolos de segurança. E, lógico, criticando as pessoas irresponsáveis que não estão se cuidando, que estão indo pra rua e fazendo festas clandestinas. Mas eu vim aqui falar de um setor específico, que continua sofrendo muito. A Liga Gastronômica de Campos fez uma carta ao prefeito pedindo a reabertura dos restaurantes, bares e lojas de conveniência. Venho pedir ao poder público que olhe com atenção aos restaurantes e aos bares, lógico, aqueles que seguem os protocolos. Vamos penalizar quem realmente está fazendo a propagação desses vírus, que a gente sabe que não é o comércio, restaurantes e academias, são as festas”.

Carlos – Durante a primeira onda, o governo (federal) tomou medidas econômicas necessárias ao cumprimento do lockdown: empréstimos bancários a juros baixos e com carência, renegociação de dívidas, reorganização salarial para as empresas, mais o gigantesco auxílio financeiro aos menos favorecidos. Essas medidas deveriam fazer parte da cobertura na segunda onda e não houve. Fora as demonstrações desastrosas do presidente com seu negacionismo desagregador e a catastrófica ação do ministério da Saúde.

George – O argumento ignora que qualquer ambiente de convivência coletiva, como restaurantes, bares, templos religiosos, não pode impedir a entrada de possíveis infectados e tampouco reconhece a incapacidade de fiscalização 24 horas por dia de todos os frequentadores e funcionários. “Sou um defensor do comércio”, enquanto epidemiologistas treinados seriam, por óbvio, contra o comércio e a sociedade de mercado. Opera com a rusticidade do argumento do maniqueísta. O problema é sempre os outros, no caso, os que fazem as festas. Desconhece a própria população com que lida cotidianamente.

João – Primeiramente: quem é contra o comércio e o desenvolvimento econômico? Defender medidas restritivas não é igual a ser inimigo da livre iniciativa ou opositor do desenvolvimento. Segundo, eu teria vergonha de ouvir esse elogio se estivesse no lugar do prefeito, pois sua “sensibilidade” poderia ser confundida com leniência e hesitação diante de uma decisão óbvia, porém impopular. Por fim, vem o truque de defender a reabertura de bares e restaurantes, enquanto se lança a culpa em festas clandestinas, como se estas fossem sozinhas responsáveis pela escalada da pandemia em 2021. Fica um tanto evidente que a declaração foi feita por alguém com interesse específico na reabertura do setor.

José – É uma declaração relevante e de uma voz que, tudo indica, está preocupada com um dos segmentos que mais geram empregos na economia local. Eu também acho que o comércio e o setor gastronômico da nossa cidade estavam seguindo os protocolos predeterminados pela Vigilância Sanitária. No início da pandemia, eram a rede bancária e as casas lotéricas que estavam aglomerando sem seguir as normas. E não verificamos o mesmo rigor em relação a essas atividades. Restringir só o comércio e os restaurantes é injusto. Temos que flexibilizar.

Leandro – Vemos o falso dilema de que as medidas sanitárias impedem a recuperação econômica, quando na realidade é exatamente o contrário. Um estudo publicado na revista Science em fevereiro mostrou que as medidas de restrição mais eficientes na redução da transmissão do vírus são as limitações a eventos com aglomeração, fechamento de escolas, universidades e negócios não essenciais com grande contato, como bares e restaurantes. Um livro foi publicado no último dia 22 por professores da Universidade de Michigan e Fundação Getúlio Vargas: Coronavirus politics: the comparative politics and policy of Covid-19. E mostrou como os países exitosos na contenção da pandemia chegaram lá: iniciativas de proteção social, linhas de crédito a empresas, redução de impostos aos vulneráveis. A restrição feita de maneira correta, amparada por medidas de auxílio do governo federal, teria nos colocado em situação muito mais favorável, como aconteceu nos países que tinham líderes responsáveis.

Nélio – É uma afirmação coerente dentro do contexto que vivemos, desde que haja fiscalização ao cumprimento das recomendações e uma melhora no cenário epidemiológico. A questão não é ser contra ou a favor do lockdown, mas agir de acordo com o cenário de uma epidemia, considerando a baixa imunização de nossa população.

 

Carlos Bacellar, George Gomes Coutinho, João Monteiro Pessôa, José Alves de Azevedo Neto, Leandro Monteiro e Nélio Artiles (Montagem: Joseli Mathias)

 

Leon Gomes – “A todo momento vemos gente gritando que é preciso intervenção militar. Talvez, sim. Estamos em uma guerra contra esse vírus e eu sou a favor que se tenha intervenção militar, sim, se for preciso, para entrar nessas festas clandestinas. Se queremos, de fato, combater o vírus, não será possível parar a cidade com um novo lockdown, parar o comércio, os restaurantes e tantos outros que não estão levando o vírus para dentro de casa. Se queremos combater o vírus, de fato, temos que ir no foco. Peço encarecidamente às autoridades, sejam militares, polícia ou Guarda Municipal… O efetivo é pequeno para atender tanta demanda. Se os poderes municipal e estadual não têm efetivo suficiente, precisamos recorrer ao federal. Não podemos aceitar que esses atos de terrorismo se repitam. Pessoas sem nenhum compromisso com a vida humana que se reúnem em uma festa clandestina fazendo com que esse vírus se propague”.

Carlos – Quem prega intervenção militar é o presidente e seu séquito. Não existe o menor motivo para isso. Delírio, vontade ditatorial de permanecer ad aeternum no poder.

George – O argumento do “choque de ordem” se apresenta no Brasil como solução desde o século XIX. Um delírio. Porém, embora considere que o argumento diz mais sobre quem o anuncia do que sobre qualquer tipo de solução, o que se nota nestes indivíduos e grupos é a ausência de imaginação política para que essa solução seja de fato inclusiva, reduza danos econômicos, sociais e afins, sem expor amplas camadas da população ao vírus. Protege com zelo maternal o topo da pirâmide subtaxado sob qualquer parâmetro que utilizemos, inclusive o da OCDE. Se essas pessoas fossem policy makers (“decisores políticos”) em outros países, nem na Nova Zelândia conseguiriam qualquer tipo de sucesso no enfrentamento à pandemia.

João – Essa me lembrou a famosa frase do marechal Castelo Branco (primeiro presidente da ditadura militar brasileira instalada com o golpe de 1964), criticando políticos que se comportavam como “vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com granadeiros e estimular as extravagâncias do poder militar”.  Então aqui temos a repetição do truque anterior, defender a abertura de bares e restaurantes criticando exclusivamente as festas clandestinas, com um elemento adicional: o fetiche pela intervenção militar! Chega a ser irônico como esses defensores da intervenção militar não se dão conta de como sua retórica é aviltante para as próprias Forças Armadas, reduzidas nessa perspectiva a fiscais de festa!

José – Discordo totalmente das pessoas que na atual conjuntura defendem a intervenção militar como uma possibilidade de resolver os problemas de ordem política, social e sanitária do país. No período em que os militares estiveram no poder, deixaram muito a desejar. Como, por exemplo, o triste legado da maior dívida externa do Brasil com o FMI e a hiperinflação. Essas duas anomalias afligiam a sociedade brasileira e foram resolvidas pelos governos civis. Basta apenas recorrer aos registros históricos para maiores esclarecimentos.

Leandro – Esta declaração também culpa as festas clandestinas pela disseminação do vírus e isenta o comércio. Vai além de modo ainda mais confuso, misturando intervenção militar com o que deveria ser a atividade normal de garantia da lei por autoridades com poder de polícia. Me parece que pode haver também um componente social nas declarações que procuram culpar apenas festas clandestinas. Será que quando o declarante pensa em festa clandestina com aglomeração, sua motivação é para que o Exército invada as festas que estão acontecendo nos condomínios de luxo ou apenas nas comunidades?

Nélio – Não é através da força física ou da pressão emocional e política que esta situação se resolverá. Intervenção militar é perigosa e ineficaz para uma ação de saúde pública. É preciso ficar claro que a nossa guerra não é só contra um vírus, mas principalmente contra pessoas que se negam a ver o essencial através da ciência. Nossa luta, além da doença, deve ser contra gestores irresponsáveis frente a uma situação grave e preocupante.

 

Helinho Nahim – “Nós recebemos milhares de pessoas e queremos dar nossa opinião. Se o prefeito vai voltar com bar e restaurante, se vai aumentar ou diminuir o lockdown, é uma decisão dele e cabe a nós apoiarmos, independente do que acontecer porque é uma decisão dele. Se vou concordar ou não é outra coisa. Nós somos cobrados pelas pessoas, pelos donos de comércio. Eu sou um deles e vários outros vereadores também são comerciantes e são cobrados. Já é público e notório que a maioria dessa Casa não é a favor da manutenção do lockdown e que haja uma flexibilização maior do comércio”.

Carlos – Correto! Cabe ao governante tomar as medidas de acordo com o comitê de crise e aos donos de bares e restaurantes terem bom senso em sua execução, com todas as normas sendo rigorosamente obedecidas e com fiscalização eficaz.

George – Indica falta de conhecimento sobre o que é o funcionamento de sociedades complexas e a natureza da democracia representativa liberal. O promotor Marcelo Lessa, em recente crônica sobre (o filósofo alemão Jürgen) Habermas na Folha, indicava este problema: a discussão pública só tem sentido onde os melhores argumentos, na disputa racional do mercado de ideias, se apresentam. A mera discordância dada a partir de interesses privados, corporativos, sempre deveria ser insuficiente. Não caberia ser calada, evidentemente. Interesses privados não necessariamente coincidem com bem-estar coletivo, o que é o caso.

João – Discordo totalmente! O cargo de prefeito não torna ninguém o líder supremo que devemos apoiar incondicionalmente. As decisões do prefeito, e de qualquer outro ocupante de cargos eletivos, não são a verdade escrita na pedra, podem ser criticadas e contestadas. Pior, parece que o entusiástico apoio ao prefeito não é tão incondicional assim, mas fruto do interesse e motivado pela “sensibilidade” do alcaide ao lobby de bares e restaurantes.

José – Acho que está faltando por parte das nossas autoridades mais diálogo com a sociedade civil organizada. Ouvir os diversos segmentos e não somente a área da saúde, a despeito dela ter um peso maior por tratar-se de saúde pública. Agora, fechar a economia a todo o momento tem um preço alto. E já estamos sentindo ele através do crescente desemprego no município e a desorganização de diversos segmentos produtivos. E quem está pagando a conta são os micro e pequenos empresários. Inclusive foi publicada pelo ministério da Economia no caderno de economia do jornal O Globo, no último dia 12, uma estatística: mais de um milhão de empresas faliram ou fecharam as portas em 2020. No momento em que o país for retomar o crescimento econômico não haverá os CNPJs para alavancar o sistema econômico.

Leandro – Pelas frases, é um interlocutor da Prefeitura com interesse direto na reabertura do comércio por também ser comerciante. Essas pessoas têm uma preocupação legítima com seu sustento. Seria muito importante que reconhecessem o real motivo de estarem nesta situação: a falta de ação do governo federal com a implementação das medidas de proteção social em conjunto com as sanitárias para que pudéssemos retornar às atividades o mais rápido possível. As medidas tomadas deliberadamente pelo governo federal para maximizar a disseminação do vírus e tentar chegar a uma imunidade coletiva nos colocaram nesta situação precária.

Nélio – É uma afirmação coerente dentro do contexto que vivemos, desde que haja fiscalização ao cumprimento das recomendações e uma melhora no cenário epidemiológico. A questão não é ser contra ou a favor do lockdown, mas agir de acordo com o cenário de uma epidemia, considerando a baixa imunização de nossa população.

 

Rogério Matoso – “Esse é o assunto que todos nós temos que estar concentrados, justamente porque perdemos, nesse período de mais de um ano, vários comércios, muitos empregos. São pessoas passando fome na nossa cidade, assim como no Brasil inteiro. Teremos uma reunião do comitê da Covid, no qual, muitas vezes, fico lá por quatro horas ouvindo todo mundo, os representantes do Ministério Público dizendo que não pode, a ciência dizendo outras coisas. Nesse período, estamos vendo a ciência se contradizer. Inclusive, dizendo que a vacina não vai garantir que as pessoas não se contaminem. Temos que equilibrar esse debate. Temos que fazer reverberar as insatisfações das ruas”.

Carlos – Desde a crise econômica desencadeada pelo governo lulopetista de Dilma, o comércio vem sofrendo com o fechamento de inúmeras lojas no país. Em Campos não é diferente. A pandemia só veio a piorar muito essa situação. Não é abrindo o comércio que tudo vai melhorar se o povo não tem dinheiro para consumir. Medidas econômicas e ajuda financeira terão que reverter esse quadro.

George – A ciência não obedece aos mesmos princípios valorativos e normativos de uma religião fundamentalista, com verdades irrefutáveis. A vacina não produziria, como é o caso em outras doenças, a imunidade total. A vacina da gripe não produz e nem por isso deixa de ser recomendável. Causa espécie a popularidade do argumento que coloca as medidas de contenção do vírus como contrárias a uma economia saudável. É essa resistência a aderir aos princípios das políticas públicas de saúde em todo globo que produzirá uma maior lentidão ao Brasil reentrar plenamente no circuito global de circulação de bens, mercadorias e serviços.

João – Essa lembrou a declaração da ministra (da Mulher, Família e Direitos Humanos) Damares: “deixamos a ciência muito tempo nas mãos dos cientistas”. Então descobrimos que é incômodo ficar ouvindo cientistas e membros do MP se posicionarem para pessoas que acham que podem tomar decisões sozinhas, sobre coisas que não entendem. Só cabe esclarecer que a ciência não está se contradizendo, está dando uma resposta relativamente rápida para a pandemia e apontando as saídas para quem quiser ver. Menos para quem já despreza os cientistas de saída, se eles não disserem exatamente o que se quer ouvir.

José – Realmente, concordo que a consequência tem sido nefasta tanto do ponto de vista econômico, com o fechamento e a falência de várias empresas, como mencionei na análise anterior. Que também afeta do ponto de vista social, com o crescente desemprego e a fome retornando. Apenas para ilustrar e lembrar, o Brasil há 10 anos havia saído do mapa da fome da ONU. E atualmente voltou com muita força, por conta da pandemia e também por conta de uma política macroeconômica desastrosa do governo federal, que privilegia somente a concentração econômica e a formação de riquezas para uma minoria da nossa sociedade.

Leandro – A declaração tem elementos clássicos do negacionismo, beirando a anticiência. Temos de um lado pesquisadores dizendo que medidas sanitárias associadas a medidas de proteção social seriam o caminho mais apropriado. Do outro lado, pessoas sem conhecimento sobre o assunto sendo guiadas por um líder com ainda menos conhecimento; e intenções a serem investigadas pela CPI da Covid. Os pesquisadores não estão se contradizendo. Quem tenta contradizer a ciência são os negacionistas, que tentam disseminar incerteza e confusão. Nenhuma vacina é 100% eficaz, mas quando aplicada em uma porcentagem alta da população, tem o efeito de conter a disseminação. É importante sim, que as ruas mostrem insatisfação, mas não pelas mentiras diariamente divulgadas nos grupos de WhatsApp.

Nélio – É uma afirmação de quem não conhece ciência e muito menos vacinas. Nunca existiu vacina que tivesse 100% de eficácia e sim uma redução importante da expressão clínica de uma doença, evitando evoluções piores. Exemplo importante é a vacinação contra a gripe, que reduz bastante a mortalidade e as internações de idosos e crianças, mas não impede a infecção. Todas as ações de saúde pública devem se basear na ciência.

 

Nildo Cardoso – “Com a aproximação do processo eleitoral, é normal que cada grupo exponha suas opiniões e interprete as situações de cada maneira. Sou fiel aos meus princípios, ao meu voto, e votaria novamente em Bolsonaro. Existem questionamentos a serem feitos e que serão revelados mais à frente sobre a Covid. Não se morre mais de câncer, acidente de trânsito, de diabetes, infarto? Tudo agora é Covid. Mas vamos confiar na Polícia Federal, que irá fazer seu trabalho”.

Carlos – A resposta foi dada por Fabio Wanjngarten (ex-chefe da secretaria especial de Comunicação do governo Bolsonaro) à revista Veja, que lhe perguntou: “A pandemia pode fragilizar o projeto de reeleição do presidente?”. Ele respondeu: “Você tem duas questões fundamentais para responder a essa dúvida. Primeiro, o enlutado esquece a morte de seu ente querido? Dois: a família do enlutado credita ao governo Bolsonaro a morte de seu ente querido? Se a segunda resposta for não, o presidente segue firme rumo à reeleição”.

George – O argumento ignora um dado importante. A elevação do quantitativo de mortes ano passado em um contexto de pandemia seguiria sem explicação por essa vertente. Trata-se de um exemplar típico de negacionismo atrelado a um elemento conspiracionista paranoico. Todas as autoridades em todo o planeta estariam ocultando algo? A imprensa mundial profissional, idem? Apresentar dados que indicam uma gestão irresponsável da pandemia só pode ter por objetivo ganhos eleitorais em 2022? As perdas humanas, claro, não importam.

João – Quem primeiro politizou e mais politiza o tema é o próprio governo federal e seus torcedores. Seria útil que as pessoas, tanto eleitores como ocupantes de cargos públicos, deixassem de abordar as questões políticas como tratam o seu “time do coração”. O papel de um cidadão não é torcer e apoiar incondicionalmente qualquer governo que seja. Só a paixão ideológica é capaz de explicar como as pessoas podem perder o senso crítico e a noção da realidade dessa maneira. Por fim, a própria Polícia Federal virou alvo da autofagia bolsonarista. Então caberia um apelo do torcedor para que o próprio governo deixe a PF trabalhar.

José – Estamos numa democracia e cada um vota em quem quiser. Isso é muito bom. Mas as estatísticas sobre as outras mortes sem ser pela Covid estão sendo catalogadas, sim. E discordo totalmente do governo Bolsonaro, porque o Brasil nesses dois últimos anos regrediu em várias áreas: educação, saúde, meio ambiente, direitos humanos, cultura, economia. Hoje somos pária internacional. O Brasil só anda no agronegócio, porque é um segmento econômico que caminha independente de qualquer governo. Outro setor do governo federal que está timidamente apresentando alguma coisa é o da infraestrutura com pequenas obras.

Leandro – Há questionamentos a serem feitos. Não sobre a incerteza da mortalidade da Covid-19, mas sobre dolo nas ações do governo federal e do próprio Bolsonaro, que levaram à disseminação do vírus e um excesso de mortalidade absurdo no nosso país. Esperamos que a CPI da Covid esclareça se as ações do presidente envolveram intenção ou foram apenas resultado de sua incompetência. A intransigência em rejeitar a ideia de que a pandemia seja um problema sério e que seu líder seja responsável pelo fracasso do país em lidar com ela é um caso de raciocínio motivado. Enquanto ignora a realidade da mortalidade na pandemia, insere um elemento de conspiração contra seu líder. Provavelmente, é apenas uma narrativa que circula no WhatsApp para alimentar o raciocínio motivado dos grupos bolsonaristas.

Nélio – É uma afirmativa de quem não tem conhecimentos epidemiológicos. As doenças continuam acontecendo sim e matando muito no Brasil, inclusive com um grande complicador, que é o colapso em nosso sistema de saúde, que já vinha muito doente, sucateado e cheio de problemas. Apesar de termos o SUS como um elemento positivo no atendimento universal das pessoas, com extremas dificuldades, expostas agora com a demanda excessiva, a condução da pandemia no país foi caótica, sem uma liderança positiva e sem um ministério da Saúde que pudesse traçar normas e diretrizes nesse enfrentamento. Faltou gestão e responsabilidade. Inclusive devemos esperar uma outra onda de doenças reprimidas que ficaram sem acompanhamento adequado, como câncer e as diversas doenças cardiovasculares.

 

Página 2 da edição de hoje (01) da Folha da Manhã

 

Página 3 da edição de hoje (01) da Folha da Manhã

 

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