Soffiati e seus 10 livros em campo às 17h de hoje, na ACL

 

Você está em Campos hoje, 30 de abril de 2022? Tem programa para o final da tarde? Se as respectivas respostas forem “sim” e “não”, aqui vai uma bola rolada: Arthur Aristides Soffiati Netto, maior intelectual de Campos entre os vivos, fará às 17h de hoje um super-lançamento de 10 livros seus, de variados temas, publicados desde antes da pandemia da Covid-19. O campo não poderia ser mais apropriado: a Academia Campista de Letras (ACL), no coração do Jardim São Benedito. E a entrada é franca.

Antes de passar à matéria do jornalista Matheus Berriel sobre o evento, publicada hoje na capa da Folha Dois, uma tabela nela inspirada.

HDI Arena, Hannover, 27 de junho de 2006, oitavas de final da Copa do Mundo na Alemanha. Camisa 10 e gênio da França, Zinédine Zidane já tinha anunciado, antes do Mundial, que nele se aposentaria como jogador. Após marcar o último gol da França, aos 90 minutos, com um drible desconcertante no zagueiro Puyol, para bater com classe no contrapé do goleiro Casillas e despachar, na virada de 3 a 1, a Espanha ainda jovem que amadureceria para conquistar o Mundial seguinte, Zidane já estava descendo o túnel.

Repórter brasileiro de campo da Globo, Marcos Uchôa foi atrás do craque francês. Seu jogo seguinte, pelas quartas de final, seria contra o Brasil dos Ronaldos Fenômeno e Gaúcho. Que horas antes do mesmo dia tinha passado fácil, por 3 a 0, pela talentosa, mas ingênua taticamente, seleção de Gana. Para os brasileiros, o jogo seguinte seria a desforra da final do Mundial de 1998, na França. Quando a dona da casa passeou sobre o favoritismo do Brasil, no 3 a 0 com dois gols de Zidane. Oito anos depois, na descida do túnel, Marcos Uchôa fez em francês uma pergunta e provocação ao algoz brasileiro:

Zidane, le prochain match contre le Brésil sera-t-il celui de votre retraite? (“Zidane, o próximo jogo, contra o Brasil, será o da sua aposentadoria?”).

Ao ouvir, de costas, o camisa 10 francês retesou os ombros. Parou um instante, se virou e, pisando forte, subiu de volta alguns degraus do túnel em Hannover. Com determinação na retina, encarou a câmera que tinha do outro lado o Brasil. E fez questão de responder em bom português:

— Nós vamos ver!

Quatro dias depois, 1º de julho no Deutsche Bank Park, em Frankfurt, Zidane aposentou o Brasil daquele Mundial. Cobrou falta em passe ao gol do atacante Thierry Henry e selou a vitória da França por 1 a 0. Com direito a um lençol em cada Ronaldo, entre uma série de outras jogadas de pura arte. Diante da seleção nacional que até então arrogava monopólio do futebol arte, o maestro francês teve uma das maiores atuações individuais da história das Copas.

No campo das letras e da cultura de Campos, apesar do nome italiano, o carioca goitacá Soffiati lembra, sem favor, o francês de origem argelina. Abaixo, a boa matéria do Matheus sobre um craque muito distante da aposentadoria.

 

Soffiati entre os 10 livros que lançará às 17h de hoje, na Academia Campista de Letras (ACL), no Jardim São Benedito (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Mais 10 livros do incansável Soffiati

Por Matehus Berriel

 

Um dos maiores intelectuais da história da planície goitacá, embora nascido no Rio de Janeiro, Aristides Arthur Soffiati Netto é bastante conhecido por sua contribuição bibliográfica referente ao meio ambiente e à memória de Campos e região. Porém, sua vasta produção estende-se também a outros temas. Prova disso é o super-lançamento que fará neste sábado (30), com 10 livros publicados desde pouco antes do início da pandemia da Covid-19. Há, sim, obras que são frutos da versão ambientalista do autor, mas há também as que (re)apresentam aos leitores um Soffiati contista, poeta e muito interessado pelas artes. O evento está marcado para as 17h, na sede da Academia Campista de Letras.

— As pessoas se habituaram a me ver como ambientalista e historiador ambiental. Elas pensam que só escrevo sobre esses temas. Agora, nesse grande lançamento, há um livro de poesia (o quinto da minha produção), um de contos (todo ele escrito durante a pandemia e versando sobre ela), e o mais recente deles versando sobre os primórdios do modernismo no Brasil. Tenho interesse pelo modernismo desde 1965, quando descobri, maravilhado, os autores relacionados à Semana de Arte Moderna (de 1922). O livro é uma homenagem ao centenário deste evento — conta Soffiati.

O autor se refere a “Primórdios do modernismo no Brasil”, obra escrita de forma sistemática do princípio ao fim. Nela, o “Velho Soffi” visita autores que foram importantes na primeira fase do movimento modernista e que atualmente caíram no esquecimento. Também serão lançados “Introdução de espécies exóticas no norte do Rio de Janeiro”, “Em meio à pandemia”, “O norte do Rio de Janeiro no século XVI à luz da história e da eco-história”, “O dourado e a piabanha: impressões sobre a pesca de um eco-historiador ativista”, “Intervalo”, “Os quatro elementos: Água e fogo num mundo em mutação (2019-2020), “O ano da pandemia”, “O manguezal e a humanidade” e “Dez anos de enchentes e estiagens: 2007-2016 – Norte-Noroeste Fluminense e outros lugares”, todos pela editora Autografia.

— A reclusão imposta pela pandemia não me permitiu fazer lançamentos por quase três anos. No entanto, não me impediu de continuar escrevendo e publicando. Os livros foram se acumulando. Agora que a pandemia deu uma trégua, permitindo reuniões presenciais, a Academia Campista de Letras, por seu presidente, Christiano Fagundes, abriu suas portas para esse super-lançamento, que parece ser um evento inédito em Campos e região. Dois livros foram editados no final de 2019. Não pude lançá-los presencialmente porque a pandemia não permitiu. Durante os anos de 2020 e 2021, publiquei sete livros. Na verdade, publiquei oito. Um deles, que não está incluído no super-lançamento, foi lançado presencialmente em Búzios, em outubro de 2021, por se referir à Região dos Lagos. O mais recente foi editado em fevereiro de 2022 — complementa.

Em fevereiro e no início de março, Soffiati publicou na Folha da Manhã e no Folha1 artigos contando episódios dos seus recém-completados 75 anos de vida. Só na Folha são 44 anos como articulista, desde a fundação no jornal. Como professor, atuou durante quatro décadas. Enganou-se quem pensava que ele fosse abandonar as letras após a aposentadoria, ocorrida em 2011:

— Eu tinha muitos projetos de livros guardados. Por melhor que seja o magistério, há nele uma parte burocrática que me impedia de levar adiante esses projetos. No geral, as pessoas se aposentam e querem fazer coisas diferentes do trabalho. Passei 40 anos em sala de aula. Eu poderia também esquecer a atividade intelectual, mas me dediquei aos meus projetos engavetados. Passei a reler os esboços, a atualizá-los e a organizá-los. Assim, livros começaram a ser publicados. Fiquei triste com a pandemia por conta das pessoas atingidas por ela. Temi que pessoas próximas de mim fossem contaminadas pelo vírus. Quanto a mim, também tive esse medo e fui atingido. No geral, porém, a reclusão imposta pela pandemia não produziu em mim estresse, ansiedade e depressão. Meu trabalho intelectual me manteve em paz e até me ajudou a atravessar a crise. Daí tanto livro publicado. A reclusão explica esta produção intensa — afirma.

Se antes da pandemia eram 23 livros publicados e lançados por Soffiati, a partir deste sábado serão 34. O 35º está a caminho, intitulado “Holoceno”, já em finalização na editora. Outro, ainda sem nome, é planejado para ser escrito em breve, com relatos sobre a trajetória do próprio autor nos últimos 30 anos, desde a Conferência Rio-92. E mais alguns devem vir posteriormente, com intervalos entre os lançamentos para não “afastar o leitor por excesso de produção”.

— Tenho 75 anos. Sinto que meu corpo mudou. Não tenho mais a mesma mobilidade. Mas, minha vida mental é intensa. Há dois tipos de morte: a cerebral e a corporal. Rezo para não ter nenhuma forma de demência e para viver muito. Por mim, eu escreveria até o final dos meus dias. Mas, devo pensar noutra questão: parece que o livro físico está perdendo terreno. As pessoas não estão lendo como antes. Muitas que leem, preferem livros virtuais. Se não houver mais espaço para os livros físicos, continuarei escrevendo e publicando livros eletrônicos. Não me imagino vivo sem escrever. Não desejo essa aposentadoria — finaliza Soffiati.

 

Capa da Folha Dois de hoje

 

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